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As relações promiscuas do poder público com o setor privado reveladas – Parte II

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:00
Terça, 18  de abril

Os donos do império criminoso: Emilio Odebrecht e seu filho Marcelo

Assim como no Mito da Caverna, de Platão — a mais importante alegoria do mundo filosófico — a ignorância faz o monge, assim também, no dito popular, o hábito faz o monge.

O Mito da Caverna conta-nos a história de prisioneiros que viviam presos em uma caverna escura, com as costas voltadas para a entrada da caverna, ponto de onde entrava alguma luminosidade. De costas para entrada do ambiente, e de frente para a parede, os prisioneiros, diariamente, viam, projetadas na parede, as sombras do mundo real, e as tomavam por verdade. O ilusório era para eles real. As sombras era para eles a verdade, e eles as achavam belas. Através das cenas projetadas na parede eles davam nomes aos objetos, faziam conjecturas. Coitados, nem sabiam que atrás deles, esplendido, vibrante, com suas benesses e mazelas, alegrias e dores, estava o mundo real.

Assim também, quando entramos em um ambiente escuro, mal iluminado, nossos olhos tem, no inicio, dificuldade em acostumar-se aquela realidade, mas aos poucos nossa visão vai se acostumando a cena, e passamos a achá-la normal.

No caso das delações da Odebrecht, quando vemos o Sr. Emilio Odebrecht, o Sr. Marcelo, filho dele, os delatores, os políticos envolvidos, falando do assunto, vemos que eles falam da prática de crimes de uma forma tão natural que chega até a ser espantoso. Falam do desvio de milhões de reais dos cofres público para alimentar a goela sedenta de políticos desonestos, como se isso fosse, de fato, a realidade. E as práticas de pagamento de propina, de caixa dois, de contratos irregulares, concorrência desleal, não é normal, caros leitores e leitoras. Isso são desvirtuamentos de conduta. É o império do crime. Império que jogou o nosso país em um crise ética e moral sem precedentes, e numa crise econômica idem.

As relações econômicas e empresariais nesse Brasil que nasceu do ventre promiscuo da corrupção, é o que se pode chamar de capitalismo selvagem. Aqui, no Brasil, quando o assunto refere-se a esfera publico-privado, em termos de contrato, pode-se dizer que não vence o melhor. Vence aquele cuja propina comprou. E esse jogo de indicações políticas, apadrinhamento, essa troca de favores é péssimo para a nossa sociedade, e para a nossa economia. Algumas falas do Sr. Emilio Odebrecht nos humilham a nós brasileiros. São um verdadeiro tapa na cara.

Segundo Emilio Odebrecht, esse sistema podre de se fazer política com o Estado é uma coisa que já tem pelos menos uns trinta anos. “... Então, tudo o que está acontecendo era um negócio institucionalizado. Era uma coisa normal. Em função de todo esse número de partidos, onde o que eles brigavam era por quê? Por cargos? Não. Todo mundo sabia que não era. Era por orçamentos outros que eles queriam sabe? Ali colocavam, os partidos então colocavam seus mandatários com a finalidade de arrecadar recursos para o partido e para os políticos.”, disse o patriarca da Odebrecht.

A relação viciada entre setor privado e setor público é podre mesmo quando é legal. Isso fica claro na delação de Marcelo Odebrecht quando ele se refere ao etanol. Em 2007, 2008, no auge do combustível, a Odebrecht acabou investindo alto nesse setor, segundo o delator, o maior investimento nessa área feito pela empresa. Logo após esse megainvestimento, o governo começou a ter problemas tributários, e tirou a CID, aumentou o preço da gasolina. Isso gerou um enorme problema para a Odebrecht.

Em uma reunião com o ministro Guido Mantega, em Brasília, Marcelo, apresenta a ele, o pacote do etanol que sairia no dia seguinte. O empresário não fica nada satisfeito com esse pacote. Marcelo pede então para que Guido Mantega segure o pacote, até que ele, Marcelo, coloque técnicos para analisar a situação e encontrar a solução de um pacote mais razoável.

Os empreiteiros precisavam que voltasse a Cide (imposto dos combustíveis) na gasolina, porque essa contribuição cria um diferencial para o etanol. Pra controlar o preço da gasolina, o governo tinha tirado essa contribuição.

O governo sabia que Marcelo Odebrecht era um grande doador, então, apressou-se em solucionar o problema, não porque isso fosse bom para os negócios, mas porque o empresário era um grande doador, o maior deles, e se o governo não solucionasse o problema, então teria problemas mais á frente na época das eleições. Em qualquer governo, é normal que o setor privado dialogue com o setor público, e com ele encontre soluções para os problemas. Mas nesse caso, percebem como a relação que se estabeleceu no Brasil entre empresas e governo é viciosa? E como isso afeta os princípios republicanos?

A relação entre os políticos e os empresários sempre foi uma relação baseada no toma lá dá cá. “Eu não conheço nenhum político no Brasil que tenha conseguido fazer qualquer eleição sem caixa 2. O caixa 2 era três quartos o que eu estimo. Não existe no Brasil, ninguém eleito sem caixa 2”, diz Marcelo, mostrando que o caixa 2 não era exceção, mas sim a regra entre a politicagem brasileira. Como já foi dito, os políticos caiam em cima da Odebrecht como urubus em cima de carniça.

Desse modo, coisa pública se tornava uma via de duas mãos, um modo de pagar aqueles que haviam contribuído com suas campanhas. Eleitos os políticos, esses apresentavam leis e projetos no Congresso, não que agissem em benefício da sociedade, mas que beneficiassem a si mesmos, ou aos empresários. Até mesmo obras inviáveis eram realizadas para atender os interesses das empresas. É por isso que vemos tantas obras que ligam nada a lugar nenhum pelo Brasil afora. Com as delações da Odebrecht tudo vai ficando muito claro, e aquilo que estava entre nevoas vai sendo revelado. E é estarrecedor.

É humilhante ver Emilio Odebrecht dizer que a corrupção em nosso país é tão vultosa que seus funcionários não tinham a noção do que era uma concorrência honesta, justa, e leal, e, para que tivessem noção disso, eram enviados ao exterior para que eles vissem o que é de fato, era uma concorrência de verdade. “Todos companheiros dessa organização já passaram pelo exterior pra eles terem uma visão de mundo, convivessem com concorrência, efetiva, real, disputar, baseada em produtividade”, disse Emilio.

Se observarmos atentamente as delações premiadas da Odebrecht, vemos que a empreiteira funcionava muito mais como uma quadrilha, do que, propriamente como uma empresa. A moeda de troca, em qualquer situação, era sempre a propina. Até mesmo o os índios e a CUT receberam sua parte na propina.

O setor de Minas e Energia, especialmente, as obras da usina hidrelétrica do Rio Madeira, tiveram maior empenho da Odebrecht. Henrique Serrano, afirmou em depoimento que pagava R$ 5 mil por mês para o chefe de uma tribo indígena, e mais R$ 2 mil para outro cacique da empresa, e mais R$ 2 mil para a Associação dos Povos Karitarianos, e ainda R$ 1.500 para pequenas associações indígenas. Policiais da região também recebiam propina, segundo Henrique. A propina recebida pelos policiais era pela proteção aos canteiros de obras, principalmente, quando havia ameaça de invasões, ou em momentos críticos.

Ainda segundo Henrique, a Central Única dos Trabalhadores cobrava da empreiteira uma espécie de pedágio, para que eles não apoiassem greves. “O pessoal da CUT costumava cobrar, de fato, pedágios mensais pra eles não apoiarem greves, atos de violência, esse tipo de coisa, era preciso pagar a CUT”, disse Henrique.

Não só a CUT era cortejada pela Odebrecht, mas também outras centrais sindicais. Segundo os delatores, a empreiteira teria repassado R$ 1.200 mil ao deputado Paulo Pereira da Silva, mais conhecido como Paulinho da Força Sindical.

A questão da ilegalidade disfarçada de legalidade era tão normal entre a organização criminosa, que o promotor, coordenador da Lava Jato em Brasília, Sérgio Bruno, irritou-se, durante o depoimento de Emilio Odebrecht, e o repreendeu. É que Emilio não estava dando “nomes aos bois”, a propina, o pagamento de caixa dois, eram referidos por ele, com grande naturalidade, como “ajuda”, “pedido”, ignorando complemente que isso é crime.

De tanto ouvir durante o depoimento, as palavras citadas, em certo momento, o investigador se irritou, e disse a Emílio: “Essa ajuda se chama propina, só pro senhor saber.”

E durante muito tempo, segundo o patriarca do grupo  — , dentro do contexto, merece muito mais o nome de organização criminosa do que de empresa — as aves de rapina foram roubando nossas riquezas, nossos sonhos, minando nosso poder econômico, deteriorando nossas escolas, afundando nossa educação a níveis ridículos, precarizando nossos hospitais.

Será que os ferrenhos defensores do PT, que saiam às ruas dispostos a defender o ex-presidente Lula com unhas e dentes, terão a mesma coragem de fazer isso, após todas essas revelações? Antes eles se escondiam atrás do argumento de que era a oposição, as “elites” que jogavam pedra neles e os queriam difamar. Agora, não. As palavras vieram fortes do patriarca da Odebrecht, Emilio Odebrecht, e de seu pequeno príncipe, Marcelo. Agora é diferente. Agora são os relatos dos chefes, dos poderosos, daqueles que estão no topo da pirâmide econômica, e na base da pirâmide moral que estão falando.

O mesmo vale para os defensores dos grandes partidos como PMDB e PSDB, por exemplo, que gritavam exaltados nas ruas, “fora Lula”, “fora Dilma” fora PT”, será que eles terão a mesma coragem de sair ás ruas e gritar essas palavras de ordem sabendo que seus líderes charfudaram na mesma lama em que o PT chafurdou? Que eles beberam na mesma fonte corrupta que o PT bebeu?

Aí estão as tão esperadas delações do fim do mundo. Elas não dão — dizendo ironicamente — uma verdadeira aula de corrupção, e de como agir com retrocesso. Nelas, nossos políticos nos dão uma verdadeira aula de como dar as costas para o povo que o elegeu, a abraçar os interesses dos grandes empresários, e os deles próprios.

A organização criminosa Odebrecht loteou o Brasil. Comprou tudo e todos: policiais, índios, políticos, empresários, medidas provisórias, e quem mais ousasse atrapalhar seus planos, bem como também “recompensou” muito bem aos políticos que se dispuseram a ajudá-la.

A Lava Jato, demorou, mas chegou. Mas a Lava Jato é apenas uma operação policial, investigativa. Ela passará. E depois? O que faremos com as revelações que ela nos trouxe? O que faremos com as lições que aprendemos dela? O que faremos em relação aos traidores que ela nos revelou?

Bateremos palmas para eles e os aclamaremos, ou também lhe daremos ás costas, assim como também eles nos deram as costas. Mais do que nunca, é hora de passar o Brasil a limpo.

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