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República Federativa da Corrupção

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 23:38
 Quarta-feira, 30 de março

Meu partido
É um coração partido
E as ilusões estão todas perdidas
Os meus sonhos foram todos vendidos
Tão barato que eu nem acredito
(Ideologia – Cazuza)



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Cheio de pontos de interrogação em relação à situação política e econômica de nosso país, é assim que me sinto, então resolvi expressar isso linguagem simbólica, através dos pontos de interrogação que abrem esse texto.

Profundamente mergulhado em uma crise política sem precedentes, com um processo de impeachment em andamento, um governo sitiado, e políticos que esperam por uma fatia do poder como os abutres esperam por um bocado de carne, tudo me parece a mim, entre nevoas.

Não gostaria de ser pessimista, e isso na verdade, isso nem é pessimismo, mas uma observação concreta da realidade, mas as perspectivas de futuro em nosso país são um tanto quanto sombrias.

Esta semana, o PMBD decidiu, finalmente, pular do barco do governo, e isso joga o impeachment de Dilma em um cenário ainda mais provável, pois outros partidos da base aliada podem seguir o mesmo exemplo e, com isso, lá se vão os apoios que a presidente poderia ter a fim de evitar o pior. Aliás, conquistar apoios e aliados foi o que Dilma nunca soube fazer, faltou-lhe este dom.

Entretanto, na política, tal qual na natureza, colhe-se o que se planta. E Dilma colhe o que plantou. Uma sucessão de erros marcou o seu primeiro e segundo mandato. O último deles, que o mesmo efeito que um tiro no próprio pé, foi a tentativa de colocar Lula como uma espécie de seu primeiro-ministro na Casa Civil. Fosse o objetivo apenas as manobras políticas que, Lula, com certeza, saberia muito bem conduzir, não haveria problema algum, ou seja, poderia até haver problemas, mas estaria tudo dentro da mais perfeita legalidade. A questão é que, como ficou evidente, nas gravações telefônicas sigilosas, cuja divulgação foi autorizada pelo juiz Sérgio Moro, o objetivo não tinha nada de nobre, muito pelo contrario, a grande jogada era colocar Lula no ministério, dá-lhe foro privilegiado, e escondê-lo da justiça. Com isso, o ex-presidente, que era para ser solução, tornou-se para o governo, um grande problema.

Agora, as sessões que tratam do processo de impeachment na Câmara caminham a passos largos, e afunila-se o prazo para que a presidente apresente sua defesa.

O governo usa a estratégia de alardear para o Brasil e para o mundo, que está sendo vítima de um golpe. Tudo conversa fiada. Na verdade, o processo de impeachment está dentro da legalidade, é garantido pela nossa Carta Maior. Mas um processo de impeachment mesmo dentro da legalidade, e atingindo sua finalidade que é o impedimento da presidente, não nos garante um futuro governo legítimo. Não do modo como os nossos quadros políticos estão corrompidos pelo vírus da corrupção.

República da Corrupção. É triste, mas é isso no qual se tornou o país. É estranho que dos 65 deputados que analisarão o processo de impeachment, 40 deles, enfrentem acusações de envolvimento em corrupção. É estranho que o processo de impeachment seja conduzido por um presidente da Câmara cínico, corrupto, e debochador das instituições, e do povo brasileiro. É estranho que, se a decisão sobre o impedimento de Dilma for para o Senado, lá também o presidente do Senado, e alguns senadores estejam também envolvidos em corrupção. É estranho que o PMDB esteja tão envolvido nos escândalos de desvios de dinheiro da Petrobrás quanto o PT. Idem para os partidos de oposição. Acho tudo muito estranho e surreal, penso que em países ditos de primeiro mundo isso seria inimaginável. Sinal de que ainda temos uma longa caminhada para receber esse nobre título de país de primeiro mundo.

Apenas sei que apenas um milagre salvará Dilma do impeachment. Também sei que apenas um milagre fará que com que o próximo a ocupar a cadeira presidencial do nosso país seja um político honesto.

Também sei que a saída de Dilma, não resolvera os nossos problemas, mas, pelo menos, terá mostrado à classe política que não aceitamos mais governos ilegítimos, governos que não nos representem.

Basta dar uma olhada para as casas legislativas de todo o país, tanto em nível estadual, quanto municipal, para ver que por lá também pipocam casos de irregularidades, também por lá impera soberana a corrupção. É isso que nos incomoda, a nós brasileiros, tanto essa onda de criminalidade política, quanto a impunidade de que gozam esses políticos bandidos, que se escondem debaixo do manto da lei, não para defendê-la, mas para manchá-la. Precisamos ir às ruas, não apenas para derrubar o governo Dilma, juntamente com todos os atores vilões que o compõem, mas para lavar o nosso país de toda essa onda de descaso para com a população e para com a coisa pública. Com ou sem impeachment, precisamos continuar lutando para que o nosso país deixe de ser uma REPÚBLICA FEDERATIVA DA CORRUPÇÃO e, passe a ostentar o belo e forte nome oficial que lhe é de direito, qual seja, REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL.

Abaixo, compartilho matéria do jornalista Luiz Rufato, publicada no site do jornal ElPaís Brasil, no dia 23 de março.

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O legado da nossa miséria

A decisão final do Congresso sobre o impeachment, seja qual for ela, embora revestida de legalidade, carecerá de legitimidade

LUIZ RUFFATO

Em 2009, ancorado em excelentes indicadores econômicos que lhe davam uma altíssima taxa de popularidade (72%), o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva resolveu impor o nome da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, como candidata do PT à sua sucessão. Dilma, que embora tivesse um histórico de militância na esquerda nunca havia concorrido a um cargo eletivo, obteve 56% dos votos válidos, tornando-se a primeira mulher a alcançar o cargo máximo do Poder Executivo brasileiro. Com uma taxa de desemprego estável e a inflação sob controle, mas desgastada por denúncias de corrupção contra membros de seu partido, ela reelegeu-se em 2014 com uma margem apertada, 51% dos votos válidos.

A ampliação do cerco a importantes membros do PT pelas investigações da Operação Lava-Jato e o acelerado colapso da economia resultaram no aprofundamento da crise institucional e no consequente abandono de Dilma por seus aliados – e até mesmo pelos caciques de seu partido. Envolvido em denúncias de corrupção, Lula tenta agora reaproximar-se da presidente, oferecendo-se como uma espécie de primeiro-ministro em um regime presidencialista. Na prática, ele aposta que com seu inegável carisma conseguirá recuperar as rédeas da governabilidade, retomando o crescimento econômico e cacifando-se para as eleições de 2018. Ao mesmo tempo, sela o suicídio político de sua antiga pupila.

Neutralizada no comando do governo, Dilma enfrenta ainda um estranho processo de impeachment. Há investigações em curso, mas nenhuma acusação formal contra ela. As alegações que justificam os pedidos de seu afastamento da Presidência da República são difusas e obedecem muito mais a uma lógica de vingança que de justiça. Pressionados pelas ruas – 68% apoiam a saída de Dilma, segundo pesquisa Datafolha –, a maior parte dos parlamentares vai deliberar baseado em obscuros interesses particulares.

A comissão especial da Câmara dos Deputados que determinará a instalação ou não do processo de impeachment tem 65 membros – 40 deles receberam dinheiro de empresas investigadas pela Operação Lava-Jato para financiar suas campanhas e 10 são réus em processo no Supremo Tribunal Federal (entre eles, Paulo Maluf, que tem seu nome na lista de procurados pela Interpol). Caso aprovado, o processo será discutido no plenário da Casa, que tem como presidente Eduardo Cunha, também réu em processo no STF e alvo de pedido de cassação de seu mandato no Conselho de Ética. A Câmara totaliza 53 réus em processos na Suprema Corte, além de outros 148 deputados que respondem a acusações criminais, entre eles os presidentes do Solidariedade, Paulo Pereira da Silva (o Paulinho da Força); do PR, Alfredo Nascimento; do PTB, Cristiane Brasil; e do PCdoB, Luciana Santos.

Se aprovado na Câmara por maioria absoluta – 257 votos favoráveis – o processo sobe para o Senado, que, por maioria simples – metade mais um dos 81 membros – decidirá se referenda ou não a instauração do processo de impeachment contra a presidente Dilma. Quatro senadores são réus em processo no STF e outros 31 respondem a inquérito ou ação penal, entre eles o presidente da Casa, Renan Calheiros, os presidentes do DEM, José Agripino Maia, e do PP, Ciro Nogueira, e o ex-presidente Fernando Collor. A decisão final do Congresso, seja qual for, embora revestida de legalidade, carecerá de legitimidade.

Na hipótese de afastamento definitivo de Dilma Rousseff, assumiria o vice, Michel Temer, que vem sistematicamente trabalhando nas sombras pela saída da presidente, seja promovendo o afastamento do PMDB do governo, seja articulando uma aliança com o PSDB. Assim, Temer, que também preside o PMDB, o partido que durante a curta história da democracia vem se especializando em criar dificuldades para vender facilidades, ocuparia um cargo para o qual não obteve um único voto e que por mérito próprio nunca alcançaria. Pesquisa Datafolha mostra que só 16% dos entrevistados acreditam que, caso assuma o governo, o desempenho de Temer seria bom ou ótimo.

Hoje, o principal interlocutor de Temer é o PSDB, partido presidido pelo senador Aécio Neves, candidato derrotado em 2014, e também envolvido em denúncias de corrupção na Operação Lava-Jato. Os tucanos, por meio de suas lideranças, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, e o próprio Aécio Neves, vêm demonstrando enorme regozijo com a possibilidade de assumir indiretamente um mandato que perderam na disputa direta de votos. De novo, uma situação que não será desprovida de legalidade, mas que com certeza carecerá de legitimidade.

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