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Lula e Sérgio Moro: Duelo de Titãs

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:14
Sábado, 30 de julho

Tente!
E não diga
Que a vitória está perdida
Se é de batalhas
Que se vive a vida
Tente outra vez!”
(Tente Outra Vez – Paulo Coelho / Raul Seixas)


Governar.

Palavra bonita que, segundo definição do Dicionário Online de Português, significa “Administrar: governa o país com firmeza e sabedoria”.  Que bom seria se os nossos políticos adotassem essa definição idílica do verbo governar.

Mas, infelizmente, no Brasil não é assim. A palavra governar tomou sentidos muito negativos. Se houvesse um dicionário brasileiro de politiques para o momento atual, o verbo governar, dentre as definições possíveis, teria esta: “Balcão de negócios: a arte de administrar o país baseando nas leis da corrupção, dos contratos ilícitos, sempre visando receber a maior quantidade de propina possível”.

Geralmente, vamos acompanhando os noticiários dos jornais, como se fossem peças separadas de um jogo de xadrez. Fulano de tal fez isso. Sicrano fez aquilo. Beltrano agiu assim ou assado. Porém, quando concatenados os fatos, eles se interligam e, o que eram fatos apresentados de forma fatiada, tornam-se fatos correlatos.

Pensando assim, digo que, nos últimos meses temos assistido a uma guerra de Titãs, personificadas nas pessoas de Sérgio Moro e Luiz Inácio Lula da Silva. E cada uma dessas pessoas, tomadas em universos em separado representam estruturas poderosas.  O primeiro represando a força do judiciário e o senso de justiça, e o segundo, representando o mundo, ou melhor dizendo, submundo, dos partidos políticos, e dos políticos corruptos que o habitam. Indo ainda mais longe, eu diria que é uma guerra ideológica entre bem x mal.

Convido vocês a acompanharem os capítulos desta batalha, que não deixa de ser também ideológica.

Na quinta-feira (21), a Procuradoria da República no Distrito Federal, renovou denúncia contra o ex-presidente Lula, contra Delcídio Amaral, ex-senador — que teve seu mandato cassado no dia 10 de maio do corrente ano — por tentativa de atrapalhar as investigações da Lava Jato. Também incorrem na mesma denúncia; Diogo Ferreira, ex-chefe de gabinete, André Esteves, banqueiro, Edson Ribeiro, advogado, os empresários, José Carlos Bumlai, e o filho, Maurício Bumlai. O grupo é acusado de tentar comprar o silêncio do ex-diretor da Petrobrás, Nestor Cerveró, para que ele não fizesse acordo de delação premiada. A tentativa restou frustrada depois que o próprio de filho de Cerveró denunciou a negociação, divulgando áudios gravados da conversa.

A denúncia de autoria de Rodrigo Janot havia sido apresentada no início deste ano ao Supremo Tribunal Federal por causa do foro privilegiado de Delcídio. Entretanto, depois que Delcídio foi cassado, o ministro do Supremo Teori Zavaski, enviou o processo à Justiça Federal de Brasília.

Antes disso, quando Delcídio perdeu o foro privilegiado, Janot queria que o processo fosse enviado à Justiça do Paraná, diretamente para as mãos do juiz Sérgio Moro. O procurador-geral da República entendia que os fatos possuíam conexão com o esquema de desvio de dinheiro da Petrobrás. Houve uma pequena disputa no âmbito jurídico, pois os advogados de defesa sustentavam que os fatos tinham que ser julgados no local onde ocorreram. Três foram os cenários, a saber, Brasília, São Paulo, e Rio de Janeiro. O advogado de André Esteves defendia que o caso deveria ser julgado em Brasília, os de Lula, em São Paulo.

O STF chegou à conclusão de que os fatos não se conectavam ao esquema da Petrobrás, pelo menos não de forma direta, e resolveu enviar o caso para a primeira instância da Justiça Federal, em Brasília.

Na denúncia, Rodrigo Janot, afirmou, categoricamente, de Lula que ele “impediu e/ou embaraçou investigação criminal que envolve organização criminosa, ocupando papel central, determinando e dirigindo a atividade criminosa praticada por Delcídio do Amaral, André Santos Esteves, Edson de Siqueira Ribeiro, Diogo Ferreira Rodrigues, José Carlos Bumlai”, pedindo a condenação de todos os envolvidos por obstrução à justiça.

Deixo claro aos leitores, que a sucessão de fatos, e seu consequente encadeamento são uma conclusão pessoal minha.

Vendo a flecha da justiça ser acionada em sua direção, Lula tentou uma jogada política. Ele tenta levar um fato da esfera criminal para esfera política, e para tanto envolve um organismo internacional, desrespeitando, em minha opinião, todas as instâncias da justiça brasileira.

Na quinta (28), o ex-presidente, protocolou, em Genebra, Suíça, uma petição contra o Estado Brasileiro, através da qual acusa o juiz Sérgio Moro de “abuso de autoridade”.

O Comitê de Direitos Humanos da ONU analisará o caso com base na Convenção Internacional de Direitos Humanos. Nem o Comitê, nem a Convenção têm o poder de anular ou retificar qualquer decisão da justiça brasileira. O que o organismo internacional pode fazer é recomendações, dizendo se um juiz é parcial ou não.

E porque Lula decidiu tomar esse caminho?

Lula sabe que, pelo andar da carruagem, que, mais dias, menos dia, ele caíra nas mãos de Sérgio Moro, e se isso acontecer, Moro não hesitará em condenar o ex-presidente. E uma das peças chaves nessa caminhada do Lula para as mãos daquele que tanto o incomoda, é o sítio em Atibaia (SP), que o ex-presidente insiste em dizer que não é de propriedade dele.

A respeito desse assunto, na quinta-feira (28), o jornal, Folha de São Paulo, trouxe reportagem que falava em um laudo produzido pela perícia da Polícia Federal, no qual o próprio Lula, e a mulher dele, Marisa Letícia, orientaram as reformas feitas no que eles chamam de sítio, em Atibaia (SP). Detalhe, a reforma foi patrocinada pela Odebrecht e OAS, empresas envolvidas nos escândalos envolvendo a Petrobrás. Ora, como pode alguém coordenar uma reforma em uma propriedade que diz não ser dele? Reflita comigo, caro leitor: Uma propriedade que possui cerca de 173 mil metros quadrados — o equivalente a 24 campos de futebol — piscina, um lindo lago com pedalinhos em forma de cisne, uma miniatura do Cristo Redentor, sem contar a área coberta por uma farta vegetação, merece o nome de sítio?

E ainda tem a questão do luxuoso apartamento triplex no Guarujá, que Lula também diz não ser dele.

Na verdade, Lula quer montar todo esse circo, transformando fatos criminais em jogo político, a fim de chamar a atenção de organismos internacionais, primeiro para se livrar das condenações em futuros processos, e segundo, porque se livrando dessas condenações, ele tem o caminho livre para concorrer às eleições presidenciais em 2018, o que, para ele, seria a tabua de salvação.

Lembram quando Dilma, também na tentativa de salvar a pele de seu padrinho político, tentou nomeá-lo ministro da Casa Civil, para que ele, com foro privilegiado, pudesse escapar desses processos? O que fez o Sérgio Moro? Deixou vazar as conversas telefônicas gravadas com autorização da justiça. O juiz não é bobo. Sabia que seria criticado ao extremo por essa decisão, mas não teve dúvidas... E prestou um favor ao Brasil.

Ou seja, mais uma vez, o jogo de gato e rato. Dilma tentou obstruir a justiça através da nomeação de Lula como ministro, e a justiça joga um balde de água fria nos planos dos dois. Dessa vez, novamente, Lula recebe um balde de água fria.

Ao buscar ofuscar o brilho da justiça brasileira, apresentando a situação como problema político ao comitê da ONU, como quem mexe em casa de abelha, o ex-presidente assanhou os magistrados e procuradores.

Nesta sexta-feira (29), o juiz da 10a Vara Federal em Brasília, Ricardo Leite, aceitou a denúncia que havia sido apresentada pelo Ministério Público, e Lula, passou a ser réu, e levou junto com ele, Delcídio do Amaral, Diogo Ferreira, André Esteves, Edson Ribeiro, José Carlos Bumlai, e o filho dele, Maurício. Com a decisão, é a primeira vez que Lula aparece como réu em fatos ligados, ainda que de forma indireta, à Operação Lava Jato.
  
As gravações, por parte de Maurício Bumlai, que revelaram o esquema, levou à prisão, e posterior cassação do ex-senador, Delcídio do Amaral. Nas conversas, o homem de confiança de Dilma Rousseff, prometia a família de Cerveró que iria tirá-lo da prisão, através da intervenção de ministros do STF. Na ocasião, Delcídio chega a falar da possibilidade de um plano de fuga para tirar Cerveró do Brasil, e levá-lo para a Espanha, além de prometer vantagens financeiras à família Cerveró.

O Ministério Público também já havia afirmado em denúncias que Lula era o chefe do esquema de desvios de dinheiro na Petrobrás.

A decisão de recorrer ao comitê da ONU, tomada por Lula, foi bastante criticada no meio jurídico brasileiro. Carlos Velloso, ex-presidente e ministro aposentado do Supremo, disse a respeito do assunto: “Felizmente temos uma democracia plena, não é? O Poder Legislativo funcionando regularmente; o Judiciário funcionando regularmente; os nossos juízes decidindo com imparcialidade, com independência; os nossos magistrados têm independências, garantia de independência, objetivas, postas na Constituição Federal; os tribunais têm autonomia administrativa, autogoverno, autonomia; portanto, garantia de independência. Então, essa petição não tem sentido”.

Lula participava de um evento em São Paulo, quando soube da notícia, e afirmou que, se a intenção era tirá-lo da disputa presidencial em 2018, não precisariam ter usado desse artifício, e insinuou que estava quase desistindo dessa ideia, mas a decisão judicial de hoje o atiçou, que vai lutar até o último dia de sua vida, que não vai se calar diante das ameaças, e blá, blá, blá.

Aliás, essa arrogância e falta de autocrítica parece ser inerente à máscara de petista usada por ele, e por integrantes do partido, inclusive a presidente afastada, Dilma Rousseff. Por acaso, algum de vocês já ouviu Lula ou Dilma, admitirem cometer algum erro, por menor que seja. Ao contrário, a situação está um caos ao redor deles, a lama da corrupção envolve seus pés, porém, eles estão sempre a dizer: “estamos no caminho certo". Ou então, “eu não sabia de nada, nunca soube de nada”.

Entretanto, a pérola da hipocrisia veio na frase dita por Lula no referido evento desta sexta-feira, em São Paulo: “Duvido que tenha alguém nesse país que seja mais cumpridor da lei do que eu, que respeite mais as instituições do que eu”. A minha tristeza não é ele ter dito isso, dele não espero outra coisa, o que me entristece mesmo, é saber que tem muita gente que acredita nessa asneira.

Enfim, um dia essa queda de braços, esse duelo de Titãs chegará ao fim.

E que vença o Brasil! E que vença a justiça! E que vença a verdade!

É o que desejamos todos nós que sonhamos com um Brasil melhor.

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