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Em nome de Deus, da bala, e da bíblia

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 18:59
Domingo, 08 de janeiro


O Templo de Salomão, sede mundial da Igreja Universal do Reino de Deus, localizado no Bairro do Brás, em São Paulo, e sob a liderança do bispo Edir Macedo, é o que se pode chamar de um edifício colossal. Um luxo, digamos assim. Poder-se-ia até jogar pedras no bispo Macedo por causa disso, mas lembremo-nos de que o Vaticano é ainda mais luxuoso. É contraditório que um Deus que veio servir aos pobres tenha seus discípulos líderes vivendo no meio de tanto luxo e riqueza. Quem sabe por isso as denominações religiosas que se mesclam à política brasileira se sintam tão à vontade no meio dela e das práticas nada convencionais adotadas pela classe política, como se faz notório pelos fatos revelados pela Lava Jato.

Porém, prossigamos com o Templo de Salomão, pois esse outro raciocínio começado no parágrafo anterior, por si só, já se torna objeto de outra postagem. Fiquemos com as descrições do templo, e de seu significado intrínseco, por enquanto.

O Templo de Salomão é grandioso. O que era de se esperar para um edifício que foi erguido ao custo de R$ 680 milhões. Perto dele, o Santuário Nacional de Aparecida, na cidade de Aparecida do Norte, fica pequeno. A área de 100 mil metros de construção, torna o Santuário dedicado a Padroeira do Brasil, umas quatro vezes menor. O templo se pretende a recriação do primeiro templo homônimo de Jerusalém, destruído pelo Império Babilônico, no século IV antes de Cristo.

Pensando no Templo de Salomão, a palavra que vem a mente é poder. Um poder que, aliás, se estende aos aspectos físicos da construção e avança por outros campos da sociedade, como por exemplo, a política.

Não foi à toa, nem por acaso que, por ocasião de sua inauguração, estiveram presentes altas autoridades da política brasileira, tais como a então presidente da República, Dilma Rousseff, acompanhada do então vice-presidente, Michel Temer, e do governador do Estado de São Paulo, Geraldo Alckmin. Em resumo, lá estava a nata de elite política brasileira. Mais que a fé entra, nesse caso, a questão eleitoreira, afinal a Igreja Universal tem milhões de seguidores, e milhões de seguidores podem render milhões de votos. Tudo se trata de questão dos mais variados interesses e pontos de vista.

E quando se fala em poder, não se pense apenas em poder espiritual. Talvez esse seja, dentro desse contexto, o que menos interessa. Fala-se em projetos de poder, e de dominação. Isto fica evidente se consideramos que a bancada evangélica na Câmara dos Deputados tem tido uma ascensão meteórica. Atualmente, temos no Congresso Nacional 87 deputados, e 3 senadores, representantes das igrejas neo pentecostais.

E eles já chegaram ao governo de uma das principais cidades brasileira: o Rio de Janeiro. O bispo Marcelo Crivella, assumiu a prefeitura do Rio no último dia 1o de janeiro. Na posse de Crivella, como na posse de vários prefeitos em diversas cidades do país, adivinhem qual o nome mais invocado, mais aplaudido: acertou se você respondeu: Deus. O fato é que se Deus, fosse invocado de fato e direito nas administrações públicas, o Brasil não estaria do jeito que está, uma vez que o conceito de Deus, sempre remeterá às ideais de paz, justiça, igualdade, fraternidade, amor, melhor divisão de renda, e outros campos semânticos afins.

E quem pensa que os evangélicos se contentarão apenas com a prefeitura do Rio, pode estar redondamente enganado. Há muito poder político ainda por conquistar.

Os evangélicos avançam na política, e qual o problema? A questão é que disso pode decorrer disso um Estado conservador e fundamentalista, o que poderia travar avanços importantes nas áreas sociais, e prejudicar a liberdade religiosa. Vocês tem visto mundo afora que o fundamentalismo é um perigo para qualquer nação.

Em 2013, o Brasil fez belíssimas manifestações de rua, algumas pacíficas, outras não. Porém, todas, de certo modo reivindicavam avanços nos direitos sociais e renovação política. Entretanto, parece que havia outra corrente de pensamento diferente que não saiu ás ruas, e nas eleições de 2014, os parlamentares eleitos para o Congresso Nacional formaram um dos congressos mais conservadores desde 1964, e essa tendência só vem aumentando a cada ano.

Aos evangélicos, vem se juntar os militares e os ruralistas, daí se dizer que temos no Congresso Nacional a bancada BBB, ou seja, a bancada do boi, da bala, e da bíblia.

E pensar que, um dia, em um passado distante, os herodianos, querendo armar uma armadilha para Jesus, lhe apresentaram a seguinte questão: “É lícito pagar o tributo a César, ou não?”. Ao que Jesus respondeu: “Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”.

Mas como foi dito acima, muito tempo já se passou, os homens mudaram, e nem a religião é mais a mesma, nem muito menos os seguidores de Jesus.

Abaixo, este blog compartilha artigo do jornalista, Luiz Ruffato, publicado no jornal El Pais Brasil, no último dia 04 de janeiro.

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Muito além de Deus e do diabo

A bancada evangélica tem poder para determinar o rumo das discussões que preocupam a população, contribuindo para o conservadorismo moral e a hipocrisia social que vem caracterizando o Brasil

Luiz Ruffato

O excelente artigo de Juan Arias, publicado neste dia 3 de janeiro, chama a atenção para o crescente aumento da importância dos pentecostais e neopentecostais na política, que começou de maneira discreta na década de 1990, ganhando força ao longo dos anos seguintes até se tornar fundamental no balcão de negócios em que se transformou o Congresso Nacional. Hoje, a bancada evangélica, composta por 87 deputados federais e três senadores, conquistou poder suficiente para determinar o rumo das discussões que preocupam a população brasileira, contribuindo de maneira cabal para o conservadorismo moral e a hipocrisia social que vem caracterizando o país.

Conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de evangélicos cresceu 61,5% entre 2000 e 2010, passando a representar 22,2% do total da população, contra 64,6% dos católicos. Com seu assistencialismo e sua fé de resultados, algumas das denominações tornaram-se verdadeiros fenômenos. A participação política de pentecostais e neopentecostais ganhou maior visibilidade a partir da aliança estratégica com o PT, no começo do século XXI, apoio que possibilitou a chegada de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência da República em 2002, após três derrotas consecutivas. Um dos aliados mais importantes do PT, na época, foi a Igreja Universal do Reino de Deus, chefiada por Edir Macedo, que em 2005 fundou o Partido Municipalista Renovador, hoje Partido Republicano Brasileiro (PRB), ao qual era filiado o vice de Lula, o católico José de Alencar, que exerceu papel essencial na aproximação do empresariado e dos evangélicos com o petista.

O PRB funciona informalmente como o braço político da Igreja Universal. Nas últimas eleições municipais cresceu 33% em relação ao desempenho em 2012, elegendo 106 prefeitos, inclusive Marcello Crivella, que encontra-se agora à frente da segunda mais importante cidade do Brasil, o Rio de Janeiro. Crivella, cantor de música gospel com mais de uma dezena de discos gravados e senador, já foi ministro na administração Dilma Rousseff. Além disso, o partido possui uma bancada formada por 23 deputados federais, entre eles o mais votado do país, Celso Russomano, com 1,5 milhão de votos, candidato derrotado à Prefeitura de São Paulo em 2016. Mas, para provar que os evangélicos não têm outros interesses que não os próprios, o PRB desembarcou do governo petista diretamente para o governo do presidente não eleito, Michel Temer. O titular do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Marcos Pereira, foi diretor da TV Record do Rio de Janeiro entre 1995 e 1999, e vice-presidente da Rede Record de Televisão, entre 2003 e 2009.

Fundada em 1977, a Igreja Universal conta hoje com cerca de 12 mil pastores, sete mil templos e quase sete milhões de seguidores no Brasil, e outros quase dois milhões de fiéis espalhados por mais de uma centena de países, segundo estimativas da própria entidade. Sua receita é estimada em cerca de R$ 1,4 bilhão de reais por ano – mas não há qualquer controle sobre esse valor, já que por lei as instituições religiosas estão isentas de impostos. Além dos fiéis, a Igreja Universal controla a Rede Record, que cobre 93% do território nacional e está presente em 150 países, a TV Universal, com mais de 20 retransmissoras, e a Rede Aleluia, que possui quase oitenta emissoras de rádio AM e FM, presente em 75% do território nacional. Faz parte ainda do grupo o portal universal.org., o jornal Folha Universal, as revistas Plenitude, Obreiro de Fé e Mão Amiga, a editora Unipro, que registra milhões de exemplares vendidos de livros de Edir Macedo e de outros pastores, e a gravadora Line Records, especializada em música religiosa.


Os evangélicos progridem onde se ausenta o Estado. Assim como os traficantes de droga. As periferias das cidades hoje estão divididas entre eles. O Primeiro Comando da Capital (PCC), uma das maiores facções criminosas do Brasil, vem expandindo seus interesses para fora dos limites de São Paulo, onde nasceu, e já domina cadeias no Rio de Janeiro, Maranhão, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro. A mais recente investida, segundo parece, resultou em um massacre de 56 presos em Manaus (AM). Ambos os grupos almejam o mesmo objetivo: ampliar as suas hordas. Assistimos impotentes à ampliação do fanatismo e da violência, que hoje se encontram infiltrados no Executivo, no Legislativo e no Judiciário. Em nome de Deus, uns, e do Diabo, outros, pouco a pouco submetem o que resta do Brasil

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