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Escravos da igreja

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 23:52
Quarta-feira, 26 de julho


“Pois aquele que, sendo escravo, foi chamado pelo Senhor, é liberto e pertence ao Senhor; e da mesma forma, aquele que era livre quando foi chamado, agora é escravo de Cristo”.

Assim está escrito na Primeira Carta aos Coríntios, capítulo 7, versículo 22. Essa passagem com seu belo jogo de palavras, nos fala de escravidão e liberdade de um modo que tem a simplicidade das pombas e a majestade dos reis.

Está claro que a passagem acima se trata da crença dos cristãos, e dos seguidores do homem de Nazaré. Segundo essa crença, é uma honra ser escravo daquele que veio ao mundo para a salvação da humanidade, a ponto do apostolo Paulo dizer que aquele que era escravo, pela fé é liberto, ao mesmo tempo em que se torna escravo do mesmo Deus que alimenta essa fé. Antítese das antíteses, contraste dos contrastes, são assim os caminhos da fé.  Prossigamos.

Quando se é escravo de Cristo, ou de qualquer outro Deus altruísta, o prêmio é vida eterna, cheia de paz, esperança e gozo, ainda que ainda aqui na terra o fiel tenha passado pelo inferno das provações.

Ocorre que em outra passagem do mesmo livro sagrado dos cristãos, em Mateus, capítulo 7, versículos de 15 a 20, Cristo diz:

“Cuidado com os falsos profetas. Eles vêm a vocês vestidos de peles de ovelhas, mas por dentro são lobos devoradores. Vocês os reconhecerão por seus frutos. Pode alguém colher uvas de um espinheiro ou figos de ervas daninhas? Semelhantemente, toda árvore boa dá frutos bons, mas a árvore ruim dá frutos ruins. A árvore boa não pode dar frutos ruins, nem a árvore ruim pode dar frutos bons. Toda árvore que não produz bons frutos é cortada e lançada ao fogo. Assim, pelos seus frutos vocês os reconhecereis!”

Vejam que, naquele tempo, já existiam os aproveitadores da fé alheia. Aqueles que se faziam de bonzinhos para enganar os tolos. Raposas em pele de cordeiro. Assim é a natureza do homem. Nele moram Deus e o diabo, o bem e o mal. Deus também dá o livre arbítrio, a força, e o discernimento para que o homem possa espantar os seus demônios, e afastar para longe de seus corações os males, para que prevaleça o bem e a verdade, verdade entendida aqui como as ações que edificam e que fazem o outro atingir, não a perfeição, pois perfeição é plenitude — e no mundo em que vivemos hoje é querer outro céu aqui na tera o querer conviver com seres perfeitos — mas, pelo menos, um elevado grau de desenvolvimento humano, mental, e espiritual.

Se, naquele tempo, Jesus já alertava para os falsos profetas, imagine hoje, no mudo consumista e materialista em que vivemos. Mundo no qual o homem vale pelo que  ele tem e não pelo que ele é. Hoje, mais do que nunca, há um julgamento bem diferente do julgamento divino. Hoje, mais do nunca, há um julgamento que se dá pela aparência. Se está bem vestido, bem arrumado, e, principalmente com a carteira recheada de dinheiro, as portas do mais benévolo e piedoso coração se abrem com sorrisos e graças, ainda que quem esteja chegando com tanta pompa, seja um corrupto, um ladrão, às vezes até um assassino, ou usurpador dos direitos humanos.

Portanto, muito cuidado fieis fervorosos, cuidado com aqueles que batem no peito, e gritam, e choram, dizendo: “Cristo é o Senhor”, pois a louvação deles pode estar apenas nos lábios, enquanto o coração está a centenas de quilômetros de Deus. É provável que nem Deus quisesse mesmo ser visitado por corações tão sujos e mentes tão perversas.

Não entenda o leitor que ao dizer isso se esteja tocando fogo na plantação inteira. Não. Pelo contrário. Há os que, ao bater no peito implorando a misericórdia de Deus, estão sendo absolutamente sinceros. É ainda como diz o evangelho, é preciso olhar os frutos, pois através deles se conhece a árvore. Se os frutos são amargos, azedos, e murchos, não toque no cesto, pois pode ter uma imensa dor de barriga, nem se aproxime da árvore que deu estes mesmos frutos, pois ela pode estar em nível semelhante.

Lobos em pele de cordeiro também são os pastores e dirigentes de uma igreja evangélica da Carolina do Norte, EUA. A igreja estava levando brasileiros para a sede da igreja na Carolina do Norte, não para ser escravos de Cristo como diz o evangelho, mas para ser escravos dos pastores.

Os brasileiros eram levados para solo estrangeiro com visto de turista, ou de estudante, pois segundo a legislação americana, aqueles que chegam por lá na condição de estudantes podem desempenhar algumas funções.

Para os brasileiros era uma chance de desenvolver uma missão na sede da igreja, e ao mesmo tempo, cursar alguma faculdade, melhorarem de vida, porque não? Os pastores incentivavam a ida dizendo que os fieis aprenderiam inglês, cursariam faculdades, e conheceriam os Estados Unidos.

Porém quando desembarcavam na Carolina do Norte, a conversa dos líderes da igreja era outra. Nada de reino dos céus. Nem de paraíso. Em vez de céu e paraíso os fieis caiam no inferno. Em vez de escravos de Cristo, os brasileiros tornavam-se escravos dos pastores da igreja.

O fieis cumpriam uma jornada exaustiva de 16 horas por dia, e o que é pior, nada recebiam pelos serviços prestados. As mulheres, geralmente, trabalhavam como babás e os homens, em construções.

A Word of Faith Fellowship (Associação Palavra da Fé), foi fundada em 1979, por Jane Whaley, uma ex-professora de matemática. Sob o comando de Jane, a igreja prosperou e tem quase 750 seguidores na Carolina do Norte, e outros tantos espalhados pelo mundo.

Rebeca Melo, uma das jovens que viveu esse pesadelo, conta que quando recebeu a proposta da igreja de embarcar para os Estados Unidos, a felicidade foi grande, e ela logo pensou em que realizaria seu sonho de infância que era se tornar enfermeira, após cursar alguma faculdade norte-americana.

O passaporte de Rebeca, bem como o de centenas de brasileiros, foi confiscado assim que pisou em solo americano. A partir daí, o sonho foi se tornando pesadelo a cada dia.
Por anos a fio, foi agredida, e chamada de prostitua. Era também forçada a viver em um galpão de armazenamento em condições sub-humanas. Quando revelou o desejo de sair da congregação e procurar novos caminhos foi agredida ainda mais duramente.

As famílias no Brasil não desconfiavam de nada, pois cada passo dos escravizados era monitorado. Eles não podiam ligar para a família no Brasil, por exemplo, para uma conversa em particular. Sempre era exigido que, no momento da ligação telefônica, estivesse presente alguém que também falasse português com o intuito de vigiar cada palavra.

Os brasileiros trabalhavam lado a lado com os americanos. Apenas uma coisa os diferenciava: o salário. Os americanos recebiam a paga por seu trabalho. Os brasileiros, não. Os americanos, certamente, também não passavam pelas humilhações a que eram submetidos os brasileiros.    

E assim, em nome de Deus, a igreja Word of Faith Fellowship, espanca, maltrata e escraviza, brasileiros. Lobos em pele de cordeiro, ficai alerta a eles. 

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