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Sem pensamento crítico, o absurdo é normal

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:24
Terça-feira, 31 de maio



A leitura abre os portais da mente, e nos faz navegar pelos mares do pensamento crítico.  O mundo do conhecimento é um universo, e nele não estamos nele sozinhos. As nossas ideias se misturam as ideias de outros, e desse ajuntamento, nascem novas ideias. O ato de ler nos faz entrar em contato com mundos de ideias diferentes dos nossos, e com isso, nos enriquecemos.

A forma como a educação é tratada no Brasil, faz com que amarguemos a façanha de figurarmos no ranking dos dez países com pior rendimento escolar no mundo. No dia de ontem, ouvia o comentário do jornalista José Godoy, na Rádio CBN, e ele falava da pesquisa, Retratos da Leitura no Brasil, que revelou que apenas 56% dos brasileiros são considerados leitores. E a principal desculpa dos brasileiros para não ler é a falta de tempo.

Os governos anteriores não se preocupavam muito com a questão da educação, e se depender do novo governo, esse quadro não vai se alterar nenhum pouco. O novo Ministro da Fazenda, Henrique Meireles, na terça-feira, 24, anunciou uma proposta que estabelece tetos para os gastos públicos, limitado à inflação do ano anterior. Com isso o aumento nas verbas nas áreas de educação e saúde pode chegar à zero, ou seja, não terem nenhum aumento real. A medida, anunciada por Michel Temer, será enviada ao Congresso, através de uma proposta de emenda constitucional.  Para que seja válida é preciso que a medida seja aprovada pelos parlamentares. O que esperamos, eles não façam.

Ou seja, enquanto os nossos governos tratarem a educação como gasto e não como investimento, estaremos nós sempre patinando no mesmo gelo, ou girando em torno da mesma mor, ou seja, não iremos a lugar nenhum, ou pelo menos, se formos a algum lugar, não iremos muito longe.

Por falar nisso, o governo Temer começou mal. O seu ministério parece parque em temporada de caça. De vez em quando é abatido um ministro. Ontem, caiu mais um. Já havia caído, recentemente, o ministro do Planejamento, Romero Jucá, atingido pelas balas ferinas da delação premiada de Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro. Ontem foi a vez do Ministro da Transparência. Fabiano Silveira.

No domingo (29), o Fantástico trouxe reportagem que revelava conversas gravadas por Sérgio Machado. As gravações foram feitas em uma reunião da qual participavam, Sérgio Machado, Renan Calheiros, presidente do Senado, Bruno Mendes, um advogado, ex-assessor de Renan, e Fabiano Silveira. Durante a reunião foram feitas críticas à Lava Jato, ao procurador-geral da República, Rodrigo Janot. Na ocasião, Fabiano, que ainda não era ministro, orienta Renan Calheiros e Sérgio Machado sobre como se comportarem em relação à Procuradoria-Geral da Republica.

O jornalista, José Simão, costuma dizer que o Brasil é o país da piada pronta, e ele não deixa de ter razão. Afinal, como pode, Michel Temer, escolher para o ministério da Transparência, Fiscalização e Controle, ministério que deve ser baluarte na luta contra a corrupção, um cara que senta em uma mesa para fazer críticas a uma operação que está trazendo moralidade para o país, e além do mais, ensinar artimanhas a investigados nessa mesma operação, para driblar a lei? É demais para a minha compreensão. Mesmo assim, diante da divulgação do áudio, Michel Temer, como no caso de Jucá, afirmou que não havia motivos para tirar Fabiano do Ministério. E Temer só fez isso, temendo a pressão de alguns políticos, de funcionários da pasta, e da sociedade em geral.

E o Sr. Temer que se cuide, pois ele ainda tem outros ministros investigados na Lava Jato, não duvido nada, que mais dia, menos dias, outro ministro seja abatido pela balas das delações premiadas. Vejam só a que ponto nós chegamos.

Já que estou falando de assuntos diversos amarrados dentro da mesma ideia central, eu digo que, realmente, estou chocado com o estupro coletivo que aconteceu no Rio de Janeiro, e com a reação machista das pessoas a quem ouvi conversarem sobre o tema. Não escrevi um texto sobre o fato por considerar o ato em si de uma brutalidade e de uma repugnância sem limites. Para começar, o machismo partiu do próprio delegado que inicialmente foi designado para o caso ao colocar a jovem na condição de provocadora do próprio estupro. Depois por pressão da advogada da jovem, o delegado saiu do caso e foi nomeada uma delegada para conduzir as investigações. Também ouvi pessoas comentarem sobre o caso na rua e também eles colocavam a jovem, não na situação de vítima, mas, de certo modo, colocavam nela a culpa. Como pode uma mulher ser dopada, ser abusada por mais de 30 homens, e ainda ser a incentivadora do próprio ato brutal?

Acho que, se a pesquisa a qual o jornalista da CBN fez referência, e da qual falo no início do texto, tivesse resultado diferente, e apontasse que os brasileiros são mais afeitos aos livros, talvez as opiniões do delegado fossem diferente, bem como de boa parte da sociedade que ainda acha que a mulher, apenas por ser mulher, merece ser vítima da brutalidade de certos homens que estão mais para a categoria de selvagens que de homens.

Fechando estas reflexões, compartilho com vocês, um texto do jornalista, Luiz Ruffato, colunista do El País Brasil.

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Sobre estupro, racismo, homofobia, etc

O principal problema do Brasil é a falência completa do sistema de educação

LUIZ RUFFATO


Muito mais que a corrupção, o principal problema do Brasil é a falência completa do sistema de educação, desmontado ao longo do Governo militar, abandonado nos governos de José Sarney e Fernando Collor e enterrado no Governo Fernando Henrique Cardoso. Mesmo a administração dita de esquerda de Luiz Inácio Lula da Silva, que demonstrou certa preocupação com o nível universitário, limitou-se a ampliar o número de vagas, não a melhorar a qualidade do ensino. O Brasil mantém-se entre os dez piores países em rendimento escolar do mundo, segundo dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Para tentar formular uma política de mudança deste quadro desastroso, o ministro da Educação, Mendonça Filho, recebeu em audiência oficial o ator pornô Alexandre Frota, o líder do Revoltados On Line, Marcelo Reis, e a procuradora aposentada Beatriz Kicis, coordenadora dessa entidade que organizou passeatas, junto com o Movimento Brasil Livre (MBL), a favor do impeachment da presidente Dilma Rousseff. Alexandre Frota, Marcelo Reis e Beatriz Kicis foram pedir ao ministro Mendonça Filho o “fim da ideologia política e de gênero nas escolas”.

De acordo com eles, o principal problema do ensino oferecido no Brasil é o doutrinamento das crianças e jovens pelos professores “comunistas” que defendem um pensamento “de esquerda”. Portanto, seguindo esse raciocínio simplista, basta proibir a discussão de ideias em sala de aula e teremos contribuído de maneira cabal para melhorar o sistema de educação. Frota, Reis e Beatriz Kicis ignoram de fato a realidade das escolas, que lutam contra a falta de infraestrutura adequada (prédios, móveis, bibliotecas, computadores), a desmotivação dos professores (baixos salários, desprestígio na sociedade, desrespeito de alunos e pais de alunos), a má qualificação dos profissionais envolvidos (professores, diretores e funcionários), o desinteresse de pais e mães em relação à vida escolar, e, como resultado de tudo isso, a falta de estímulo dos alunos.

Este momento que vivemos no Brasil, de intolerância, de sectarismo, de fanatismo, deve-se à ausência de aprendizado do debate. Somos fruto de uma sociedade hipocritamente consensual, pouco afeita à discussão, com um viés autoritário. Ao invés de impedir a circulação de ideias no ambiente escolar devemos é promovê-la, ampliá-la, incentivá-la, pois a educação válida é aquela que nos capacita para o exercício da cidadania, única garantia para uma sociedade democrática. Acreditar que todos os professores da rede pública de ensino são “comunistas” é tratar a categoria com desdém – e acreditar que os alunos são vulneráveis à doutrinação é não compreender o papel da escola.

A educação de uma criança é um movimento compartilhado pela família e pelo Estado. Em casa, adquirimos conhecimentos gerais e recebemos noções morais e éticas, valores que, introjetados, constituirão nosso ser pelo resto da vida. Na escola, espaço privilegiado de socialização, recebemos instrução, ou seja, somos alfabetizados, organizamos os conhecimentos gerais e exercitamos as noções morais e éticas. Reivindicar uma educação neutra é desejar uma sociedade de adultos alienados. A escola pode apenas reforçar ou contrastar valores sustentados pela família – e é por meio desse embate que formulamos nossa própria visão de mundo. Acreditar no poder único de um professor ou mesmo de uma escola na doutrinação de uma criança ou de um jovem é admitir a falência completa da família.

Aliás, o ministro da Educação é a maior prova disso. Filho do latifundiário José Mendonça Bezerra, deputado estadual em Pernambuco pela Arena e depois deputado federal por seis mandatos consecutivos pelo PDS depois PFL e depois DEM, Mendonça Filho estudou na Escola Parque de Recife, uma instituição de ensino de esquerda, que tem entre suas fundadoras duas professores até hoje filiadas ao PT. Ele mesmo admite que vivia em um ambiente de ideias totalmente opostas às que mantinham em casa. E, no entanto, Mendonça Filho fez toda sua carreira política em partidos de centro-direita.


Você que me acompanhou até aqui pode estar se perguntando: mas, afinal, o que tem a ver o título com o conteúdo deste artigo? Tem tudo a ver. Um país sem educação – sem pensamento crítico – acha normal que uma mulher seja estuprada a cada 11 minutos e que a cada hora e meia uma mulher seja morta. Um país sem educação – sem pensamento crítico – acha normal não termos professores negros, políticos negros, médicos negros, engenheiros negros, escritores negros, jornalistas negros. Um país sem educação – sem pensamento crítico – acha normal o homicídio de 381 homossexuais no último ano. Um país sem educação – sem pensamento crítico – acha normal que tenhamos 150 pessoas assassinadas por dia. Um país sem educação – sem pensamento crítico – acha normal a morte de 42.000 pessoas por ano em acidentes de trânsito. Um país sem educação – sem pensamento crítico – acha normal um ministro discutir planos de educação com um ator pornô, um obscuro empresário e uma promotora aposentada.

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Os cientistas e o medo do mosquito

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:20
Segunda-feira, 30 de maio



O Brasil, especialmente aquela que é conhecia como Cidade Maravilhosa, vai receber os Jogos Olímpicos de 2016,  ou simplesmente, Rio 2016, de braços abertos. E mesmo de braços abertos e com o coração acolhedor, estará recebendo este grande momento do esporte mundial em meio ao epicentro de uma grave crise econômica que ameaça levar o país à bancarrota. Não bastasse isso, há o vulcão dos escândalos de corrupção que lança suas larvas ardentes para todos os lados, manchando a imagem do país. Além disso, há uma crise ética e política que faz tremer o chão de Brasília, e esses tremores se fazem sentir em cada coração brasileiro.

Poderia parar por aí que o estrago já seria grande. Porém, vivemos um pesadelo pequeno, silencioso, mas muito perigoso, chamado mosquito, inseto que provoca a dengue, a febre chikungunya, e mais recentemente, trouxe também o temido zika vírus.

Perdoem-me o trocadilho, mas o Brasil está mesmo com uma zika danada. Xô, maré de azar! Vai pra longe que a gente não merece tudo isso, não.

O zika é de preocupar? Sem dúvida. É preciso cuidados e precauções? Obvio que sim. Entretanto achei um tremendo exagero a carta que um grupo de 150 cientistas enviou a Organização Mundial de Saúde (OMS), pedindo que, por causa dos casos de zika que tem surgido no país, especialmente, no Rio, os Jogos Olímpicos, que ocorrerão entre os dias 05 e 21 de agosto, e os Jogos Paralímpicos, que ocorrerão entre 7 e 18 de setembro deste ano, sejam adiados ou transferidos de lugar.

Isso é que querer aterrorizar o Brasil e o mundo sem necessidade, afinal, a epidemia está controlada, e, apesar do mosquito ser uma ameaça, não vivemos um quadro de pandemia, que é um estado mais grave que um surto ou epidemia.  

Na carta, o grupo formado por cientistas internacionais defende que, em nome da saúde pública, as Olimpíadas e Paralímpiadas sejam suspensas ou transferidas, devido à incidência dos surtos de zika no Brasil.

Porém, devo confessar que concordo plenamente com um dos argumentos citados pelo grupo de cientista: a de que o Brasil não soube lutar contra o mosquito, e a de que o sistema de saúde do Rio de Janeiro — eles citam o Rio, mas esse é um problema nacional — está fragilizado.

E aí não tem como voltar ao tema da corrupção, e do descaso com a coisa pública. Nos últimos dias, o jornal Folha de São Paulo tem trazido conversas gravadas — e que fazem parte de delações premiadas — entre figuras importantes da política brasileira, como os senadores Renan Calheiro e Romero Jucá, e o ex-presidente José Sarney. Antes, os jornais já haviam publicado as conversas comprometedoras entre Lula e Dilma Rousseff, que causaram o maior alvoroço no Brasil.

E sobre o que eles conversam caros leitores? Esse bando de corruptos deveria estar discutindo questões fundamentais para a resolução dos problemas educacionais, de saúde, segurança, e econômicos do povo brasileiro, mas ao invés disso, ficam discutindo quem colocar no cargo mais importante para que ele possa ajudar a desviar mais dinheiro. Ficam discutindo formas de livrar empresas e condenados na Lava Jato. Em outros momentos, discutem como deter a força da própria Lava Jato.

Se esses caciques da política brasileira trocassem telefonemas para tratar de assuntos realmente sérios, e de interesse do povo brasileiro, eles conversariam sobre estratégias para deter o surto da dengue, e do zika vírus, e sobre as verbas destinadas para tal finalidade. Teceriam planos para eliminar o inimigo pequeno e silencioso. Porém, enquanto eles discutem formas de enriquecimento ilícito, o mosquito, silenciosamente, se alastra pelo país, e nos faz viver essa ameaça, e passar essa vergonha, que é o pedido dos cientistas na carta à OMS.

Os Jogos Olímpicos se desenvolverão na tranquilidade, os atletas viverão seus sonhos, e o esporte vencerá, assim como se deu na Copa do Mundo. Naquele evento, também a comunidade internacional achava que iria haver bombas voando por todos os lados, que os atletas não poderiam completar sua missão em um país à beira de um ataque de nervos, e, na verdade, com bola rolando em campo, à exceção dos 7 x 1 para a Alemanha, foi tudo um sucesso. Ninguém matou. Ninguém morreu. Claro, em termos estruturais, no jogo fora de campo, perdemos o campeonato, mas a conta, pesada conta, ficou para nós brasileiros, mais uma vez, e os estrangeiros não tiveram nada a ver com isso.

A resposta da OMS à carta dos cientistas não demorou, veio um dia depois. O órgão disse não haver justificativa para que os jogos do Rio sejam adiados ou transferidos. A própria diretora da OMS disse que na abertura das Olimpíadas estaria no Rio, prestigiando o evento. Entretanto, apesar de assinar embaixo a realização dos jogos no Rio, a OMS lançou uma cartilha com recomendações para as pessoas que virão ao país. Uma dessas recomendações é de que mulheres grávidas não viajem para área onde há transmissão do vírus, e isso inclui o Rio de Janeiro. Uma recomendação polêmica da OMS é da que sejam evitadas as áreas pobres do Rio, onde exista esgoto a céu aberto.

Ou seja, os políticos não fazem o seu trabalho, e quem leva a culpa são os pobres. Pobre país, medíocres políticos, sofrida população.

No mais, o Cristo Redentor estará de braços abertos sobre a bela baía de Guanabara, e tudo irá bem.

Abaixo, compartilho, na integra a carta que a comunidade internacional de cientistas enviou à Organização Mundial da Saúde.


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Carta aberta à Dra. Margaret Chan, diretora geral da Organização Mundial de Saúde (OMS)

(Com cópia ao Comitê Olímpico Internacional)

Estamos escrevendo para expressar nossa preocupação quanto aos Jogos Olímpicos e Paralímpicos que começarão em breve no Rio de Janeiro. A declaração da OMS de que o zika é "uma emergência de saúde pública de preocupação internacional", somada a novas constatações científicas que sublinham a importância do problema, pede que os jogos do Rio em 2016 sejam adiados ou transferidos para outro local - mas não cancelados -, em nome da saúde pública.

Fazemos esse apelo a despeito do fatalismo generalizado de que os jogos do Rio em 2016 são inevitáveis, ou "grandes demais para fracassar". A História nos ensina que isso não é verdade: os jogos de 1916, 1940 e 1944 foram não postergados mas cancelados, e outros eventos esportivos foram transferidos por motivo de doença, como nos casos da Major League Baseball, por conta do zika, e da Copa das Nações Africanas, por conta do ebola.

No momento, muitos atletas, delegações e jornalistas estão enfrentando a difícil decisão de participar ou não da Olimpíada do Rio em 2016. Concordamos com os Centros de Controle de Doenças dos Estados Unidos, que recomendam que os trabalhadores devem "considerar adiar suas viagens a áreas em que a transmissão do zika é ativa". Se essa orientação fosse seguida uniformemente, nenhum atleta se veria forçado a escolher entre arriscar uma doença ou participar de uma competição para a qual muitos deles treinaram a vida inteira.

Nossa maior preocupação é quanto à saúde mundial. A variante brasileira do vírus do zika prejudica a saúde de maneiras que a ciência até agora não havia observado. Um risco desnecessário será criado pela presença de 500 mil turistas estrangeiros de todos os países que comparecerão aos jogos e podem ser contagiados com essa variante, e voltar para casa em lugares onde ela poderia se tornar endêmica. Caso isso aconteça em lugares pobres e até agora ainda não atingidos (por exemplo o sul da Ásia e a África), o sofrimento poderia ser grande. É antiético correr esse risco, por jogos que poderiam seguir adiante de outra maneira, caso postergados ou transferidos.

Em nossa opinião, diversas novas constatações científicas requerem que a OMS reconsidere seu posicionamento sobre os jogos olímpicos e paralímpicos de 2016. Por exemplo:

- Que a variante viral brasileira causa microcefalia e provavelmente síndrome de Guillain-Barré. Além disso, porque estudos humanos, animais e in vitro demonstraram que o vírus é neutrófico e causa morte de células, é biologicamente plausível que existam ainda outras lesões neurológicas não descobertas até agora, como existem no caso de vírus semelhantes (por exemplo o da dengue)7.

- Que embora o risco do zika para cada dado indivíduo seja baixo, o risco para uma população é inegavelmente alto. No momento, o governo brasileiro reporta 120 mil casos de zika e 1,3 mil casos confirmados de microcefalia (com outros 3,3 mil sob investigação), o que fica acima do nível histórico de incidência da microcefalia.

- Que o Rio de Janeiro é fortemente afetado pelo zika. O governo brasileiro reporta que o Estado do Rio de Janeiro tem o segundo maior número de casos prováveis de zika no país (32 mil), e a quarta maior incidência (195 em cada 100 mil moradores), o que demonstra transmissão ativa.

- Que a despeito do novo programa de extermínio de mosquitos do Rio de Janeiro, a transmissão da doença portada por mosquitos subiu em lugar de cair. Embora o zika seja uma epidemia nova e não haja dados históricos sobre ele, usando a dengue como fator de comparação, os casos no Rio de Janeiro entre janeiro e abril mostraram alta de 320%, e de 1.150% ante o período em 2015 e 2014. No bairro específico do Parque Olímpico (Barra da Tijuca), houve mais casos de dengue só no primeiro trimestre de 2016 do que em todo o ano de 2015.

- Que o sistema de saúde do Rio de Janeiro está tão severamente enfraquecido que uma campanha de último minuto contra o zika é impossível. O governo estadual do Rio recentemente declarou uma emergência de saúde e a prefeitura da cidade reduziu em 20% as verbas de combate a enfermidades transmitidas por mosquitos. Embora o vírus seja o agente infeccioso do zika, a verdadeira causa da doença são as condições sociais e sanitárias precárias do Rio - fatores para os quais não há solução rápida, e o desvio dos escassos recursos de saúde disponíveis para os jogos não ajuda.

- Que é impossível erradicar o mosquito Aedes aegypti, que transmite o zika, do Rio. O mosquito na verdade havia sido totalmente erradicado no Brasil nos anos 50, mas voltou porque os esforços de controle foram abandonados. Assim realizar os jogos, na presença de mosquitos portadores do zika, é uma escolha, e não é necessário.

- Que não se pode contar com a natureza como defesa. Embora a atividade reduzida dos mosquitos nos meses de inverno do Rio reduza o risco de infecção de viajantes individuais, esse fator é parcialmente compensado quando viajantes infectados voltam para casa nos meses de verão do hemisfério norte, que vêem um pico de atividade de mosquitos, o que eleva o risco de saúde pública de que mosquitos locais adquiram e espalhem o vírus -o que significa que as duas estações são relevantes para o curso da epidemia. Além disso, a infecção pode se espalhar por meio de doações e transfusões de sangue, especialmente em países pobres onde não haja exames específicos para detectar o zika.

Em resumo, as provas mostram que: (i) a variante brasileira do zika tem consequências médicas mais sérias do que se sabia anteriormente; (ii) o Rio de Janeiro é uma das partes do Brasil mais afetadas; e (iii) que os esforços de extermínio de mosquitos do Rio não estão cumprindo as expectativas, e que as doenças portadas por mosquitos estão em alta este ano. É portanto imperativo que a OMS conduza uma nova avaliação, com base em provas, do zika e dos jogos, e de suas recomendações aos viajantes.

Porque o zika é uma nova emergência, suas muitas incertezas - quanto a fluxos de viagem durante os jogos, epidemiologia e entomologia - no momento tornam impossível que modelos matemáticos prevejam com precisão o curso da epidemia. Portanto, por enquanto qualquer decisão sobre o zika e os jogos precisa ser mais qualitativa que quantitativa. Se as opções abaixo forem consideradas:

(a) Realizar os jogos no Rio na data prevista;

(b) Realizar os jogos no Rio posteriormente, depois que o zika for controlado;

(c) Realizar os jogos em locais não afetados pelo zika e que dispunham de instalações de padrão olímpico.

É indisputável que a opção (a), a de realizar os jogos como planejado, oferece maior risco de acelerar a difusão da variante viral brasileira, diante das alternativas. Adiar e/ou transferir os jogos também mitigaria outros riscos causados pela histórica turbulência que a economia, a sociedade em geral e a governança brasileiras enfrentam, e que não são problemas isolados, criando um contexto que torna praticamente impossível resolver o problema do zika, dada a rápida aproximação da data dos jogos.

Estamos preocupados com a possibilidade de que a OMS esteja rejeitando essas alternativas por um conflito de interesse. Especificamente, a OMS formou uma parceria oficial com o Comitê Olímpico Internacional (COI), em um memorando de entendimento cujo conteúdo continua secreto. Não existe um bom motivo para que a OMS não revele esse memorando de entendimento, como é prática padrão em casos de conflito de interesse. Não fazê-lo lança dúvidas sobre a neutralidade da OMS, por razões descritas de maneira mais aprofundada no apêndice.


A OMS precisa retomar a questão do zika e adiar e/ou transferir os jogos. Recomendamos que a OMS forme um grupo independente para assessorá-la, e ao COI, em um processo transparente e baseado em provas, no qual a ciência, a saúde pública e o espírito do esporte venham primeiro. Dadas as consequências éticas e de saúde pública, não fazê-lo seria irresponsável.

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Selva de pedra, capitão do mato, e polícia matadora

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:23
Sexta-feira, 27 de maio

Dizem que ela existe
Prá ajudar!
Dizem que ela existe
Prá proteger!
Eu sei que ela pode
Te parar!
Eu sei que ela pode
Te prender!...
(Policia – Titãs)


No Brasil, a escravidão acabou há 128 anos, mas uma herança maldita parece perseguir o povo negro até hoje. Na época da escravidão, quando um negro fugia para os quilombos, os senhores de engenho logo colocavam o capitão do mato para persegui-los, com a ordem de trazer o fugitivo de volta, vivo ou morto. De chicote e armas de fogo em punho, esses terríveis e cruéis capitães do mato perseguiam os negros pelas matas e caatingas como se perseguissem animais selvagens.

Certas coisas parecem não ter mudado muito ao longo dos tempos. Certos atores permanecem os mesmo, mudaram apenas de nome. Por exemplo, antigamente, o que eram os quilombos? Em breves palavras, as comunidades quilombolas eram reduto de oprimidos. O que são as favelas hoje? São redutos de oprimidos. Quem são os capitães do mato hoje? Policiais de mente doentia e despreparados, que em comparação aos feitores, apenas abandonaram o chicote, mas as armas de fogo continuam em punho e eles continuam a perseguir os negros, pelas selvas de pedra.

Quando ouvimos todas essas coisas sobre violência policial e racismo, e temos notícias da brutalidade com que essas ações são feitas, vemos que, na esmagadora maioria das vezes, os fatos se desenrolam em comunidades onde a predominância dos negros é maior. Eu, pelo menos, nunca vi nenhuma reportagem falando de que os policiais entraram nos redutos dos brancos e ricos e tenham feito vítimas inocentes tombarem por terra. Você, caro leitor, por acaso, já ouviu falar de polícia sendo violenta com os brancos ricos, ou até mesmo de classe média?

Às vezes, quando acontecem casos de racismo e violência policial nos Estados Unidos, a imprensa brasileira dá grande destaques em seus noticiários, mas quase que diariamente, acontecem casos de preconceito e violência contra o povo negro, e esses casos passam despercebidos. Esse comportamento da imprensa é compreensível, não aceitável, mas compreensível. Afinal, é melhor falar do que está errado em casa alheia. Discutir os problemas que acontecem na casa dos outros, é fácil. Dessa forma, não temos que olhar, debater e discutir nossas próprias mazelas, botar o dedo nas nossas próprias feridas.

No dia 22 de maio, o jornal El Pais Brasil, publicou duas reportagens abordando tema. Na reportagem intitulada, “Por que o senhor atirou em mim?”: a voz dos jovens inocentes mortos pela PM, o jornalista Gil Alesi, começa o texto com a seguinte descrição: “Quero a minha mãe”, disse Herinaldo Vinicius de Santana, de 11 anos. Provavelmente não foi a primeira vez que o jovem falou essas palavras. Mas foi a última. Em 23 de setembro de 2015 ele foi baleado e morto por policiais militares na comunidade Parque Alegria, no complexo do Cajú, no Rio de Janeiro. Testemunhas disseram que um grupo de PMs patrulhava o local, que conta com uma Unidade Policial Pacificadora, e se assustou quando a criança desceu correndo uma escadaria do bairro. Em seu bolso, 80 centavos para comprar uma bolinha de pingue-pongue. Após receber os disparos, Santana caiu e, segundo testemunhas disse suas últimas palavras: “Quero minha mãe”. Não deu tempo. Quando ela chegou, ele já estava morto”.

Acho que chegou a hora das autoridades olharem com mais cuidado para a questão do extermínio de jovens negros e pobres dos guetos do Brasil. Afinal, eles são tão humanos e cheios de sonhos e planos e futuro quanto os jovens brancos e ricos dos feudos dos ricos. É preciso também ter em mente que, para habitarmos um mundo melhor, não basta apenas nos desenvolvermos em termos de ciência e tecnologia, mas é preciso desenvolver nossas mente, pois somente assim, resolveremos e lidaremos melhor com questões cruciais que vem complicando o relacionamento entre os homens de todas as raças desde séculos.

Na postagem de hoje, compartilho com vocês uma das matérias publicadas pelo El Pais Brasil. A matéria, cujo título é “Nova sessão de tortura da polícia da Bahia acaba na morte de jovem de 16 anos” foi publicada pelo jornal El Pais Brasil, no dia 22 de maio, e foi escrita por María Martin.

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Nova sessão de tortura da polícia da Bahia acaba na morte de jovem de 16 anos

Corregedoria investiga ação policial contra adolescente que morreu dias depois com lesão na traqueia

MARÍA MARTÍN

No último 27 de abril, Inácio de Jesus, um adolescente baiano de 16 anos ainda com rosto de menino, voltava do almoço em direção ao lava jato do tio, onde trabalhava por 100 reais por semana. No caminho, na garupa da moto de um amigo, foi parado por uma viatura com três policiais militares, mas não foi conduzido à delegacia. Os agentes levaram os garotos para um matagal, no entorno do presídio Lauro de Freitas, no bairro de Itinga, a 40 minutos de carro da turística Salvador. Foi ali, no meio do nada, onde o GPS da viatura parou de funcionar e onde, segundo a denúncia que está sendo investigada, Inácio foi torturado durante horas.

Os detalhes das agressões vieram do próprio adolescente que descreveu a sessão de tortura ao chegar em casa. Ele, segundo esse relato, hoje contado entre lágrimas pela mãe, sofreu várias tentativas de asfixia com uma sacola plástica, recebeu golpes no corpo todo sem deixar marcas externas e foi desafiado a escolher entre um pau fino e outro mais grosso para ser abusado pelos policiais.

Após o violento interrogatório, Inácio e seu amigo tampouco foram levados à delegacia. Mais uma viatura somou-se à ação policial e acompanhou os jovens até suas casas. Procuravam, sem mandado judicial, armas e drogas que, segundo seus familiares, não tinham. Os agentes, porém, disseram ter achado uma pistola e com ela pegaram Inácio para levá-lo, quatro horas depois da abordagem, até a delegacia. Algemado a uma barra de ferro e obrigado a ficar de pé, Inácio, menor de idade, passou a noite preso.

Liberado no dia seguinte, o adolescente, que estudava no turno da noite, relatou à mãe, uma desempregada de 35 anos, sua primeira passagem policial. O relato foi complementado pelo amigo que sobreviveu às agressões. “O menino andava torto, tinha as pernas inchadas de ter passado a noite inteira de pé, e dois dias depois começou a passar mal, estava com falta de ar. Levei-o ao médico”, lembra a mãe. No primeiro atendimento em um posto de saúde, Inácio recebeu remédio e foi dispensado, mas nos dias seguintes não conseguia respirar. Em 2 de maio ele foi internado em um hospital e morreu quatro dias depois.

O médico, segundo a família, explicou que o menino tinha uma lesão na traqueia, que tinha afetado o esôfago e comprometido os pulmões, lesões supostamente associadas as tentativas de asfixia que Inácio sofreu. No primeiro informe, ao qual o EL PAÍS teve acesso, o doutor constatou que o garoto havia sido vítima de agressões e apresentava um “enfisema subcutâneo na região cervical”, normalmente associado a uma lesão pulmonar que permite que o ar escape dos pulmões para se infiltrar embaixo da pele. O laudo que explicará as causas da morte de um menino, até então sem problemas de saúde, ainda não está pronto.

“Meu filho não era errado, mas mesmo que fosse eles não teriam esse direito de fazer o que fizeram com ele”, reclama a mãe, que resolveu denunciar o caso, ainda com o garoto no hospital, à Corregedoria da Polícia, órgão fiscalizador da corporação. “Eles nos advertiram que sabiam onde a gente morava, mas eu denunciei. Antes dele morrer. Só não deu tempo de salvar a vida dele”, afirma. Os seis policiais envolvidos continuam trabalhando normalmente.

O abuso como rotina

O caso de Inácio não é novo na comunidade pobre onde ele morava, bairro onde os vizinhos relatam abusos e ameaças policiais rotineiras, como a invasão de domicílios, a qualquer hora e sem mandado judicial, ou a prática de fotografar menores após as abordagens, mesmo não tendo sido encontrado nada de ilícito com eles. Em fevereiro, um serralheiro de 18 anos denunciou que foi levado no porta-malas de um carro por dois policiais à paisana. Ele foi torturado também em um matagal, jogaram álcool na sua cabeça, o ameaçaram de morte e o espancaram durante horas, segundo sua denúncia. A dupla de agentes continua trabalhando na mesma função, no Serviço de Inteligência da PM.

Também em Salvador, quatro policiais militares foram presos em agosto do ano passado por torturar um senhor de 62 anos. Os agentes, supostamente na missão de capturar um traficante, chegaram na casa da vítima e o levaram até um lixão, onde introduziram um cabo de vassoura no ânus do idoso, como demonstraram os laudos médicos do caso. Eles o extorquiram e roubaram o pouco dinheiro que ele tinha, 200 reais em cédulas e outros 200 em moedas. O juiz militar do caso foi contundente e decretou a prisão preventiva e imediata dos envolvidos “por comprometer seriamente a ordem pública” e os quatro militares aguardam presos seu julgamento.

Outro caso escancarou os brutais métodos de alguns membros da polícia militar baiana. Às vésperas do Carnaval de 2015, nove policiais mataram 12 jovens negros em Cabula, bairro da periferia de Salvador. A PM falou em confronto, mas a Promotoria viu indícios de execução sumária. Uma sentença relâmpago, incomum na Justiça brasileira, absolveu os agentes envolvidos.

De acordo com último Anuário Brasileiro de Segurança Pública, 3.009 pessoas foram mortas pela polícia brasileira em 2014. O Estado de Bahia ostenta o terceiro lugar nesse ranking, após São Paulo e Rio de Janeiro. Questionadas, tanto a Corregedoria como a Secretaria de Segurança Pública de Bahia não se pronunciaram sobre o caso de Inácio. 

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Renan e Sérgio com medo do bicho-papão

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 22:52
Quarta-feira, 25 de maio

Sérgio \Machado, à esquerda, e Renan Calheiros, à esquerda

Caros leitores, na verdade, iria publicar hoje, um texto que fala da questão da violência policial e do racismo que esta corporação parece nutrir pelo povo negro, especialmente, pelos jovens negros. Porém, a coerência e a consciência me convidaram a postar as conversar de Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro, com Renan Calheiros (PMDB), presidente do Senado. E faço isso, por considerar de extrema gravidade que um presidente do Senado esteja tão preocupado em frear uma operação policial que tanto bem tem feito ao Brasil, ao desmascarar esse bando de corruptos que tomaram de assalto nossas casas legislativas.

É impressionante o medo que eles têm do juiz Sérgio Moro. Acho importantíssimo que, nós brasileiros que queremos um país passado a limpo, demos nosso total e incondicional apoio a esse juiz e a essa operação policial, que consuma-se nas mãos do judiciário, num casamento perfeito. É importante que o nosso Supremo Tribunal, tantas vezes citado, e tantas vezes invocado a participar dessa tétrica festa da corrupção, mostre ao Brasil e ao mundo, que nós temos um Supremo forte e corajoso, que não teme ameaças, e nem aceita participar de conluios maléficos à nação brasileira e ao seu povo.

Sérgio Machado fez acordo de delação premiada, e por isso fez essas gravações, tanto com Romero Jucá, que foi afastado do governo após a divulgação das conversas pela Folha, quanto com o presidente do Senado, e com o ex-presidente, José Sarney.

O ministro do Supremo, Teori Zavascki homologou a delação premiada de Sérgio Machado.

Os “nobres” senadores fizeram questão de, em seus discursos após a divulgação das conversas pela Folha, minimizar os efeitos das declarações de Renan, inclusive os senadores do Partido dos Trabalhadores. Há algo de estranhíssimo nessa atitude dos senadores na tentativa de proteger Renan. Por quê? Pergunto-me eu. Tenho minhas desconfianças. Teriam eles medo de que Renan caia nas mãos da justiça? Será que Renan é uma dinamite ambulante que poderia explodir o Senado, a Câmara e o governo se resolvesse abrir a boca e revelar toda a podridão que sabe e na qual ele próprio está envolvido? Naquele ambiente e com aqueles políticos que estão lá, tudo é possível.

Com o medo que estão os políticos estão da Lava Jato, tentando interferir nela de qualquer maneira, tentando achar uma forma de liquidá-la, com a pressa deles em fazer pactos sujos entre si, digo, sem medo de errar, que a Lava Jato, até agora, só mostrou ao Brasil uma pontinha do iceberg.

Portanto, caros preparem seus corações, suas mente, e seus espíritos cidadãos para o que ainda está para ser revelado, e que queira Deus, seja de fato revelado.

Abaixo, compartilho os trechos das conversas publicadas pela Folha de São Paulo, entre Renan Calheiros e Sérgio Machado.

***

Primeira conversa:

SÉRGIO MACHADO - Agora, Renan, a situação tá grave.

RENAN CALHEIROS - Grave e vai complicar. Porque Andrade fazer [delação], Odebrecht, OAS. [falando a outra pessoa, pede para ser feito um telefonema a um jornalista]

MACHADO - Todos vão fazer.

RENAN - Todos vão fazer.

MACHADO - E essa é a preocupação. Porque é o seguinte, ela [Dilma] não se sustenta mais. Ela tem três saídas. A mais simples seria ela pedir licença...

RENAN - Eu tive essa conversa com ela.

MACHADO - Ela continuar presidente, o Michel assumiria e garantiria ela e o Lula, fazia um grande acordo. Ela tem três saídas: licença, renúncia ou impeachment. E vai ser rápido. A mais segura para ela é pedir licença e continuar presidente. Se ela continuar presidente, o Michel não é um sacana...

RENAN - A melhor solução para ela é um acordo que a turma topa. Não com ela. A negociação é botar, é fazer o parlamentarismo e fazer o plebiscito, se o Supremo permitir, daqui a três anos. Aí prepara a eleição, mantém a eleição, presidente com nova...

[atende um telefonema com um jornalista]

RENAN - A perspectiva é daquele nosso amigo.

MACHADO - Meu amigo, então é isso, você tem trinta dias para resolver essa crise, não tem mais do que isso. A economia não se sustenta mais, está explodindo...

RENAN - Queres que eu faça uma avaliação verdadeira? Não acredito em 30 dias, não. Porque se a Odebrecht fala e essa mulher do João Santana fala, que é o que está posto...

[apresenta um secretário de governo de Alagoas]

MACHADO - O Janot é um filho da puta da maior, da maior...

RENAN - O Janot... [inaudível]

MACHADO - O Janot tem certeza que eu sou o caixa de vocês. Então o que que ele quer fazer? Ele não encontrou nada nem vai encontrar nada. Então ele quer me desvincular de vocês, mediante Ricardo e mediante e mediante do Paulo Roberto, dos 500 [mil reais], e me jogar para o Moro. E aí ele acha que o Moro, o Moro vai me mandar prender, aí quebra a resistência e aí fodeu. Então a gente de precisa [inaudível] presidente Sarney ter de encontro... Porque se me jogar lá embaixo, eu estou fodido. E aí fica uma coisa... E isso não é análise, ele está insinuando para pessoas que eu devo fazer [delação], aquela coisa toda... E isso não dá, isso quebra tudo isso que está sendo feito.

RENAN - [inaudível]

MACHADO - Renan, esse cara é mau, é mau, é mau. Agora, tem que administrar isso direito. Inclusive eu estou aqui desde ontem... Tem que ter uma ideia de como vai ser. Porque se esse vagabundo jogar lá embaixo, aí é uma merda. Queria ver se fazia uma conversa, vocês, que alternativa teria, porque aí eu me fodo.

RENAN - Sarney.

MACHADO - Sarney, fazer uma conversa particular. Com Romero, sei lá. E ver o que sai disso. Eu estou aqui para esperar vocês para poder ver, agora, é um vagabundo. Ele não tem nada contra você nem contra mim.

RENAN - Me disse [inaudível] 'ó, se o Renan tiver feito alguma coisa, que não sei, mas esse cara, porra, é um gênio. Porque nós não achamos nada.'

MACHADO - E já procuraram tudo.

RENAN - Tudo.

MACHADO - E não tem. Se tivesse alguma coisa contra você, já tinha jogado... E se tivesse coisa contra mim [inaudível]. A pressão que ele quer usar, que está insinuando, é que...

RENAN - Usou todo mundo.

MACHADO -...está dando prazos etc é que vai me apartar de vocês. Mesma coisa, já deu sinal com a filha do Eduardo e a mulher... Aquele negócio da filha do Eduardo, a porra da menina não tem nada, Renan, inclusive falsificaram o documento dela. Ela só é usuária de um cartão de crédito. E esse é o caminho [inaudível] das delações. Então precisa ser feito algo no Brasil para poder mudar jogo porque ninguém vai aguentar. Delcídio vai dizer alguma coisa de você?

RENAN - Deus me livre, Delcídio é o mais perigoso do mundo. O acordo [inaudível] era para ele gravar a gente, eu acho, fazer aquele negócio que o J Hawilla fez.

MACHADO - Que filho da puta, rapaz.

RENAN - É um rebotalho de gente.

MACHADO - E vocês trabalhando para poder salvar ele.

RENAN - [Mudando de assunto] Bom, isso aí então tem que conversar com o Sarney, com o teu advogado, que é muito bom. [inaudível] na delação.

MACHADO - Advogado não resolve isso.

RENAN - Traçar estratégia. [inaudível]

MACHADO - [inaudível] quanto a isso aí só tem estratégia política, o que se pode fazer.

RENAN - [inaudível] advogado, conversar, né, para agir judicialmente.

MACHADO - Como é que você sugeriria, daqui eu vou passar na casa do presidente Sarney.

RENAN - [inaudível]

MACHADO - Onde?

RENAN - Lá, ou na casa do Romero.

MACHADO - Na casa do Romero. Tá certo. Que horas mais ou menos?

RENAN - Não, a hora que você quiser eu vou estar por aqui, eu não vou sair não, eu vou só mais tarde vou encontrar o Michel.

MACHADO - Michel, como é que está, como é que está tua relação com o Michel?
RENAN - Michel, eu disse pra ele, tem que sumir, rapaz. Nós estamos apoiando ele, porque não é interessante brigar. Mas ele errou muito, negócio de Eduardo Cunha... O Jader me reclamou aqui, ele foi lá na casa dele e ele estava lá o Eduardo Cunha. Aí o Jader disse, 'porra, também é demais, né'.

MACHADO - Renan, não sei se tu viu, um material que saiu na quinta ou sexta-feira, no UOL, um jornalista aqui, dizendo que quinta-feira tinha viajado às pressas...

RENAN - É, sacanagem.

MACHADO - Tu viu?

RENAN - Vi.

MACHADO - E que estava sendo montada operação no Nordeste com Polícia Federal, o caralho, na quinta-feira.

RENAN - Eu vi.

MACHADO - Então, meu amigo, a gente tem que pensar como é que encontra uma saída para isso aí, porque isso aí...

RENAN - Porque não...

MACHADO - Renan, só se fosse imbecil. Como é que tu vai sentar numa mesa para negociar e diz que está ameaçado de preso, pô? Só quem não te conhece. É um imbecil.

RENAN - Tem que ter um fato contra mim.

MACHADO - Mas mesmo que tivesse, você não ia dizer, porra, não ia se fragilizar, não é imbecil. Agora, a Globo passou de qualquer limite, Renan.

RENAN - Eu marquei para segunda-feira uma conversa inicial com [inaudível] para marcar... Ela me disse que a conversa dela com João Roberto [Marinho] foi desastrosa. Ele disse para ela... Ela reclamou. Ele disse para ela que não tinha como influir. Ela disse que tinha como influir, porque ele influiu em situações semelhantes, o que é verdade. E ele disse que está acontecendo um efeito manada no Brasil contra o governo.

MACHADO - Tá mesmo. Ela acabou. E o Lula, como foi a conversa com o Lula?

RENAN - O Lula está consciente, o Lula disse, acha que a qualquer momento pode ser preso. Acho até que ele sabia desse pedido de prisão lá...

MACHADO - E ele estava, está disposto a assumir o governo?

RENAN - Aí eu defendi, me perguntou, me chamou num canto. Eu acho que essa hipótese, eu disse a ele, tem que ser guardada, não pode falar nisso. Porque se houver um quadro, que é pior que há, de radicalização institucional, e ela resolva ficar, para guerra...

MACHADO - Ela não tem força, Renan.

RENAN - Mas aí, nesse caso, ela tem que se ancorar nele. Que é para ir para lá e montar um governo. Esse aí é o parlamentarismo sem o Lula, é o branco, entendeu?

MACHADO - Mas, Renan, com as informações que você tem, que a Odebrecht vai tacar tiro no peito dela, não tem mais jeito.

RENAN - Tem não, porque vai mostrar as contas. E a mulher é [inaudível].

MACHADO - Acabou, não tem mais jeito. Então a melhor solução para ela, não sei quem podia dizer, é renunciar ou pedir licença.

RENAN - Isso [inaudível]. Ela avaliou esse cenário todo. Não deixei ela falar sobre a renúncia. Primeiro cenário, a coisa da renúncia. Aí ela, aí quando ela foi falar, eu disse, 'não fale não, pelo que conheço, a senhora prefere morrer'. Coisa que é para deixar a pessoa... Aí vai: impeachment. 'Eu sinceramente acho que vai ser traumático. O PT vai ser desaparelhado do poder'.

MACHADO - E o PT, com esse negócio do Lula, a militância reacendeu.

RENAN - Reacendeu. Aí tudo mundo, legalista... Que aí não entra só o petista, entra o legalista. Ontem o Cassio falou.

MACHADO - É o seguinte, o PSDB, eu tenho a informação, se convenceu de que eles é o próximo da vez.

RENAN - [concordando] Não, o Aécio disse isso lá. Que eu sou a esperança única que eles têm de alguém para fazer o...

MACHADO - [Interrompendo] O Cunha, o Cunha. O Supremo. Fazer um pacto de Caxias, vamos passar uma borracha no Brasil e vamos daqui para a frente. Ninguém mexeu com isso. E esses caras do...

RENAN - Antes de passar a borracha, precisa fazer três coisas, que alguns do Supremo [inaudível] fazer. Primeiro, não pode fazer delação premiada preso. Primeira coisa. Porque aí você regulamenta a delação e estabelece isso.

MACHADO - Acaba com esse negócio da segunda instância, que está apavorando todo mundo.

RENAN - A lei diz que não pode prender depois da segunda instância, e ele aí dá uma decisão, interpreta isso e acaba isso.

MACHADO - Acaba isso.

RENAN - E, em segundo lugar, negocia a transição com eles [ministros do STF].

MACHADO - Com eles, eles têm que estar juntos. E eles não negociam com ela.

RENAN - Não negociam porque todos estão putos com ela. Ela me disse e é verdade mesmo, nessa crise toda –estavam dizendo que ela estava abatida, ela não está abatida, ela tem uma bravura pessoal que é uma coisa inacreditável, ela está gripada, muito gripada– aí ela disse: 'Renan, eu recebi aqui o Lewandowski,

querendo conversar um pouco sobre uma saída para o Brasil, sobre as dificuldades, sobre a necessidade de conter o Supremo como guardião da Constituição. O Lewandowski só veio falar de aumento, isso é uma coisa inacreditável'.

MACHADO - Eu nunca vi um Supremo tão merda, e o novo Supremo, com essa mulher, vai ser pior ainda. [...]

MACHADO - [...] Como é que uma presidente não tem um plano B nem C? Ela baixou a guarda. [inaudível]

RENAN - Estamos perdendo a condição política. Todo mundo.

MACHADO - [inaudível] com Aécio. Você está com a bola na mão. O Michel é o elemento número um dessa solução, a meu ver. Com todos os defeitos que ele tem.

RENAN - Primeiro eu disse a ele, 'Michel, você tem que ficar calado, não fala, não fala'.

MACHADO - [inaudível] Negócio do partido.

RENAN - Foi, foi [inaudível] brigar, né.

MACHADO - A bola está no seu colo. Não tem um cara na República mais importante que você hoje. Porque você tem trânsito com todo mundo. Essa tua conversa com o PSDB, tu ganhou uma força que tu não tinha. Então [inaudível] para salvar o Brasil. E esse negócio só salva se botar todo mundo. Porque deixar esse Moro do jeito que ele está, disposto como ele está, com 18% de popularidade de pesquisa, vai dar merda. Isso que você diz, se for ruptura, vai ter conflito social. Vai morrer gente.

RENAN - Vai, vai. E aí tem que botar o Lula. Porque é a intuição dele...

MACHADO - Aí o Lula tem que assumir a Casa Civil e ser o primeiro ministro, esse é o governo. Ela não tem mais condição, Renan, não tem condição de nada. Agora, quem vai botar esse guizo nela?

RENAN - Não, [com] ela eu converso, quem conversa com ela sou eu, rapaz.

MACHADO - Seguinte, vou fazer o seguinte, vou passar no presidente, peço para ele marcar um horário na casa do Romero.

RENAN - Ou na casa dele. Na casa dele chega muita gente também.

MACHADO - É, no Romero chega menos gente.

RENAN - Menos gente.

MACHADO - Então marco no Romero e encontra nós três. Pronto, acabou. [levanta-se e começam a se despedir] Amigo, não perca essa bola, está no seu colo. Só tem você hoje. [caminhando] Caiu no seu colo e você é um cara predestinado. Aqui não é dedução não, é informação. Ele está querendo me seduzir, porra.

RENAN - Eu sei, eu sei. Ele quem?

MACHADO - O bicho daqui, o Janot.

RENAN - Mandando recado?

MACHADO - Mandando recado.

RENAN - Isso é?

MACHADO - É... Porra. É coisa que tem que conversar com muita habilidade para não chegar lá.

RENAN - É. É.

MACHADO - Falando em prazo... [se despedem]

Segunda conversa:

MACHADO - [...] A meu ver, a grande chance, Renan, que a gente tem, é correr com aquele semi-parlamentarismo...

RENAN - Eu também acho.

MACHADO -...paralelo, não importa com o impeach... Com o impeachment de um lado e o semi-parlamentarismo do outro.

RENAN - Até se não dá em nada, dá no impeachment.

MACHADO - Dá no impeachment.

RENAN - É plano A e plano B.

MACHADO - Por ser semi-parlamentarismo já gera para a sociedade essa expectativa [inaudível]. E no bojo do semi-parlamentarismo fazer uma ampla negociação para [inaudível].

RENAN - Mas o que precisa fazer, só precisa três três coisas: reforma política, naqueles dois pontos, o fim da proibição...

MACHADO - [Interrompendo] São cinco pontos:

[...]

RENAN - O voto em lista é importante. [inaudível] Só pode fazer delação... Só pode solto, não pode preso. Isso é uma maneira e toda a sociedade compreende que isso é uma tortura.

MACHADO - Outra coisa, essa cagada que os procuradores fizeram, o jogo virou um pouco em termos de responsabilidade [...]. Qual a importância do PSDB... O PSDB teve uma posição já mais racional. Agora, ela [Dilma] não tem mais solução, Renan, ela é uma doença terminal e não tem capacidade de renunciar a nada. [inaudível]

[...]

MACHADO - Me disseram que vai. Dentro da leniência botaram outras pessoas, executivos para falar. Agora, meu trato com essas empresas, Renan, é com os donos. Quer dizer, se botarem, vai dar uma merda geral, eu nunca falei com executivo.

RENAN - Não vão botar, não. [inaudível] E da leniência, detalhar mais. A leniência não está clara ainda, é uma das coisas que tem que entrar na...

MACHADO -...No pacote.

RENAN - No pacote.

MACHADO - E tem que encontrar, Renan, como foi feito na Anistia, com os militares, um processo que diz assim: 'Vamos passar o Brasil a limpo, daqui para frente é assim, pra trás...' [bate palmas] Porque senão esse pessoal vão ficar eternamente com uma espada na cabeça, não importa o governo, tudo é igual.

RENAN - [concordando] Não, todo mundo quer apertar. É para me deixar prisioneiro trabalhando. Eu estava reclamando aqui.

MACHADO - Todos os dias.

RENAN - Toda hora, eu não consigo mais cuidar de nada.

[...]

MACHADO - E tá todo mundo sentindo um aperto nos ombros. Está todo mundo sentindo um aperto nos ombros.

RENAN - E tudo com medo.

MACHADO - Renan, não sobra ninguém, Renan!

RENAN - Aécio está com medo. [me procurou] 'Renan, queria que você visse para mim esse negócio do Delcídio, se tem mais alguma coisa.'

MACHADO - Renan, eu fui do PSDB dez anos, Renan. Não sobra ninguém, Renan.

[...]

MACHADO - Não dá pra ficar como está, precisa encontrar uma solução, porque se não vai todo mundo... Moeda de troca é preservar o governo [inaudível].

RENAN - [inaudível] sexta-feira. Conversa muito ruim, a conversa com a menina da Folha... Otavinho [a conversa] foi muito melhor. Otavinho reconheceu que tem exageros, eles próprios tem cometido exageros e o João [provável referência a João Roberto Marinho] com aquela conversa de sempre, que não manda. [...] Ela [Dilma] disse a ele 'João, vocês tratam diferentemente de casos iguais. Nós temos vários indicativos'. E ele dizendo 'isso virou uma manada, uma manada, está todo mundo contra o governo.'

MACHADO - Efeito manada.

RENAN - Efeito manada. Quer dizer, uma maneira sutil de dizer "acabou", né.


[...]

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