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A queda de Gedel

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 09:39
Sábado, 26 de novembro



Antes apresentar o texto que é objeto dessa postagem, e que lhe serve de título, este blog gostaria de fazer uma homenagem a um homem que deixou sua marca na história da humanidade. Querendo ou não, concordando ou não, gostando o leitor ou não, ele se tornou um rosto inconfundível, com uma história de vida mais ainda. Hoje ele foi, partiu para a eternidade, e descobrirá que a vida é muito maior que a ilusão que viveu, e a sede de poder que experimentou. Fidel Castro prossegue agora seu caminho na eternidade. O líder político cubano faleceu às 1h29 (horário de Brasília), deste sábado, 26 de novembro. O anúncio da morte dele foi feita pelo irmão dele, Raúl Castro, em um pronunciamento feito na TV estatal cubana, para uma Cuba silenciosa, e, certamente, triste.

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Ex-ministro, Gedel Vieira Lima

O presidente Michel Temer perdeu o seu braço direito.

Coisa boa é ter os braços que vieram com o nascimento. Porém, a tecnologia avançou tanto que, na falta deles, pode-se colocar uma prótese que substitui os braços naturais, e têm-se braços que cumprem perfeitamente a função daqueles primeiros.

Na política, não há braços naturais. Às vezes, é forçoso ficar sem as próteses, e alguns até relutam em abandoná-las . Tentam até o fim e de todas as maneiras ficar com elas, mesmo que  sejam boas, mas defeituosas.

Foi o que aconteceu com o braço direito de Temer, o ministro Gedel Vieira Lima. Ele teve que ser tirado do lugar do lugar, será substituído por outra prótese. Aliás, em seis meses, essa já é a sexta que o presidente substitui. Por certo, a qualidade das próteses em Brasília deve andar de mal a pior.

Gedel Vieira Lima (PMDB), ministro-chefe da Secretaria de Governo, deixou o cargo na sexta-feira (25). Não deixou por livre e espontânea vontade, nem muito menos o presidente Temer o liberou do cargo por vontade própria. As circunstancias nebulosas obrigaram o ministro a pedir para deixar o cargo, e ao presidente Temer, aceitar, forçosamente, o pedido.

Quais as circunstâncias que levaram a saída de Gedel, e que colocaram o governo no centro de mais uma crise?

Vamos começar do início, para que o fio da meada fique mais evidente.

O pivô da crise foi o ex-ministro da Cultura, Marcelo Callero.

Em maio, uma das primeiras atitudes de Temer como presidente foi extinguir o Ministério da Cultura (MinC). O ato causou uma onde de protestos da classe artística. Diante dessa pressão, o governo resolveu recriar o MinC. Marcelo Callero foi então nomeado ministro para essa pasta. E o que havia sido transformado em secretaria voltou a ser ministério. Nada mais justo.

Assim que assumiu o comando do MinC, Callero foi informado por Jurema Machado, presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), de que havia um empreendimento imobiliário na Bahia que estava despertando interesses imobiliários. E, aproveitando a ocasião, Jurema alertou ao novo ministro de que era possível que houvesse pressões políticas para liberar o empreendimento.

Ainda em 2014, o Iphan da Bahia havia dado parecer favorável à construção de um empreendimento imobiliário chamado La Vue Ladeira da Barra, com cerca de 100 metros de altura, a ser construído em uma região histórica, e bastante valorizada de Salvador. Ainda neste ano de 2016, e ainda sob o governo Dilma Rousseff, técnicos do Iphan nacional se debruçaram sobre o projeto e chegaram à conclusão de que o prédio comprometia a visibilidade de três prédios tombados, contrariando o parecer do Iphan baiano. 

Foi em meio a essa polêmica que Marcelo Callero subiu no barco. Alguns dias após assumir o Ministério da Cultura, Callero é então procurado por Gedel Vieira Lima, que diz a ele que o Iphan nacional havia, absurdamente, contrariando o parecer do Iphan da Bahia acerca de um empreendimento imobiliário a ser construído, e que essa decisão deveria ser reanalisada.

Foi sob essa queda de braço entre o Iphan nacional e o Iphan da Bahia que começaram as pressões por parte de Gedel sob Callero, por telefone, e pessoalmente, por pelo menos quatro vezes. A insistência era grande e incisiva por parte de Gedel para que Callero apresentasse um parecer divergente do que o Iphan nacional havia apresentado.
Apenas em 28 de outubro, o ministro da Cultura entendeu o motivo de tanta pressão e insistência de Gedel. Este havia comprado um apartamento no tal empreendimento. Havia um interesse pessoal por trás de toda aquela pressão.

Marcelo Callero é daqueles que tem um nome a zelar, e zela por ele, e logo pensou que não iria chafurdar na lama por causa de outro ministro de Estado. Deixaria o status de ministro, voltaria à condição de servidor público, diplomata de carreira, mas não jogaria o nome no lixo.

E foi o que fez.

Teria ficado em silêncio, se não tivesse sido alertado pela mídia de que o governo tentava macular sua imagem criando hipóteses inverídicas para sua saída do MinC.

Para proteger-se, resolveu contar tudo em uma entrevista dada à Folha de São Paulo, no último dia 19 deste mês, e que foi o fato que jogou lama no ventilador. Todo mundo ficou sabendo que ele havia saído do ministério porque fora pressionado por Gedel para emitir um parecer técnico que somente favoreceria interesses pessoais do ministro.

Temer, como em casos anteriores custou a demitir Gedel, mesmo com todas as provas e evidências da prática de tráfico de influência por parte de seu articulador político. Aliás, a prática de proteger corruptos em nossos governos parecer ser uma coisa normal e corriqueira. A impressão que dá é que ser honesto é um desserviço à nação, e que o político, ou servidor público, pra ser bom e fiel ao governo tem, necessariamente, que ser desonesto.

A entrevista foi publicada na Folha, em uma quinta-feira. Na segunda (21), a Comissão de Ética da Presidência da República votou pela abertura de um procedimento para apurar se Gedel Vieira Lima, havia violado legislação sobre conflito de interesses em imóvel avaliado em R$ 2,5 milhões.

Em uma manobra do próprio governo, o conselheiro, José Saraiva, pediu vistas do processo com a desculpa de analisar melhor o processo. O pedido de vistas ficaria então parado até o mês de dezembro. Isso era uma clara estratégia do governo de protelar a situação o mais que pudesse. Até lá o fato já teria sido esquecido, os ânimos já teriam serenado. Era o governo Temer tentando salvar a pele de um corrupto.

Entretanto, no final da tarde do dia 24, em depoimento à Polícia Federal, e também revelado pela Folha, Callero afirmou que foi pressionado pelo Michel Temer no sentido de encontrar uma “saída” para o caso do empreendimento na Bahia, e de interesse de Gedel Vieira Lima. Nesse depoimento, Callero afirmou que havia sido chamado ao Palácio do Planalto, e que ouviu da boca do próprio presidente da República, que a decisão do Iphan nacional contrariando parecer do Iphan da Bahia, estava causando dificuldades operacionais em seu gabinete, e que isso estava irritando Gedel. Callero ouviu ainda de Temer que encaminhasse o caso a Advocacia Geral da União (AGU), uma vez que na AGU, a ministra Grace Mendonça encontraria uma solução. A atitude do presidente muito entristeceu o ministro da Cultura, que diante de todo esse quadro requereu a saída do MinC.

A revelação de Callero de que tinha sido pressionado por Temer pegou muito mal no governo. E diante de mais esse escândalo, foi impossível ao presidente segurar Gedel no governo. Gedel pediu demissão nesta sexta (25).

E porque Temer perdeu seu braço direito com a saída de Gedel, a quem tanto queria proteger?

Em primeiro lugar, Gedel é articulador político de muita habilidade, e conhecedor dos meandros e artimanhas na Câmara dos Deputados, e do Senador Federal. Ela já foi deputado então fica mais fácil conhecer muita gente por lá. Em segundo lugar porque, mais do que nunca, Temer iria precisar de toda essa habilidade de articulação que Gedel possui. Há projetos importantes em tramitação como, por exemplo, a Proposta de Emenda Constitucional que limita os gastos públicos, e a eleição para presidente da Câmara.

Numa tentativa de mostrar alguma moral, e de mostra que quer conter a crise, Temer diz que vetará qualquer proposta de anistia ao caixa dois de campanha eleitoral, que é uma coisa que os Srs. deputados e senadores tanto desejam. O que representa uma mudança brusca, pois esse não era o entendimento do presidente, anteriormente. A interlocutores, Temer havia dito que sancionaria por completo, o texto que os deputados aprovassem. De uma hora para outra, o presidente muda de ideia. Não é que o presidente tenha ficado do lado da sociedade brasileira, nada disso. Ele só quer amenizar e suavizar a própria situação, que, aliás, não é nada boa com as revelações de Callero.

Fica a pergunta: que governabilidade e credibilidade tem o governo Temer,  se em apenas seis meses, já saíram seis de seus ministros, o que dá uma média de um ministro por mês? 

Em maio, Romero Jucá, ex-ministro do Planejamento, deixou o governo após escutas telefônicas revelaram o seu desejo de sepultar a Operação Lava Jato. Ainda em maio, foi a vez do ministro da Transparência, Fabiano Silveira, que não se mostrou nada transparente. Também em escutas telefônicas, ele foi flagrado aconselhando Renan Calheiros, presidente do Senado, sobre como se defender das garras da Lava Jato. Em Junho, foi a vez de Henrique Eduardo Alves deixar o governo por suspeita de ter recebido doações ilegais para campanha eleitoral. Em setembro saiu o ministro Fábio Medina Osório, da Advocacia Geral da União. Ele se desentendeu com o Ministro Eliseu Padilha. Fábio queria ter acesso a inquéritos da Lava Jato que envolvesse políticos com foro privilegiado. Posteriormente, em entrevista a imprensa, Fábio afirmou que o governo Temer queira abafar a Lava Jato. Este mês, caíram Marcelo Callero, que diz ter sofrido pressão por parte do ministro Gedel Vieira de Lima, e este último pela repercussão negativa que o teve o caso.

Afinal de contas: de que lado está o nosso presidente, os nossos deputados, e os nossos senadores? À exceção de muito poucos de nossos políticos, a maioria, com certeza, está se lixando para a sociedade brasileira. A única coisa que eles estão pensando é em defender os próprios interesses... E salvar a própria pele. E quando saírem as delações da Odebrecht então? Quem restará de pé... Esperemos pra ver, pois debaixo dessa ponte ainda rolara muita lama podre.

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