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A Fábula da Corrupção

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 01:06
Quarta-feira, 02 de novembro
Num tempo de engano universal,
dizer a verdade é um acto revolucionário
(George Orwell)



O texto abaixo, chamado, A Fábula da Corrupção, é a transcrição de um curta de oito minutos, nascido de uma campanha contra a corrupção, lançada pela Controladoria Geral da União (CGU), em parceria com a UNODC (United Nations Office on Drugs and Crime - Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime). O vídeo, destinado ao público infantil, é uma maneira fácil de falar de corrupção para esse público. E, por ser destinado o público infantil, tem uma visão romantizada sobre o assunto. No fim tudo acaba bem, sem contudo fugir àquilo a que uma fábula se propõe, qual seja, deixar uma lição de moral: o bem e honestidade são sempre o melhor meio para se viver em harmonia.

Também, como em toda fábula, os animais, metaforicamente, representam os desejos, vícios e virtudes, dramas e tragédias do universo humano. Ela nos conta que a corrupção não nasce grande, ao contrário, como uma erva daninha, ela nasce pequena, originada de pequenas atitudes, que vão minando o campo ético e moral do indivíduo ao ponto de ele realizar dentro de seu universo interior uma total subversão de valores.

É importante ressaltarmos, principalmente para as crianças, que os grandes corruptos que hoje envergonham nossa nação, não nasceram corruptos, mas foram se tornando um deles ao longo do tempo. Devargazinho, seus valores morais foram minando, até que ele submergisse no lodaçal da corrupção. Foram pequenos desvios de comportamento aqui e ali, à vezes até em coisas pequenas, que os levaram a praticar grandes furtos aos cofres das instituições públicas e privadas.

É interessante perceber ao longo da fábula, como um ambiente que era harmonioso, passa a ser desarmonioso, e como apenas um indivíduo mal intencionado pode desestruturar toda uma comunidade, toda uma nação, ao influenciar negativamente, os seus habitantes. Assim também como toda a corrupção passiva ou ativa é um grande erro, assim também o é a omissão, pois quem omite, ainda que indiretamente, participa daquele circulo vicioso. Na fábula em questão, a omissão vem do jumento, que tudo vê e sabe, mas silencia, e, apenas ao final, depois do estrago feito, é que ele redimiu-se desse pecado.

É recomendável assistir ao vídeo, após ler esse texto, e, melhor ainda, assistir junto com as crianças, uma vez que a narrativa simples e dinâmica ajuda a prender a atenção delas.

Segue, o link para o vídeo:


***



A Fábula da Corrupção


João era um bom homem, e um honesto comerciante. E, na estrada onde vivia, passavam muitos viajantes.

Tirava o seu sustento de um pequeno mercadinho, e com esse negócio prosperava devagarinho. João era dono de um cão, bom companheiro, e que afugentava qualquer ladrão. Também tinha um gato, muito esperto e ótimo caçador de ratos. Mas mesmo com a vigilância do gato de João, sempre sumia um pedaço de queijo, ou um naco de pão.

Apesar da harmonia entre todos os moradores, nada podia evitar os pequenos furtos dos roedores. Ah, e já ia me esquecendo do jumento que servia de montaria, quando João buscava mantimentos. Antes de cada viagem, João sempre pedia que o cão e o gato cuidassem daquela humilde moradia, pois todos eles sabiam que dependiam do armazém. E os bichos prometiam que ficaria tudo bem.

Um dia caiu de uma carroça, um ratão que vinha da cidade, e se juntou aos outros ratos, sem fazer amizade. Foi logo reclamando da pouca comida, e dizendo que a toca era fria e fedida. Os ratos botaram a culpa no gato miserável, por não terem mais comida, nem uma toca confortável. Eles acharam que aquele ratão forasteiro sabia das coisas por conhecer o mundo inteiro, mas o ratão mentia pra parecer importante. Ele só conhecia os esgotos da cidade grande.

O ratão tinha um truque que chamava de “jeitinho”. Disse que, com ele, conseguia tudo rapidinho. Então, saiu da toca e foi conversar com o gato. Todos ficaram admirados com a bravura daquele ato. Até o gato ficou surpreso quando viu o ratão, que chamou o felino pra perto, fazendo um gesto com a mão. O gato, desconfiado, quis saber a intenção do bicho. O ratão, na orelha do gato, falou, num cochicho: “Você cuida de uma comida que não é sua, seu tonto. Então porque não fazemos um acordo, e pronto”.

O ratão voltou com muita comida pra dentro da toca. Os ratos comeram tudo, antes de saberem qual foi a troca. Depois da festa, o ratão disse qual era o trato. Eles teriam mais comida, sempre que desse um ratinho ao gato. É o preço, disse o ratão. E se seguiu uma enorme discussão. Um dos ratos ficou muito bravo e disse que não aceitava aquele conchavo. Não era justo, não era ético. Não era direito. Pro seu azar, só ele pensava daquele jeito. Foi jogado porta afora e, rapidamente, engolido. 

Assim, o acordo entre as partes foi cumprido. O chefe dos ratos agora era o ratão. Pois foi dele a ideia da combinação. O gato ficou orgulhoso da sua malandragem. E foi até a casa do cão pra contar vantagem, mas o cão quis tirar proveito da situação, e propôs um acordo pra não contar nada pro patrão. Ele estava cansado de sempre comer choriço, e achava que merecia mais pelo seus serviços. Como nunca entrava na casa, só vigiava do lado de fora, mandou o gato trazer comida para ele a partir de agora. Só que pra isso, o gato teria que roubar do João e, pra não ser desmascarado, fez a vontade do cão.

Quando João voltou da sua jornada, não percebeu a nova rotina da bicharada. Os ratos iam até a dispensa pegar comida, sem preocupação. O gato ganhava um rato, e levava escondido o lanche do cão. João ficou espantado com a rapidez com acabaram os alimentos, e teve de ir até a cidade pegar mais mantimentos.

Enquanto isso, os ratos se mudaram para perto do fogão. E o gato passou a ganhar dois ratos no novo acordo com o ratão. O cão, quando soube, não quis ficar para trás, e pediu para aumentar sua parte um pouco mais. João não era muito inteligente, mas percebeu que tinha algo diferente. As mercadorias foram acabando, mesmo sem ter muita gente comprando. E toda vez que voltava de viagem, sempre tinha um erro na sua contagem. Por isso, ia a cidade mais vezes do que gostaria, e, levando menos dinheiro, trazia menos mercadoria.

Foi perdendo clientes por deixar o mercadinho fechado, ou quando estava aberto, o que queriam já tinha acabado. Quanto mais os ratos comiam, mais a toca esvaziava. O gato queria mais ratos, porque o combinado já não bastava. O cão, por sua vez, comia mais do que podia, e passou a desejar uma coisa que só aos homens pertencia. Chamou o gato e pediu, bem faceiro, o que nenhum animal queria: dinheiro.

 O gato não gostou daquilo, mas ficou com medo do cão, e passou a roubar o caixa, bem embaixo do nariz do João. O cão não sabia direito pra que o dinheiro servia. Então, ele enterrava tudo o que o gato trazia. João foi ficando mais pobre e desgostoso da vida. Perdeu noites de sono, mas não achava saída. Decidiu vender a casa, e pegar a estrada, conseguiu quitar as dívidas, hum, mas ficou sem nada.  Sem poder sustentar os bichos, abandonou o cão e o gato, que ficaram pra trás junto com o ratão, o último rato.  João subiu no jumento e seguiu viagem. Era o único bicho sem custo, pois só comia pastagem.

Os três, sem saber pra onde iam, ficaram ao relento. Mas o gato era o único que sentia algum arrependimento. O ratão partiu primeiro se embrenhando no mato. O cão lembrou do dinheiro e disse adeus ao gato. Com o que guardou, achou que não passaria fome ou frio. Só que quando chegou no esconderijo, o buraco estava vazio. Como não tinha dono, o cão foi pego pela carrocinha, e o gato aprendeu a dividir comida na casa de uma velhinha. O ratão, em outro armazém, foi botar em prática seu plano, mas encontrou um gato honesto, e virou almoço do bichano.


João abriu outro negócio, com novos animais de estimação. Como ele conseguiu dinheiro? O jumento tem uma explicação: na estrada, assim que partiram, o jumento falou baixinho que viu tudo o que os bichos aprontaram, mas não quis meter o focinho. Agora estava arrependido de ter ficado calado, e queria mostrar pro João, onde o dinheiro estava enterrado. Não era muito o que o cão escondeu, mas João não teve medo de começar de novo. Só teria mais cuidado da próxima vez, e aconselhava isso ao povo.

1 Comments


Fábula interessante e provocativa. Bom o texto que vc fez explicando que cada animal representa alguma característica que atinge os humanos.
Abraços

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