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O Brasil em mais uma semana decisiva

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:29
Segunda-feira, 31 de julho

Michel Temer

“Até agora não pudemos saber se há ouro ou prata nela, ou outra coisa de metal, ou ferro; nem lha vimos. Contudo a terra em si é de muito bons ares frescos e temperados como os de Entre-Douro e Minho, porque neste tempo d’agora assim os achávamos como os de lá. Águas são muitas; infinitas. Em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo; por causa das águas que tem”.

O trecho acima, em parágrafo recuado, é da carta de Pero Vaz de Caminha, ao El Rei Dom Manoel. Já lá se vão 517 anos e três meses desde que Caminha contou, primeiramente, as maravilhas da nova terra recém-“descoberta”. A carta é datada de 1o de maio de 1500.

Há uma música do cancioneiro popular brasileiro sertanejo, escrita pelo cantor e compositor Zezé Di Camargo, e interpretada pela dupla sertaneja, Zezé Di Camargo e Luciano, que se presta a uma reflexão partindo desse primeiro texto literário brasileiro, que é a Carta de Pero Vaz de Caminha.

Os versos da canção composta por Zezé, dizem:

                                   Meu país

Aqui não falta sol / Aqui não falta chuva
A terra faz brotar qualquer semente
Se a mão de Deus / Protege e molha nosso chão
Por que será que tá faltando pão?
Se a natureza nunca reclamou da gente
Do corte do machado, / a foice, o fogo ardente

Se nessa terra tudo que se planta dá
Que é que há, meu pais? / O que é que há?

Tem alguém levando o lucro / Tem alguém colhendo o fruto
Sem saber o que é plantar / Tá faltando consciência
Tá sobrando paciência / Tá faltando alguém gritar
Feito um trem desgovernado / Quem trabalha tá ferrado
Nas mão de quem só engana / Feito mal que não tem cura
Estão levando a loucura / O país que a gente ama

Nosso país é maravilhoso, foi no passado, e continua sendo no presente. Apenas falta um governo de tal forma sábio, competente e prudente, que faça reluzir o ouro que brilha embaixo de todo esse emaranhado de crimes e desmandos pelos quais foi acometido o nosso país.

Tem alguém lucrando, e colhendo frutos sem saber o que é plantar? Tem, sim. Hoje nós sabemos que grande parte desses aproveitadores estão nos principais níveis de comando dos nossos governos. Mas isso não vem só dos governos, vem também dos empresários que corrompem e são corrompidos por eles.

Mas não coloquemos a culpa apenas nos governantes e empresários, pois à medida que o brasileiro comum também comete os seus pequenos desvios de conduta, ele também corrobora com todo esse esquema criminoso.

Por exemplo, se um cidadão faz os costumeiros “gatos” de energia elétrica, que nada mais é do que um roubo de energia, ele causa um prejuízo enorme às empresas que cuidam do setor. Um gato aqui, outro acolá, e outro mais adiante, acabam formando um grande emaranhado de “gatos”, que roubam milhões das empresas do ramo energético, e depois a conta, ou melhor, o prejuízo, cai de paraquedas nas contas de energia de quem não prática desvio algum, e procura trabalhar honestamente. Para sanar o prejuízo, as empresas dividem o dano entre a comunidade em geral, o que não é justo.

Está faltando alguém gritar. O povo já saiu às ruas para protestar. Agora silenciou, quando o momento era de mais barulho. E silencioso, assiste ao presidente Michel Temer e seus fieis sectários tentarem toda a sorte de manobras para tentar barra na Câmara dos Deputados, a denúncia contra ele.

E, diga-se de passagem, é um enorme e escancarado abuso de poder o que está sendo cometido pelo presidente, que já distribuiu milhões de reais em emendas parlamentares para comprar deputados. Isso soa estranho: comprar deputados, mas é o que o governo está fazendo. É estranho também os deputados se deixarem comprar como se fossem mercadorias, e não são mercadorias baratas, pelo contrário, acabam saindo bem caro aos cofres públicos, isso em um momento em que as contas do governo estão em situação bem ruim.

É por isso que a situação de Temer, segundo pesquisas de avaliação do governo, realizadas pelo Ibope, entre os dias 13 e 16 de julho, revelam que os que consideram o governo ótimo ou bom é apenas de 5%.  O resultado torna a avaliação do governo de Michel Temer a pior da história de nosso presidencialismo.

Também com esse resultado, as coisas para Temer ficam bem piores, por exemplo , do que quando Collor de Mello agonizava na presidência, em agosto de 1992. Apenas com uma diferença crucial: Collor estava isolado pelo Congresso, enquanto Temer partiu abertamente para o ataque, e, sai por aí com seu sorrisinho na boca — sorriso esse que tem mais de cinismo do que mesmo de simpatia — distribuindo dinheiro, muito dinheiro, além de lotear o governo com divisão de cargos apenas para aqueles que o apoiarem e empurrarem para dentro de alguma gaveta, a denuncia apresentada contra ele por corrupção passiva, apresentada pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, e que agora tramita na Câmara para aprovação ou rejeição.

Em uma Câmara com 513 deputados, Temer precisa apenas de 172 votos para que a denúncia contra ele seja rejeitada. E a cartada final nesse jogo está marcada para o dia 02 de agosto, quando a Câmara se reúne para fechar o assunto. Espera-se que os deputados joguem limpo, e de acordo com o que quer a maioria dos brasileiros, e vote pelo prosseguimento da denúncia.

Nestes últimos dias em que lhe restam, antes da votação da denúncia na Câmara, com certeza, o significado de governar para Temer estará focado em salvar a própria pele, e, para isso, como temos visto nas últimas semanas, ele não medirá esforços. Muitas reuniões, estratégias, conchavos, conluios, e coisas desse tipo estarão acontecendo nos bastidores do governo.

Enquanto os atores: governo e oposição se movimentam nos bastidores, cada lado com suas estratégias, o cenário principal que é o plenário da Câmara dos Deputados já está sendo preparado.

Na manhã de quarta-feira (02), começa a ser decidido o final da novela da denúncia contra Michel Temer por corrupção passiva apresentada pela Procuradoria Geral da República.  As acusações do Ministério Público Federal tem como base a delação premiada dos executivos da JBS.

A sessão, marcada para as 9hs, precisará de um quorum de 51 deputados para ser aberta. Logo no início da sessão, os deputados podem apresentar questões de ordem, que são questionamentos a respeito do rito que regerá a reunião, usando para isso o regimento interno da casa. Pode ser que isso atrase um pouco os trabalhos. Quando 52 deputados estiverem registrados em plenário, inicia-se a “ordem do dia”, que é o momento no qual o tema da sessão começa, de fato, a ser analisado.

Em seguida, Paulo Abi-Akel disporá de 25 minutos para se pronunciar. Pelo mesmo período de tempo, pode se manifestar o presidente Michel Temer, pessoalmente, por meio de seu advogado. Após isso, os deputados podem se manifestar, cada qual por 5 minutos, apresentando pareceres favoráveis e contrários à denúncia. Ainda há a fala de quatro oradores, dois contra e dois favoráveis ao prosseguimento da denúncia, após o que pode ser pedido o encerramento das discussões.

Terminado o bla, blá, blá, é hora de começar a votação, se, pelos menos 342 deputados estiverem presentes em plenário. Caso não se tenha o número de deputados necessário para iniciar a votação, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), convocará outra sessão para nova votação.

Falarão os oradores: dois favoráveis ao parecer e dois contrários. Eles terão cinco minutos cada um, para fazer o encaminhamento da votação. Os líderes partidários poderão ter um minuto com a palavra para orientarem suas bancadas.

Em seguida, haverá a chamada nominal para votação, na qual os deputados serão chamados por ordem alfabética, e de acordo com o estado ao qual representam. Ao ouvir seu nome, o deputado deverá responder “não”, se vota pela rejeição do parecer; “sim” se vota pela aprovação do mesmo, e “abstenção”, se quiser se abster.

Em seguida é feita a chamada dos deputados ausentes, caso haja algum. Havendo silencio, o deputado é considerado ausente. Após todo esse ritual, o presidente da Câmara, proclamará o resultado. Lembrando que, para todo esse ritual seja concluído com êxito, é preciso que tenham votado, pelo menos 342 deputados, rejeitando o parecer da denúncia. Se menos de 342 se manifestarem pelo não, a denúncia é arquivada, e isso é tudo o que o governo quer.

Portanto, os brasileiros terão pela frente, mais uma semana cheia de fortes emoções.

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