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Sem pensamento crítico, o absurdo é normal

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:24
Terça-feira, 31 de maio



A leitura abre os portais da mente, e nos faz navegar pelos mares do pensamento crítico.  O mundo do conhecimento é um universo, e nele não estamos nele sozinhos. As nossas ideias se misturam as ideias de outros, e desse ajuntamento, nascem novas ideias. O ato de ler nos faz entrar em contato com mundos de ideias diferentes dos nossos, e com isso, nos enriquecemos.

A forma como a educação é tratada no Brasil, faz com que amarguemos a façanha de figurarmos no ranking dos dez países com pior rendimento escolar no mundo. No dia de ontem, ouvia o comentário do jornalista José Godoy, na Rádio CBN, e ele falava da pesquisa, Retratos da Leitura no Brasil, que revelou que apenas 56% dos brasileiros são considerados leitores. E a principal desculpa dos brasileiros para não ler é a falta de tempo.

Os governos anteriores não se preocupavam muito com a questão da educação, e se depender do novo governo, esse quadro não vai se alterar nenhum pouco. O novo Ministro da Fazenda, Henrique Meireles, na terça-feira, 24, anunciou uma proposta que estabelece tetos para os gastos públicos, limitado à inflação do ano anterior. Com isso o aumento nas verbas nas áreas de educação e saúde pode chegar à zero, ou seja, não terem nenhum aumento real. A medida, anunciada por Michel Temer, será enviada ao Congresso, através de uma proposta de emenda constitucional.  Para que seja válida é preciso que a medida seja aprovada pelos parlamentares. O que esperamos, eles não façam.

Ou seja, enquanto os nossos governos tratarem a educação como gasto e não como investimento, estaremos nós sempre patinando no mesmo gelo, ou girando em torno da mesma mor, ou seja, não iremos a lugar nenhum, ou pelo menos, se formos a algum lugar, não iremos muito longe.

Por falar nisso, o governo Temer começou mal. O seu ministério parece parque em temporada de caça. De vez em quando é abatido um ministro. Ontem, caiu mais um. Já havia caído, recentemente, o ministro do Planejamento, Romero Jucá, atingido pelas balas ferinas da delação premiada de Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro. Ontem foi a vez do Ministro da Transparência. Fabiano Silveira.

No domingo (29), o Fantástico trouxe reportagem que revelava conversas gravadas por Sérgio Machado. As gravações foram feitas em uma reunião da qual participavam, Sérgio Machado, Renan Calheiros, presidente do Senado, Bruno Mendes, um advogado, ex-assessor de Renan, e Fabiano Silveira. Durante a reunião foram feitas críticas à Lava Jato, ao procurador-geral da República, Rodrigo Janot. Na ocasião, Fabiano, que ainda não era ministro, orienta Renan Calheiros e Sérgio Machado sobre como se comportarem em relação à Procuradoria-Geral da Republica.

O jornalista, José Simão, costuma dizer que o Brasil é o país da piada pronta, e ele não deixa de ter razão. Afinal, como pode, Michel Temer, escolher para o ministério da Transparência, Fiscalização e Controle, ministério que deve ser baluarte na luta contra a corrupção, um cara que senta em uma mesa para fazer críticas a uma operação que está trazendo moralidade para o país, e além do mais, ensinar artimanhas a investigados nessa mesma operação, para driblar a lei? É demais para a minha compreensão. Mesmo assim, diante da divulgação do áudio, Michel Temer, como no caso de Jucá, afirmou que não havia motivos para tirar Fabiano do Ministério. E Temer só fez isso, temendo a pressão de alguns políticos, de funcionários da pasta, e da sociedade em geral.

E o Sr. Temer que se cuide, pois ele ainda tem outros ministros investigados na Lava Jato, não duvido nada, que mais dia, menos dias, outro ministro seja abatido pela balas das delações premiadas. Vejam só a que ponto nós chegamos.

Já que estou falando de assuntos diversos amarrados dentro da mesma ideia central, eu digo que, realmente, estou chocado com o estupro coletivo que aconteceu no Rio de Janeiro, e com a reação machista das pessoas a quem ouvi conversarem sobre o tema. Não escrevi um texto sobre o fato por considerar o ato em si de uma brutalidade e de uma repugnância sem limites. Para começar, o machismo partiu do próprio delegado que inicialmente foi designado para o caso ao colocar a jovem na condição de provocadora do próprio estupro. Depois por pressão da advogada da jovem, o delegado saiu do caso e foi nomeada uma delegada para conduzir as investigações. Também ouvi pessoas comentarem sobre o caso na rua e também eles colocavam a jovem, não na situação de vítima, mas, de certo modo, colocavam nela a culpa. Como pode uma mulher ser dopada, ser abusada por mais de 30 homens, e ainda ser a incentivadora do próprio ato brutal?

Acho que, se a pesquisa a qual o jornalista da CBN fez referência, e da qual falo no início do texto, tivesse resultado diferente, e apontasse que os brasileiros são mais afeitos aos livros, talvez as opiniões do delegado fossem diferente, bem como de boa parte da sociedade que ainda acha que a mulher, apenas por ser mulher, merece ser vítima da brutalidade de certos homens que estão mais para a categoria de selvagens que de homens.

Fechando estas reflexões, compartilho com vocês, um texto do jornalista, Luiz Ruffato, colunista do El País Brasil.

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Sobre estupro, racismo, homofobia, etc

O principal problema do Brasil é a falência completa do sistema de educação

LUIZ RUFFATO


Muito mais que a corrupção, o principal problema do Brasil é a falência completa do sistema de educação, desmontado ao longo do Governo militar, abandonado nos governos de José Sarney e Fernando Collor e enterrado no Governo Fernando Henrique Cardoso. Mesmo a administração dita de esquerda de Luiz Inácio Lula da Silva, que demonstrou certa preocupação com o nível universitário, limitou-se a ampliar o número de vagas, não a melhorar a qualidade do ensino. O Brasil mantém-se entre os dez piores países em rendimento escolar do mundo, segundo dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Para tentar formular uma política de mudança deste quadro desastroso, o ministro da Educação, Mendonça Filho, recebeu em audiência oficial o ator pornô Alexandre Frota, o líder do Revoltados On Line, Marcelo Reis, e a procuradora aposentada Beatriz Kicis, coordenadora dessa entidade que organizou passeatas, junto com o Movimento Brasil Livre (MBL), a favor do impeachment da presidente Dilma Rousseff. Alexandre Frota, Marcelo Reis e Beatriz Kicis foram pedir ao ministro Mendonça Filho o “fim da ideologia política e de gênero nas escolas”.

De acordo com eles, o principal problema do ensino oferecido no Brasil é o doutrinamento das crianças e jovens pelos professores “comunistas” que defendem um pensamento “de esquerda”. Portanto, seguindo esse raciocínio simplista, basta proibir a discussão de ideias em sala de aula e teremos contribuído de maneira cabal para melhorar o sistema de educação. Frota, Reis e Beatriz Kicis ignoram de fato a realidade das escolas, que lutam contra a falta de infraestrutura adequada (prédios, móveis, bibliotecas, computadores), a desmotivação dos professores (baixos salários, desprestígio na sociedade, desrespeito de alunos e pais de alunos), a má qualificação dos profissionais envolvidos (professores, diretores e funcionários), o desinteresse de pais e mães em relação à vida escolar, e, como resultado de tudo isso, a falta de estímulo dos alunos.

Este momento que vivemos no Brasil, de intolerância, de sectarismo, de fanatismo, deve-se à ausência de aprendizado do debate. Somos fruto de uma sociedade hipocritamente consensual, pouco afeita à discussão, com um viés autoritário. Ao invés de impedir a circulação de ideias no ambiente escolar devemos é promovê-la, ampliá-la, incentivá-la, pois a educação válida é aquela que nos capacita para o exercício da cidadania, única garantia para uma sociedade democrática. Acreditar que todos os professores da rede pública de ensino são “comunistas” é tratar a categoria com desdém – e acreditar que os alunos são vulneráveis à doutrinação é não compreender o papel da escola.

A educação de uma criança é um movimento compartilhado pela família e pelo Estado. Em casa, adquirimos conhecimentos gerais e recebemos noções morais e éticas, valores que, introjetados, constituirão nosso ser pelo resto da vida. Na escola, espaço privilegiado de socialização, recebemos instrução, ou seja, somos alfabetizados, organizamos os conhecimentos gerais e exercitamos as noções morais e éticas. Reivindicar uma educação neutra é desejar uma sociedade de adultos alienados. A escola pode apenas reforçar ou contrastar valores sustentados pela família – e é por meio desse embate que formulamos nossa própria visão de mundo. Acreditar no poder único de um professor ou mesmo de uma escola na doutrinação de uma criança ou de um jovem é admitir a falência completa da família.

Aliás, o ministro da Educação é a maior prova disso. Filho do latifundiário José Mendonça Bezerra, deputado estadual em Pernambuco pela Arena e depois deputado federal por seis mandatos consecutivos pelo PDS depois PFL e depois DEM, Mendonça Filho estudou na Escola Parque de Recife, uma instituição de ensino de esquerda, que tem entre suas fundadoras duas professores até hoje filiadas ao PT. Ele mesmo admite que vivia em um ambiente de ideias totalmente opostas às que mantinham em casa. E, no entanto, Mendonça Filho fez toda sua carreira política em partidos de centro-direita.


Você que me acompanhou até aqui pode estar se perguntando: mas, afinal, o que tem a ver o título com o conteúdo deste artigo? Tem tudo a ver. Um país sem educação – sem pensamento crítico – acha normal que uma mulher seja estuprada a cada 11 minutos e que a cada hora e meia uma mulher seja morta. Um país sem educação – sem pensamento crítico – acha normal não termos professores negros, políticos negros, médicos negros, engenheiros negros, escritores negros, jornalistas negros. Um país sem educação – sem pensamento crítico – acha normal o homicídio de 381 homossexuais no último ano. Um país sem educação – sem pensamento crítico – acha normal que tenhamos 150 pessoas assassinadas por dia. Um país sem educação – sem pensamento crítico – acha normal a morte de 42.000 pessoas por ano em acidentes de trânsito. Um país sem educação – sem pensamento crítico – acha normal um ministro discutir planos de educação com um ator pornô, um obscuro empresário e uma promotora aposentada.

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