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Ausência de jardins

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:20
Segunda-feira, 07 de novembro


Pelos campos há fome em grandes plantações
Pelas ruas marchando indecisos cordões
Ainda fazem da flor seu mais forte refrão
E acreditam nas flores vencendo o canhão
Vem, vamos embora, que esperar não é saber,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer

(Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores – Geraldo Vandré)


Faltam jardins nas grandes cidades. Talvez por isso elas estejam tão violentas. Indo mais além, está faltando jardins no mundo, e quem sabe, por isso o mundo esteja tão violento. O jardim nos traz a ideia do cuidado, do cultivo que faz brotar a bela e perfumada flor. A mão que cuida de um jardim é cheia de sensibilidade. O coração daquele que semeia uma semente é cheio de esperança. E, se há escassez de jardins, por certo há falta de jardineiros...


Porém, como cultivar jardins numa sociedade imediatista e consumista? Há que se arranjar algum jeito, pois onde não há cultivo de flores, brota matagal ou deserto, gera exclusão. 

E a exclusão se dá das mais variadas formas e pelos mais variados motivos.

Todos os dias, diante da enxurrada de notícias que nos é trazida pelos meios de comunicação, é impossível não tomar conhecimento da crise de refugiados que se intensifica a cada ano. La eles fogem das instabilidades políticas, do terrorismo, e das guerras civis que tiram a vida de muitos inocentes. É o absurdo humano roubando sonhos e vidas.

Em meio a tudo isso, o mundo acompanha com apreensão o resultado das eleições norte-americanas, pois querendo ou não, a America ainda comanda os destinos do mundo. Dependendo de quem seja eleito por lá, as políticas imigratórias ainda farão sofrer muito mais gente. Talvez sejam erguidos muros em honra ao egoísmo, e, quando se constroem muros que edificam elas ajudam a tornar o mundo melhor, mas quando se ergue muros que separam os sonhos, o resultado é inverso.

É assim no mundo. É assim na cidade de Campinas, pequeno recorte de uma realidade das grandes cidades brasileiras. Ande-se pelas ruas de Campinas, principalmente pelas ruas da região central, e o que se vê são marquises e ruas apinhadas de mendigos e moradores de rua.

A maioria das pessoas passa a pé, ao lado deles, e fingem não ver. Outras passam de carro, e fecham os vidros, com medo de estarem diante de um violento. Abre-se o sinal e elas aceleram. Partem sem ao menos perceber que a violência não está na pessoas, mas no sistema econômico que as exclui do banquete da vida. Não percebem que a violência está nos políticos que pactuam e compactuam com desonestos esquemas de corrupção, que geram pobreza. Se pensássemos melhor, fecharíamos os vidros dos carros, e transitaríamos pelas ruas ignorando quem traz esse tipo de violência à sociedade.

O Psicólogo Social, Michel Cabral, andando pelas ruas de Campinas, percebeu a cruel realidade dos moradores de rua, e a transformou em texto reflexivo, agora compartilhado por esse blog. Michel é Graduado em Psicologia pela PUC-Campinas (2009-2013), e Especializando em Pedagogia Social pelo UNISAL. É autor do blog http://cabralmichel.blogspot.com.br/.

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Laços apodrecidos e a vida pelas ruas


Michel Cabral


Um fenômeno presente nas principais metrópoles é o das Pessoas em Situação de Rua, que são caracterizados como pessoas sem uma moradia convencional, de vínculos familiares rompidos ou fragilizados, de laço comunitário enfraquecido e de extrema vulnerabilidade social.

  Em uma cidade como Campinas-SP é fácil pelas ruas do centro se deparar com uma pessoa deitada em alguma escadaria ou nas "barracas de papelão e lona" encontrar com um ser humano passando por essa situação.

 Trabalhando há 2 anos com esse segmento na política pública de assistência social, desenvolvi uma visão acerca dessa problemática e procuro nesse texto compartilhar com as pessoas que tem a necessidade de embasar suas reflexões acerca de um assunto delicado e que requer delicadeza no trato.

  Há duas dimensões para se pensar a questão, sendo a primeira superestrutural, que se refere a forma como a sociedade se organiza, o sistema econômico e social, a cultura colonial que somos herdeiros, o senso de comunidade fragilizado e o capitalismo de forma geral; em um segundo momento há questões infraestruturais, que reflete aspectos da vida diária, da própria subjetividade do sujeito e dos relacionamentos. Ambas dimensões existem de uma maneira dialética, uma alimentando e construindo a outra, sem poder dissociá-las na reflexão.

  O sujeito observado andando pelas ruas do centro de Campinas revela elementos "cruéis" de uma sociedade capitalista, onde o direito à uma vida digna é apenas discurso de campanha eleitoral e no calendário da agenda política se sobrepõe a lógica do lucro. Também observa-se a ausência do direito à moradia e o direito ao trabalho e renda, ainda mais em tempos de crise econômica em que o sistema dá indícios de seu esgotamento e acalora ações de caráter higienista e desumano. Não mais importante, o fato de existir uma pessoa dormindo na calçada expõe que não há comunidade no seu entorno, no máximo um agrupamento de indivíduos também lutando por sua sobrevivência e ignorando o fato que compartilham junto com o morador de rua da fragilidade de laços comunitários.

 A forma como nos relacionamos cotidianamente e edificamos essa sociedade, são as bases para a miséria e a vulnerabilidade que a humanidade enfrenta. Visualizar no outro apenas o meio para a satisfação dos nossos desejos; desconsiderar a convivência como criadora/mantenedora de saúde mental; viver (será?) no individualismo, imediatismo e puro materialismo; e a falta de diálogo, são ingredientes necessários para a pauperização de nossa existência.

 As pessoas que fazem da marquise a sua casa, são expressões de uma polis doente, onde o amor de conviver e se preocupar com o outro é secundário. Talvez por isso, brota o comportamento do abuso de álcool e outras drogas na rua, para se anestesiar do organismo doentio e esquecer que faz parte dele.

 Em meio a essas reflexões escuto: - Mas são pessoas perigosas, agressivas e violentas - branda a senhora no saguão do prédio. Na falta de paredes e um teto, conseguimos observar a violência de um homem que tenta bater no outro; na ausência de privacidade nos deparamos com uma briga verbal; o senhor que passou o dia se esgueirando da GM, senta-se sob a porta de uma loja e como qualquer ser humano, ainda mais sem ter alguém para conversar, desabafa em voz alta sua tristeza, raiva e chateamento pela situação: - Vão tudo tomar no cú, eu mato um por um, não aguento mais, caramba. A senhora do saguão do prédio não precisa se preocupar de ser classificada de violenta, a privacidade da sua casa impede das pessoas ouvirem alguma ameaça, ofensa ou coisa pior verbalizada em seus aposentos.

 É no viver (?) automático que vamos perdendo a nossa humanidade; é na falta de diálogo que os laços comunitários vão apodrecendo; e a realidade imperiosa de uma sociedade falida que vem bater a nossa porta e lembrar que se não fosse pelos limites burocráticos de um CEP, uma escritura, conta bancária, diploma, paredes e portão, conseguiríamos observar que o mesmo problema que aflige as pessoas em situação de rua, vez ou outra, vem nos visitar dentro de casa.


 É nessa hora que eu me lembro que preciso cuidar dos pequenos "jardins de gente" que faço parte, de outros não poucos que existem e lutar para fazer florescer outros pequenos "jardins de gente" que previnem o apodrecimento dos laços comunitários. E ter a esperança de quem batalha no mundo das ideias e da prática, de que um dia, a rua apenas seja local de passagem para os seres humanos e não local de "moradia".

2 Comments


Primeiramente obrigado pelo compartilhamento e vamos amadurecer a ideia de escrever um texto juntos sobre ciclismo?

Sinceramente, gostei muito da introdução que vc fez e da ideia do cultivo de um jardim.

Abraços


Michel, eu é que agradeço por você ter cedido essa reflexão à este blog. Quanto ao texto sobre ciclismo, acho uma boa ideia, afinal, nem só de políticas, sociologias, e psicologias vive o homem, mas também das saudáveis energias que o esporte traz. Desafio lançado, é desafio aceito.

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