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O poder da ressurreição

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:08
Segunda-feira, 28 de março


A ressurreição de Cristo está para o cristianismo como o fermento esta para a massa de bolo, ou como a pedra está para o alicerce de uma construção. Como diz o apostolo Paulo: “Se Cristo não ressuscitou, vã é nossa pregação, e vã é nossa fé”.

É impressionante como a crença num Deus que voltou à vida, vencendo a escuridão do sepulcro, conseguiu, incólume, atravessar, mais de dois milênios, vencendo o pensamento materialista, vencendo o avanço da ciência de da tecnologia, e tantas outras mudanças que se operaram no mundo depois de seu acontecimento. O que faz essa crença, ainda nos dias de hoje, tão arrebatadora, é um mistério indecifrável. Enfim, é como diz Jesus a Tomé: “Você acreditou porque viu. Felizes aqueles que acreditarão sem ter visto”.

As lições de Jesus, inclusive de sua Paixão, Morte e Ressurreição, nos animam a continuar lutando e acreditando, apesar de todas as dificuldades, pois sabemos que por maiores que sejam elas, estamos nas mãos de um Deus que venceu a morte e, com ele, também nós venceremos, e com ele ressuscitaremos gloriosos.

Abaixo, compartilho texto de minha autoria, escrito com base em relatos bíblicos.

Aproveito para desejar a todos uma serena e abençoada semana.

 FELIZ PÁSCOA!

***


O poder da ressurreição

Era madrugada de domingo em Jerusalém, cidade santa. Dali a algumas horas o sol ressurgiria em todo o seu esplendor para cumprir mais uma jornada. Uma mulher caminhava. Tristemente caminhava com um ramalhete de flores nos braços. Levava ela também, um pequeno frasco com bálsamo aromático, que fora preparado com essências de nardo e de flor de lótus, misturado com puríssimo óleo de oliveira. Do frasco, rescendia essa perfumada mistura inundando o ambiente de agradável perfume. O vento agitava suavemente as folhas das árvores à beira do caminho. Olhando para o alto, ainda se podia ver a estrela d’Alva, dona soberana da madrugada, cintilar em todo o seu esplendor.

Após algum tempo de caminhada, ouviu, ao longe, o cantar de um galo, anunciando que era quase chegada a hora do amanhecer. No infinito, uma barra avermelhada começava a se desenhar no horizonte anunciando a chegada do astro rei. Tivesse sol alto, ela conseguiria ver todo o verdor que se espalhava pelos vales do Cédron e do Tiroféon, formando um vastíssimo tapete verde que se estendia a perder de vista. Veria também as palmeiras tremulando ao sabor do vento, nas colinas da estrada para Jericó.

O animado canto dos pardais e dos pintassilgos servia para amenizar-lhe a tristeza que lhe ia ao coração. O nome dessa mulher era Maria Madalena. Lágrimas silenciosas desciam de seu rosto. Os três últimos dias tinham sido para ela muito intensos, tristes, e dolorosos. Presenciara seu melhor amigo, e pai espiritual, ser injustamente, assassinado no alto de uma cruz, sem que ela pudesse fazer qualquer coisa para impedir.

Rompia o dia quando ela avistou a colina do Gólgota, onde fora sepultado seu querido amigo e pai espiritual. Havia acompanhado o Mestre — como carinhosamente, o chamava desde o início de seu ministério — e afeiçoara-se a ele. Havia se tornado uma de suas seguidoras mais fieis.  Havia acompanhado as curas que ele fizera, os discursos que pregara, o carinho e amor com que ele sempre tratava a todos. Ela era testemunha de todo o bem que ele fizera, não somente a ela, mas a milhares de outras pessoas.

Mas Jesus, pensava ela, havia contrariado interesses dos grupos religiosos dominantes. Ele anunciava um reino que não era deste mundo, e todo o reino precisa de um rei que o governe. Esse era um dos medos dos chefes dos sacerdotes. Outra coisa abominável em toda essa história foi a inveja que eles sentiam do Mestre. Jesus era conhecido e aclamado por onde passava. Não se deixava guiar rigidamente pelas leis judaicas, e por isso também era visto como subversivo. Por esses e outros motivos os chefes dos sacerdotes incitaram o povo contra Jesus, e a pressão dos líderes religiosos forçou o governador, Pôncio Pilatos, a tomar a decisão de mandar crucificá-lo, mesmo que não encontrasse nele culpa alguma.

Mas como eles estavam errados, lamentava ela. O reino que Jesus queria estabelecer era o reino do amor, do perdão, do respeito aos mais necessitados. O Mestre queria apenas dar voz e vez, àqueles que eram jogados à margem da sociedade.

Apesar de estar muito próximo ao Mestre, e aos seus discípulos, e acompanhando-os em quase todas as missões, ela não entendia certas coisas que ele falava. Era como se Jesus falasse em código, tanto a ela, quanto aos discípulos. Dentre esses tantos enigmas propostos pelo Mestre, um deles lhe vinha à mente com mais força e intensidade. Estavam subindo para Jerusalém para a festa da Páscoa e o Mestre chamou os seus discípulos em particular. Ela estava presente, pois a comitiva precisava de todo o apoio naquele momento. Lembrava-se nitidamente das palavras ditas por ele naquela ocasião. Jesus dissera, em voz pausada e suave, como se estivesse sussurrando um grande segredo. Um suor frio percorreu o corpo de Maria Madalena na ocasião, pois as palavras dele pareciam mais uma despedida, uma previsão sombria. Assim se expressara Jesus: “Eis que estamos subindo para Jerusalém, e o filho do homem vai ser entregue aos chefes dos sacerdotes e aos doutores da Lei. Eles o condenarão a morte para zombarem dele, flagelá-lo, e crucificá-lo. E no terceiro dia ressuscitara”.

Enquanto prosseguiam a caminhada para Jerusalém, aquelas palavras martelavam sua cabeça. O filho do homem ia ser entregue para sofre toda uma série de castigos, e depois ser condenado à morte? Quem seria esse filho do homem? Estaria Jesus falando dele mesmo? É certo e sabido que os chefes dos sacerdotes e doutores da Lei tinha era muita inveja do Mestre pelos milagres que fazia e da popularidade que ele gozava, mas daí a condená-lo à morte? Não, definitivamente, isso não era possível. Mas então quem seria aquele filho do homem do qual ele falava?

Hoje, ela compreendia as palavras do Mestre de forma tão clara como água cristalina. Jesus falava de si mesmo. Previa sua própria condenação, flagelação e condenação à morte? Mas, então, se sabia de todas essas coisas, porque insistira em subir para Jerusalém? Por mais que pensasse nisso não conseguia compreender. Havia ainda mais um mistério o qual ela não conseguira decifrar. E esse mistério estava nas últimas palavras do Mestre naquele momento em que falara aos discípulos na subida para Jerusalém. “E no terceiro dia ressuscitará” .

Agora ela sabia que Jesus falara de si mesmo, prevendo sua própria morte. Mas que significaria ressuscitar? E mais ainda ressuscitar no terceiro dia? É fato que já haviam se passado três dias da morte do Mestre. Se algum mistério ainda havia a ser revelado, estava bem próximo.

Finalmente, aproximou do sepulcro. Achou estranha a ausência dos soldados, que ainda deveriam estar de guarda ali — como era de costume para com os que morriam condenados na cruz. Ao chegar mais perto, viu que a pedra do túmulo havia sido retirada. Ela havia sido testemunha de que fora ali mesmo, naquele sepulcro, que agora estava aberto, que ela havia visto colocarem o corpo do Mestre. Maria Madalena olhou rapidamente dentro do sepulcro, e um pavor enorme percorreu seu corpo: Ela não vira ali nenhum corpo.

Imediatamente, ela saiu correndo e, no caminho, encontrou Pedro e João, que também estavam indo ao sepulcro. Apavorada, disse a eles: “Tiraram o corpo do Mestre do túmulo e não sei onde o colocaram. Sei apenas que a pedra que fechava o túmulo estava aberta”.

“Como assim, não há nenhum corpo no túmulo?” perguntou Pedro. Em seguida, João e Pedro saíram correndo a fim de ver o que havia acontecido. João chegou primeiro ao túmulo, e viu que os panos de linho que envolveu o corpo de Jesus estavam no chão, mas não entrou. Pedro chegou ofegante por último, e entrou no sepulcro. Viu os panos de linho no chão, da mesma forma que João havia visto, mas notou que o sudário, pano que havia sido usado para cobrir a cabeça de Jesus, não estava junto com os panos de linho, mas sim enrolado num lugar à parte.

Os dois discípulos voltaram para a comunidade a fim de dar a notícia do sumiço do corpo de Jesus ao outros discípulos. Maria Madalena ficou ao pé do túmulo. Ela chorava e por alguns momentos, baixou os olhos, pensativa. Quando os ergueu novamente, deparou-se com dois anjos. Eles estavam vestidos de branco, e sentados no lugar onde Jesus havia sido colocado. Enquanto um deles olhava para ela com olhos cheios de conforto, o outro lhe dirigiu à palavra dizendo: “Mulher, porque choras?” “Estamos aflitos porque levaram o corpo de Jesus e não sabemos onde o colocaram”, disse ela.

Maria Madalena, notou uma sombra que vinha de trás dela. Levantou-se e viu um homem que lhe fez a mesma pergunta que o anjo acabara de lhe fazer, acrescentando: “Quem você procura?”. Pensando que aquele homem fosse o jardineiro, ela perguntou: “Onde foi que você colocou o corpo de Jesus? Diga onde o pôs que iremos buscá-lo?” Foi então que ele pronunciou o nome dela: “Maria”.  Maria Madalena sentiu como se a cegueira que havia em seus olhos tivesse sido curada. Nesse momento, ela reconheceu o Mestre, e tomada de surpresa, ela disse: “Mestre”, e quis abraçá-lo, mas ele lhe disse: “Não me segure porque ainda não voltei para o meu Pai, que também é Pai de vocês. Agora vá e diga aos discípulos que isso é ressurreição. Vencer a morte é ressuscitar”.

Emocionada, ela foi e fez como Jesus havia pedido. Mesmo assim, eles não compreenderam a mensagem. Foi preciso que Jesus aparecesse a eles e lhe desse a boa nova. Tomé não estava junto com os discípulos quando Jesus apareceu. Quando os discípulos lhe contaram a maravilhosa novidade, ele, obviamente não acreditou, e disse: “Se eu não vir a marca dos pregos nas mãos dele, e se eu não colocar a mão no lado dele, não acreditarei”.

Passada uma semana, os discípulos estavam reunidos, em uma sala à portas fechadas e, dessa vez, Tomé estava com eles. Então Jesus entrou, posicionou-se no meio deles, e disse: “A paz esteja convosco!” Então, olhando para Tomé, cujos olhos estavam arregalados, tomados pela grande surpresa, Jesus disse, estendendo as mãos: “Tomé, você que não acreditava, estenda suas mãos e ponha seu dedo em minhas mãos, e toque o meu lado”. De joelhos, maravilhado, Tomé conseguiu apenas dizer: “Meu Senhor e meu Deus!”. Jesus olhou mansamente para ele, e disse: “Tomé, você acreditou por que viu. Felizes aqueles que acreditarão sem ter visto”.

Jesus ficou com ele ainda por alguns dias, preparando-os e orientando-os para darem prosseguimento, sozinhos, ao anúncio do Reino de Deus.

Muitos anos depois, através da janela, olhando o céu que se levantava no horizonte, Maria Madalena refletia sobre essas coisas. Tudo para ela ainda era um grande mistério para o qual não tinha explicação. Não tinha explicação mas acreditava verdadeiramente. Isso era o que se costuma chamar de fé: acreditar nas coisas que não vemos. Ela, outras mulheres seguidoras de Jesus, e os discípulos, haviam tido a ventura de vê-lo ressuscitado, mas muitos outros creram sem tê-lo visto, e esses mereciam maiores venturas que eles. Até aquele momento, e depois de ter perseverado por tantos anos na fé no Deus que vence a morte, ela não entendia a mudança na fisionomia de Jesus quando ele apareceu a algumas pessoas, inclusive para ela.

Ressurreição! Essa era para ela uma palavra chave e pedra de fundamental importância na religião que dobrou os joelhos do arrogante Império Romano. Pois essa grande vitória do cristianismo como religião, não veio dos belos discursos feitos por Jesus, pois, certamente, havia em Roma outros oradores tão eficientes quanto o Mestre, nem veio das curas que ele fazia, pois também em Roma havia que curasse os enfermos, nem da popularidade que o Mestre gozava entre o povo, havia outros profetas bem populares e contemporâneos a ele. Mas fora a ressurreição que vencera o jogo, transformando o cristianismo de seita em religião oficial do Império.

Ademais, se Cristo não houvesse ressuscitado, não havia porque continuar acreditando. Mas ele venceu a morte, e se ele venceu, pensava ela, todo aquele acredita também pode obter a mesma vitória. Os ensinamentos de Jesus, juntamente, com sua paixão, morte e ressurreição, haviam-na tornado mais forte, mais tolerante para com a natureza humana. A lição da cruz a havia ensinado que, por maiores que sejam as dificuldades, as contrariedades, invejas e perseguições, muito maior é força que Deus nos dá para superá-las. E a certeza de que um dia também estaria na casa do Pai, a animava a nunca desistir da luta, a nunca esmorecer diante das batalhas da vida, e a seguir sua missão espalhando por onde quer que passasse, o bem, o amor, e a caridade.

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