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Brasileiros: um povo governado por quadrilhas

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 23:54
Domingo, 17 de setembro


O acordo de delação premiada assinada por Joesley e Wesley Batista, donos da JBS dava um prazo de 120 dias, a partir de sua homologação, para que os colaboradores apresentassem provas referentes aos depoimentos prestados por eles no mês de abril, junto à Procuradora-Geral da República. 
O prazo para entrega desses elementos de prova venceu no dia 31 de agosto, e os advogados da JBS foram obrigados a apresentar os anexos complementares. Nesses anexos, além de indicação de como deve ser feita a leitura da planilha entregue pelo diretor da empresa, Ricardo Saud, contendo a doação de dinheiro da JBS a mais de 1.800 políticos, também consta a indicação de quais dessas doações foram frutos de corrupção e caixa 2. Constam também das provas entregues pela JBS contratos desta empresa com o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), por haver nesse material, indicação de gestão fraudulenta nas operações do banco.
Os donos da empresa entregaram essas provas relativas ao BNDES para tentar evitar que a mesma fosse processada na Justiça Federal de Brasília. Há também no material, horas e horas de gravações. Sabe-se lá por que a JBS queria mais 60 dias para apresentar as provas prometidas. Os advogados da empresa até chegaram a fazer um pedido a Edson Fachin, ministro do STF. Não houve tempo hábil para Fachin responder à petição, e não restou alternativa aos advogados senão entregar os anexos complementares dentro do prazo estabelecido no acordo com os procuradores.
Ok. Prazo cumprido. É hora de analisar tanto material apresentado. Apenas os dias corridos da semana não bastaram e lá se foram os procuradores do Ministério Público Federal se debruçarem sobre o material também no fim de semana.
E eis que, em meio a tantos anexos, no domingo, 03 de setembro, uma Procuradora encontrou uma bomba — aliás, bombas tem sido a coisa mais comum nesse zum-zum-zum das delações premiadas que atingem em cheio gente do alto escalão do governo atual, ou que fizeram parte de governos passados, ou ainda de empresários desonestos que se acham muito espertos e acima da lei. Era uma conversa entre Joesley Batista e o diretor da J&F, Ricardo Saud, gravada acidentalmente.
Em um trecho da gravação, os dois conversam sobre a atuação do então procurador da República, Marcelo Miller. Do que se depreende das gravações, Miller estaria auxiliando os empresários no acordo de colaboração premiada — que, diga-se de passagem, não foi um acordo, mas um presente para os colaboradores. Por ainda estar atuando na procuradoria na época, Miller incorre no crime de ato de improbidade administrativa, além de trair seus companheiros de equipe no MPF. O áudio foi gravado em 17 de março. Nessa data, Miller já havia pedido demissão do cargo de procurador, mas apenas foi exonerado do cargo em 05 de abril.
Na conversa, os delatores dão a entender ainda que a intenção era usar Miller para chegar até Rodrigo Janot. Certamente, os caros leitores e leitoras já devem ter conhecimento do áudio dessa conversa, mas não custa nada reproduz-lo aqui:
Joesley: Por isso é que eu quero que nós dois temos que estar 100% alinhado. Nós dois e o Marcelo, entendeu? É, mas nós dois temos que operar o Marcelo direitinho pra chegar no Janot e pá. Porque nós temos que... Eu acho, é o que eu falei pra Fernanda, é o que eu falei pro... Nós nunca podemos ser o primeiro. Nós temos que ser o último. Nós não podemos ser...
Saud: A tampa do caixão.
Joesley: Nós temos que ser a tampa do caixão. Falei pra Fernanda: “Fernanda, nós não vamos ser nunca quem vai dar o primeiro tiro. Nós vai ser quem vai dar o último tiro. Vai ser quem vai bater o prego da tampa”.
Saud: O Marcelo tá ajeitando.
Joesley: Isso. E é o seguinte. Nós vamos conhecer o Janot, nós vamos conhecer não sei quem e quem é que precisa do quê?
A conversa continua com os dois buscando jeitos e alternativas de atingir o procurador Rodrigo Janot, buscando elementos para atingir os integrantes do STF, e se colocando acima da lei, ao dizerem que não seriam presos. “Que no final a realidade é essa, nós não vai ser preso, nós sabemos que não vai, vão fazer tudo, menos ser preso”, afirma Joesley. Acrescentando em outro trecho: “É porque ele (Janot) não sabe com que ele está lidando”.
Na segunda-feira (4), Janot anunciou esse conteúdo que ele imputou como “conteúdo gravíssimo”, e que se os fatos ficassem comprovados, o acordo de delação premiada seria rescindido.
Uma semana após a descoberta da gravação bombástica e incidental, Joesely e Ricardo Saud foram presos. A prisão foi decretada pelo ministro do STF, Edson Fachin. No dia 14, Fachin converteu a prisão do dono do grupo J&F de prisão temporária para prisão preventiva. Desmontando a tese do próprio Joesley de que eles não seriam presos, fizessem o que fizessem.
Em uma palestra proferida durante o 12o Congresso da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) em São Paulo, Janot disse: “Enquanto houver bambu lá vai flecha”. E houve bambu a atingir e houve flecha para Janot disparar até os últimos de seu trabalho no comando da PGR.
Na segunda-feira (14), o agora ex-procurador, apresentou a segunda denúncia contra o presidente Michel Temer. “Organização criminosa” e “obstrução à justiça”. Palavras fortes, mas foram essas duas palavras para os crimes dos quais Janot acusa o presidente. Foi com uma citação de uma frase de um discurso histórico de Ulisses Guimarães que Janot abriu a denúncia: “O poder não corrompe o homem; é o homem que corrompe o poder. O homem é o grande poluidor da natureza, do próprio homem, do poder. Se o poder fosse corruptor, seria maldito e proscrito, o que acarretaria a anarquia”.
Na fogueira dessa denúncia, Janot jogou também os ministros Eliseu Padilha, Moreira Franco, e os ex-ministros, Geddel Vieira Lima e Henrique Eduardo Alves, o ex-deputado Eduardo Cunha, o ex-assessor da presidência, Rodrigo Rocha Loures, e os executivos da J&F, Joesley Batista e Ricardo Saud.
Segundo Janot, o grupo utilizou das funções públicas as quais ocupavam para cometer infrações. Ainda segundo o ex-procurador, o grupo, como qualquer organização criminosa, possuía estrutura ordenada e divisão de tarefas cuja finalidade era obter vantagens indevidas na administração pública direta e indireta, e também na Câmara dos Deputados.
Dessa vez, a denúncia não se baseou apenas na gravação de uma conversa — como foi o caso da primeira denúncia quando Janot baseou a denúncia na gravação da conversa de Joesley com Michel Temer — mas, desta vez, a embasou em investigações da Polícia Federal e depoimentos de delatores.
Os Ministérios da Agricultura e da Integração Nacional, a Secretaria de Aviação Civil, a Petrobrás, Furnas, e Caixa Econômica Federal, eram usados, segundo Janot, para arrecadar propina. Cerca de R$ 587 milhões de reais em propinas foi arrecadado pelo grupo, segundo a denúncia.
Como nenhuma organização criminosa opera sozinha, o chamado “núcleo do PMDB, operou com a ajuda de outros partidos como o Partido dos Trabalhadores e o Partido Progressista. Esses grupos e seus braços maléficos abarcaram para si o máximo de vantagens econômicas que lhes foi possível arrecadar. Vantagens econômicas que eram arrecadas para si mesmo, para seus partidos, e para outros. Com certeza, a chegada de Temer ao poder, facilitou em muito o trabalho da organização criminosa, que ganhou ainda mais poder.
Entra quadrilha e sai quadrilha, e assim tinhamos vivido na inocência até explodirem com força fenomenal todos esses escândalos.
Antes de apresentar a segunda denúncia contra Temer e seus braços direitos, na segunda-feira (05), Janot também denunciou ao Supremo Tribunal Federal, os ex-presidentes Luís Inácio Lula da Silva, e Dilma Rousseff, ambos do Partido dos Trabalhadores, por formação de quadrilha.
Segundo Janot, a quadrilha petista desviava recursos da Petrobrás, do BNDES, e do Ministério do Planejamento. Ainda segundo a denúncia não foi pouca a quantia desviada pelos petistas dos cofres públicos: R$ 1,48 bilhões. Nesse núcleo petista, Janot acusa Lula de ser o chefe e líder da quadrilha, e diz que Dilma foi peça importante no início do esquema, e depois de assumir a presidência, deu continuidade à roubalheira. Todo chefe precisa de subordinados, e o ex-procurador aponta como integrantes do esquema os ex-ministros da Fazenda Antonio Palocci e Guido Mantega; a presidente do PT, senadora Gleisi Hoffmann (PR), e seu marido, o ex-ministro das Comunicações e do Planejamento Paulo Bernardo; e os ex-tesoureiros do partido João Vaccari e Edinho Silva, atual prefeito de Araraquara (SP).
Ainda nesse verdadeiro furacão que sacode o cenário político brasileiro, ainda teve o depoimento de Antonio Palocci, que achou melhor falar o que sabia do que levar toda a carga de culpa nas costas atrás das grades de uma prisão. O petista citou o repasse de R$ 300 milhões da Odebrecht para os cofres do Partido dos Trabalhadores.
Na ação na qual Palocci foi ouvido pelo juiz Sérgio Moro em Curitiba, Lula é acusado de corrupção passiva e lavagem de dinheiro.  Dessa vez, foi um companheiro falando. Quando Palocci estava ao lado de Lula era um homem esperto e inteligente, depois que abriu a boca e contou o que sabia passou a ser um mentiroso e desqualificado que falou apenas para receber os benefícios da delação premiada.
Se Janot voltasse a cabeça por sobre os ombros e voltasse ao passado, veria que a maior parte do grupo que ele acusou está em ação faz tempo. Na verdade, desde os tempos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. O que nos leva a refletir sobre o quanto o povo brasileiro tem sido enganado e roubado e sobre quanto mal essas quadrilhas fizeram ao país.

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Parabéns pra você!

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:10
Sábado, 16 de setembro

O poder não corrompe o homem; é o homem que corrompe o poder.
O homem é o grande poluidor, da natureza, do próprio homem, do poder.
Se o poder fosse corruptor, seria maldito e proscrito,
o que acarretaria a anarquia”.
(frase do falecido Ulisses Guimarães (PMDB),
usada por Rodrigo Janot,
na primeira página da segunda denúncia 
apresentada contra o presidente Michel Temer)

Rodrigo Janot
Parabéns pra você, Janot, nesta data querida, muitas felicidades, muitos anos de vida!
Ontem (15), Rodrigo Janot, procurador-geral da República, completou 61 anos. O dia de ontem também marcou o último dia de trabalho de Janot à frente da Procuradoria Geral da República.  E ele deve se orgulhar disso, afinal de contas, deu sua imensa contribuição na luta contra a corrupção. E todos nós sabemos que lutar contra esse monstro, especialmente, no Brasil, país no qual a impunidade reina solta e absoluta, não é coisa fácil.
É preciso, mais do que nunca que a Polícia Federal, o Ministério Público, Procuradoria Geral da República, e demais órgãos do Judiciário, se unam nessa luta, que é, na verdade, uma luta de todos os brasileiros, pois se isso depender do Poder Executivo e do Poder Legislativo... Ai, Jesus Cristinho... Coitados de nós!
E, grande coincidência, o último dia de trabalho de Rodrigo Janot como procurador-geral da República, coincidiu com o aniversário natalício dele. Aniversários se celebram com festa, bolo, doces, refrigerantes... E muita alegria. No caso, tanto o aniversário de Janot, como o fim de seu mandato à frente da procuradoria merecem toda essa comemoração. Janot assumiu o comando da PGR em setembro de 2013 para um mandato de dois anos. Foi reconduzido ao cargo o que somou quatro anos no total
Essa festa foi comemorada no auditório da Procuradoria-Geral da República. O evento contou com a presença de cerca de 400 pessoas. O aniversariante foi o centro das atenções. Ele que sempre falou muito, dessa vez ouviu muito. Muitos homenagens e elogios. Discurso? Apenas ao final da festa. E foi aplaudido de pé.
Segundo convidados, ele recebeu de presente de uma tribo indígena do estado de Sergipe, um arco e uma flecha. O presente ofertado pelos índios é uma clara alusão à frase pronunciada pelo procurador em diversas ocasiões: “enquanto houver bambu, vai ter flecha”.
Com essa expressão o procurador se referia ao fato de que enquanto houver má conduta, atos ilícitos, e desrespeito à lei, vai ter ação da procuradoria.
Juntos vivemos e escrevemos um capítulo muito especial na história do país e do Ministério Público. A esperança ainda triunfa nesta casa. Valeu a pena para mim cada minuto de labuta e até de sofrimento”, afirmou Janot durante o evento.
Ainda durante a festa, o procurador regional da República fez um balanço dos quatro anos de Janot à frente da Procuradoria. “Com o objetivo de reduzir ao máximo o acervo de processos, o gabinete trabalhou de forma intensa desde setembro de 2013. Nos últimos quatro anos, foram produzidas 19.697 manifestações. A maior parte dos processos movimentados pela PGR refere-se a assuntos da área criminal e da Operação Lava Jato, responsáveis, respectivamente, por 34% e 18,7% do total devolvido ao STF.
No total de manifestações estão incluídos 242 pedidos de instauração de inquérito, 66 denúncias, 13.014 manifestações e pareceres, 98 iniciais em cautelares, como pedidos de busca e apreensão, de interceptações telefônicas, de sequestro de bens e quebras de sigilo bancário, entre outros. Além disso, no período, foram ajuizadas 197 Ações Diretas de Inconstitucionalidade (ADIs), 31 Arguições de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPFs) e três Ações Diretas de Inconstitucionalidade por Omissão (ADOs). O PGR também apresentou 471 razões e contrarrazões em recursos. Perante a Primeira e a Segunda Turma do STF, atuam cinco subprocuradores-gerais da República designados pelo PGR. De janeiro de 2014 a agosto de 2017, eles receberam 37.307 autos e devolveram 39.162”, diz texto publicado no site da PGR.
Coisa curiosa, talvez mais preocupante, do que curiosa, foi a ausência de Raquel Dodge, que sucederá Janot na PGR. Não foi comunicado o motivo pela qual a futura procuradora-geral não apareceu na festa. Não se pode julgar sem saber o certo o que houve. Mas o fato é, no mínimo estranho. Comer o bolo de aniversário junto com uma pessoa, e com ela comemorar, quer dizer apenas mais que comer bolo, que dizer, acima de tudo, comungar ideias.
Junte-se a esse fato, o de que, para a posse de sua sucessora, a assessoria de Janot diz que ele não foi convidado. Já a assessoria de Dodge diz que foi enviado convites por e-mail, não apenas para Janot, mas também para os demais procuradores.
Outro fato que não soa bem é este de, para uma cerimônia tão importante, convidar por e-mail àquele ao qual se vai passar o bastão. Já para os ministros do Supremo Tribunal Federal, Dodge entregou os convites em mãos naquela corte.
Fica-se ainda mais com o pé atrás com as atitudes da nova procuradora-geral da República quando se relembra que ela, no início de agosto, teve um daqueles encontros às escondidas, tarde da noite, com o presidente Michel Temer, no Palácio do Jaburu, bem ao estilo daquele que o presidente teve com Joesley Batista.
Após a má repercussão na imprensa, ela afirmou que foi ao encontro de Temer para tratar da posse dela na chefia do Ministério Público. Mas quem vai saber se foi isso mesmo? Há testemunhas do encontro? Alguém gravou a conversa entre dois? As respostas para essas perguntas permanecem nas sombras, assim como permanece nas sombras o encontro com Michel Temer.
Esperamos que Raquel Dodge seja uma aliada dos brasileiros, e dos órgãos que lutam por uma sociedade mais justa, e que ela não seja aliada apenas de uma pessoa, ou de um grupo de pessoas que querem que as coisas fiquem, exatamente do jeito que estão, e que elas continuem praticando seus atos ilícitos sem serem prejudicadas por ninguém.
Muito há que se falar ainda, por exemplo, do vacilo dado por Joesley Batista ao não revelar tudo o que sabia, perdendo dessa forma os benéficos recebidos anteriormente na delação premiada...
Há que se falar da apresentação da nova denúncia de Janot contra o presidente Michel Temer, que envolve além do presidente, demais integrantes e ex-integrantes do alto escalão do governo...
Há que se falar também da denuncia apresentada por Janot contra os ex-presidentes Lula e Dilma, bem como outros integrantes da cúpula do PT, por formação de organização criminosa...
Há que se falar também da prisão de Joesley e de seu irmão Wesley Batista...
Mas tudo isso fica para outra postagem. Por aqui, os fatos políticos têm jorrado com uma abundância surpreendente. Jorrado não seria bem a palavra, uma vez que jorrar é próprio das fontes, enquanto que os fatos políticos no cenário brasileiro estão mais para erupção vulcânica.

É, caros leitores e leitoras, o furacão Irma não passou pelo Brasil, mas a energia pesada dele, sim, com certeza, deve ter sacudido Brasília nestes dias... 

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Um olhar sobre nossa história brasileira

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 13:55
Quinta-feira, 07 de setembro

Se Zumbi
Guerreiro-guardião
Da Senzala Brasil
Pedisse a coroação
E por direito o cetro do quilombo
Que deixou por aqui
Nossa bandeira era
Ordem, progresso e perdão
(300 Anos - César Feital/ Altay Veloso)



07 de setembro. Dia da independência do Brasil. Desde aquele dia 07 de setembro de 1822  já lá se vão 195 anos. Para a história de uma pessoa é bastante tempo para se contar e também muita história para se dizer. Mas quando se trata de um país, de uma nação não é tempo assim. É quase uma infância. A infância de uma pátria chamada Brasil. E toda infância que se faz adulta e responsável, se fez através de muitos erros e acertos, de muitas experiências, encontros e desencontros.

Para uma pessoa chegar à maturidade é preciso um longo e natural caminho. Algumas aprendem logo cedo. Outras não. Ficam batendo a cabeça no muro. Apanhando da vida por não perceberem os sinais ao longo do caminho. Essas últimas não percebem quando é hora de acelerar, nem quando é hora de frear. Elas fazem tudo ao contrário: aceleram quando é hora de frear e freiam quando é hora de acelerar, ficando dessa forma, perante a vida, em constante desacerto, em eterno descompasso.

É assim na vida: os indivíduos são crianças em seus corpos e suas matérias, e crescem o corpo, os órgãos, e, em processo natural, se tornam adultos, envelhecem, até que tornam a nascer novamente. A imensa maioria diz: “Ele ou ela morreu”. Mas o que é o morrem senão um nascer de novo?

Seria natural também que, à medida que passassem por esse processo natural de nascimento e crescimento em seus corpos, também os seres experimentassem esses processos em suas mentes. Mas não é bem isso que ocorre.

Muitas pessoas fazem todo esse caminho que a natureza impõe para seus físicos, mas permanecem em atraso com seus processos mentais. Crianças adultas são o que são. Isto preocupa, pois sabemos que a birra de criança passará na medida em que crescerem, já os adultos crianças... Ah, para esses não podemos ter tanta esperança... O tempo cuida disso, talvez...

Aquele 07 de setembro de 1822 — no qual conforme reza a lenda, Dom Pedro, às margens de um riacho, o riacho do Ipiranga, sacou de sua espada e gritou: “Independência ou morte!”, simples assim — de qualquer modo, simples assim, ou não, marcou uma fase importante na história de nossa nação. Naquele ano, nos livramos da dominação portuguesa, e, começando a nos livrar da pesada condição de colônia, começamos a dar os primeiros passos na conquista de nossa autonomia política.

De lá pra cá, quanto nossa pátria criança tem sofrido, ou melhor, de lá pra cá quanto se tem feito sofrer nossa pátria criança. Pensando bem, a história de nossa nação já começou errada. Errada porque se alicerçou no sofrimento, e no sangue do povo negro e do povo índio. Estes últimos que eram os verdadeiros e originais donos da terra brasilis foram pouco a pouco sendo dizimados. Hoje — daquelas nações indígenas iniciais, farta de guerreiros e guerreiras que corriam livres por nossas matas a caçar e a pescar, com seus belos corpos nus a se fartar do sol tropical, e com seus olhos estreitos a fitar os luzeiros do céu riquíssimos de estrelas e constelações — restam bem poucas aldeias e reservas indígenas, que como antes também são a cobiça dos homens brancos que tantas terras já possuem.

Com a nação negra, deu-se processo semelhante. Foram eles arrancados de sua terra natal, o Continente Africano. Tiveram suas nações por lá dizimadas, e foram trazidos para o Brasil em condições subumanas. Milhares deles morriam nas viagens degradantes dentro de navios negreiros, e tinham seus corpos sepultados em um mar bravio que os engolia como se fosse aquele mar bravio fosse o seu passaporte para Aruanda, cidade de luz, e o fim do sofrimento humano.

Por mais de trezentos anos nossa pátria criança viveu sob o domínio da escravidão... Ah, quanto sofrimento não se deu naquelas lúgubres senzalas escondidas nos engenhos pé-de-serra?

Quanto atraso viveu em nosso país em todo esse tempo? Atraso econômico, social, cultural, educacional, enfim decadência em diversos níveis. Uma situação de injustiça, sem dúvida. E quando o caminho do desenvolvimento é feito à custa do suor, do sangue e do sofrimento alheio, pensa-se que se avança, quando na verdade está-se retrocedendo. Dá-se um passo para frente e dois para trás. Quem progride ás custas do sofrimento de outrem faz como os caranguejos que andam para trás. Pobres senhores de escravos, que ao agarrar-se com unhas e dentes ao sistema escravista, naquele passado distante... Se eles pudessem ver como estão hoje às nações que se livraram das correntes, das chibatas, e dos açoites bem antes que nós eles é que chorariam lágrimas de tristeza e decepção...

E assim, vai o Brasil pela sua via-crúcis: já passou pelos domínios das trevas da escravidão, já passou pelos domínios das trevas da exploração e da dominação da coroa portuguesa, também já passou, em passado bem recente pelas trevas da cortina de ferro da ditadura militar. É bem que a pátria verde, amarela, azul e branca se libertou de todas essas trevas. Mas todas elas marcas deixaram marcas muito fortes das quais a nação não conseguiu se livrar até os dias atuais.

Quanto aos negros, depois da tão famosa Lei Áurea, que os libertou, foram eles jogados nos arredores das cidades, e nos cortiços, situação que originou o processo de favelização que hoje campeia pelas principais cidades brasileiras. Foram os escravizados esquecidos pelo estado brasileiro, que não lhes restituiu um centavo, seja em níquel, ou em bens e serviços, pelos enormes esforços e sacrifícios no desenvolvimento da economia colonial.

Já pensaram se o poder público daqueles tempos, tivesse dados condições às populações negras e indígenas de terem trabalho e vida dignas para se manterem após o período escravocrata? Certamente, hoje seríamos uma nação cujo brilho resplandeceria nos céus do globo terrestre, e não uma nação trôpega, que dá um passo aqui e cai dois logo adiante.

Das trevas do domínio da coroa portuguesa restou a herança de termos ficado ainda por muito tempo escravos dos mercados internacionais e do Fundo Monetário Internacional, coisas que atravancaram nosso desenvolvimento econômico.

Das trevas da ditadura restou um espécie de carência cultural. O país vinha nas décadas de 50 e 60 numa crescente efervescência cultural, com grandes e criativos nomes despontando em todas as áreas, seja na economia, na política, nas artes, na música, e na educação. Era como um jardim que está florescendo cheio de belas rosas de extravagantes perfumes. Veio então o facão da ditadura e ceifou as rosas do jardim. Matou a umas e torturou outras. As que sobreviveram ficaram com tantas sequelas e traumas, que mesmo em atividade, já não conseguiam ter a mesma força criativa de antes. Ainda hoje sofremos os efeitos devastadores daqueles anos sob a cortina de ferro.

Depois disso, tivemos uma abertura democrática. Era como se o sol tivesse nascido após a tempestade. O povo foi ás ruas e cantou e vibrou e sorriu e comemorou o fim da ditadura.

Porém, em período recente, descobrimos-nos enquanto brasileiros atravessando, em nossa via-crúcis, outro período de trevas: as trevas da corrupção e da roubalheira. Já não é mais um tapa que se dá na cara do povo brasileiro. São fortes e violentos socos. Desses tão fortes de fazer escorrer sangue pela boca e pelo nariz. Basta fazermos um parâmetro de apenas uma situação, por exemplo, as malas de dinheiro encontrada pela Polícia Federal, em um “banker”, localizado no bairro da Graça, em Salvador, e que, supostamente, seria de Geddel Vieira Lima, e no qual foram encontradas malas e caixas de dinheiro que somam R$ 51 milhões. A maior apreensão de dinheiro já feita pela Polícia Federal no Brasil. O ex Secretario de Governo de Michel Temer cumpre prisão domiciliar a menos de 1 km de onde foi encontrado o dinheiro.

É tanto dinheiro que a PF levou 14 horas para contar a dinheirama toda. R$ 51 milhões!!!!! O que daria pra fazer com todo esse dinheiro? Com certeza daria para cobrir as despesas de milhares de alunos, pagar o salário de milhares de professores, dar uma boa melhorada nos hospitais públicos, e por aí afora.

Isso falando das malas encontradas recentemente pela PF. E outros bilhões de reais embolsados pelos grandes caciques do PT, PSDB, PMDB, e por outros partidos menores? Reflitam sobre o quanto essas quadrilhas causaram danos ao Brasil. O mal do Brasil não é a Previdência Social. O mal do Brasil é essa gente ambiciosa e gananciosa que jogou fora a moral, a ética e decência.

É por essas e outras que muitos brasileiros têm andando tristes e cabisbaixos. Estão como diz a famosa canção, composta por Vinicius De Moraes e Carlos Lyra, chamada, Marcha da Quarta-Feira de Cinzas, que diz: “Acabou nosso carnaval, ninguém ouve cantar canções, ninguém passa mais brincando feliz, e nos corações, saudades e cinzas foi o que restou. Pelas ruas o que se vê, é uma gente que nem se vê, que nem se sorri, se beija e se abraça, e sai caminhando, dançando e cantando cantigas de amor”.

É hora de erguer a cabeça, e caminhar com dignidade por mais esta fase da história brasileira. Afinal, não é o povo que deve sentir-se diminuído e com vergonha. São os grandes caciques da política e do empresariado brasileiro desonestos. São eles que devem enfiar a cabeça em algum buraco como fazem as avestruzes.

Tudo isso é dolorido, mas não existe cura de males graves sem dor. A mudança está ocorrendo. As trevas atuais passarão, como passaram as outras. O sol brilhará novamente. Alguma marca deverá ficar, mas ela deverá servir para nos mostrar apenas que avançamos, progredimos, e que queremos um país cada vez mais e melhor.


Nenhuma situação injusta perdura para sempre. Mais dia, menos dia a verdade triunfará. E será como diz outro verso da Marcha da Quarta-Feira de Cinzas: “A tristeza que a gente tem, qualquer dia vai se acabar, todos vão sorrir, voltou a esperança.”

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E as crianças, quem se importa com elas?

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 21:51
Domingo, 03 de setembro
Criança feliz, que vive a cantar
alegre embalar seu sonho infantil
ó meu bom Jesus, que a todos conduz
olhai as crianças do nosso Brasil!
Crianças com alegria
qual um bando de andorinhas
viram Jesus que dizia:
Vinde a mim as criancinhas!
Hoje dos céus num aceno
os anjos dizem amém
porque Jesus Nazareno
foi criancinha também!
(Canção da Criança – composição: Lúcia Helena)


É certo.
É certo que imprensa brasileira dê grande destaque a maior operação investigativa da história do país: a Operação Lava Jato. Uma operação policial que mostrou ao Brasil a face mais perversa da relação empresários-Estado-políticos. Investigação essa que revelou à sociedade o criminoso esquema escondido na base da política brasileira, na qual estão envolvidos grandes empresários e partidos políticos de destaque nacional, bem como figuras aclamadas pela sociedade, e até o desfecho da operação policial, tidos como homens e mulheres nos quais se depositava alguma esperança de futuro para o Brasil. A corrupção, espalhou-se pelas três esferas do poder: Legislativo, Executivo e Judiciário. As mentes criminosas operam no Executivo através do superfaturamento de obras, e demais serviços contratados pelo estado e por empresas ligadas a ele. O Legislativo é dama bondosa que trabalha para os grandes grupos empresariais formulando leis que beneficiam diretamente a esses grupos, mesmo que os interesses destes sejam diametralmente opostos aos interesses da sociedade brasileira. Nessa relação entre a dama, poderosos grupos empresariais, e interesses do povo, fala mais alto o dinheiro ofertado pelos poderosos à bondosa dama.
É certo o esforço da luta do Judiciário, do Ministério Público, da Procuradoria-Geral da República, da Polícia Federal, no combate a essa praga que se alastrou pelos quatro cantos do país. O esforço de bravos ocupantes de cargos destas instituições, mesmo a despeito da falta de vontade dos políticos em colaborar para a extinção desse mal que é a corrupção, tem dado resultados muito positivos para a sociedade brasileira. Dentre esses resultados, podemos citar os acordos de cooperação internacional que têm ajudado a repatriar milhões de reais que descansavam sossegadamente em paraísos fiscais; os acordos de colaboração premiada que, mesmo sendo criticados por muitos, tem ajudado a desvendar a ponta do novelo desse intricado e complexo esquema de corrupção; o fortalecimento do judiciário e independência do poder judiciário; arrojadas investigações por parte do Ministério Público, da Polícia Federal, e da Receita Federal; além de mostrar à sociedade a podridão na qual está envolta o meio político.
É certo que a sociedade brasileira, de um modo geral, acompanhe com interesse e indignação, as investigações e as consequências da Lava Jato, e a partir disso, forme suas opiniões e tenha sobre a situação uma visão crítica.
Não é certo.
Não é certo que os parlamentares estejam a todo o momento querendo votar leis e fazendo manobras que prejudiquem o bom andamento das investigações a fim de abafar a Lava Jato, ou até mesmo extingui-la. Em Julho, ao apresentar à Justiça Federal de Curitiba, denúncia contra o ex-presidente Lula, por obras no sítio de Atibaia, os procuradores da força tarefa da Lava Jato disseram que há indícios estarrecedores de crimes praticados pelo presidente Michel Temer, e pelo senador Aécio Neves. Na ocasião, eles afirmaram também, através de nota à imprensa, que, mesmo após três anos de investigações, a cúpula da política brasileira, trama às escondidas, a anistia aos crimes por eles mesmos praticados, e ainda por cima, tentam colocar amarras nas investigações a fim de emperrá-las, bem como associar-se a agentes públicos com as mesmas finalidades. Segundo o MP, assim agindo, ficam esses políticos desonestos, de mãos livres para poder desviar o dinheiro dos brasileiros, mesmo em tempos de crise, usando como escudo para tal finalidade o foro privilegiado, e a imunidade parlamentar.
É muito certo a ampla cobertura da imprensa, é muito certo o esforço de juízes, policiais federais, e procuradores, é muito correto o interesse da sociedade em toda essa situação. É desprezível a atitude dos políticos em querer que nada mude que tudo continue como antes, e que eles mantenham o status quo, e as mordomias.
Tudo isso posto, que pese a balança para o lado da justiça.
Mas alguém já parou para pensar que poderemos nos tornar um país sem futuro?
Sim, pois se partirmos do pressuposto de que as crianças de hoje serão o Brasil de amanhã, e que pouco se tem falado delas, e pouco se tem feito por elas, onde está o futuro do Brasil hoje, senão caído no esquecimento. 
É claro que as crianças ainda não conseguem formular conceitos maduros de democracia, de corrupção, de desvio de dinheiro público, mas elas têm ouvidos para ouvir, e olhos para ver, e para ler as notícias do que acontece em nosso país. Mesmo nas rodas de conversas em casa, ou na escola, elas, de algum modo, estão internalizando tudo isto. E se elas começam a achar normal, e natural a atitude de mentir, corromper, roubar? Se isso acontece, então o caos se instalará no país e, no futuro, não passaremos de uma república de bananas, ou de uma nação de idiotas que pensam que, levando vantagem em tudo, conseguem chegar a algum lugar.
Em 21 de julho deste ano, a Fundação Abrinq — organização sem fins lucrativos que promove a defesa da criança e do adolescente — lançou o Panorama Nacional da Infância e da Adolescência, no qual revela que 2, 6 milhões de crianças e adolescentes brasileiros, entre 5 e 17 anos, vivem em situação de trabalho infantil. Ainda segundo a pesquisa da Abrinq, 8,5 mil crianças, entre 5 e 9 anos, ingressaram nesse universo em comparação aos anos de 2014 e 2015.
Outro dado preocupante apontado pelo Cenário da Infância e Adolescência – 2017, é o de que 17, 3 milhões de crianças, entre 0 e 14 anos vivem em domicílios de baixa renda. Esse número equivale a 40,2% da população brasileira para essa faixa etária.
Segundo a pesquisa, as regiões Nordeste e Norte do país lideram em número de pessoas que vivem com renda mensal ou inferior a meio salário mínimo. No Nordeste brasileiro são 60% das crianças vivendo em famílias com essas condições, e no Norte, 54%. De acordo com a Abrinq, 5,8 milhões de crianças, entre 0 a 14 anos de idade vivem nessa situação. Traduzindo em miúdos, 13,5% das crianças brasileiras nessa faixa etária vivem em extrema pobreza.
Da violência, os pequenos também não escapam. Segundo a pesquisa da Abrinq, quase 18% dos homicídios praticados no país, são cometidos contra crianças e adolescentes, pouco mais de 80% deles com armas de fogo. Sendo o Nordeste, a região que concentra a maior proporção de crimes cometidos contra a infância e a adolescência.
Não desprezemos também o fator televisão, que hoje é mais do que comum na casa do pobre e do rico, guardada as devidas proporções de conforto de sentar-se em frente a ela, tanto na casa de um como de outro.
Imagine o caro leitor, como os processos mentais se desenrolam na mente de uma criança que vive em extrema pobreza, em cuja família há dificuldade de comprar até mesmo o pãozinho nosso de cada, regado a uma gostosa manteiga e café. A criança, está em casa, ou na casa de algum amigo cujas posses já são um pouquinho maiores. Termina os desenhos animados, que fazem a alegria e a distração das crianças em qualquer lugar do mundo. Termina um bloco do programa e entra o intervalo comercial.
A criança, muitas vezes, nem tomou sequer o café da manhã, ou se tomou foi aquele café mirrrado. E as imagens de comidas deliciosas vão surgindo diante de seus olhos curiosos e de sua barriga faminta. Um fogão se acende. Na boca do fogão, uma panela. Nela, uma mão começa a derramar um doirado azeite. Uma cebola é partida ao meio. Uma pitada de sal é jogada na panela. Em seguida se abre, como que por mágica, o forno do fogão, e, dentro dele, está um peru bem tostado, bem assado, e, beirando a travessa na qual ele foi assado, verduras suculentas.
Imagine o leitor, leitora, como tudo isso se processa na cabeça da criança.
Idem para os comerciais que exibem carnes de primeira, enquanto em grande dos lares brasileiros, principalmente, nas regiões Norte e Nordeste, a comida na mesa é apenas um pouco de feijão e nada mais.
Indo mais além, como será que é visto as notícias de corrupção praticadas pelos políticos na casa dessas pessoas, e na cabeça dessas crianças? Estarão elas tão anestesiadas pela fome e pelo abandono que chegam a pensar que é boa a mão do político que só os procuram em épocas de eleição, quando precisam do voto das famílias dessas crianças? Será que elas consideram heróis aqueles que os traem e roubam seu futuro? Será que acham muito o pouco que lhes é oferecido em meio à miséria, falta de boas escolas, e de uma vida digna?
Pense o leitor, leitora, reflita sobre as malas, sacolas, caixas de dinheiro, cheias de milhões de reais, circulando pelo país, em meio à alta cúpula dos partidos políticos e empresários brasileiros, dinheiro ilícito, diga-se de passagem. Pense na imensidão de dinheiro que são desviados todos os anos dos cofres públicos para abastecer o bolso de políticos e empresários mesquinhos, nas viagens luxuosas, presentes magníficos, e vinhos preciosos comprados com o dinheiro do contribuinte, enquanto na mesa de milhões de crianças Brasil afora, falta o pão que lhes tirará um pouco da fome. Pense em tudo isso e responda: vivemos em país justo?

Que futuro teremos se não dermos escola de qualidade, saúde, esporte, lazer, e comida para as nossas crianças?

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As sementes da democracia

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 18:33
Domingo, 20 de agosto
“Atirei minha semente
Na terra onde tudo dá
Chuva veio de repente
Carregou levou pro mar
Quando as águas foram embora
Plantei sonhos no chão
Mais demora minha gente
Ter na hora um verde puro
Ou dar fruto bem maduro”
(Semente - Almir Sater & Paulo Simões)


Seja na aurora da vida, ou no meio do dia, seja ao entardecer da existência, sempre é tempo de internalizar algum conhecimento, de trazer para dentro de nós, algum princípio de sabedoria, que nos torne seres humanos melhores.
Para aquele que se coloca diante da vida como um aluno, cada dia, cada hora, cada momento é um ato de aprendizado. Mesmo porque a vida e o tempo são professores incansáveis. Professores que, fora dos métodos tradicionais de aprendizagem, às vezes ensinam pelo amor, às vezes pela dor. Em ambos os casos, o objetivo é sempre o mesmo: que estejamos prontos, ou quase prontos, no momento em que formos chamados para continuar o aprendizado nas salas de aulas da eternidade.
A eternidade é perfeição. Quantas vidas nos são necessária para alcançarmos a perfeição? Quem de vós pode bater no peito e afirmar-se um ser humano perfeito?  Tu mesmo, conheces alguém que seja perfeito neste mundo de ilusões fugazes?
“Sede perfeitos como é perfeito o vosso pai que está nos céus”. Assim nos exorta Jesus nos evangelhos. Mas... Quão difícil é o caminho, e quão íngreme a estrada que leva a perfeição. Levanta-se aqui, cai acolá. Um passo de cada vez. Mais um. Alguns desistem de continuar o caminho. Outros resmungam e se afirmam incapazes de tal coisa. Estes terão trabalhado dobrado, pois a eternidade como símbolo de perfeição e evolução não aceita desistências, pois não conhece outro objetivo que não seja o encontro do homem com sua essência.
Talvez o mais difícil nessa caminhada em direção à plenitude é que não se podem pegar elevadores, nem aviões, nem todas essas modernidades que levam a humanidade para cima e para baixo, seja nos pequenos prédios de qualquer cidade, seja nos arranha-céus de Dubai. Na estrada da plenitude, não tem jeito: a subida é feita degrau por degrau, passo a passo. Pode ser que isso irrite a muitos tão arraigados às modernidades, acostumados a viver na velocidade da luz quando se trata de tecnologia.
Ainda falando desse Jesus que nos exortou a sermos perfeitos como o Pai é perfeito, ao que nos consta, em seu currículo não há nenhuma graduação em Stanford, nenhum doutorado em Cambridge, nem um pós-doutorado em Harvard. Também não consta do currículo dele nenhuma especialização em Oxford. Nem tampouco, o nazareno, nascido de gente simples, e vivendo entre gente simples, era versado em línguas. Se houvesse redes socais naquela época, certamente não o encontrarias em viagens luxuosas pelo Caribe, nem encontrarias postagens dele vivendo em grandes mansões, nem rodeado de celebridades.
No entanto, aquele homem simples conseguiu confundir um império inteiro. E não era um império qualquer. O império em questão tratava-se do poderoso Império Romano. A força do Messias era tão forte e as sementes que ele espalhou, eram tão poderosas, que mesmo após sua morte, e sem a força das armas, conseguiu vencer aquele que havia lhe tirado a vida física. Como uma semente que cresce e se fortifica, mesmo sofrendo perseguições por três séculos após a morte de seu principal ícone, no ano 313, o imperador Constantino legaliza o cristianismo, e em 390, ele se torna a religião oficial do Império Romano.
Assim, mesmo sem diplomas importantes, e sem o domínio das línguas, a palavra daquele que andava entre pescadores e era acolhido por gente simples, espalhou-se por entre as nações.
Toda essa obra, porém, só cresceu e frutificou por ter sido plantada em solo fértil, e regada com muito suor, e até com sangue. Solo fértil e boa semente: Eis aí a receita para que se possa fazer prosperar uma obra, para que se façam crescer as nações, e juntamente com elas, os sonhos e desejos daqueles que se abrigam sob os seus mantos, suas bandeiras.
Abre-se nesse ponto do ponto do presente escrito para a parábola do semeador, proferida pelo mestre à beira de um lago. Outra curiosidade a respeito deste homem é  a de que ele não falava as coisas claramente aos seus discípulos e aos seus seguidores. Sempre falava sobre os mistérios divinos e ate sobre si mesmo usando histórias simples, cheias de simbolismo, nas quais cada elemento da narrativa tem um significado específico. Em todas elas, porém, há sempre algum ensinamento, alguma reflexão sobre a vida. Conta a parábola:
A parábola do semeador
Naquele mesmo dia Jesus saiu de casa e se sentou à beira do lago. Uma grande multidão se juntou ao seu redor. Havia tanta gente que Jesus entrou num barco e se sentou; e toda a multidão permanecia de pé na praia. Jesus lhes ensinou muitas coisas por meio de parábolas. Ele dizia:
— Certo homem saiu para semear. Enquanto semeava, uma parte das sementes caiu à beira do caminho e os pássaros vieram e as comeram. Outra parte caiu no meio de pedras, onde havia pouca terra. Essas sementes brotaram depressa pois a terra não era funda, mas, quando o sol apareceu, elas secaram, pois não tinham raízes. Outra parte das sementes caiu no meio de espinhos, os quais cresceram e as sufocaram. Outra parte ainda caiu em terra boa e deu frutos, produzindo 30, 60 e até mesmo 100 vezes mais do que tinha sido plantado. Quem pode ouvir, ouça.
Sabe-se que para que uma cultura de qualquer grão ou cereal tenha efeito, são necessários três coisas: semeador, semente, e solo.
Ora, e o que tem que fazer o semeador? Nada mais além de semear a semente. Se passar pelos campos e deixar a semente na sacola nada terá feito, e semente nenhuma terá semeado. Se as deixar estocadas no celeiro tampouco haverá safra nenhuma. Portanto, o trabalho do semeador é arregaçar as mangas e por se a semear.
Para que o trabalho daquele que semeia seja produtivo e a safra seja farta concorrem duas coisas: que a semente seja boa, e que o solo na qual ela é depositada também o seja. Não adianta jogar boa semente em solo ruim. Perde-se o trabalho todo.
Na parábola em questão o semeador depara-se com quatro tipos de situação: as sementes que caíram à beira do caminho, às que caíram em meio às pedras, às que caíram em meio aos espinhos, e às que caíram em terra boa. As primeiras foram comidas pelos pássaros, as segundas ficaram espremidas entre as pedras. Essas até brotaram, pois ainda ali havia um pouco de terra, mas não era suficiente para que as sementes germinassem. Faltava-lhes profundidade para que as raízes pudessem se aprofundar. As seguintes foram sufocadas pelos espinhos, e as últimas, caíram em terra boa. Essas sim! Cresceram e deram bons frutos para alegria daquele que semeou.
Transpondo esta parábola para o campo político, temos que a democracia tem semeado suas sementes pelos campos imensos do país. Mas poucas sementes têm frutificado. O solo do país é fértil. A semeadora é esforçada e sábia. Porém para que a semente cresça e frutifique no solo de uma nação há que concorrer quatro coisas: bom semeador, boa semente, solo fértil, e vento favorável.
Infelizmente, nos campos da política brasileira estão faltando ventos favoráveis. A democracia tem tido um trabalho medonho. Sua sacola está cheia de boas sementes, e há um solo de primeira qualidade ávido de sementes para fazer frutificar. Mas os ventos não tem sido favoráveis. E esses ventos, soprando em contrário, fazem com que muitas sementes caiam à beira do caminho. Podemos comparar estas aos políticos que ingressam na política, mas sem muita convicção, e sem vocação para a vida pública, acabam sendo presas fáceis de negociações escusas e logo abandonam a causa pela qual deveriam lutar, e mudam de lado rapidamente, abandonando aqueles que os elegeram através do voto.
Os que caem entre as pedras, podemos compará-los àqueles que até entram para a política com boas convicções, cheios de ideais de mudança, e planos de lutar para que o país tenha um futuro melhor. Entretanto, esses conceitos, vontades e ideais estão apenas no campo teórico, sem estarem enraizados em seu caráter. Esses logo sucumbem ao oferecimento da primeira propina, e aliam-se aos poderosos, esquecendo, rapidamente, seus sonhos de uma nação que cresce junto com seus habitantes. As sementes que caem entre os espinhos são aqueles que entram cheios de entusiasmo, e de idealismo, porém, encontram nas casas legislativas um clima tão adverso, tão cheio de corrupção e falta de compromisso com o povo, que ficam sufocados por essas dificuldades e deixam morrer em seus corações o desejo de lutar por um país melhor. Essas sementes logo secam e apodrecem, não dando fruto algum.
Porém, ai do povo de um país, de uma nação, se nenhuma semente caísse em terra boa. Aí seria o fim dos sonhos. Apenas campos secos e desertos. Sem frutos para alimentar a população, e sem árvores que abrigasse do calor intenso. O trabalho da incansável semeadora democracia não é de todo em vão em nosso país. Há sementes que caem em terra boa. Essas são aqueles políticos que, mesmo, e apesar de toda a adversidade, apesar das tentações que lhe passam pela frente, ainda conseguem dizer não aos projetos contrários aos interesses da nação quando eles são colocados em plenário em votação. Esses nem sempre ganham, mas também nem sempre perdem.
E graças a essas sementes que caíram em terra boa, é que os campos ainda tem esperança de não serem dominados pelo terrível joio, e de ainda frutificar produzindo “30, 60 e até mesmo 100 vezes mais do que tinha sido plantado”.

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