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A delação do fim do mundo

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:10
Sexta-feira, 16 de dezembro

Marcelo Odebrecht

Assim, diz o grande poeta Vinícius de Moraes, na canção, Marcha da Quarta-feira de cinzas:

Acabou nosso carnaval
Ninguém ouve cantar canções
Ninguém passa mais
Brincando feliz
E nos corações
Saudades e cinzas
Foi o que restou

Pelas ruas o que se vê
É uma gente que nem se vê
Que nem se sorri
Se beija e se abraça
E sai caminhando
Dançando e cantando
Cantigas de amor

E no entanto é preciso cantar
Mais que nunca é preciso cantar
É preciso cantar e alegrar a cidade

Estamos a poucos meses do carnaval, e já vemos as máscaras começarem a cair. E as máscaras caem em todos os cordões, em todos os partidos. Isso se deve ao samba enredo da Lava Jato. Samba este que promete ser um dos maiores campeões no combate ao carnaval da corrupção. Pelas ruas do Brasil, a população desiludida e enojada com tanto bicho-papão, não passa mais brincando feliz. No coração apenas saudades e cinzas são o que restam.

As canções silenciaram. Os surdos pandeiros e tamborins antes tão eufóricos, ficaram quietos, a espera do que vai acontecer, e se vai acontecer alguma coisa que os devolva a alegria característica.

E enquanto a Lava Jato faz as máscaras caírem, o sentimento é de decepção. Pois quem pensávamos ser pierrô, não é. Quem pensávamos ser colombina, não o é. Tudo não passava de uma gente falsa, gananciosa e interesseira, se fazendo passar por folião. E, misturados à multidão de foliões embriagados pelo vinho da esperança, pouco a pouco, os falsos foliões, roubavam aos verdadeiros foliões a esperança de novos e alegres carnavais, sem que os mesmo percebessem que estavam sendo enganados.

Enquanto o povo, entusiasmado, seguia nas ruas o bloco da democracia, eles se reuniam nos salões da Odebrecht, Andrade Gutierrez, OAS, Engevix, Camargo Correa, Queiroz Galvão, e outras empreiteiras. Nesses salões do baile da corrupção, empresários como o príncipe Marcelo Odebrecht, seduziam a eles, políticos, e os tornavam seus escravos, ávidos por rica propina.

O namoro das empreiteiras com o poder é de longa data. Em 1950, por exemplo, a Andrade Gutierrez já construía estradas durante o governo do Juscelino Kubistheck. A rainha delas, a Odebrecht já começou a colocar a coroa na cabeça quando flertou com o governo militar, e saiu de um décimo nono lugar para terceiro no ranking das empreiteiras. Isso se deu entre os anos de 1969 e 1974.

Quando o Partido dos Trabalhadores chegou ao poder em 2003 com o presidente Luís Inácio Lula da Silva, a Odebrecht já era a número 1. Daí, como se diz no ditado popular “juntou a fome com a vontade de comer”. O PT com sede de poder, e a empreiteira com cacife para pagar uma gorda propina. Durante os governos petistas de Lula e Dilma, a gigante do ramo das empreiteiras reinou absoluta. A empresa viu multiplicar grandemente seu faturamento em números absolutos. Segundo dados divulgados pela revista Época, em julho de 2016, o faturamento da Odebrecht durante os governos petistas saltaram de R$ 17, 3 bilhões para 107,7 bilhões.

Porém, tudo na vida tem seu preço, em troca dos contratos bilionários com as estatais, a empreiteira tinha que subornar políticos e fazer doações ilegais para abastecer campanhas eleitorais. Também se coloque nessa conta os favores em nível pessoal trocados entre empreiteiras e governantes, como por exemplo, sítios em Atibaia e reformas de luxuosos apartamentos na praia do Guarujá.

Hoje sabemos que todo esse crescimento não passou de uma vergonhosa e ilegal troca de favores entre governos e empreiteiras. A cereja desse bolo foi, sem dúvida, a Petrobrás. Na estatal, a Odebrecht sempre abocanhou os melhores contratos, chegando a somar esses contratos cerca de R$ 33 bilhões. A empresa também tem participação expressiva quando se trata de obras no exterior. Quando se trata de financiamentos por parte do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), ela foi uma das mais agraciadas, e recebia a fatia maior do bolo, sobrando para as outras empresas algumas migalhas. De um total de cerca de R$ 12 bilhões em financiamento liberado pelo BNDES para obras no exterior, a empreiteira abocanhou R$ 8,2 bilhões.

Obviamente que negócios tão vultosos exigiam uma logística criminosa, sofisticada, e fraudulenta.

Em 2010, a Odebrecht comprou 51% do controle acionário do Meinl Bank Antígua, no Caribe, pela quantia de US$ 3,984 milhões. O restante das ações permaneceu com o Meinl Bank Viena. Posteriormente, através de outras operações de compra o grupo Odebrecht chegou a dominar 67% das ações. O Meinl Bank Antígua chegou a movimentar US$ 1,6 bilhão, distribuídos em mais de 40 contas.

O Meinl Bank não era um banco comum, com operações bancárias comuns. Era um banco de fachada, e sua missão era administrar a propina que seria distribuída no Brasil, e também no exterior.

As contas eram abertas em nome de terceiros, e para justificar repasses de dinheiro a essas contas foram firmados falsos contratos de prestação de serviços. Depois que as offshores começaram a aparecer nas investigações da Lava Jato, em 2015, elas foram fechadas. Quando estourou o escândalo os executivos da Odebrecht pensaram em fugir do país, uma vez que as operações no Caribe eram coordenadas aqui do Brasil. Outra alternativa era a compra do restante das ações do banco, com finalidade de sumir com todas as documentações e provas.

Grande parte dos recursos do Meinl Bank Antígua, voltava ao Brasil, depois era repassado a especialistas em lavagem de dinheiro, e em seguida aos seus destinatários finais. Muitos de nossos senadores, deputados, e até presidentes da Republica são muito gratos ao banco caribenho, coordenado do Brasil, pois através do dinheiro advindo dele, conseguiram financiar suas campanhas. Talvez esse seja o caminho para se entender porque nossos políticos insistem tanto em legislar em causa própria, dando às costas para os reais interesses da nação. Também talvez seja esse o motivo pelo qual querem amordaçar o judiciário, e frear a Lava Jato, para que a verdade não venha à tona.

Esse ciclo de corrupção sistemática não parava por aí. Os políticos tinha que pagar de alguma forma, o dinheiro sujo recebido em suas campanhas eleitorais. O compromisso deles passava a ser, não com aqueles milhões de brasileiros que os elegeram, mas com os grandes grupos econômicos que financiaram suas campanhas. Eles se tornavam uma espécie de reféns das empreiteiras. Conseguiam para elas excelentes contratos e em troca recebiam gordas propinas, num girar sem fim do moinho de vento do mal.

Todos os grandes partidos e a elite política dirigente de nosso país estavam envolvidos nesse ciclo vicioso de corrupção. Os diretores que geriam as áreas principais da estatal brasileira do ramo petroleiro tinham que ser desonestos. Se fosse honesto não servia para o posto. Por quê? Porque eles eram colocados nesses postos chaves justamente para se coadunarem às empreiteiras, combinar os contratos, discutir os preços das obras, e, obviamente, acertar o preço da propina. Na Odebrecht, por exemplo, havia um setor que foi criado com a finalidade de distribuir propina, que era o Setor de Operações Estruturadas, cuja lista de clientes não devia ser pouca.

Vieram as reveladoras investigações da Lava Jato, e Marcelo Odebrecht, finalmente, foi preso, em 19 de junho de 2015. Naquela ocasião, nem ele acreditava que seria preso. E se fosse, acreditava que não passaria mais que 24 horas na prisão. Arrogância e prepotência eram os comportamentos predominantes dele no momento da prisão, e durante os meses que se seguiram. Se recusava a responder as perguntas do juiz Sérgio Moro, e a fazer delação premiada.

Entretanto, para todo homem arrogante e prepotente chega o dia em que precisar ser humilde, e reconhecer que seu castelo de cartas desabou. Isso aconteceu com Marcelo, somente alguns meses depois de ser preso.

Marcelo Odebrecht chegou a conclusão de que, para a Odebrecht continuar existindo, ele teria que abrir a boca. Ele, Marcelo, e mais de setenta executivos da empreiteira fecharam então acordo de delação premiada.

A preparação para o fechamento de acordo de delação premiada foi uma mega operação, quase um planejamento de guerra. Segundo informações divulgadas pela revista Veja, “as negociações envolveram um batalhão de 400 advogados de vinte dos mais renomados escritórios de advocacia do Brasil e do exterior. É tanta gente implicada que a empreiteira reservou parte de um hotel em Brasília apenas para organizar o trabalho na reta final”.

E o que Marcelo e os executivos da Odebrecht têm a dizer ainda vai sacudir o Brasil. Vão ser tiradas as máscaras de muitos políticos, dos mais variados escalões do governo. Podendo atingir, inclusive, o próprio presidente da nação.

As bombas, na verdade, já começaram a explodir. Pense o leitor, ou leitora, em vários livros reveladores sobre corrupção. Assim será as delações que vem por aí, cheias de casos de corrupção de arrepiar os cabelos. Na delação de Cláudio Melo Filho, ex-diretor de relações institucionais, por exemplo, há um capítulo inteiro dedicado ao presidente Michel Temer. É nesse capítulo que o nome de Michel Temer está citado 43 vezes.

O ex-diretor afirma que o papel de Temer dentro do esquema era discreto, não cabendo a ele solicitar contribuições. Sendo que isso ocorreu uma vez de modo relevante. O caso aconteceu, em um jantar no Palácio do Jaburu, então residencial do vice-presidente da República. Na ocasião Michel Temer teria pedido a Marcelo uma doação de R$ 10 milhões. As tratativas desse caixa dois foram feitos diretamente com Temer, segundo o delator. Desse total R$ 4 milhões foram entregues no escritório de José Yunes, que depois tornou-se assessor especial da presidência da República.

Ao ver seu nome citado na delação premiada de Cláudio de Melo, Yunes pediu demissão do cargo.

Como todos os citados em delações premiadas, tendo provas evidentes ou não contra eles, todos dizem a mesma coisa, “repudio severamente as declarações”.
Na verdade, nós brasileiros, é que repudiamos os comportamentos inadequados de nossos políticos.

É por isso que eles alegam soberania das nossas casas legislativas em suas decisões: apenas porque legislam em causa própria. Querem apenas livrar a própria pele, desconsiderando e desprezando os verdadeiros interesses e aspirações dos brasileiros.

E assim, politicamente, o ano de 2016 entregará ao ano de 2017 uma caixa cheia de dinamite. Mas o ano ainda não terminou e muitas surpresas podem nos estar reservadas.
Voltando a segunda parte da Marcha da Quarta-feira de Cinzas, de Vinícius de Moraes para terminar.

Ei foliões e folias de todo o Brasil. Não fiqueis tristes. Lembrem-se vocês de que, mais do que nunca é preciso cantar, mais que nunca é preciso cantar e alegrar a cidade. Veste, tu, novamente a fantasia da alegria. Pois tudo é que ruim passa, toda tempestade não dura eternamente, e um dia o sol volta a brilhar. Um dia toda a sujeira será varrida, e o país, livre dela e de quem as provocou voltara a sorrir e a cantar e a se abraçar. A banda tocará novamente e tudo voltará à normalidade.

Assim é o que diz a segunda parte da canção:

A tristeza que a gente tem
Qualquer dia vai se acabar
Todos vão sorrir
Voltou a esperança
É o povo que dança
Contente da vida
Feliz a cantar

Porque são tantas coisas azuis
E há tão grandes promessas de luz
Tanto amor para amar de que a gente nem sabe

Quem me dera viver pra ver
E brincar outros carnavais
Com a beleza
Dos velhos carnavais
Que marchas tão lindas
E o povo cantando
Seu canto de paz
Seu canto de paz

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