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Uma estrela que se apaga

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:09
Terça-feira, 04 de outubro



As eleições de primeiro turno para prefeitos e vereadores foram realizadas. Em muitas cidades houve uma definição já em primeiro turno, em outras a batalha será decidida no segundo round. Algumas situações dessa eleição chegam a ser pitorescas, quase folclóricas, outras sérias, mas todas refletem um momento da política brasileira.

Imagine uma candidata à vereadora em pleno campo de batalha da eleição municipal, buscando uma vaga na casa legislativa de seu município. Ela imprimi santinhos. Distribui-os entre os eleitores. Corre na casa de um e de outro pedindo votos. Grava mensagens para programas do horário eleitoral gratuito exibido em cadeias de rádio, e de TV.

Enfim, chega o dia da eleição. Ela ainda tenta obter mais alguns votos. Como todo cidadão, toda cidadã brasileira ela se dirige a seção eleitoral. Realiza os procedimentos de praxe, e dirige-se à urna eletrônica, para, orgulhosa, votar em si mesma. Digita o número de sua candidatura e... Algo sai errado. Em vez de a própria foto aparecer na tela da urna, aparece a mensagem “candidato inexistente”. Apenas após essa desagradável situação é que ela descobre que havia atravessado os 45 dias de campanha eleitoral fazendo propaganda da própria candidatura com número errado.

Esse fato verídico aconteceu na cidade de Guajará-mirim, Rondônia. O nome da candidata é Edilamar Quintão. Após o ocorrido ela fez boletim de ocorrência, mas, como diz o ditado popular “não adianta chorar pelo leite derramado”. O jeito mesmo foi ela chorar a própria incompetência.

Prédio da Prefeitura Municipal de Campinas

Em Campinas venceu fácil em primeiro turno, o candidato à reeleição, Jonas Donizete (PSDB). Digo fácil porque não havia candidatos à altura. Havia o Artur Orsi (PSD), e Márcio Pochmann (PT). Apesar de ser um candidato inteligente, e, de certo modo, preparado, era do PT, mas depois dos fatos ocorridos desde a época do mensalão, o olhar de desconfiança sobre políticos do PT vem aumentando consideravelmente a cada eleição. Orsi teve seus votos prejudicados por causa do candidato Hélio (PDT). Em algumas pesquisas Hélio chegou a estar em segundo lugar, com pouca quantidade de votos, é verdade, mas esteve. Então muita gente preferiu votar no candidato do PSDB para não correr o menor risco de ver o pedetista ter alguma chance de vitória na disputa. Apesar de ter permanecido na disputa, Hélio não teve os votos contabilizados devido pendência judicial relacionada à impugnação de sua candidatura.

Em São Paulo, João Doria, candidato do PSDB, em uma eleição surpreendente, venceu a disputa eleitoral no primeiro turno. Ninguém acreditou nele, a não ser o atual governador de São Paulo, Geraldo Alckmin. Político experiente, não é a toa que ocupa o cargo de governador do Estado pela quarta vez, Alckmin viu algo de diferente no seu apadrinhado. No início da campanha, Doria tinha cerca de 5% das intenções de voto. Nem Marta Suplicy (PMDB), nem Fernando Haddad (PT), nem Celso Russomanno deram a menor bola pra ele. Ficaram brigando entre si, e, quando perceberam, Doria já havia passado na frente, não havendo mais tempo para que os adversários desconstruíssem sua imagem.

Talvez o maior vencedor das eleições em São Paulo tenha sido o governador Geraldo Alckmin. A aposta em Doria partiu dele. Medalhões do partido como por exemplo, José Serra e Fernando Henrique, opuseram-se a candidatura do candidato eleito do PSDB.

Quem perdeu em São Paulo? O PT e o PMDB. São Paulo é menina dos olhos dos políticos quando se visa à eleição presidencial. Grande colégio eleitoral, São Paulo representa uma grande força na política nacional. Perder na capital paulista é, de certo modo, sair perdendo em uma eventual corrida ao governo do Estado e ate mesmo, a corrida presidencial.

Porém de todos os perdedores, o maior deles foi o PT. Alguns fatores contribuíram fortemente para isso: os frequentes escândalos de corrupção nos quais o partido tem se envolvido, e a situação econômica do país, mergulhado em quadro de inflação, recessão e desemprego, em parte, devidos à má administração do governo Dilma Rousseff.  A Lava Jato e o impeachment da presidente Dilma, também deram importante contribuição para que isso acontecesse.

O Partido dos Trabalhadores murchou tal qual balão vermelho açoitado pelo vento. Das capitais brasileiras, o PT ficou só com Rio Branco, no Acre. Se considerados números, a queda do PT foi abrupta. Em 2012, o partido tinha 630 prefeituras. Nestas eleições conseguiu eleger apenas 256 prefeitos. Porém, dentre todos esses fatores que fizeram do PT um perdedor nessas eleições, talvez tenha sido a falta de autocrítica do partido, que nunca admitiu um erro sequer, sempre colocando a culpa por sua péssima situação na política nacional, em parte da sociedade, e na imprensa, segundo eles “os golpistas”.

Quem teve um desempenho pequeno nestas eleições foi o partido do atual presidente, o PMDB. O partido tinha em 2012, 1015 prefeituras, e agora em 2016 subiu para 1028. Pouca diferença. Ainda assim, não precisa chorar nem reclamar, continua sendo o partido com o maior numero de prefeituras.

Quem está sorrindo de orelha a orelha é o PSDB. O partido, que em 2012 havia conquistado 686 prefeituras viu esse número subir para 793. Nada mal.

De certo modo, o cenário projetado pelo resultado das eleições municipais projeta o desenho das campanhas para o governo do Estado e para a Presidência da República.

Outro fato que chamou a atenção nessas eleições foi o enorme número de eleitores que se abstiveram de votar, ou que votaram nulo. A cidade de São Paulo, por exemplo, em seis eleições, essa foi a que teve maior percentual de eleitores que se abstiveram do voto, ou que o anularam. Se votos em branco, nulos e abstenções fossem um candidato em potencial, ele teria vencido João Doria (PSDB). Doria obteve 3.085.187 votos. Enquanto que brancos, nulos e abstenções somaram 3.096.304.

Em Campinas não foi diferente. Os votos brancos, nulos e abstenções somaram 327.875. Se também fossem um candidato teriam derrotado o reeleito, Jonas Donizete (PSBD). Jonas obteve 323.308 votos.

Falo de Campinas e São Paulo, mas resultados semelhantes ocorreram em todas as cidades brasileiras. Isso representa um descontentamento do eleitor brasileiro para com a classe política que aumenta a cada ano, e, principalmente, após todas as fases e desdobramentos da Lava Jato, que tem mostrado uma face da política brasileira que já sabíamos era feia, só não sabíamos que era tão assustadora e danosa ao país. Não que anular voto, se abster, ou votar em branco seja uma atitude consciente, muito pelo contrário, mas acho que serve de reflexão para as raposas, vampiros, marimbondos e outros semelhantes que empestearam as nossas casas legislativas, e para nós mesmos, enquanto cidadãos brasileiros que queremos um país melhor e mais digno de se viver. Um país do qual possamos ter orgulho de nele viver e morar. 

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