0

Eu também tenho um sonho

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:47
Quinta-feira, 30 de junho

Sonhar
Mas um sonho impossível
Lutar
Quando é fácil ceder
Vencer o inimigo invencível
Negar quando a regra é vender
Sofrer a tortura implacável
Romper a incabível prisão
Voar num limite improvável
Tocar o inacessível chão
É minha lei, é minha questão
(Sonho Impossível - J. Darion - M. Leigh –
Versão Chico Buarque e Ruy Guerra/1972.
Para o musical O Homem de La Mancha)



Caríssimos, e caríssimas,

Permitam-me na postagem de hoje, fugir do factual e tétrico cenário político brasileiro, e mergulhar nos mares do sonho, na esperança de que banhado pelas águas do mar sagrado — mar este que, segundo a crença cristã, foi divido em dois para que o povo hebreu pudesse fugir da ira e da opressão do faraó — possamos fazer aquilo que era sonho, transformar-se em agradável realidade.

E a transformação do sonho em realidade, sempre implica em luta, e muitas vezes em sofrimento e renúncia. Mesmo, assim é algo pelo qual se vale a pena lutar.

Convido vocês a viajar nas asas do sonho, mas sem perder de vista a realidade brasileira, cheia de contradições e controvérsias.

O texto que ofereço a vocês na postagem de hoje, o escrevi inspirado no, Eu tenho um sonho, famoso discurso de Martin Luther King Jr, proferido em frente ao Memorial de Abraham Lincoln, em Washington, em 28 de agosto de 1963. O discurso, desde então, tornou-se um marco na luta pelos direitos humanos e civis, e pela igualdade racial.

Salve, guerreiro Luther King!

Obrigado pelas inspiradas palavras que a tantos tem inspirado, em todas as partes do mundo.

***



Eu também tenho um sonho

Eu também tenho um sonho. Um sonho brasileiro.

Eu sonho com o dia em que as taxas e sobretaxas dos muitos impostos que pagamos, sejam revertidas para nós em benefícios nas áreas de educação, saúde e segurança, melhorias das rodovias estradas por onde transitam os caminhões que levam os produtos do campo para a cidade, e da cidade para o campo.

E quão numerosas são as nossas cargas tributárias... De sol a sol, noite e dia, dia noite, o trabalhador brasileiro sai de casa para ganhar o seu sustento diário. É verdade que, em tempos de era digital, muita gente trabalha em casa mesmo. Entretanto, mesmo trabalhando no conforto de sua residência, esse, também incansável trabalhador, tem sob os ombros o peso dos impostos, tanto quanto os trabalhadores tradicionais, que são a grande maioria.

São cinco meses trabalhando para o governo, e tão somente para o governo. Colocando no papel, e fazendo uma soma geral, são 150 dias de trabalho apenas para pagar impostos. Cinco meses de sufoco que consomem cerca de 42% do nosso salário.

E para que, caros leitores? Para que tanto sacrifício? Temos algum retorno de todo esse sacrifício?

Basta olhar as escolas deterioradas, os hospitais sucateados, a saúde pública em frangalhos, as cidades abandonadas e sem oferecer a devida segurança aos cidadãos brasileiros, e estrangeiros que nos visitam, para ver que não temos nenhum retorno da fortuna que pagamos das cargas tributárias.

E para onde vai todo esse dinheiro, caros concidadãos brasileiros?

Para buscar a resposta, olhemos para a ostentação em nossas casas legislativas. É lá que é gasto, pelo menos, uns 90% de toda essa dinheirama, senhores e senhoras, cidadãos e cidadãs brasileiros. Os nossos parlamentares do Congresso Nacional (Câmara e Senado), custavam, em 2014, segundo dados do site Congresso em Foco, 1.104.128.508, 56 bilhão de reais. Mais de um bilhão de reais por ano, isso segundo cálculos de 2014, fazendo as atualizações, teremos, evidentemente, um valor bem maior. 

É nisso que vai embora nosso tão suado dinheiro pago com pesados impostos na infinidade de benefícios concedidos aos nossos parlamentares alojados em verdadeiras mansões e apartamentos à custa do Estado brasileiro, comendo e bebendo do bom e do melhor, circulando por Brasília em seus luxuosos carros oficiais, e atravessando os céus do Brasil em aeronaves pagas com dinheiro do contribuinte, sem contar com outros tantos benefícios e facilidades ofertados pelo Estado brasileiro à “nobre” classe política.

Eu pergunto: tem valido a pena servir de agulha para tanta linha ordinária?

Eu tenho o sonho de que o lucro de nossas estatais sirva para alavancar o crescimento econômico de nossa nação, que o nosso ouro negro, jorre lucros e dividendos que possam servir para alicerçar nossa educação em bases sólidas para que, nossas universidades possam formar-se cientistas, que, com seu conhecimento busquem soluções eficientes para a vida em nosso solo verde e amarelo, em suas mais diversas áreas.

Entretanto, o que vemos? Vemos, dos ricos poços da Petrobrás, jorrar incansável e imensa quantia de dinheiro que tem ido abastecer os cofres dos partidos políticos e, consequentemente, as campanhas dos candidatos desses partidos. Eles sangram e usurpam nossos tesouros em proveito de interesses mesquinhos e criminosos, que nada tem a ver com democracia e governança. Suas tétricas festas são regadas a vinhos e queijos que custaram o suor de cada brasileiro.

Eu sonho com o dia em que crianças de ricos e pobres possam estudar nas mesmas escolas, ler os mesmo livros, e ter as mesmas oportunidades na vida. Afinal, o bondoso sol não nasce todos os dias, e sobre cada filho dessa nação não brilha o mesmo sol? Por acaso, ricos e pobres também não enchem os bolsos do governo dos mesmos impostos?

Eu também sonho com o dia em que se possa dizer da educação neste país: É PRIORIDADE. Pois, somente no dia em que isto, acontecer, nós pararemos de colocar no comando de nossa nação uma gente sem escrúpulo, criminosa, omissa, ou conivente, pois, tendo sido clareadas as mentes, saberemos fazer boas escolhas, e já não haverá trevas em nossas casas legislativas, porque a luz do conhecimento terá feito brilhar sobre elas a luz da verdade e da justiça, e nas casas e nos corações nos quais brilhe a luz da verdade e da justiça, não pode haver criminosos, nem muito menos quem os acoberte.

Eu sonho com o dia em que aqueles que precisam tratar-se nos hospitais públicos do campo ou da cidade, sejam tratados com dignidade e respeito, e não sejam jogados em macas e corredores para morrer à míngua na casa da saúde. Afinal, eles trabalharam a vida inteira para poder ver uma mão estendida por parte do Estado brasileiro.

Eu tenho sonho de viver em um país no qual o negro não possa depender de vagas em universidades através dos sistemas de cotas, porque a educação é tanto deles quantos dos brancos que ocupam os bancos das universidades — e aqui nem falo tanto das universidades particulares, mas sim das universidades públicas, que deveriam, por si só, sem precisar de cotas e outros recursos mais, acolher os negros, e colocá-los no caminho de uma carreira acadêmica, condição que por séculos lhes foi negada.

Eu tenho um sonho de que as gerações possam viver em país no qual as pessoas possam ser respeitadas pela cor de sua pele, pela sua religião, e pela sua condição social. Aí sim, teremos experimentado o que é viver em uma sociedade realmente evoluída, culta, e sensível às necessidades dos que caminham ao nosso lado.

Eu tenho um sonho hoje, que é também o nosso sonho também de ontem e do amanhã: o sonho de que nas matas e rios da Amazônia, nos prados do Sul, nas caatingas do sertão do nordeste brasileiro, ou nas belas praias de seu litoral, nas montanhas e vales de Minas Gerais, nos campos e cidades do sudeste, e em cada pedaço dessa nação, abrigada sob a bandeira verde, amarela, azul e branca, floresça a ORDEM E O PROGRESSO para todos, sem distinção.

E quando assim se fizer, todos: católicos, protestantes, negros, brancos, judeus, umbandistas, pobres e ricos, crianças e velhos, jovens e adultos, se darão as mãos, pois terão se reconhecido participes de uma mesma raça: a raça humana, e filhos do mesmo Deus.

E nesse, de mãos dadas, afastando toda corrupção, mágoa e dor, orgulhosos, cantaremos os versos do Hino de nossa independência: “Já podeis da Pátria filhos, ver contente a mãe gentil, já raiou a liberdade, no horizonte do Brasil, já raiou a liberdade, já raiou a liberdade, no horizonte do Brasil”.

0

Reflexões sobre partidos, sistema eleitoral e voto consciente

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:46
Segunda-feira, 27 de junho


Fazendo um cálculo impreciso, creio que há cerca de dois anos, talvez um pouco mais, talvez um pouco menos, nós brasileiros temos tomado um choque de realidade. O mais difícil é que isso não é uma coisa nova, inédita. O pior é que já sabíamos que essa dura realidade que nos é apresentada agora, com as ações desenvolvidas pela Polícia Federal, e pelo Ministério Público, através da Operação Lava Jato, já existia faz tempo. Apenas não tínhamos ideia da quão agressiva ela era, e de quanto de futuro ela nos roubou. Falo, obviamente, da corrupção que tomou conta dos nossos governos, sejam eles em nível municipal, estadual ou federal.

Há muito sabíamos que nossos políticos eram corruptos, apenas ficamos chocados quando a Lava Jato tira as máscaras que eles usavam, e ainda usam, porque nós não sabíamos o tipo vil dos políticos que estavam nos governando. Através do que nos tem sido mostrado com as investigações do Ministério Público e da Polícia Federal, que, quase sempre acabam nas mãos de Sérgio Moro, que por sua vez, tem dado sentenças condenatórias que agradam a maioria, e desagradam a alguns poucos, podemos afirmar, sem medo de errar, que a velha classe política, é uma gente sem nenhum escrúpulo. Os velhos caciques da política brasileira, não estão nem aí para leis mais justas, nem para os ideais democráticos que deveriam nortear suas ações políticas, e muito menos para as aspirações do povo brasileiro.

Ao contrário — já disse isso aqui nesse blog, mas nesse caso é necessário ser repetitivo — suas ações estão pautadas por interesses egoístas e mesquinhos de enriquecimento ilícito, e por seus podres projetos de poder, aos quais não medem consequências, nem meios para concretizá-los.

É irônico o que vimos na semana passada. O Partido dos Trabalhadores roubando dinheiro dos próprios trabalhadores, através do desvio de dinheiro de taxas de administração do empréstimo consignado. E pior é que a praga da corrupção não está só no PT, mas também no PSBD, PMDB, e paro por aqui, pois senão iria ter que ocupar essa postagem só com os partidos nos quais a corrupção é princípio norteador.

O que acontece é que o nosso sistema político tornou-se antiquado e ineficiente. Algo está errado, muito errado nele. É preciso que nós reflitamos sobre, e como poderia ser diferente.

Apenas de uma coisa tenho certeza de que está certa: o voto. Talvez ele não esteja sendo bem utilizado por nós, nem nós tenhamos sabido compreender a sua verdadeira importância. O problema é que milhões de pessoas, seja por ignorância, seja como uma forma de protesto que também denota ignorância, coloca essa arma nas mãos de inimigos da nação, que acabam usando-a contra os habitantes dela, não para ajudá-la, mas prejudicá-la de todas as formas possíveis e imagináveis.

Uma dessas formas tolas de protesto que já vendo sendo usada por milhões de eleitores em eleições anteriores, é o chamado “voto de protesto”, que acabou colocando na Câmara dos Deputados, o palhaço Tiririca (PR). Nada contra os palhaços, mas acho que o lugar deles é nos picadeiros, animando e divertindo o público, e não em uma casa de fazer leis e de fiscalizá-las. Que entende um palhaço de fazer leis, ou mesmo de fiscalizá-las? Não digo que a palhaçada que reina no Brasil seja culpa de Tiririca, mas houvesse maior de grau de conscientização por parte dos nossos eleitores, não teríamos tantos projetos de palhaço em nossas casas legislativas e, consequentemente, tantas palhaçadas em nosso meio político.

Ainda falando do palhaço, ele foi eleito em 2010, e não foi eleito com poucos votos não. Ao contrário, mais de um milhões de eleitores referendaram no deputado seu voto. Tiririca ajudou a eleger mais três deputados: Otoniel Lima (PRB), Vanderlei Siraque (PT) e Protógenes Queiroz, do PC do B.

E porque esses outros três deputados pegaram carona nos votos de Tiririca? Isso se deve ao sistema de eleições proporcional, ou voto proporcional. Sistema que é medido pelo quociente eleitoral, e ajuda a preencher os cargos de deputado federal, estadual e vereador.

Nessa eleição de 2010, na qual Tiririca foi eleito pela primeira vez, o quociente eleitoral em São Paulo era de 304.533. O palhaço deputado conseguiu 1.353.820 votos. Fazendo as contas: 1.353.820 - 304.533 = 1.049.287. Essa sobra de 1.049.287 milhões de votos foi o que ajudou a eleger os três deputados da coligação a qual Tiririca pertencia, qual seja, (PRB, PT, PR, PC do B e PT do B).

Considero o sistema proporcional um tanto quanto injusto, pois com ele pode-se formar uma bancada na qual, nem sempre estão sentados aqueles que foram os mais votados, mas nela podem estar “picaretas”, ou seja aqueles deputados que pegaram “carona” na votação de outros.

Nas eleições de 2014, voltou a acontecer a mesma coisa, pois Tiririca, com votação expressiva, ajudou a levar para a Câmara, mais dois deputados de seu partido, o PR, que dessa vez não se coligou a ninguém. Falo do palhaço deputado Tiririca, mas isso também aconteceu com outros deputados que, com votação expressiva, deram “carona” a outros que entraram na festa como penetras na festa da democracia.

Resultado das complicadas somas e combinações do sistema de voto proporcional, apenas 36 deputados dentre os 513 da nossa atual bancada da Câmara dos Deputados, obteve os votos necessários para se eleger sozinho. Quem sabe, não resida no sistema de voto proporcional, a causa de uma Câmara dos Deputados com um nível tão baixo, e que não representa o todo da população brasileira.

É bom a gente ir pensando nessas coisas, afinal de contas, esse ano é ano de eleições municipais, nas quais serão eleitos prefeitos e vereadores. Em postagens futuras, abordarei mais a fundo esse tema. Fica esse texto como introdução a essa questão das eleições municipais.


Quem sabe, não seja essa, uma grande oportunidade de colocarmos em prática, o exercício do voto consciente, procurando saber quem realmente é o candidato em que estamos depositando nosso voto, nossa confiança. Vale a pena verificar se ele não está envolvido em escândalos. Se ele é candidato à reeleição, procuremos verificar suas ações e projetos desenvolvidos. Se ele disputa eleição pela primeira vez, devemos buscar informarmo-nos sobre quem ele é, quais são os seus projetos, que trabalhos ele já realizou em benefício da comunidade. Isso apenas para começar. Além dessas, muitas outras atitudes de nossos candidatos é possível verificar. 

0

De grão em grão, a galinha enche o papo

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 01:10
Sábado, 25 de junho


Apesar do burburinho causado mundo afora, pela saída do Reino Unido de um dos blocos econômicos mais poderosos do mundo, a União Europeia, que em minha modesta opinião, foi um erro, mas enfim, eles deram um tiro no escuro, vamos ver se a bala acerta alguma caça, ou não. A despeito disso, continuarei voltando os olhos para o nosso tão conturbado e incerto cenário político brasileiro. Boa sorte para o Reino Unido... Boa sorte para a Europa... E vamos a nossa postagem de hoje.

Além da crise ético-política pela qual passa o Brasil, eu, em meu universo particular, e olhando todo esse cenário, vivo uma crise conceitual. Não sei mais ao certo, o que de fato, seja um partido político, uma vez que eles tem se assemelhado muito mais a organizações criminosas, do que propriamente, a partidos.

O que é um partido político? Um partido político é uma organização burocrática constituída com a finalidade de organiza-se de disputar eleições, ocupar cargos públicos, elaborar leis e projetos. Ou seja, um partido é um grupo organizado com a finalidade de conquistar poder. Até aí tudo bem. É assim em qualquer parte do mundo. Mas, no Brasil, pelo que temos visto ultimamente, as finalidades e objetivos começam a ser desvirtuadas no seguinte ponto. Dentro desses conceitos, os políticos se organizam em partidos para representar uma parcela da população, e defender seus interesses.

Ora, temos visto ocorrer, o avesso disso. Os políticos brasileiros, pelos menos a grande maioria deles, organizam-se, elegem-se através do soberano voto popular... E vão cuidar, não do interesse de uma parcela da população, mas sim, de si mesmos e de seus grupos políticos.

E quanto à organização criminosa?

O parágrafo 1º, do artigo 1º, da Lei 12.850/2013 diz:

Considera-se organização criminosa a associação de 4 (quatro) ou mais pessoas estruturalmente ordenada e caracterizada pela divisão de tarefas, ainda que informalmente, com objetivo de obter, direta ou indiretamente, vantagem de qualquer natureza, mediante a prática de infrações penais cujas penas máximas sejam superiores a 4 (quatro) anos, ou que sejam de caráter transnacional.

Como não sou filiado a nenhum partido, nem tenho compromisso com nenhum candidato, posso falar à vontade essas coisas, dito de outra forma, fico à vontade para falar a verdade.

Na quinta-feira, tivemos outra notícia explosiva, para o ambiente político brasileiro, e para todos os brasileiros que, sem os véus da ideologia hipócrita que cega o indivíduo, se indignam a desfaçatez, hipocrisia, e falta de caráter de nossa classe política.

A notícia de que falo foi a prisão do ex-ministro dos governos Lula e Dilma, Paulo Bernardo. Bernardo foi ministro do Planejamento no governo Lula, e ministro das Comunicações no governo Dilma, e é suspeito de desvio de dinheiro de empréstimos consignados de funcionários públicos federais.

Se é verdade que aquele que está na escuridão acostuma-se a viver nela, não é verdade que aquele que vive em sistemas administrados por corruptos devam se acostumar com eles. Não de forma alguma. Ouvia o procurador da República Andrey Borges de Mendonça dizer em entrevista aos veículos de imprensa, em relação aos desvio de dinheiro dos consignados que “Isso tem que nos causar indignação, isso não pode ser algo natural da nossa sociedade.” E concordo plenamente com ele. Nós não podemos mais continuar a viver nas trevas, como por muito tempo estivemos quando silenciamos em relação aos corruptos e aos escândalos de corrupção. Por muito tempo, ouvimos a tola afirmação em relação aos políticos “todo mundo rouba”, mas será que depois dessa praga que é a corrupção ter arruinado o nosso país, depois que os sistemas de saúde, educação e segurança estão um caos, depois de tantas desilusões em relação aos nossos políticos, eu pergunto: será que não está na hora de pensarmos diferente, e elegermos pessoas diferentes?

Voltando ao fato central desta postagem.

Segundo o superintendente adjunto da Receita Federal, Fábio Ejchel, a operação deflagrada na quinta-feira pela PF recebeu o nome de Custo Brasil, porque “ela é um exemplo de como a corrupção e a sonegação prejudicam um cidadão e fazem com que o custo de todas as suas operações acabe sendo muito mais alto tanto para as pessoas físicas como para as empresas”. Foram cumpridos mandados de busca e apreensão nos estados de São Paulo, Rio Grande do Sul, Paraná, Pernambuco, e no Distrito Federal, onde foi preso o principal operador do esquema, Paulo Bernardo, marido da senadora Gleisi Hoffmann, do PT. A Polícia Federal revistou o apartamento funcional da senadora na capital federal, e também fez buscas no apartamento do casal, em Curitiba.

Em São Paulo, um grupo de oito homens da PF, integrantes da equipe de elite, especializada no controle de distúrbios fez busca e apreensão na sede do Partido dos Trabalhadores, de onde levaram caixas contendo recibos e material referente a campanha eleitoral de 2014.

Entre os presos nesta operação estão ainda, Walter Correa da Silva. Walter foi secretário adjunto de Paulo Bernardo quando este era ministro do Planejamento, e atualmente, estava na Secretaria de Gestão, do governo Paulo Hadad (PT), após saber do pedido de prisão, Walter pediu demissão; Paulo Alberto Alves Ferreira, ex-tesoureiro do PT, e atual funcionário da Câmara dos Deputados.

Vocês já repararam que em todos esses grandes escândalos de corrupção, sempre há um tesoureiro do PT envolvido? Foi assim dom Delúbio Soares, João Vaccari Neto, e agora esse Paulo Alberto. Penso que a condição exigida para ser tesoureiro do Partido dos Trabalhadores é ser desonesto, saber operar com perfeição esquemas refinados de corrupção. Penso ainda que se chegar algum candidato à vaga de tesoureiro do partido e que, pelo menos, parece ser honesto, não ficará com a vaga.

E como funcionava o esquema? Tudo muito bem organizado e discreto, cheio de transações ilícitas, como convém a uma organização criminosa, e não a um partido político.

O que é um empréstimo consignado? Em poucas palavras, é aquela modalidade de empréstimo concedida a funcionários de empresas pública ou privadas, bem como a aposentados. Nele o desconto é feito diretamente na folha de pagamento do trabalhador ou aposentado. É bastante atrativo para ambas as partes envolvidas no contrato, por oferecer taxas de juros mais baixas, e pelo risco de inadimplência ser de 0%. Claro que, apesar de todas essas facilidades, só recorre ao consignado que está passando por apertos financeiros. E nem a esses as aves de rapina perdoam.

O esquema criminoso começou em agosto de 2009, e vigorou até agosto de 2015, quando a Operação Pixuleco, foi deflagrada pela PF. A Pixuleco, por sua vez, forneceu elementos que levaram a PF a deflagrar a Operação Custo Brasil, que por sua vez, resultou na prisão de mais um dos figurões do PT.

O “pulo do gato” como diz o ditado popular, estava nas taxas de administrações cobradas pela empresa contratada pelo Ministério do Planejamento para administrar o serviço. Nesse período, o funcionário público da administração federal que contratou o serviço, pagou taxas de administração bem superiores as que eram devidas. Foi justamente essa diferença oriunda do custo total do serviço e do valor descontado em folha de pagamento dos funcionários que abasteceu o bolso dos corruptos e o caixa do PT.

O funcionário público, presume-se, em dificuldades financeiras, recorria ao banco, fazia o empréstimo consignado com desconto em folha, era negociado o valor e o total de parcelas, saia do banco com dinheiro na conta a juros menores, tudo como manda o figurino. Mas, como tudo na vida, o detalhe é que faz a diferença. O problema é que, na maioria das vezes, estamos tão impressionados, fascinados com o todo, e acabamos não prestando atenção aos detalhes.

O detalhe, nesse caso, estava na taxa de administração cobrada pela Consist Software, aquela empresa administradora do serviço contratada pelo Ministério do Planejamento, como já havia dito acima. Não importava se o contratante contratava um empréstimo de R$ 2.000 ou R$ 5.000, por exemplo, a taxa de administração não variava, era sempre a mesma para cada empréstimo contratado.

Em cada parcela do consignado, eram descontados R$ 1,25. Na verdade, o custo total do serviço para a empresa era de apenas R$ 0,40. E os R$ 0,85 restantes. Pois era justamente, esses centavos que entravam fartos nos cofres da organização criminosa. Você pode falar: Nossa, mas estamos falando de centavos. Como eles podem ter amealhado tanto dinheiro com quantias tão poucas? 

É realmente, centavos não fazem a diferença quando se olha um extrato bancário. Não fazem diferença no bolso de uma pessoa. Mas multiplique-se essa quantia por milhares, e durante vários anos. Sabe quanto a quadrilha embolsou com essa maldosa brincadeira? R$ 100 milhões? R$ 100 milhões de reais desviados das contas daqueles que precisavam de dinheiro para sanar suas dificuldades de saúde, educação, e tantas outras necessidades próprias do ser humano. É muita maldade. Não podemos deixar passar isso. Não podemos ficar de braços cruzados. Se eles são capazes de uma coisas dessas, imagine vocês do potencial de corrupção desse povo.

Segundo a PF, desse total R$ 7 milhões foram para as contas de Paulo Bernardo. O restante do dinheiro era repassado para laranjas e firmas fantasmas, dessas que só emitem nota fiscal, sem prestar nenhum serviço. Esses últimos, enfim, repassavam o dinheiro ao seu destino final: os caixas do PT. Depois, certamente, esse dinheiro era espalhado por todo o território nacional e despejado nas campanhas eleitorais dos candidatos petistas e aliados. Ah, ia esquecendo-me de falar: quem coordenava a distribuição dessa fortuna, era o ex-tesoureiro do PT, João Vaccari Neto.

Depois de todas essas denúncias, ainda temos que ouvir as hipocrisias da senadora, 

Gleisi Hoffmann, uma das principais defensoras da presidente afastada, Dilma Rousseff no senado, dizendo que o marido é um homem santo, que sempre fizeram fortuna honestamente, blá, blá, blá e outras histórias pra boi dormir e idiotas acreditarem.

1

Dois Brasis que nunca se encontraram

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 01:17
Terça-feira, 21 de junho
Nunca vira uma escola.
Por isso não conseguia defender-se,
botar as coisas nos seus lugares.
(do romance, Vidas Secas, de Graciliano Ramos)


 Acho o texto que compartilharei com vocês na postagem de hoje, digno dos ambientes e dos personagens das páginas do clássico romance, Vidas Secas, de Graciliano Ramos.

A inspiração para apresentar a vocês esse texto surgiu de duas notícias veiculadas: uma pelo telejornal global matinal, Bom Dia Brasil, e outra publicada no jornal El País Brasil.

Às vezes fico a pensar sobre quem é o homem bom. Seria o homem bom aquele que dá o peixe? Sim, o homem que dá o peixe é bom sem dúvida. Matar a fome de quem está faminto, e matar a sede de quem de água necessita, são atitudes nobres, sem dúvida. Porém, em uma segunda análise, mais acurada, vejo que a bondade do homem que dá o peixe está no limiar do egoísmo. Está a um passo deste. Porque assim penso? Ora, quem dá o peixe não está senão criando uma relação de dependência entre quem doa e entre quem recebe. E, em uma relação de dependência, há sempre uma cobrança, geralmente, por parte daquele que é doador. É justamente aí que mora o perigo. Se um indivíduo mantém alguém dentro de uma caverna escura, e lhe abre uma pequena janela para que, de vez em quando, o habitante do lúgubre ambiente receba um pouco, um mínimo de luz necessária para, pelo menos, manter-lhe vivo, esse indivíduo generoso, nada mais faz senão exacerbar sua ignorância, transmutada em bondade.

E o homem que ensina a pescar? Esse pode ser visto, à princípio como cruel, egoísta, e até mesmo, mesquinho. Porém, sob um olha mais atento, este último está dando àquele que é ajudado, a dignidade, de em um futuro muito próximo, saber andar com as próprias pernas, ir à busca dos próprios sonhos e ideais, e lutar por eles, para conquistá-los, se necessário. Assim, o homem que é ajudado, não se contentará com um pedaço de peixe dado pela mão “generosa” de alguém. Ao contrário, ele quer o peixe o inteiro. E fica feliz com isso, pois aprendeu a armar a isca, colocá-la dentro da água, manejar o anzol do jeito certo… e fisgar o peixe. Um, dois, três, ou tantos quantos queira, e rio lhe possa oferecer.

Falo em metáforas, para falar de educação. Um povo a quem é negada a luz da educação, é um povo que vive nas cavernas escuras da ignorância. E um povo que vive na ignorância das cavernas escuras, não deve ser condenado. Ao contrário, é um povo a quem deve ser estendida a mão amiga. É um povo a quem se deve ensinar a pescar, e a pescar peixe farto e bom nas águas do conhecimento.

E o que tem feito os nossos políticos, os nossos governantes há tempos? Eles têm feito justamente, o contrário. Negam o tesouro da educação a quem dela necessita e, desse modo, tornam dependente uma parcela da população que os elege. Após eleitos, os homens públicos agem, não em benefício daqueles que o elegeram, mas trabalham em prol de seus mesquinhos projetos de poder. Mesmo em tempos de opressão, o tempero anestésico do obscurantismo é tão forte, que faz o oprimido aplaudir e admirar o opressor.

Foi assim no passado, é assim no presente, e quisera Deus, que, no futuro, fosse diferente, pois somente assim, poderíamos viver em um país onde as belas palavras do artigo 5 da Constituição Federal, que diz:


 Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade…
fossem cumpridas em sua total plenitude.

Volto ao segundo parágrafo, e falo das duas notícias que me levaram a escrever este texto. Ainda um pouco sonolento, confesso, assistia no Bom Dia Brasil, a espetacular prisão domiciliar na qual será “encarcerado”, o ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, que fez delação premiada, motivando um pedido de prisão por parte do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, contra o ex-presidente, José Sarney, o presidente do Senado, Renan Calheiros, e contra o senador Romeró Juca, ex-ministro do governo Temer, pedido este negado pelo ministro do Supremo, Teori Zavascki.

Machado vai cumprir sua prisão domiciliar em Fortaleza, capital do Ceará, um dos cartões postais do nordeste brasileiro. Mas não só isso. Tem mais. Muito mais. Infinitamente mais. A prisão na qual o delator vai começar a cumprir pena é uma luxuosa mansão na capital cearense, guarnecida de piscina, quadra de esportes. A garagem não é tão grande assim. Cabem nela, apenas dez carros.

Claro, nem precisa dizer que uma mansão dessas não fica em um bairro qualquer, mas sim em um também luxuoso, bairro nobre de fortaleza, com direito a monitoramento por agentes de segurança particular. Prisão é sinônimo de solidão, correto? Mas não no caso da prisão domiciliar de Sérgio Machado. Ele terá direito a receber visita de 27 pessoas. Dá até para organizar uma festa em casa, regada a vinhos de excelente safra, e queijos selecionados. Ele também vai poder sair de casa em oito datas diferentes.

 O ex-presidente da Transpetro confessou que desviou R$ 100 milhões dos cofres públicos. Ele terá que devolver R$ 75 milhões, sendo R$ 10 milhões em até 30 dias e o restante em 18 meses. Mas… façamos as contas: 100 – 75 = 25. Noves fora zero, ficam faltando 25 milhões embolsados por Machado dos cofres públicos. 25 milhões dá para um indivíduo viver muito bem. Isso dói em cada coração brasileiro quando se sabe que é um dinheiro roubado da nação verde e amarela.

Tudo bem que a delação de Sérgio Machado é valiosa, ajudará em muito a desvendar ainda mais o complexo esquema de desvio de dinheiro dos cofres públicos, bem como revelar seus personagens centrais, mas, convenhamos, ele é um criminoso, tão criminoso quanto os outros elos da criminosa corrente. Acho mordomia demais para um sujeito dessa espécie. Não sei, talvez isso também possa servir como incentivo para outras valiosas delações premiadas. Mas, enfim, são tantas as coisas incompreensíveis nesse nosso Brasil…

Abaixo, compartilho a outra notícia a qual também me referi no segundo parágrafo: uma matéria publicada no jornal El País Brasil, de autoria do jornalista, Antonio Jiménez Barca, intitulada, Viagem ao Brasil mais pobre, o que sempre vota no PT, e que aborda as dificuldades dos moradores de Belágua, a cidade mais pobre do Brasil. Lá, a imensa maioria dos votos nas últimas eleições foi para Dilma Rousseff. A leitura do texto ajudará a entender o porquê.

Juntando os tecidos das duas reportagens para formar um diverso mosaico, teremos montado a figura de dois Brasis que não se conhecem, nunca se encontraram: o Brasil de Sérgio Machado, Dilma Rousseff, Lula, José Sarney, Renan Calheiros, Michel Temer, Romero Jucá, Henrique Alves, e tantos outros figurões da nossa velha política brasileira, e o Brasil de Belágua, que é o retrato de tantos recantos do Brasil.

***



Viagem ao Brasil mais pobre, o que sempre vota no PT

Belágua é a cidade mais miserável do país e a de maior apoio eleitoral a Dilma

ANTONIO JIMÉNEZ BARCA - Belágua (Maranhão) 20 JUN 2016

Um dia, faz um mês, deixaram de construir a casa de Antônio José do Nascimento em Belágua, no Estado do Maranhão. Os operários lhe explicaram que havia acabado o dinheiro do programa do Governo do Estado, e foram embora, com tudo pela metade: um esqueleto de casa sem serventia e um monte de tijolos que tostam sob o violento sol da uma da tarde destas latitudes quase equatoriais. Alguns meses antes, esses mesmos operários haviam contado a Nascimento, de 37 anos, com dois filhos, de 14 e 15 anos, e a mulher doente, que o Estado ia substituir seu velho casebre de barro e teto de palmeira, aqui chamado de taipa, por uma casa de tijolos e cimento, como parte de um programa que incluía outras cinquenta famílias miseráveis da cidade.

Mas agora, nesta manhã calorenta, Nascimento contempla sua quase casa com a melancolia de quem esteve a ponto de ganhar uma vez. Ele e a família subsistem à base da mandioca que coletam dia após dia nas terras comunais e que constitui sua comida principal e quase exclusiva, mesclada com água. E também do que compram com os 381 reais da subvenção mensal do Bolsa Família.

Belágua (uma rua asfaltada, um conjunto de casas e casebres dispersos, estradas de terra, ninguém entre uma e quatro da tarde, jegues presos com cordas às portas das casas, porcos e galinhas pelo caminho) é a cidade mais pobre do Brasil. Com 7.000 habitantes, situada a 200 quilômetros da capital do Estado, São Luís, a localidade tem uma renda per capita média de 240 reais por mês, segundo o último censo, elaborado em 2010. A taxa de analfabetismo supera os 40%. Nascimento é um desses analfabetos. Sua mulher, derrubada na cama agora pela artrose, é outra.

Belágua (lojas diminutas que vivem indiretamente do Bolsa Família, crianças que lavam mandioca no rio) ostenta outro recorde nacional: a maior porcentagem de apoio eleitoral para Dilma Rousseff na última eleição. Uma estranha unanimidade de 95%. Nascimento também se encaixa aí: votou no Partido dos Trabalhadores (PT) de Rousseff precisamente por causa da subvenção do Bolsa Família, instaurado pelo Governo Lula. “Graças a isso seguimos em frente. Agora sei que tiraram Dilma do poder. Contaram-me, porque minha televisão queimou. Não sei o que vai acontecer conosco”, diz. Nascimento se refere não ao futuro do país em abstrato, mas ao futuro desses 381 reais por mês, vitais para sua família. O Governo do presidente interino, Michel Temer, garantiu que vai respeitar certos programas sociais, incluindo esse, mas Nascimento, desconfiado e acostumado a que as coisas se saiam mal, olha de soslaio o projeto inacabado de sua casa inútil de tijolos sem data de término e seu rosto se enruga.

A secretaria de Estado das Cidades e Desenvolvimento Urbano do Governo do Maranhão, do Partido Comunista do Brasil (PC do B), reconhece, por meio de um comunicado, certos problemas com os materiais, mas diz que já deu ordens para que as casas sejam concluídas e os prazos sejam cumpridos.

Belágua é um exemplo fiel do Nordeste brasileiro, atrasado, pobre e resignado à sua sorte, que aceita a ajuda estatal um dia e com o mesmo fatalismo aceita no dia seguinte que a tirem. Também um expoente da desigualdade descomunal que aflige o país: enquanto nos bairros nobres de São Paulo há quem suba em um helicóptero para contornar o congestionamento da tarde de sexta-feira, no abafado casebre de Nascimento, sem torneiras, a água é armazenada em um pote de barro tampado com um paninho de crochê.

Às vezes é até pior: seu vizinho Aderaldo Ferreira, de 36 anos –também em um casebre de barro e palha, também, na porta, com o absurdo monte de tijolos inúteis da casa prometida– nem sequer conta com os reais do Bolsa Família. Aderaldo tem três filhos pequenos, um deles já na escola, mas, por um enrosco burocrático, a ajuda lhe foi negada, sem que ele saiba bem porquê. Mostra a carteira de identidade ao jornalista, como se isso servisse para demonstrar algo. Também é analfabeto, também vive da mandioca que arranca todos os dias. Sua mulher, grávida, amamenta o filho pequeno sem dizer nem uma única palavra, muda e ausente, como se tanta desgraça junta não fosse com ela.

Perto, em outro casebre, Joana dos Santos, de 35 anos, tece tiras de folhas de palmeiras para pagar uma dívida, contraída dois anos atrás para arcar com um exame médico que custou 280 reais para uma filha acometida de uma estranha paralisia. Acabará de pagar em dezembro. “Se Deus quiser”, acrescenta. Três de suas filhas se postam ao lado. Tem oito. E três filhos. Uma faz a lição de casa. Outra, de 12 anos, olha o jornalista com curiosidade.

— Você vai à escola?

— Sim

— O que quer ser quando crescer?

— O que Deus me der.

— Você gosta da escola?

— Mais quando dão merenda.

Às quatro ou cinco da tarde, quando o sol deixa de torturar a rua, chegará o pai com a mandioca do dia: a velha mandioca que se transforma em farinha depois de triturada e tostada, como já faziam os índios antes de os portugueses chegarem.

Do Bolsa Família, Joana recebe por mês 562 reais. “Não é só o dinheiro. É que o dono da venda faz fiado porque sabe que vai receber. Quando não tínhamos [o dinheiro], não era assim: não me venderam um peixe porque me faltavam 50 centavos. Por isso, sempre votarei em Dilma e Lula.”

Na mesma Belágua há quem escape do círculo fechado da miséria, ignorância e mandioca. No outro extremo da localidade, Raimundo dos Santos, conhecido como Seu Cota (52 anos, 14 filhos, 14 netos) mantém e explora uma horta. E vende alfaces, pepinos, tomates, batatas... Obteve no mês passado 1.500 reais por mês, uma soma que vai aumentar no mês que vem. Conseguiu uma bomba d’água graças a uma subvenção do Maranhão, e alguns técnicos também do Estado o ensinaram a plantar e colher. Sua casa tem chão de lajota, uma televisão velha, mas que funciona, e sua mulher e filhos estão vestidos e sorriem.

Aderaldo Ferreira, o da mulher sem palavras, o da choça sem nada, o que mostra a carteira de identidade como o documento essencial, diz que ouviu falar desse Seu Cota, que irá visitá-lo uma tarde, que lhe perguntará como fez, como faz, e aponta para o outro lado da cidade, como se fosse o outro lado do mundo.

0

Rio de Janeiro e o estado de “ineficiência” pública

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:09
 Domingo, 19 de junho

“Rio 40 graus
Cidade maravilha
Purgatório da beleza
E do caos..
...
O Rio é uma cidade
De cidades misturadas
O Rio é uma cidade
De cidades camufladas
Com governos misturados
Camuflados, paralelos
Sorrateiros
Ocultando comandos...”

(Rio 40 graus – Fernanda Abreu)


Você, certamente, já ouviu as expressões “estado de defesa”, “estado de sítio”, “estado de alerta”, “estado de emergência”, e “estado de calamidade pública”.

Os dois primeiros, são medidas tomadas pelos governos quando o país encontra-se uma tumultuada situação, como por exemplo, revoltas populares, guerras, ou ameaça delas. A decretação destes dois estados, que se referem especificamente à segurança nacional, proporciona um aumento de poder do governo para que ele possa tomar medidas urgentes com mais facilidade, e sem tanta burocracia.

Os três últimos estados, citados no primeiro parágrafo, referem-se a questões que envolvem as intempéries da natureza, que, comumente, chamamos de desastres naturais, como furacões, enchentes e secas. Estes estados podem ser decretados tanto pelos governos federal, estadual, ou municipal.

Disto isto, tomemos como cenário um Rio de Janeiro envolto pela expectativa dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos que serão realizados naquele cartão postal, em menos de dois meses. Alguém de vocês, por algum acaso, soube de algum desastre natural ocorrido no Rio nos últimos dias ou meses? Eu não soube de nenhum. Pensando bem, houve sim. No dia feriado de 21 de abril deste ano, o mar engoliu parte de uma ciclovia à beira mar, e recém-construída. A tragédia vitimou duas pessoas. No entanto, nesse caso, isenta-se a natureza de culpa, e coloca-se a responsabilidade na ineficiência dos homens que construíram a ciclovia.

Feito esse adendo, e concluindo que no Rio de Janeiro não houve acidentes naturais de grandes proporções. Pergunto eu: Porque motivo teria o governo do Rio decretado estado de calamidade pública?

O decreto, assinado pelo governador em exercício, Francisco Dorneles, foi publicado na sexta-feira (16). Como argumentos para a decretação do estado de calamidade, o governador cita fatores como; queda na arrecadação do Imposto sobre Circulação de Mercadorias (ICMS), queda nos royalties do petróleo, dificuldades na prestação de serviços essenciais, áreas de saúde, educação, segurança pública, mobilidade urbana, e gestão ambiental em colapso.

Eu tento enxergar alguma relação entre esses argumentos e os desastres naturais, mas não consigo ver nenhuma. Devo ser mesmo muito ignorante.

Além disso, o governo do Rio de Janeiro, defende que a atual situação de crise econômica nacional, aliada a crise estadual, vem impedindo que o Estado honre seus compromissos assumidos devido aos Jogos Olímpicos e Paralimpícos.

Mas que solução fácil, não?

Penso eu que nada disso tem a ver com “estado de calamidade pública”. Fossem assim, todos os estados brasileiros, deveriam seguir o exemplo do Rio e decretar tal estado, pois, uns mais, outros menos, todos os estados brasileiros estão operando no vermelho. Portanto, a crise não é de um Estado brasileiro, mas de todos os Estados brasileiros.

Em minha modesta opinião, o governo do Rio até poderia decretar algum estado, mas não de “calamidade pública”, mas sim, estado de “burrice”, de “ineficiência”, de “ingerência” e coisas desse tipo. Afinal, pelo que temos visto ultimamente, os governos não tem dado a mínima importância para a coisa pública, muitos menos para o povo. Minto. Eles têm procurado o povo e, habilmente, mentido, enganado, e trapaceado o eleitor, com um único objetivo, conseguir o voto. Depois... Ah, depois... Os eleitores que se danem.

Tão logo eleitos, os políticos, não somente os governadores, mas a classe política em geral senta-se em seus gabinetes, não para governar, mas para maquinar meios de roubar a nação. Em suas suntuosas residências, eles se reúnem com seus comparsas para discutir elaborados planos para enviar dinheiro para o exterior. Em reuniões secretas discutem que funcionários públicos corromper, e o mais importante, quanto de propina receberão.

E as questões essenciais para que uma cidade, um estado, ou um país se desenvolve plenamente, e que seus cidadãos sejam tratados com dignidade, fica para último plano. Pobre Brasil, pobre políticos corruptos, e pobres eleitores que os elegem. Esses últimos, apenas massas de manobra na mãos de poderosos.

Toda essa choradeira do governo do Rio é para dizer que o Estado está com um rombo de R$ 19 bilhões em suas contas, e o governo não tem condições de pagar. Então inventa um golpe, pois isso para mim, não passa de um golpe, para conseguir dinheiro do governo federal. Assim fica fácil: além dos desvios das montanhas de dinheiro desviado nesses grandes eventos, como o que Rio sediará em breve, acresça-se a má administração e falhas na administração das contas do estado, e o governo ainda arranja um jeito de fazer com o governo federal conceda verbas para obras, funcionários, e toda uma complexa estrutura que envolve as Olimpíadas.

É possível que seja uma jogada, um pacto entre o governo federal e o governo do Rio de Janeiro, para que as obras e toda a estrutura que envolve a realização das Olimpíadas sejam, no mínimo, satisfatória. Afinal de contas, o governo federal também tem interesse em que haja um clima “aparente” de tranquilidade e bem-estar a ser passada para o mundo, por ocasião dos jogos. Só acho que despejar dinheiro no Rio, é injustiça para com as outras unidades da federação, uma vez que todas estão em crise.

Acho que o governo federal poderia, ele mesmo, ser mais honesto, depois ensinar aos seus políticos em diversas esferas a serem mais honesto, assim sobraria bastante dinheiro nos Estados para as áreas de educação, segurança, mobilidade urbana, e mais outros projetos que o governo quisesse fazer.

Um derramamento de dinheiro no Rio, com hospitais e escolas sucateadas, salário do funcionalismo público em atraso, pode ser um desgaste enorme tanto para o governo do Rio, quanto para o governo Federal e, ao que parece, Temer está querendo pagar esse preço.

Aí a gente ouve a fala do diretor de comunicação da Rio 2016, Mário Andrade, dizendo ao jornal o Globo: “É zero a chance de essa decisão impactar os Jogos Olímpicos. O próprio Estado foi transparente ao fornecer as informações relacionadas às finanças. Reconhecemos o impacto que a perda de receitas com a queda do preço do barril de petróleo teve sobre o tesouro estadual”. No jogo de interesses vocês imaginam o diretor de comunicação da Rio 2016, dizendo coisa diferente? Eu não imagino.

Já que citei, diretamente, Michel Temer no parágrafo anterior, terminarei o texto, falando do governo dele. Que governo tumultuado! Santo Deus! E não foi por falta de aviso.
Logo no início de sua gestão como presidente interino, Temer bateu no peito, igual cacique, engrossou a voz, fez caras e boca, e anunciou que iria formar um ministério de notáveis. Formou, sim. Um governo de notáveis corruptos. Já caiu mais um deles. Dessa vez foi Henrique Eduardo Alves (PMDB), ex-ministro do Turismo. Com isso, já se somam três os ministro de Temer que caíram por envolvimento direto em episódios nada dignos de um ministério que se propunha notável.

Henrique foi denunciado pela procuradoria-geral da República por manter contas não declaradas no exterior. Autoridades suíças confirmaram que, realmente, há contas no exterior, atribuídas ao ex-ministro. E não é pouco dinheiro não, segundo os suíços, são quase R$ 3 milhões. A conta foi bloqueada pelas autoridades na suíça. Baseados nos documentos enviados daquele país, Rodrigo Janot, denunciou Henrique ao STF por lavagem de dinheiro, e evasão de divisas.

Temer sabia muito bem que Henrique, o ministro que escolhera para o Turismo, estava às voltas com a lei, ou melhor enredado nela. Já havia contra ele, quando de sua nomeação como ministro, dois pedidos de abertura de inquérito contra ele no Supremo, os dois por suspeita de envolvimento de desvio de dinheiro da Petrobrás.

Deus queira, que, com tudo isso: estado de calamidade pública com segundas intenções, crise econômica, unidades federativas quebradas, crise ética e política, corrupção, outro fantasma também não resolva aparecer no Rio: o zika vírus. Aí seria demais.

Copyright © 2009 Cottidianos All rights reserved. Theme by Laptop Geek. | Bloggerized by FalconHive. Distribuído por Templates