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Brasil real x Brasil do faz de conta

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 01:49
Quinta-feira, 25 de fevereiro



Evidentemente, que nós estamos precisando, eu tomo a liberdade de dizê-lo, de uma certa injeção de otimismo, porque estabeleceu-se no Brasil uma tese, muito acentuada, de que estamos em crise e, interessante, a palavra crise, muitas vezes, é usada de forma indiscriminada, quando nós sabemos que ela tem graduações. Você pode ter uma crise administrativa, que se resolve, muitas e muitas vezes, esse é o interior do governo, pela mudança de ministros, novos ministros, etc. Você pode ter uma crise política, que significa inexistência de apoio para a governabilidade, para o governo, que se resolve pelo diálogo que se mantém com o Congresso Nacional. Você pode ter crise econômica, uma crise já um pouco mais dramática, esta crise econômica, volto a dizer, é resolvida exata e precisamente pela integração entre o setor produtivo do país, e o governo, sem ser piegas, e sem ser repetitivo, que é uma frase quase universal, aquela história de que o que o país pode fazer por você, ou que o governo pode fazer por você, mas o que você pode fazer pelo governo, na verdade, eu adaptaria essa frase pra dizer: Vamos fazer uma sociedade entre o governo e o setor produtivo, porque é deste adensamento de relações entre o setor produtivo e o governo que nasce a prosperidade do país.
Às vezes, eu penso que os políticos brasileiros vivem em um Brasil, e que os brasileiros vivem em outro. Eles vivem em país de faz de conta, e nós vivemos no Brasil real. Quis abri este texto com o discurso acima, por achar que ele retrata com perfeição o que acabo de dizer.

O discurso foi pronunciado pelo vice-presidente da República, Michel Temer, durante um debate sobre o setor portuário, realizado pela revista, Carta Capital, nesta quarta-feira (24), em São Paulo.

Primeiro, Temer diz que nós estamos precisando de uma certa injeção de otimismo. Ora, senhor vice-presidente, nós não estamos precisando de uma certa injeção de otimismo, como diz o senhor. Sendo curto e grosso, eu diria que nós estamos precisando mesmo é poder voltar a acreditar no governo e na classe política, grupos aos quais o Sr. pertence. Estamos precisando daquele dinheiro, montanhas de dinheiro que foram roubadas da Petrobrás, e de milhares de outros órgãos e investimentos públicos. Nós estamos precisando que o governo tenha credibilidade, que chame de volta os investidores, e que nos tire do enorme retrocesso que estamos enfrentando. O país tem andado para trás, como fazem os caranguejos na lama do mangue, o país tem retrocedido, em pelo menos oito anos, e o Sr. nos diz que precisamos de uma “certa injeção de otimismo”, ora, faça-nos o favor.

Prossigamos.

O Sr. nos diz que estabeleceu-se no Brasil uma tese muito acentuada de que estamos em crise, e que a palavra crise é usada de forma indiscriminada. Ora, por tese podemos entender uma proposição que é apresentada para que possa ser discutida por outrem, com base em determinadas hipóteses ou pressupostos, ou sendo mais preciso, “em tese”, quer dizer, “de acordo com o que supõe”, “em princípio”, “em teoria”. Ou seja, Sr. vice-presidente, o senhor insinua que os economistas, e outros especialistas no assunto, ou atém mesmo o brasileiro comum, que sente a volta da inflação quando vai ao supermercado fazer suas compras, estão exagerando quando dizem que há uma grave crise no Brasil. Porém, eu lhe entendo. Há muitas, muitas empresas fechando as portas no país, e muitos trabalhadores sendo demitidos, mas o Sr. não está preocupado com isso, não é mesmo? O cargo que o Sr. ocupa não lhe permite ser demitido, o governo não vai, de uma hora para outra, lhe dar um pontapé naquele lugar, a não ser que as instituições jurídicas lhe deem de presente um impeachment, mas isso é outra história. O Sr. não sente a crise, pois com o alto salário que recebe, e com os privilégios ainda mais altos que recebe do governo, não precisa se preocupar em amento de preço dos alimentos, de água, de luz, de energia, em pagar funcionários, em adquirir estoque, pois, são os seus assessores que fazem todas estas coisas. Talvez o Sr. nem mesmo saiba que os preços estão subindo, que a inflação voltou, que o país enfrenta uma grave recessão e coisas desse tipo.

Vamos em frente.

O Sr. diz ainda, em termo hipotéticos, que se pode ter uma “crise política”, uma “crise administrativa”, ou uma “crise econômica”. Pois saiba o Sr. que nós temos todas essa crises juntas, e isso não é invenção minha, nem é fato hipotético. E mais, além dessas três crise que o Sr. citou hipoteticamente, nós ainda vivemos uma crise ética, uma crise educacional, uma crise de saúde, de segurança, e se procurar direito, descobriremos outras mais.

O Sr. também fala de uma sociedade do governo com um setor produtivo sufocada pelos altos impostos, burocracia e falta de investimento na área.

Por fim, deixei por último sua perola nessa discurso, a qual cito literalmente: Não pergunte “o que o país pode fazer por você, ou que o governo pode fazer por você, mas o que você pode fazer pelo governo”. Isso soa aos meus ouvidos de forma tão hipócrita. Afinal, nós trabalhamos quase cinco meses por ano para pagar tributos ao governo. Isso é pouco? Quer mais? Quer que façamos, ou que paguemos ainda mais? Nós fomos, literalmente, enganados por promessas de campanha que foram, descaradamente, descumpridas. Nós fomos enganados por números maquiados que mostravam um Brasil pujante, quando, sabemos agora, que tudo não passava de uma farsa.

E tem mais uma para lhe chamar de mentiroso. Não serei eu quem o chamará de mentiroso. Afinal, quem sou eu para fazer isso, senão um humilde brasileiro, pagador de impostos como milhões de outros, mas quem o chama de mentiroso são as agências internacionais, que mais uma vez rebaixaram o grau de investimento no Brasil. isso justamente no dia em que o Sr. nos diz que não há crise.

Nesta quarta-feira, o Brasil foi retirado do grupo dos países considerados seguros para investir. A agência Moody’s rebaixou o Brasil em dois graus a nota de investimento do Brasil, e, com isso, o Brasil perdeu seu último selo de bom pagador. O país ganhou esse valoroso selo em 2008, da Standard And Poor’s, depois fomos promovidos pela Fitch, e depois pela Moody’s. Por causa de um governo irresponsável as três agências que nos deram crédito de confiança, agora puxam nosso tapete. E puxam, simplesmente, porque não veem como o país poderá pagar as contas que, por falar nelas, estão pra lá de deficitárias.

Sair do grupo de bons pagadores pesará em nosso dia a dia. Muitos investidores irão fugir do Brasil. Os que decidirem investir vão cobrar mais caro para fazer isso. Em consequência disso, as empresas irão desembolsar mais dinheiro para ter esse capital oferecido pelos investidores, o que acarretará prejuízos em seus investimentos. Na esteira de tudo isso, tributos aumentarão, custos de financiamento também, haverá menos crédito disponível, e por aí vai.

Sr. vice-presidente da República, Michel Temer, termino estas linhas fazendo-lhe um apelo singelo: Deixe o mundo de faz de conta, juntamente com todo o governo, e venha para o Brasil real, pois apenas assim o Sr. ajudará o seu, o meu, o nosso país, a sair do atoleiro que os Srs. o colocaram.



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