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A era do espetáculo

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:36
Terça-feira, 24 de janeiro


São diversos os relatos de fenômenos paranormais que descrevem as experiências de quase morte. Em geral, acontecem com pessoas que passam por delicadas cirurgias, e ficam, como se diz no ditado popular, “à beira da morte”. Há relatos de que o coração do paciente parou de bater, e os médicos atestaram clinicamente a sua morte.

Em muitos casos, o paciente ficou nesse estado durante alguns minutos. De repente, sem que a medicina tradicional encontre explicações para isso, o coração do paciente retoma suas funções normais.

Também segundo esses relatos, o paciente, mesmo estando inconsciente, consegue relatar detalhes do que aconteceu na sala de cirurgia. É como se, por alguns minutos, ele saísse do corpo, e passasse a ter uma visão geral do todo, coisa que não teria, mesmo se estivesse totalmente consciente.

Alguns pacientes relatam coisas ainda mais impressionantes, mas paremos por aqui, pois as experiências que quase morte não são, propriamente, o objeto dessa postagem.

Entretanto, algo dessas experiências, podemos trazer para nossa vida prática. Em muitos momentos de nossa vida, é preciso distanciar-se da realidade para podermos ter a visão do todo, e não apenas dos detalhes. Quando temos essa capacidade de enxergar o macro, em detrimento do micro, a realidade se apresenta a nós muito mais ampla, e fácil de ser entendida.

Por exemplo, se nos distanciarmos da realidade do momento político norte-americano e, a partir desse distanciamento, olharmos as peças que se movimentam no tabuleiro com mais perspicácia, o que veremos?

Olhando de longe, o que se vê, é uma criança brincando de ser presidente. O Sr. Donald Trump durante sua campanha já se divertiu zombando de jornalistas portadores de deficiência, também já se divertiu provocando terror nos imigrantes, ameaçando deportar milhares deles, já se divertiu irritando as feministas, e por aí vai. Recentemente, menosprezou uma manifestação da qual participaram centenas de milhares de pessoas.

O problema não é Donald Trump brincar de ser criança. Isso ele deve ter feito a vida inteira. O grande problema que preocupa a todos é que Trump é uma criança com uma caneta poderosa na mão. Uma caneta que pode virar, não apenas os Estados Unidos, mas o mundo pelo avesso.

E quem esperava um Trump diferente depois de eleito, não se engane, pois ele é aquele mesmo da corrida à Casa Branca. Ele não estava usando máscaras, ou fazendo tipo, como muitos pensavam. Sem querer usar trocadilhos, mas já usando, ele era ele mesmo.

Nesta segunda (23), já baixou a caneta assinando um decreto que tira os Estados Unidos da Parceria Transpacífico, tirando de pauta, desse modo, uma estratégia comercial defendida por Obama. A decisão de Trump, praticamente põe fim ao maior acordo comercial do mundo, assinado em 2015, pelos Estados Unidos e mais onze países.

Trump diz que isso será bom para os trabalhadores americanos. Fica a questão: em meio a uma economia cada vez mais globalizada, será prudente fechar as portas da nação com adoção de medidas protecionistas? Isso pode ser uma faca de dois gumes. Ainda é cedo para dizer de que lado ela vai cortar.

Que pode se dar bem com a saída dos Estados Unidos dessa parceria é a China, que pode aumentar sua influência na Ásia, apresentando outra parceria, a Parceria Regional Ampla. Essa parceria envolve a China e mais outros quinze países, e excluí dela os Estados Unidos.

Como diz a letra de um samba do mestre Noel Rosa, chamado, Quando o Samba Acabou: “e como em toda façanha, sempre um perde e outro ganha, um dos dois parou de versejar”. Pode ser que algum dos lados pare de versejar. O sábio tempo nos dirá quem, se a Parceria Regional Ampla for, realmente, efetivada.

Abaixo este blog compartilha artigo do jornalista peruano, dramaturgo, ensaísta, e crítico literário, Mario Vargas Llosa, publicado no jornal El País Brasil, no último domingo, 22 de janeiro.

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As séries

Somente em uma série televisiva se concebe que tenha ganhado as eleições presidenciais um senhor como Donald Trump

MARIO VARGAS LLOSA

A televisão finalmente encontrou um produto original e divertido do qual está tirando excelente proveito: as séries. Elas existem há muito tempo no cinema, pois me recordo de que, em minha longínqua infância cochabambina (na Bolívia), todos os domingos, com meu amigo Mario Zapata, o filho do fotógrafo da cidade, depois da missa na La Salle íamos ao cine Achá para ver os três episódios do filme em série da vez – costumavam ter doze–, aventureira e tranquilizante, porque nela os bons ganhavam sempre dos maus. Mas depois o cinema as esqueceu, e agora a televisão as ressuscitou com sucesso.

São geralmente muito bem feitas, com grande estardalhaço na mídia, e mantêm a continuidade, apesar de os roteiristas e diretores mudarem de um capítulo para outro e as histórias se alongarem ou encurtarem conforme o interesse que despertem nos telespectadores. Costumam ser entretenimento puro, sem maiores pretensões, com algumas exceções, como The Wire, fascinante exploração dos guetos e bairros marginais de Baltimore em que, acreditem ou não, quase todos os atores negros que tão bem pronunciam entredentes a gíria local... são ingleses!, e Borgen, sobre as intrigas e dilemas políticos desse civilizado país que é a Dinamarca. Mas talvez a diferença mais significativa entre as séries que distraem milhões de telespectadores e as que eu via no cine Achá é que nas de agora invariavelmente os maus vencem os bons. Nelas, se alguém comete a impertinência de compará-las com o mundo real, ocorrem coisas disparatadas, absurdas, loucas. Mas isso nada importa, porque uma ficção, seja nos livros, no palco ou em uma tela, se estiver bem contada, é crível, quer coincida ou destoe da vida que conhecemos através da experiência.

Algo a admirar nas séries norte-americanas, além da qualidade técnica e da formidável variedade de cenários e figurantes de que costumam dispor, é a liberdade com que utilizam fatos e personagens da história recente, geralmente desnaturalizando-os, e a ferocidade com que, frequentemente, manipulam e distorcem as instituições e autoridades para conseguir maiores efeitos na narrativa e surpreender e envolver mais o seu público. House of Cards, por exemplo, uma das melhores, descreve a irresistível ascensão no labirinto do poder norte-americano de um casal de políticos inescrupulosos, cínicos e delituosos que, deixando ao longo de suas peripécias todo tipo de vítimas inocentes, incluindo algum assassinato, chegam nada menos que à Casa Branca com toda a legalidade. A série é muito divertida, os atores são excelentes, e a moral da história que fica se remoendo na memória do telespectador é que a política é uma atividade desprezível e criminosa, na qual só triunfam os canalhas, e na qual as pessoas decentes e idealistas são sempre esmagadas.

Não menos negativa é a visão da realidade política estadunidense e internacional na magnífica Homeland, cuja sexta temporada acaba de começar e que eu sigo com a avidez com que seguia, quando jovem, as sagas de Alexandre Dumas. Aqui não é a presidência dos Estados Unidos que está contaminada, mas nada menos que todas as agências de inteligência, a começar pela celebérrima CIA, cuja direção é facilmente infiltrada por agentes russos ou jihadistas ou a mando de imbecis aos quais qualquer inimigo faz de bobo ou corrompe, sem que os heroicos Carrie Mathison – um personagem psicopatológico que parece criado para o divã do doutor Freud –, Peter Quinn e Saul Berenson possam fazer nada para salvar o país e o mundo livre de sua inevitável derrota ante as forças do mal.

As séries são uma continuação direta das radionovelas e telenovelas e, sobretudo, dos romances seriados do século XIX – os famosos folhetins –, que, a princípio na França e Inglaterra, mas depois em toda a Europa, os jornais publicavam semanalmente, e nos quais incorreram alguns grandes escritores como Dickens, Balzac e Dumas. Têm como denominador comum a agilidade, a efervescência da narrativa, a indisfarçável vontade de fazer os leitores ou espectadores se divertirem e nada mais, a falta de ambição intelectual ou estética e a simplicidade elementar da estrutura. E, também, a inverossimilhança. Nelas tudo pode acontecer, porque seus autores e seu público fizeram de cara um pacto claríssimo: acreditar que se trata de ficção, invenções divertidas que não têm nada a ver com a realidade.

Isso é mesmo verdade? Se esmiuçarmos com atenção o ano que acaba de terminar, no aspecto fundamentalmente político essa verdade se parece muito com uma mentira. Porque somente em uma série televisiva se concebe que tenha ganhado as eleições presidenciais um senhor como Donald Trump, que, sem que sua voz trema, diz que os mexicanos que emigram para os Estados Unidos são “ladrões, estupradores e assassinos”, que o Brexit é um exemplo que outros países europeus deveriam seguir, que menospreza a OTAN tanto como à União Europeia e que admira Vladimir Putin por sua energia e liderança. As façanhas do ex-agente da KGB na Alemanha Oriental, agora no comando da Rússia, não têm por acaso algo das proezas terríveis e inauditas desses vilões das séries? Desde que subiu ao poder, engoliu parte da Ucrânia, mantém os enclaves coloniais da Abkházia e da Ossétia do Sul na Geórgia, ameaça invadir os países bálticos e, graças à sua intervenção armada na Síria, tem agora uma influência e protagonismo de primeira ordem no Oriente Médio.

Diferentemente do que ocorria durante a URSS, os jornalistas e opositores incômodos não vão para o Gulag, só morrem envenenados, em ataques a tiros ou espancamento nas ruas por misteriosos delinquentes que depois desaparecem como que num passe de mágica. Na Turquia, uma suposta tentativa de golpe de Estado deu margem à repressão mais selvagem e ao retorno do obscurantismo religioso e o despotismo que se acreditava ser coisa do passado. E a Venezuela, potencialmente um dos países mais ricos da Terra, no ano de 2016 chegou, na frenética corrida para a desintegração para a qual é conduzida pelo bando de demagogos e ineptos que a governam, a uma espécie de apoteose da crise terminal na qual o “socialismo do século XXI” a mergulhou. Será esse o destino da França se, como insinuam as pesquisas, a senhora Marine Le Pen, admiradora sem disfarces de Trump e de Putin, ganhar as próximas eleições presidenciais?

Ou seja, depois de tudo, bem se diria que o melhor espelho das coisas horripilantes que se sucedem ao nosso redor neste despontar do ano 2017 não está na grande literatura nem nos filmes realmente criativos, mas nessas séries que, como os “personagens transitáveis”, assim chamados por Flaubert, são meras pontes que cruzamos e esquecemos no mesmo instante durante esses passeios que damos para desanuviar a cabeça depois de muitas horas de trabalho.

Então, já que as coisas andam deste jeito sinistro, vamos nos distrair vendo séries na tela da TV, neste mundo surpreendente que, depois da extinção do comunismo, alguns ingênuos acreditávamos que havia empreendido um caminho resoluto para a liberdade e a prosperidade em vez de se transformar em nada mais, nada menos, do que um reality show.


Madri, janeiro de 2017

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