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Heróis e vilões

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 15:27
Sábado, 30 de dezembro



Comecemos com Zumbi dos Palmares.

Zumbi foi um forte líder do maior quilombo existente no período colonial, que era situado na Capitania de Pernambuco, na Serra da Barriga, em uma região que atualmente pertence ao município de União de Palmares, no estado de Alagoas.

Mais que um quilombo, o lugar era um espaço de liberdade criado em meio à opressão das chibatas, troncos, correntes, e senzalas, e, mais que isso, uma negação total do ser negro por uma comunidade escravista e exploradora.

Era ao Quilombo dos Palmares que se dirigiam os negros fugidos das fazendas. Palmares chegou a ter por volta de trinta mil habitantes, população considerável se considerarmos que se fala dos anos 1600.

Os negros não se conformavam com um sistema social injusto e buscaram alternativas de liberdade.

Demos também uma passada em Minas Gerais, ainda no período colonial, nos idos de 1700. Naqueles longínquos anos, a coroa portuguesa, cobrava altíssimos impostos sobre as riquezas retiradas da região, principalmente sobre o ouro, produto sobre o qual era cobrado o chamado quinto, que equivalia a 20% do total extraído. Mesmo quando o ouro extraído na região começou a rarear, o imposto não foi reduzido, permanecendo na casa dos 20%. Tudo isso começou a incomodar um grupo de intelectuais mineiros que se uniram num movimento chamado Inconfidência Mineira para lutar contra essas injustiças.  Sob a liderança desse movimento estava Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes.

Em São Paulo, entre os meses de julho e outubro de 1932, surgiu um movimento armado, denominado Revolução Constitucionalista de 1932, cujo objetivo era por fim ao governo provisório de Getúlio Vargas, e convocar uma Assembleia Nacional Constituinte. Os paulistas descontentes com o governo provisório de Getúlio Vargas empreenderam uma revolta armada que durou de julho a outubro de 1932.

Mais recentemente, tivemos o movimento Diretas Já, quando a população brasileira foi às ruas reivindicando eleições diretas para presidente da República. O movimento aconteceu nos anos de 1983-1984, e teve a participação de partidos políticos, intelectuais, artistas, e de toda a população brasileira. O povo foi às ruas, grandes comícios foram realizados. Era um tempo de esperança.

Exceto, este último que teve um final feliz, todos os outros movimentos citados não tiveram um desfecho feliz. O Quilombo dos Palmares, apesar de ter existido e resistido por mais de um século foi vencido pelas forças militares do estado. Os inconfidentes foram traídos, Tiradentes enforcado, e o movimento abafado. Os que fizeram a Revolução Paulista foram vencidos pelas tropas getulistas. Porém, vitoriosos ou não, esses personagens e movimentos se tornaram marcas registradas na história pelo seu caráter de contestação e luta contra alguma situação de opressão.

Eram tempos idealistas. Eram tempos de utopias. Eram tempos de sonhadores e realizadores. Eram tempos de heróis. Eram tempos de esperança.

E nos tempos atuais, onde estão todas essas coisas?

Os idealistas sumiram, as utopias morreram, os sonhadores se esconderam em algum lugar do passado. Os heróis? Desses há tempos não se ouve falar.

Desde que, em 2005, estourou o escândalo do mensalão, o Brasil tem visto um mar de lama invadir as brancas areias de suas praias de esperança, e tem assistido de braços cruzados a tudo isso.

Houve algumas parcas e esparsas reações, como, por exemplo, os protestos populares que tomaram as ruas em 2013, quando o povo foi às ruas, de forma desorganizada e sem liderança, para protestar contra diversos espinhos que atormentavam a vida do brasileiro.

Depois o povo retornou às ruas exigindo o impeachment da presidente Dilma Rousseff.

Até aí, se pensava que o grande vilão era o PT e seus corruptos integrantes... Até que veio a Lava Jato e nos mostrou que não havia um partido inimigo, mas que em todos os partidos havia inimigos, políticos corruptos e desavergonhados, que não mediam esforços em ludibriar os eleitores e depenar os cofres públicos.

A partir daí houve um espécie de letargia no povo. Ninguém saí mais às ruas. Ninguém protesta. Ninguém faz nada para que essa situação mude. Estarão os brasileiros assustados? Estarão apáticos? Decepcionados, com certeza. Mas de que modo, e por quais meios expressarão suas inquietações e insatisfações? Isso parece, no momento, uma incógnita.

Saiu Dilma e entrou Temer, e descobrimos que Dilma estava com a razão quando se dizia vítima de um golpe. Com a frieza e capacidade de fazer manobras nada constitucionais demonstradas pelo atual presidente e seus ministros e correligionários, é possível perceber que a queda de Rousseff foi muito bem tramada, não pelo povo, mas por aqueles que, nos submundos de Brasília, desejavam assumir o poder, para poderem, dessa forma, diminuir a força e a atuação daquela operação cujo objetivo é atenuar a corrupção em nosso país: a Lava Jato.

As manobras do governo Temer, no sentido de fazer prosseguir a corrupção são notórias, e parece que os governistas não fazem questão de esconder de que lado estão. Haja visto o indulto de Natal, assinado pelo presidente Temer, no qual o presidente reduz o tempo mínimo de prisão para que o preso possa ter acesso ao indulto: de quatro para um quinto do total, nos casos de crime sem violência à pessoa ou grave ameaça, como é o caso dos crimes de lavagem de dinheiro e corrupção. A questão é que o decreto assinado pelo presidente atinge aos condenados por este tipo de crime.

 O decreto também estabelece a diminuição das multas que os condenados por corrupção tem que pagar. Em entrevista a Globo News, o procurador da República, Deltan Dallagnol afirmou: “É um feirão de Natal. Não podemos perder de vista o contexto em que isso está acontecendo. Nós precisamos ver que o presidente da República é acusado por crime de corrupção e as pessoas ao redor dele também estão sendo denunciadas ou presas por crime de corrupção. O que esse decreto de indulto faz é arranjar uma saída para todo esse povo. Esse decreto de indulto diz para esse povo: ‘olha, vocês vão ter que cumprir só 20% da pena, o resto vai ser perdoado. Isso passa uma mensagem péssima pra sociedade. Passa a mensagem de que a corrupção no Brasil compensa mais ainda do que já compensava. É um tapa na cara dos brasileiros. É uma vergonha nacional e isso precisa ser mudado”.

O decreto causou polêmica e indignação, tanto que a Procuradora-Geral da República (PGR), Raquel Dodge, entrou com ação no STF, pedindo a suspensão do indulto natalino concedido por Temer.

Atendendo ao pedido da PGR, a ministra do Supremo, Carmem Lúcia, suspendeu parte do decreto, e a decisão sobre o indulto vai ficar a cargo do Supremo Tribunal Federal.

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Natal: Tempo de esperança

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 12:52
Sábado, 23 de dezembro


As luzes piscam, coloridas, faiscantes. As fachadas das casas e das lojas vestem sua melhor roupa brilhante para celebrar esta época do ano. As ruas e avenidas caminham na mesma direção. Árvores naturais e artificiais recebem bela decoração. As lojas, shoppings e centros comerciais estão apinhados de gente, carregando sacolas, abarrotadas de presentes que serão distribuídos entre os entes queridos. Nas igrejas, os sinos tocam alegre e festivamente. Enquanto das cozinhas das casas saí um cheiro de comida gostosa que será servida na ceia de Natal.

É uma época mágica, onde aflora a solidariedade.

No outro lado da moeda da vida está os menos afortunados, aqueles a quem a sorte não lhes sorriu. Não tem casa, não tem teto, não tem chão. Vivem nas ruas, perambulando,à toa, dia e noite, faça chuva ou faça sol, seja noite estrelada ou noite escura.

Porém, mesmo para estes, há olhos e mãos de voluntários que se voltam, que se doam, e que se esmeram em preparar para eles uma ceia humilde, cujo significado ultrapassa o alimentar o corpo que muito precisa, e, muito mais que isso, alimenta-se a alma daqueles cuja vida a muito perdeu a luminosidade.

Há também os que, nas favelas, guetos e periferias das grandes cidades, mesmo tendo um teto, lhes falta o luxo e o glamour das comemorações de Natal que só lhes é permitido participar através da visão das revistas e dos programas de televisão. Para estes o glamour do Natal, eles vêem e comem apenas com os olhos.

A grande maioria, com os olhos fitos nos presentes que ganharam, com a boca cheia de saliva pelas carnes, saladas, farofas, e frutas diversas que comem, nem se lembram de agradecer o dom vida ao dono da festa que nasceu pobre e esquecido, em uma manjedoura, entre pastores e animais, nos arredores de uma gruta de Belém.

Outros, grande parte daqueles que estão no poder, além de não se lembrarem do humilde menino nascido naquela gruta obscura, ainda o maltratam, renegam, e o matam. Por causa dos muitos bilhões de reais desviados dos cofres públicos, e que poderiam ser aplicados em saúde, educação, e segurança, há meninos Jesus nascendo e morrendo em hospitais nos quais os médicos não dispõem do mínimo necessário para o parto das crianças. Isso quando há médicos para atenderem a parturiente neste momento tão delicado. Muitos estabelecimentos de saúde carecem de médicos e enfermeiras.

Por causa da falta de caráter de muitos políticos e de homens do poder judiciário, há milhares de meninos Jesus nas esquinas, pedindo, esmolando umas parcas moedas para comprarem ao menos um pedaço de pão que alimente suas barrigas famintas.

Por causa da ambição daqueles que, sem nenhum compromisso com o povo brasileiro, voltam às costas para ele, e abraçam e beijam as empresas que lhes depositam milhões de propinas em suas abarrotadas contas, há muitas Marias e Josés sem esperança no futuro deles próprios e de seus rebentos. Por todo o território brasileiro, há meninos Jesus nascendo e morrendo em grutas obscuras, quando o dinheiro que os pais pagaram de impostos ao governo daria para propiciar que nascessem em leitos dignos e confortáveis de bons hospitais.

Porém, nem toda esperança está perdida para aqueles que sabem enxergar o Natal com os olhos da fé. Veja, por exemplo, o caso daquele menino que nasceu a tanto tempo naquela gruta de Belém. Ele veio ao mundo nas piores condições nas quais uma criança pode vir ao mundo. Entretanto, arrebatou multidões, incomodou aos poderosos, e transformou sua vida numa vida tão cheia de plenitude e de amor, que até hoje, sua luz brilha, seus ensinamentos florescem, e são repassados de geração a geração.

Quantas crianças mundo afora nasceram em condições degradáveis e se tornaram homens e mulheres prósperos, conhecidos, e admirados pelo mundo inteiro?

É com este sentimento de esperança e fé que este blog vem desejar a todos os seus leitores um FELIZ NATAL!

Abaixo, este blog compartilha um conto de Natal, de autoria do saudoso escritor e jornalista brasileiro, Rubem Braga. O conto é ambientado em um ambiente rural, mas poderia muito bem retratar o drama de famílias pobres que habitam os grandes centros de qualquer parte do mundo.

***



Conto de Natal

Rubem Braga

Sem dizer uma palavra, o homem deixou a estrada andou alguns metros no pasto e se deteve um instante diante da cerca de arame farpado. A mulher seguiu-o sem compreender, puxando pela mão o menino de seis anos.

— Que é?

O homem apontou uma árvore do outro lado da cerca. Curvou-se, afastou dois fios de arame e passou. O menino preferiu passar deitado, mas uma ponta de arame o segurou pela camisa. O pai agachou-se zangado:

— Porcaria...

Tirou o espinho de arame da camisinha de algodão e o moleque escorregou para o outro lado. Agora era preciso passar a mulher. O homem olhou-a um momento do outro lado da cerca e procurou depois com os olhos um lugar em que houvesse um arame arrebentado ou dois fios mais afastados.

— Péra aí...

Andou para um lado e outro e afinal chamou a mulher. Ela foi devagar, o suor correndo pela cara mulata, os passos lerdos sob a enorme barriga de 8 ou 9 meses.

— Vamos ver aqui...

Com esforço ele afrouxou o arame do meio e puxou-o para cima.

Com o dedo grande do pé fez descer bastante o de baixo.

Ela curvou-se e fez um esforço para erguer a perna direita e passá-la para o outro lado da cerca. Mas caiu sentada num torrão de cupim!

— Mulher!

Passando os braços para o outro lado da cerca o homem ajudou-a a levantar-se. Depois passou a mão pela testa e pelo cabelo empapado de suor.

— Péra aí...

Arranjou afinal um lugar melhor, e a mulher passou de quatro, com dificuldade. Caminharam até a árvore, a única que havia no pasto, e sentaram-se no chão, à sombra, calados.

O sol ardia sobre o pasto maltratado e secava os lameirões da estrada torta. O calor abafava, e não havia nem um sopro de brisa para mexer uma folha.

De tardinha seguiram caminho, e ele calculou que deviam faltar umas duas léguas e meia para a fazenda da Boa Vista quando ela disse que não agüentava mais andar. E pensou em voltar até o sítio de «seu» Anacleto.

— Não...

Ficaram parados os três, sem saber o que fazer, quando começaram a cair uns pingos grossos de chuva. O menino choramingava.

— Eh, mulher...

Ela não podia andar e passava a mão pela barriga enorme. Ouviram então o guincho de um carro de bois.

— Oh, graças a Deus...

Às 7 horas da noite, chegaram com os trapos encharcados de chuva a uma fazendinha. O temporal pegou-os na estrada e entre os trovões e relâmpagos a mulher dava gritos de dor.

— Vai ser hoje, Faustino, Deus me acuda, vai ser hoje.

O carreiro morava numa casinha de sapé, do outro lado da várzea. A casa do fazendeiro estava fechada, pois o capitão tinha ido para a cidade há dois dias.

— Eu acho que o jeito...

O carreiro apontou a estrebaria. A pequena família se arranjou lá de qualquer jeito junto de uma vaca e um burro.

No dia seguinte de manhã o carreiro voltou. Disse que tinha ido pedir uma ajuda de noite na casa de “siá” Tomásia, mas “siá” Tomásia tinha ido à festa na Fazenda de Santo Antônio. E ele não tinha nem querosene para uma lamparina, mesmo se tivesse não sabia ajudar nada. Trazia quatro broas velhas e uma lata com café.

Faustino agradeceu a boa-vontade. O menino tinha nascido. O carreiro deu uma espiada, mas não se via nem a cara do bichinho que estava embrulhado nuns trapos sobre um monte de capim cortado, ao lado da mãe adormecida.

— Eu de lá ouvi os gritos. Ô Natal desgraçado!

— Natal?

Com a pergunta de Faustino a mulher acordou.

— Olhe, mulher, hoje é dia de Natal. Eu nem me lembrava...

Ela fez um sinal com a cabeça: sabia. Faustino de repente riu. Há muitos dias não ria, desde que tivera a questão com o Coronel Desidério que acabara mandando embora ele e mais dois colonos. Riu muito, mostrando os dentes pretos de fumo:

— Eh, mulher, então “vâmo” botar o nome de Jesus Cristo!

A mulher não achou graça. Fez uma careta e penosamente voltou a cabeça para um lado, cerrando os olhos. O menino de seis anos tentava comer a broa dura e estava mexendo no embrulho de trapos:

— Eh, pai, vem vê...

— Uai! Péra aí...

O menino Jesus Cristo estava morto.

Texto extraído do livro "Nós e o Natal", Artes Gráficas Gomes de Souza - Rio de Janeiro, 1964, pág. 39.

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Papai Noel a serviço da corrupção

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 13:07
Quarta-feira, 20 de dezembro

Ministro do STF, Gilmar Mendes

O cinema, principalmente, o cinema hollywoodiano tem nos brindado com fantásticas batalhas entre o bem o mal. Estas batalhas nos encantam, nos fascinam. Ficamos presos ao assunto, prendemos a respiração, e, finalmente, suspiramos aliviados por saber que, no final, o bem saiu vencedor.

Quisera Deus que este roteiro no qual o bem sempre vence também correspondesse às duras batalhas enfrentadas cotidianamente no mundo real. Quisera Deus, mas as coisas não são bem assim.

Também nestas pérolas produzidas para a telona e que acabam também sendo trazidas para as telinhas, há os casos em que, dentro do próprio grupo dos que militam nas fronteiras do bem, há aqueles que não querem que a justiça triunfe. Estão no grupo, mais ou menos, como pedras de tropeço, como algum peso ou empecilho que faz com que as rodas do carro emperrem, não avancem.  

Assim como no cinema, ou na televisão, assim também no mundo real.

Nesta quarta-feira (20), o Supremo Tribunal Federal entra em recesso. Não sem antes protagonizar algumas decisões polêmicas — mais algumas delas: as decisões do ministro Gilmar Mendes. Foram cinco decisões, em menos de 24 horas, que vão totalmente na contramão da justiça pela qual clama o povo brasileiro. Vamos a elas:

Adriana Ancelmo, esposa do ex-governador do Rio de Janeiro, Sergio Cabral, foi presa no final de 2016, na Operação Calicute. A partir da decisão do juiz Marcelo Bretas de prendê-la, em 06 de dezembro daquele ano, Adriana se tornou ré, em um processo no qual o marido, Sérgio Cabral, e mais onze pessoas, são acusadas de corrupção, lavagem de dinheiro, e formação de quadrilha. Em setembro deste ano, ela foi condenada a 18 anos e 3 meses de prisão.

Em março deste ano, o juiz Marcelo Bretas converteu a prisão preventiva de Adriana, em prisão domiciliar. Em sua decisão, o juiz levou em conta o fato da mulher de Cabral ter dois filhos: um de 11 e outro de 14 anos, e que precisavam dos cuidados maternos. Decisão muito criticada, pois, no sistema prisional brasileiro, existem milhares de outras mulheres nas mesmas condições e que não receberam o mesmo benefício.

Em 23 de novembro deste ano, a pela maioria da 1ª Turma do Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2), resolveu revogar a prisão domicilia da ex-primeira dama e restabelecer a prisão preventiva. O pedido de revogação da prisão domiciliar foi feito pelo Ministério Público, e aceito pela 1ª Turma, lá vai Adriana de volta para a cadeia.

Como um pacote de benesses a criminosos, Gilmar Mendes, concedeu decisão, no último dia 18, que determina que Adriana Ancelmo volte a cumprir prisão domiciliar.

A segunda decisão polêmica de Mendes, refere-se ao fato da questão da condução coercitiva.

Na Operação Lava Jato, diversos suspeitos de ou envolvidos em escândalos já foram levados à presença de autoridades para que prestem esclarecimentos sobre determinados fatos. Na verdade, “condução coercitiva” é a condução destas pessoas à presença de autoridades, mesmo contra a vontade dessas pessoas. Esse tipo de método é previsto no Código Penal. O próprio ex-presidente Lula já foi levado à presença de autoridades através do método de condução coercitiva.

Gilmar Mendes resolveu proibir esta prática. Essa decisão ainda deverá ser analisada pelo colegiado da corte, mas não há data definida para que isto ocorra.

A terceira decisão que, mais uma vez, beneficia criminosos, além de Gilmar Mendes, teve a participação do ministro Dias Toffoli. O voto dos dois ministros decidiu pela rejeição das denúncias feita pela Procuradoria Geral da República, contra 4 políticos: o deputado Arthur Lira (PP-AL), que é líder do partido na Câmara, e seu pai, o senador Benedito de Lira (PP-AL), além do deputado Eduardo da Fonte (PP-PE) e do deputado José Guimarães (PT-CE).

Os políticos da família Lira são acusados de terem recebido R$ 400 mil em doações eleitorais de um empresa ligada a UTC, segundo a PGR esse dinheiro é proveniente do esquema de desvio de dinheiro da Petrobrás. A quantia teria sido recebida por Benedito, e repassada à campanha do filho dele, Arhur Lira.

Quanto ao Deputado Eduardo da Fonte, esse foi denunciado pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. A UTC teria repassado R$ 300 mil ao diretório do PP, em Pernambuco, quantia essa que teria sido repassada a campanha de Eduardo, em 2010.

O deputado José Guimarães foi acusado de receber R$ 97, 7 mil em propinas relativos à liberação de um empréstimo feito pelo Banco Nordeste para a construção de três usinas eólicas na Bahia.

A quarta decisão, o quarto presente de Natal de Gilmar Mendes, foi dado ao governador do Paraná, Beto Richa (PSDB). Gilmar Mendes suspendeu o processo que tramita contra ele no STJ (Superior Tribunal de Justiça). O inquérito foi aberto contra o governador pelos crimes de lavagem de dinheiro, corrupção passiva, e falsidade ideológica eleitoral.

E, fechando o pacote de benesses, Gilmar Mendes, foi um dos ministros a votar a favor da revogação da prisão preventiva de Marco Antonio Luca. O empresário estava detido desde junho, e é suspeito de pagar propina ao ex-governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), para obtenção de contratos com o Estado.
Se contarmos mais duas decisões de Gilmar Mendes tomadas estes mês, o pacote de benesses do ministro aos criminosos sobe para sete. É que logo no início deste mês, Gilmar Mendes, revogou, pela terceira vez, a prisão do empresário Jacob Barata Filho.

Jacob foi preso no início de julho deste ano, na Operação Ponto Final. O esquema do qual Jacob participava pagava propinas a agentes públicos, em troca do reajuste na tarifa do transporte público do Rio, e em contratos superfaturados.  O esquema também contava com a participação do ex-governador, Sérgio Cabral.

O ministro bonachão também revogou a prisão do ex-presidente da Federação das Empresas de Transportes de Passageiros do Estado do Rio (Fetranspor) Lelis Marcos Teixeira. Lelis foi preso na mesma operação Ponto Final, na qual também foi preso, Jacob Barata Filho.

A pergunta que se faz é a seguinte: A serviço de quem está o ministro Gilmar Mendes? Na luta entre o bem o mal, de que lado ele se coloca? Nas duas extremidades da balança, quais sejam, restituir a honradez e a dignidade ao nosso país ou deixá-lo ser corroído pelas traças da corrupção, em que lado ele resolve colocar seu peso?

Ah, se fosse, de fato, efetivado um processo de impeachment contra ministros do STF... Pedidos nesse sentido já há. Falta que ganhem corpo e se tornem realidade.

Outra coisa que se deve enfatizar para as nova gerações, e para as velhas também é o de que vale a pena ser honesto. Vale à pena fazer as coisas dentro dos parâmetros legais. Se assim for feito todo mundo sai ganhando. Ao contrário, quando apenas um lado leva vantagem à custa do outro, todos saem perdendo.

O que parece, e de fato se concretiza na prática, pelo que temos visto e ouvido, desde que a Lava Jato começou, é que se instalou no Brasil uma cultura de que sempre é preciso levar vantagem em cima de alguém, seja nos altos escalões do governo, das empresas, das instituições, a até mesmo, no cidadão comum.

Como disse o ministro Luís Roberto Barroso, em sessão plenária do STF, “Nós vivemos uma tragédia brasileira, a tragédia da corrupção que se espraiou de alto a baixo, sem cerimônia”. E essa tragédia já fez muitas vítimas, nas escolas, nos hospitais, nas praças, nas ruas, pois a corrupção é um veneno letal, mas que mata de forma silenciosa, gradativa.

Se o Brasil quer ser, realmente, um país sério, tem que eliminar de seus campos e cidades esse veneno que suga os nossos recursos, a nossa energia, a nossa vontade de ser um país do futuro.

O ano que vem é um ano decisivo. É certo que as empresas jogam muito dinheiro sujo nas campanhas dos candidatos, e isso, de certa forma, influencia o resultado das eleições, mas é o eleitor que vai à urna, é o eleitor que vota, e quanto mais consciente o eleitor estiver, melhor será o resultado das eleições. Como brasileiros, devemos, e temos a obrigação de dizer não a esses bandidos que usam o nome de políticos para continuar saqueando o país.

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A estrela que irradia fé e esperança

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:09
Terça-feira, 12 de novembro

“Quando chega o Natal eu também choro
É que nunca um presente eu ganhei
Se Papai Noel nâo sabe onde moro
Nem também meu endereço eu mesmo sei”

(Menino de Rua – Jorge de Altinho)


Eles andam por aí, pelas ruas da cidade. Sujos, maltrapilhos, abandonados. Peças de engrenagem de um sistema que os rejeitou. Se, pelo menos, houvesse, por parte do público, políticas que, como uma mão redentora e salvadora, os tirasse da miséria, ainda haveria para eles um pouco de luz em meio às trevas. Um novo recomeço.

Não. Não falo de utopias. Nem entenda o leitor assim. Não estou a dizer asneiras. Seria possível sim, colocar um pouco de cor nas telas da vida de quem só enxergar na tela da própria vida, uma pintura cinzenta, borrada, que nem dá pra dizer que é surreal de tão feia e desarmônica que é.

Seria perfeitamente possível se milhares, milhões, bilhões de dólares não saíssem, sorrateiramente, dos cofres públicos e fossem parar em cuecas, meias, apartamentos, paraísos suíços, e outros mais que há por aí. Seria perfeitamente possível trazer harmonia e restituir a dignidade de muitos brasileiros e brasileiras que vagam pelas ruas de nossas cidades, se, na lavanderia da corrupção, o dinheiro não fosse lavado, esfregado, e disfarçado em vinhos, anéis e outras joias preciosas, e guardados nos porões de políticos, empresários, e funcionários públicos, e até mesmo cidadãos comuns que amam e veneram a corrupção.

Esses sem rumo andam por aí. Em qualquer lugar das grandes cidades. Nas marquises, nas calçadas, pontes e viadutos. Não tem nome. Tornam-se perante a sociedade, anônimos.

Essa situação não é privilégio apenas do Brasil, não. Em todos os lugares, nos países mais desenvolvidos e nos menos desenvolvidos, há pessoas, seres humanos, sendo cuspidos pelo sistema por não produzirem, por gerarem lucro e riqueza. São coisas, peças, qualquer coisa, menos cidadãos.

Ilustro o que acaba de ser dito com a canção de protesto americana, chamada Deportee (Plane Wreck at Los Gatos). Bela e triste canção de autoria de Woody Guthrie, cantor e compositor americano de folk music. A letra da música narra um acidente aereo, ocorrido próximo a Los Gatos Canion, que segundo o Wikipédia Brasil, fica situado próximo a Coalinga, Califórnia, no Condado de Fresno, EUA.

O drama descrito na canção é de um grupo de 48 trabalhadores agrícolas que estavam sendo deportados da Califórnia e enviados de volta ao México. Junto com o grupo estavam também quatro americanos. O terrível acidente aconteceu em 29 janeiro de 1948 vitimando a todos.

“Seiscentos quilômetros até a fronteira mexicana. Eles perseguem-nos como ladrões, como bandidos, como ladrões”. Quando a notícia passa a circular nas rádios, o grupo de trabalhadores também não recebe nomes. Como se não fossem seres humanos. A rádio apenas anuncia que um grupo de deportados foi vítima do acidente aéreo. Ao subir no avião eles perderam a identidade e passaram a ser apenas “deportados”.

Voltando às ruas do Brasil.

Foi em um sábado. Mais precisamente no último dia 09. Era noite, e o lindo Parque do Ibirapuera, em São Paulo, recebia visitantes que, além de desfrutar das benesses que o parque oferece, também se divertiam com a bela árvore de Natal montada no local.

Em meio à multidão, também vagava uma sem nome e sem lar. Estava grávida e sentia as dores do parto. O novo ser nasceria a qualquer minuto. Ela não tinha plano de saúde, nem qualquer auxílio do estado. Tiremos da mulher a condição de estatística e lhe coloquemos na condição de ser humano, e pensemos no abandono, que sentia aquela mulher. Será que visualizaria algum futuro para sua criança?

Finalmente, depois de percorrer tantas estribarias, e tantas grutas e manjedouras, a mulher foi dar à luz ao recém-nascido perto da grande, colorida, e iluminada árvore de Natal. O choro de um menino varou à noite. E encontro o choro do menino Jesus deitado na manjedoura, velado por sua mãe Maria, e seu pai, José. Terna cena. Doce drama.

Felizmente, três soldados, e um cabo do Batalhão de Trânsito da PM, que faziam o patrulhamento de segurança da árvore, foram avisados por pessoas que visitavam o local, e vieram em socorro da mulher e da criança, realizando o parto. Uma soldado feminina que fazia parte do grupo fez os trabalhos de parto e foi tudo bem. Mãe e filho passam bem.

Esta história faz lembrar a história de um mulher grávida e de um homem que, há mais de 2000 anos, perambulavam pelos arredores da Judeia, em busca de um lugar para que ela pudesse dar à luz. Chamavam-se José e Maria.

Tiremos dos dois a condição divina que lhes é atribuída pelos livros sagrados, e lhes vistamos com a roupa de humanidade, gente de carne e osso, que sonha, que sofre, e que tem esperanças. Enfim, não encontrando lugares nas hospedarias, foram parar em um manjedoura, e, em meio às palhas e aos animais, o choro de um menino varou à noite.

Tiremos também do menino a condição divina e sintamos o drama de um parto em meio à noite, à escuridão, e ao abandono da sociedade. Não fosse a companhia dos pastores que por lá estavam, a cena seria ainda mais melancólica. É certo que a estrela iluminava àquela noite, como acompanhou os passos do menino pela vida afora.

E quando a estrela brilha sobre aqueles que acreditam, apesar das dificuldades, dos cálices amargos, das chibatadas, cuspidas na cara, do calvário, dos pregos, e da cruz, sempre haverá esperanças de vitória sobre as injustiças.

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Um brinde à demagogia

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:36
Quinta-feira, 07 de dezembro



Meus Amigos, minhas amigas começamos dezembro com boas notícias. Primeiro, para os prefeitos e prefeitas do nosso país. Graças à melhoria dos resultados econômicos, estamos transferindo R$ 2 bilhões a mais para os municípios. Os prefeitos pagarão o 13 salário e poderão fechar as contas de 2017 com mais tranquilidade. Comemoramos também, aqui a notícia é para todos, comemoramos também o PIB positivo, que acaba de ser divulgado. Como vocês sabem, o PIB é a soma de todas as riquezas produzidas pelo pais, que é fruto do trabalho de todos os brasileiros.
Os números mostram que recuperamos os investimentos. É o primeiro resultado positivo depois de mais de três anos. E porque isso é importante? Porque quando os empresários investem, a economia aquece e surgem os empregos.
Vamos fechar 2017 no positivo, deixando para trás a recessão. É uma grande vitória. Outra boa notícia é que o IBGE anunciou que o desemprego segue caindo pelo terceiro trimestre consecutivo temos bons resultados no mercado de trabalho. De agosto a outubro, mais de 868 mil pessoas conseguiram um emprego. E o valor dos salários está em média, 4,6% mais alto do que no ano passado. É mais renda mensal para todas as famílias.
A realidade é essa: nossa economia cresce, a inflação e os juros caem, incentivando a produção e o consumo. E tudo isso ocorre exatamente porque tivemos coragem de fazer as reformas necessárias. Produzimos mais mudanças do qualquer governo do passado recente. Estamos transformando o Brasil.
Falta gora, a Reforma da Previdência, fundamental para a garantir a continuidade desse crescimento que já está aí. É uma reforma para o povo, porque combate os privilégios e mantém os direitos de quem já se aposentou ou mesmo de quem já tem condição de aposentar-se. Não muda nada para o trabalhador rural, nem para os mais pobres, nem para os que dependem da assistência social. O que se busca é a igualdade de oportunidades, sem distinção entre servidores públicos e trabalhadores da iniciativa privada.
Tenho compromisso com o povo, trabalho para convencer os companheiros do Congresso nacional que muito tem auxiliado o governo a votar essa matéria pelo bem de todos. É hora dos brasileiros que acreditam no futuro entrarem em cena. Juntos construiremos uma nação melhor.
Eis, caros senhores e senhoras, um gritante exemplo de um discurso puramente demagógico.

E o que é um discurso demagógico? Vamos lá. Para bem compreender o significado desta palavra, vamos recorrer àquele a quem todos recorrem quando querem clarificar um vocábulo: o dicionário. Essa arma tão útil na guerra das palavras, antes ficava só papel, nos livros grossos e de folhas amareladas pelo tempo e castigadas pelo constante manuseio das mãos. Hoje, não. Eles também podem ser online de fácil consulta.
Vamos ao que nos interessa que é o vocábulo, demagogia. Vamos a uma definição bem sucinta. Lá no dicionário está escrito: “Excitação das paixões populares em proveito político”.

Se considerarmos que o ano que vem é ano de eleições, então o discurso de nosso presidente não eleito pelo voto popular passa e muito de demagógico. Nisso, ele se assemelha a sua antecessora, Dilma Rousseff, que, a bem compreender, a sala estava em chamas e ela, calmamente, dizia: é apenas uma faísca, logo cessará”.

O país ainda mergulhado numa crise sem precedentes, e ele pintando um quadro paradisíaco da situação. Mas sabem de um coisa, ele tem razão, não estamos crise. Vivemos o melhor momento de nossa economia. O dinheiro circula com facilidade pelos nossos bolsos, emprego está em alta, e as coisas no supermercado não nos parecem tão caras. Viagens? Ah, viagens! Podem planejar à vontade, que o ocorrer disto não dependerá ou não da alta do dólar.

Quando é usado o pronome, nós, nesse texto, na verdade, substituam-no pelo pronome eles. E como eles, quero referir-me aos nossos “respeitáveis” políticos. Para eles que usufruem de uma enxurrada de regalias e mordomias, a crise passa bem longe. Sentado em seus luxuosos gabinetes, podem dar-se ao luxo de muita coisa, inclusive o de não serem importunados pela polícia, nem de serem presos, e ainda, por cima, de atrapalhar investigações importantes na atual conjuntura do país, ou mesmo podem dar-se ao luxo de querer sufocá-las, asfixiá-las, empurrá-las para debaixo de tapete.

Onde já se viu tal coisa? Que país que deseja se colocar em primeiro plano no cenário nacional e internacional quer abolir de seus nortes de ação a ética, a moral, e a decência? Em que país do mundo que se queira proclamar desenvolvido, os parlamentares se fecham em uma concha, formulando e executando conchavos para proteger um presidente enterrado na lama da corrupção quase até o pescoço? Em que nação, cuja bandeira ostenta o belo lema: ordem e progresso, os parlamentares viram completamente às costas para o povo e se vendem por verbas, cargos, e salários.

Ora, senhoras e senhores, esse país existe e se chama Brasil, nosso amado torrão natal, ao qual tanto amamos.

Temer se gaba, logo no início do seu discurso, de que vai transferir R$ 2 bilhões de reais para os municípios. Ora, iniciativa louvável! Louvável que nada. Lembre-se de o presidente gastou dez vezes mais para comprar deputados para livrá-lo do prosseguimento das duas denuncias oferecidas contra ele pela Procuradoria Geral da República, que, por duas vezes, chegaram à Câmara dos Deputados. Isso sem contar os R$ 200 milhões liberados pelo governo em emendas orçamentárias, com o intuito de mobilizar os deputados para devolver ao senador tucano, Aécio Neves, o mandato que estava em jogo.

Depois, e ainda no mesmo parágrafo, o presidente comemora com estardalhaço um ínfimo crescimento no PIB de 0,1%. Ora, se os economistas, os comentaristas de economia, e o presidente querem comemorar um crescimento tão medíocre, que comemorem, abram seus champagnes caros e franceses, comprados com o dinheiro do contribuinte.

O povo não. Esse vive o drama do fantasma da inflação e da recessão, que vorazmente lhes devoram os salários, as economias. O povo deve ficar atento também para não se deixar enganar por esses discursos tolos e vazios. Afinal, ano que vem é ano de eleição, e eles, os políticos, voltam à cena com suas mãos estendidas e sorrisos amáveis nos rostos. Sorrisos esses que escondem suas maquiavélicas intenções.

No último parágrafo do seu texto, o presidente diz: “Tenho um compromisso com o povo”. Sim, ele tem compromisso com povo. Com o povo dele. E com os políticos que lhe lambem os pés e se fazem para ele de tapetes, em troca de verbas orçamentárias e de cargos no governo. Porque, com o povo mesmo, entendido no seu sentido pleno da palavra, o presidente, até agora, não mostrou compromisso nenhum. Ao contrário, seu governo é para a cozinha do planalto e seus convidados ilustres e corruptos.

Abaixo, este blog compartilha artigo do jornalista, Xico Sá, publicada no jornal El País Brasil, no último 01 de dezembro. O artigo é intitulado:   Guia paracomemorar o pibinho.

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Guia para comemorar o pibinho

Eis que tamanho não é mais documento na economia
Intermitentes do mundo, uni-vos no brinde da festa da firma

XICO SÁ

“Setembro passou, Outubro e Novembro, já tamo em Dezembro, meu Deus, que é de nós?”. Desperto no derradeiro mês deste 2017 com o canto semi-árido e existencialista de Patativa do Assaré, o poeta andarilho, no juízo. Calma, não vou estragar o seu final de ano, afinal de contas a mídia está repleta de boas notícias. Repare no caso do micropibinho, quantas manchetes alvissareiras, quanto foguetório, euforia é mato nos periódicos e portais.

Bimbalham os sinos. Antecipemos nossos espumantes, seja uma Sidra Cereser ou a ostentação de uma garrafa de Veuve Clicquot. Comece a gastar por conta. Não economize na farofa, na uva passa, viaje mesmo no salpicão. Por favor, não sejam “partidários da fracassomania” – a expressão tem grife, é de um FHC II, safra da virada do século XXI, encorpado na Sorbonne, uvas europeias (Cabernet Franc?), mesmo com o aroma de jurubeba do mais antigo ex-PFL baiano.

Tamanho agora não é mais documento na economia brasileira: o pibinho do Temer está com tudo. Pense numa potência!

Intermitentes do Oiapoque ao Chuí, uni-vos. Boa festa de firma. Temos é que agradecer ao chefe por este bico, beijar a boca do senhor casmurro do departamento pessoal, investir alto no presente do amigo secreto caso ele seja um superior no organograma. E nada de exagerar na jurupinga. Cuidado com o vexame, aquele vídeo no WhatsApp pode destruir uma carreira promissora. Tempos modernos e corretos.

O micropibinho é tudo. Não vale lembrar, colega memorioso, a frase exemplar do presidente Emílio Garrastazu Médici, safra 1970, com aroma de ditadura amadeirada – e põe cassetete nisso! – e notas de chumbo. “A economia vai bem e o povo vai mal,” bradou o general. Não vem ao caso, em nenhum sentido, a não ser no otimismo oficial, a boutade de farda verde-oliva.

Por viajar nos 70, temos uma seleção canarinha pai d´égua e o Tite nos conduzirá rumo à estação Finlândia. O pagode russo está só começando. Boa festa da firma e até a próxima.


Xico Sá, jornalista e escritor, é autor de “A pátria em sandálias da humildade” (editora Realejo, 2017), entre outros livros. Comentarista nos programas “Papo de Segunda” (GNT) e “Redação Sportv”.

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