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Em noite de Oscar, manifesto contra o racismo

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 23:24
Domingo, 28 de fevereiro



Hoje é noite de gala, noite de Oscar — a grande festa do cinema. Hoje é noite de conhecer os vencedores nas mais diversas esferas do mundo da sétima arte. Hoje é noite de tapete vermelho. Hoje é noite de uma constelação de astros descerem de suas galáxias e pisarem esse famoso tapete vermelho


Deveria ser uma noite democrática, pois numa democracia todos são representados. Infelizmente, no mundo hollywoodiano não é assim. Naquela academia impera uma ditadura branca.

Pelo segundo ano consecutivo os negros estão ausentes da lista dos indicados e, consequentemente, não terão o privilégio de erguer a tão cobiçada e merecida estatueta dourada. Por causa disso, celebridades negras de Hollywood prometeram boicotar a premiação a seu modo. É o caso de Spike Lee, e do casal Will e Jada Pinkett Smith.

Também faço aqui o meu protesto e não vou falar do Oscar. Junto-me as celebridades negras hollywoodianas e, como forma de protestar compartilharei com vocês um texto maravilhoso de Ben Okri, escritor nigeriano.

Quando pensamos em África, logo pensamos em escravidão, em negros sendo capturados, e logo os vemos como um povo pobre em cultura, em bens, e costumes. É compreensível, pois foi essa a ideia plantada no subconsciente coletivo para justificar, a dominação,  o exílio forçado, o genocídio do povo negro africano, e o saqueamento das tribos e nações africanas. Nos esquecemos porém, de que a África era terra de impérios, de riqueza cultural, de forte tradição religiosa. Quem foi capturado naquelas terras e tornado escravo não eram pessoas sem passado e sem cultura. Eram pessoas dignas, trabalhadoras, sensíveis a arte da música, da poesia, da pintura. Reis e plebeus, aprisionados e escravizados.

A riqueza com a qual se fartou a América e a Europa, principalmente, a primeira, foi construída à custa do sangue, do suor, e do sofrimento do povo africano. Então, porque o mundo não encontra alguma forma de reparação contra os crimes e injustiças que cometeu contra aquele povo e aquele continente? Por que, ao invés, de reconhecer o importante papel que tiveram os negros na construção das riquezas da humanidade, lhes viram às costas, lhes ignoram, lhes querem fazer desempenhar nas telas do filme da vida papel inferior?

Os homens em sua grande maioria tem uma visão equivocada da vida e do mundo que os cerca. Precisamos perceber que as divisões geográficas são simbólicas. Que os continentes, países, cidades, estados, cidades, povoados, são apenas representações de um mundo simbólico, que ajuda os governos a elaborarem políticas públicas, econômicas e sociais, e para os cidadãos terem uma referência enquanto pertencentes a uma determinada nação.

A verdade, porém, é que vivemos todos em um grande continente chamado Terra. Nos esquecemos de que no coração e nas veias de uma criança que brinca em distante povoado angolano, é tão vermelho, cheio de vigor e pleno de inocência, quanto o de uma criança que brinca nas praias do Rio, ou nas ruas de Las Vegas. O problema é que não nos vemos uns aos outros como humanos, finitos, limitados. Não há brancos ou negros, apenas uma grande família humana, no coração da qual pulsam sonhos e esperanças de que o sol da igualdade e do respeito brilhe sobre todos.

A áfrica é considerada pelos historiadores como sendo o berço da civilização e da humanidade. O homem porém voltou às costas ao seu berço, e quem age assim foge o tempo de si mesmo, de sua própria história, e não encontra a felicidade. Para ser feliz e preciso voltar às origens, encarar o passado, assumir suas próprias raízes. Talvez, porque não esteja fazendo isso, o mundo esteja enfermo.

É preciso curar a África doente que há nós mesmos. Aos negros é preciso reconhecer que não são inferiores como uma grande parcela da sociedade os quer fazer crer. Aos brancos é preciso reconhecer que a cor da pele não lhes fará escapar do destino imutável de todo o ser humano. A todos é preciso reconhecer que não há inferiores e superiores, mas seres humanos trilhando um caminho de evolução, e que o preconceito atua como pesadas correntes a impedir o avançar dos passos, a impedir a evolução da consciência.

Por isso, Deus altíssimo, eu te peço: Tende compaixão dos preconceituosos e abri-lhes a mente para que vejam o grande mal que causam a si mesmos.

Abaixo, compartilho o texto, Curando a África em nós, do romancista e poeta nigeriano, Ben Okri. O texto foi publicado na edição em português da revista SGI Quarterly, de janeiro/março de 2005.

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Curando a África em nós

Por Ben Okri

A África, com seu formato de coração, é o centro dos sentimentos do mundo. Continentes são metáforas, tanto quanto são locais. E os povos são estados espirituais de humanidade tão distinguíveis no que representam quanto os lírios, as rosas e os narcisos.

Será que esquecemos o que é a África? A África é a nossa terra dos sonhos, nossa terra natal espiritual.

Há um reino em cada ser humano que é a África. Todos temos a África dentro de nós. E assim, quando a África exterior está doente e com problemas, a África dentro de nós adoece de neurose. A quantidade total de neurose, de anorexia, de doenças psíquicas inexplicáveis no mundo possivelmente está ligada de forma indireta às doenças e problemas da África. Temos de curar a África em nós se quisermos ser completos novamente.

Temos de curar a África fora de nós se é para que a raça humana fique em paz de novo e de forma dinâmica. Há uma relação entre os problemas de um povo e os problemas no mundo e na atmosfera. Os problemas na África contribuem imensamente para o peso e o tamanho totais dos sofrimentos no mundo. E esse mundo em sofrimento envolve todos no planeta: afeta as crianças e sua saúde, afeta nosso sono, nossa ansiedade, nosso sofrimento desconhecido... Por isso, é possível sofrer sem saber.

Então, temos de curar a África em nós. Temos de redescobrir a verdadeira África, a África do riso, da alegria, da originalidade, do improviso; a África das lendas, das histórias, das brincadeiras; a África das cores brilhantes, da generosidade, da hospitalidade e da gentileza aos forasteiros; a África da imensa benevolência; a África da sabedoria, dos provérbios, da adivinhação, do paradoxo; a África da ingenuidade e da surpresa; a África da postura em quatro dimensões em relação à época; a África da magia, da fé, da paciência, da resistência, de um profundo conhecimento dos caminhos da natureza e dos ciclos secretos do destino.

Temos de redescobrir a África. A primeira descoberta da África pelos europeus foi errada. Não foi uma descoberta. Foi um ato sem discernimento. Eles viram e transmitiram às futuras gerações uma África baseada no que achavam ser importante. Eles não viram a África. E essa não-visão da África é parte dos problemas de hoje. A África foi considerada do ponto de vista da ganância, do que poderia ser tirado dela. E o que você vê é o que você faz. O que você vê num povo é o que eventualmente você cria neles. É chegado o momento de uma nova visão. É tempo de limpar as trevas dos olhos do mundo ocidental.

O mundo precisa agora ver a luz da África, ver seu nascer do sol, sua luminosidade, seu brilho, sua beleza. Se virmos essas coisas, elas serão reveladas. Somente vemos o que queríamos ver. E somente quando vemos mais uma vez, é que os detalhes se revelam a nós. A áfrica está se guardando há séculos para ser descoberta pelos olhos do amor, pelos olhos de um amante. Não há uma visão verdadeira sem amor. Se é para que a humanidade comece a conhecer a verdadeira felicidade nesta Terra, temos de aprender a amar a África em nós.

Nós amamos a America em nós. Amamos a Europa em nós. Estamos começando a respeitar a Ásia em nós. Apenas a África em nós ainda não é amada, não é vista, nem apreciada. O primeiro passo para a regeneração da humanidade é fazer de todos esses continentes em nós um todo novamente. Nós somos a soma total da humanidade. Cada indivíduo é toda a humanidade. É a vez de a África sorrir. Esse será o mais amado presente do século XXI: fazer a África sorrir novamente.

A humanidade começa a pensar no Universo, mesmo as mais remotas estrelas, como seu verdadeiro lar.

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Fala, Marcelo Odebrecth... Senão você pode virar bode

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 23:25
Sábado, 27 de fevereiro

Marcos Valério

Bode expiatório?! De onde nos vem essa expressão? Errou se você pensou nela como algo relacionado ao mundo rural. Nada disso. Essa expressão deriva da tradição bíblica. Segundo o Livro do Levitico, havia um dia chamado de Dia da Expiação e, nele, os hebreus organizavam uma série de rituais, que tinham o objetivo de purificar a nação. Em um desses rituais, os hebreus escolhiam dois bodes. Através de sorteio, um deles era escolhido para ser sacrificado junto com um touro, e o sangue era espalhado pelas paredes do templo.

O outro bode era transformado em bode expiatório. Ritualisticamente, um sacerdote levava às mãos a cabeça do bode inocente, e, nesse momento, era atribuída a ele a função de carregar os pecados do povo hebreu. Após esse ritual, o bode era levado ao deserto e lá era deixado e, junto com o bode, ficavam também ficavam por lá os males e a influência dos demônios.

Por que falo da origem da expressão “bode expiatório”? Porque, em nosso país, o que mais tem aparecido é essa espécie de animal. Claro, o bode dos hebreus era inocente. Já nos daqui... Ah, caros leitores, nesses a inocência passa bem longe, mesmo assim, eles não deixam de cumprir a função de bodes expiatórios.

Por exemplo, nos últimos anos, têm sido notórios graves escândalos de corrupção. Os verdadeiros responsáveis, os que realmente arquitetam os diabólicos planos bem elaborados de sangria dos cofres públicos nem aparecem na lista de culpados. Mas em lugar deles, é preciso que alguém pague, que sirva de exemplo, que o digam Marco Valério e Hamon Hollerbach, aos quais foram aplicadas as mais altas penas no escândalo do mensalão. Os dois cumprem pena em Minas Gerais. Ao primeiro foi imposta uma pena de prisão de 23 anos, 8 meses e 20 dias, o segundo recebeu uma pena de 27 anos, 4 meses e 20 dias. Como se Marcos Valério e Hamom tivessem poder de agir sem interferência dos políticos.

Com a Operação Lava Jato, pode ser que surja que mais bodes expiatórios que sejam levados para o deserto, e para lá levem com ele o segredo do que realmente acontece no submundo do crime.

Essa semana, a polícia realizou mais uma operação da Lava Jato. E quando se fala em nova fase da Lava Jato, pode se esperar que há grandes novidades. Nesta, a 23a , a PF prendeu o publicitário João Santana e a esposa dele, Monica Santana. No momento do decreto da prisão, os dois estavam na República Dominicana onde comandavam a campanha publicitária para a reeleição do atual presidente do país, Danilo Moura. No Brasil, João Santana havia atuado na campanha da reeleição do presidente Lula, e nas campanhas presidenciais de Dilma Rousseff.  

Um dia após ser notificado da ordem de prisão, o casal desembarcou no Aeroporto de Cumbica, em São Paulo, onde foram presos pela PF. Pela atitude dos dois, eles nem pareciam que estavam indo para a prisão, mas sim para algum monastério onde experimentariam um estado de nirvana. Sorriram ao ser presos. Sorriram quando chegavam ao Instituto Médico Legal (IML), onde fariam os rotineiros exames de corpo de delito. Aquele riso me pareceu um misto de deboche, cinismo, e psicopatia. Como pode alguém ser preso e ainda sair desfilando com o sorriso da Mona Lisa?

Os investigadores suspeitam que João Santana tenha sido pago por seu trabalho publicitário na campanha do ex-presidente Lula e da atual presidente, Dilma, com dinheiro oriundo de propina na Petrobrás. Ainda segundo os investigadores, os dois teriam recebido, em conta secreta na Suíça, R$ 7,5 milhões, entre os anos de 2012 e 2014, da empreiteira Odebrecht, e do engenheiro Zwi Skornicki, apontado pela PF como operador do esquema na Petrobrás.

A linha de defesa do casal segue na linha “dos males o menor”, ou seja, admitir que mantenha contas secretas no exterior, mas que o dinheiro não provém de propinas no esquema da Petrobrás. O casal sustenta a tese de que o dinheiro depositado nessas contas é oriundo de campanhas feitas no exterior. Ao se defender, o casal acabou acusando a Odebrecht, pois deixa a entender que a empresa realiza falcatruas não apenas em eleições no Brasil, mas também em outros países. Marcelo Odebrecht, ex-presidente da empreiteira, é réu da Operação Lava Jato, e está preso em Curitiba, desde junho de 2015

O bom da Operação Lava Jato, é que quanto mais se lava, mais sujeira se descobre. Outro lado positivo dessa operação, brava e brilhantemente conduzida pelo juiz Sérgio Moro, é que ela sinaliza de algo no Brasil, aos poucos está começando a mudar. E faço votos de que ainda venha a mudar muita coisa.

Abaixo, compartilho artigo do jornalista Reinaldo Azevedo, publicado na Folha de São Paulo, publicado nesta sexta (26), na Folha.

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Marcelo Odebrcht

Fala, Marcelo Odebrecht!

Reinaldo Azevedo

A racionalidade aponta que Marcelo Odebrecht chegou a uma encruzilhada: ou vai ser o anti-herói por excelência dessa quadra infeliz da história brasileira, arcando com o peso de muitos anos de cadeia e condenando a verdade à poeira do tempo, ou contribui para elucidar os fatos. Farei agora uma aparente digressão para chegar à essência da coisa.

Há eventos que, na sua singularidade até besta, indicam uma mudança de estágio. Algo aconteceu nas consciências com a prisão do marqueteiro João Santana e de sua mulher, Mônica Moura. E com poder para incendiar de novo as ruas. O decoro, meus caros, é sempre uma necessidade. O que a cultura nos dá de mais importante é um senso de adequação, mesmo nos piores momentos, nos mais constrangedores.

Nunca se viram no Brasil presos como João e Mônica. Ele surgiu com o rosto plácido, sorridente, como se estivesse no nirvana. Ela, mascando um chiclete contidamente furioso, exibia um queixo desafiador. Nem um nem outro buscaram ao menos fingir a compunção dos culpados quando flagrados ou dos inocentes quando injustiçados.

O pesar, quando não se é um psicopata, não distingue culpa de inocência. Mesmo os faltosos não escapam da vergonha se expostos. Coloque-se no lugar de um preso, leitor. Não deve ser fácil ter de lidar com a censura, a decepção e a tristeza daquelas pessoas que compõem a sua grei sentimental e que legitimam o mundo que o cerca. Quando se trata de um inocente, então, aí a coisa pode ser ainda pior. Junta-se à dor a revolta contra a injustiça.

A tristeza passou longe de João e Mônica! Viu-se apenas um riso sardônico.

Não estou aqui a exigir a humilhação pública deste ou daquele. Abomino esse tipo de espetáculo. Também não quero transformar expressões faciais em prova de culpa. Mas uma coisa é certa: marido e mulher são especialistas em cuidar da imagem das pessoas. Suas empresas se orgulham de eleger postes. Eles conhecem o peso dos símbolos. Mas, tudo indica, não conseguiram esconder uma natureza.

Trata-se, infiro, de um tipo psíquico, incapaz de sentir vergonha ou culpa. Se inexiste essa dupla para conter os apetites, então tudo é permitido.

Volto a Marcelo. Em seu depoimento, Mônica afirmou ter recebido, pelo caixa dois, US$ 3 milhões da Odebrecht e US$ 4,5 milhões do lobista Zwi Skornicki. O primeiro montante seria pagamento por campanhas eleitorais em Angola, Panamá e Venezuela; o segundo estaria relacionado apenas à jornada angolana.

Venham cá: se empreiteira e marqueteiros têm esse comportamento em outros países, por que não o adotariam por aqui mesmo? Para preservar o PT, a si mesma e ao marido, Mônica torna ainda mais gravosa a situação da Odebrecht, que, então, segundo o seu testemunho, burla regras em eleições mundo afora.

Desde a primeira hora, recomendo que empreiteiros, Marcelo Odebrecht em particular, se lembrem do publicitário Marcos Valério e da banqueira Kátia Rabelo, que pegaram as duas maiores penas do mensalão. Os criminosos da política já estão flanando por aí, alguns a delinquir de novo, mas os dois mofam na cadeia. Até parece que poderiam ter feito o mensalão sem o concurso dos políticos.

Marcelo terá de decidir se vai ser o cordeiro que expia os pecados do PT e de todos os empreiteiros, os seus próprios também, ou se explicita a natureza do jogo que Mônica, tudo indica, tentou esconder.

Fala, Marcelo Odebrecht! Não há como o Brasil não melhorar.

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Brasil real x Brasil do faz de conta

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 01:49
Quinta-feira, 25 de fevereiro



Evidentemente, que nós estamos precisando, eu tomo a liberdade de dizê-lo, de uma certa injeção de otimismo, porque estabeleceu-se no Brasil uma tese, muito acentuada, de que estamos em crise e, interessante, a palavra crise, muitas vezes, é usada de forma indiscriminada, quando nós sabemos que ela tem graduações. Você pode ter uma crise administrativa, que se resolve, muitas e muitas vezes, esse é o interior do governo, pela mudança de ministros, novos ministros, etc. Você pode ter uma crise política, que significa inexistência de apoio para a governabilidade, para o governo, que se resolve pelo diálogo que se mantém com o Congresso Nacional. Você pode ter crise econômica, uma crise já um pouco mais dramática, esta crise econômica, volto a dizer, é resolvida exata e precisamente pela integração entre o setor produtivo do país, e o governo, sem ser piegas, e sem ser repetitivo, que é uma frase quase universal, aquela história de que o que o país pode fazer por você, ou que o governo pode fazer por você, mas o que você pode fazer pelo governo, na verdade, eu adaptaria essa frase pra dizer: Vamos fazer uma sociedade entre o governo e o setor produtivo, porque é deste adensamento de relações entre o setor produtivo e o governo que nasce a prosperidade do país.
Às vezes, eu penso que os políticos brasileiros vivem em um Brasil, e que os brasileiros vivem em outro. Eles vivem em país de faz de conta, e nós vivemos no Brasil real. Quis abri este texto com o discurso acima, por achar que ele retrata com perfeição o que acabo de dizer.

O discurso foi pronunciado pelo vice-presidente da República, Michel Temer, durante um debate sobre o setor portuário, realizado pela revista, Carta Capital, nesta quarta-feira (24), em São Paulo.

Primeiro, Temer diz que nós estamos precisando de uma certa injeção de otimismo. Ora, senhor vice-presidente, nós não estamos precisando de uma certa injeção de otimismo, como diz o senhor. Sendo curto e grosso, eu diria que nós estamos precisando mesmo é poder voltar a acreditar no governo e na classe política, grupos aos quais o Sr. pertence. Estamos precisando daquele dinheiro, montanhas de dinheiro que foram roubadas da Petrobrás, e de milhares de outros órgãos e investimentos públicos. Nós estamos precisando que o governo tenha credibilidade, que chame de volta os investidores, e que nos tire do enorme retrocesso que estamos enfrentando. O país tem andado para trás, como fazem os caranguejos na lama do mangue, o país tem retrocedido, em pelo menos oito anos, e o Sr. nos diz que precisamos de uma “certa injeção de otimismo”, ora, faça-nos o favor.

Prossigamos.

O Sr. nos diz que estabeleceu-se no Brasil uma tese muito acentuada de que estamos em crise, e que a palavra crise é usada de forma indiscriminada. Ora, por tese podemos entender uma proposição que é apresentada para que possa ser discutida por outrem, com base em determinadas hipóteses ou pressupostos, ou sendo mais preciso, “em tese”, quer dizer, “de acordo com o que supõe”, “em princípio”, “em teoria”. Ou seja, Sr. vice-presidente, o senhor insinua que os economistas, e outros especialistas no assunto, ou atém mesmo o brasileiro comum, que sente a volta da inflação quando vai ao supermercado fazer suas compras, estão exagerando quando dizem que há uma grave crise no Brasil. Porém, eu lhe entendo. Há muitas, muitas empresas fechando as portas no país, e muitos trabalhadores sendo demitidos, mas o Sr. não está preocupado com isso, não é mesmo? O cargo que o Sr. ocupa não lhe permite ser demitido, o governo não vai, de uma hora para outra, lhe dar um pontapé naquele lugar, a não ser que as instituições jurídicas lhe deem de presente um impeachment, mas isso é outra história. O Sr. não sente a crise, pois com o alto salário que recebe, e com os privilégios ainda mais altos que recebe do governo, não precisa se preocupar em amento de preço dos alimentos, de água, de luz, de energia, em pagar funcionários, em adquirir estoque, pois, são os seus assessores que fazem todas estas coisas. Talvez o Sr. nem mesmo saiba que os preços estão subindo, que a inflação voltou, que o país enfrenta uma grave recessão e coisas desse tipo.

Vamos em frente.

O Sr. diz ainda, em termo hipotéticos, que se pode ter uma “crise política”, uma “crise administrativa”, ou uma “crise econômica”. Pois saiba o Sr. que nós temos todas essa crises juntas, e isso não é invenção minha, nem é fato hipotético. E mais, além dessas três crise que o Sr. citou hipoteticamente, nós ainda vivemos uma crise ética, uma crise educacional, uma crise de saúde, de segurança, e se procurar direito, descobriremos outras mais.

O Sr. também fala de uma sociedade do governo com um setor produtivo sufocada pelos altos impostos, burocracia e falta de investimento na área.

Por fim, deixei por último sua perola nessa discurso, a qual cito literalmente: Não pergunte “o que o país pode fazer por você, ou que o governo pode fazer por você, mas o que você pode fazer pelo governo”. Isso soa aos meus ouvidos de forma tão hipócrita. Afinal, nós trabalhamos quase cinco meses por ano para pagar tributos ao governo. Isso é pouco? Quer mais? Quer que façamos, ou que paguemos ainda mais? Nós fomos, literalmente, enganados por promessas de campanha que foram, descaradamente, descumpridas. Nós fomos enganados por números maquiados que mostravam um Brasil pujante, quando, sabemos agora, que tudo não passava de uma farsa.

E tem mais uma para lhe chamar de mentiroso. Não serei eu quem o chamará de mentiroso. Afinal, quem sou eu para fazer isso, senão um humilde brasileiro, pagador de impostos como milhões de outros, mas quem o chama de mentiroso são as agências internacionais, que mais uma vez rebaixaram o grau de investimento no Brasil. isso justamente no dia em que o Sr. nos diz que não há crise.

Nesta quarta-feira, o Brasil foi retirado do grupo dos países considerados seguros para investir. A agência Moody’s rebaixou o Brasil em dois graus a nota de investimento do Brasil, e, com isso, o Brasil perdeu seu último selo de bom pagador. O país ganhou esse valoroso selo em 2008, da Standard And Poor’s, depois fomos promovidos pela Fitch, e depois pela Moody’s. Por causa de um governo irresponsável as três agências que nos deram crédito de confiança, agora puxam nosso tapete. E puxam, simplesmente, porque não veem como o país poderá pagar as contas que, por falar nelas, estão pra lá de deficitárias.

Sair do grupo de bons pagadores pesará em nosso dia a dia. Muitos investidores irão fugir do Brasil. Os que decidirem investir vão cobrar mais caro para fazer isso. Em consequência disso, as empresas irão desembolsar mais dinheiro para ter esse capital oferecido pelos investidores, o que acarretará prejuízos em seus investimentos. Na esteira de tudo isso, tributos aumentarão, custos de financiamento também, haverá menos crédito disponível, e por aí vai.

Sr. vice-presidente da República, Michel Temer, termino estas linhas fazendo-lhe um apelo singelo: Deixe o mundo de faz de conta, juntamente com todo o governo, e venha para o Brasil real, pois apenas assim o Sr. ajudará o seu, o meu, o nosso país, a sair do atoleiro que os Srs. o colocaram.



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Programa do Jô: Um talk show que deixará saudades

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:38
Terça-feira, 23 de fevereiro

“A amizade não tem um tempo físico,
porque a gente não se vê a não sei quantos anos,
e quando a gente se vê, parece que foi ontem.”
(Jô Soares)



Jô Soares não é nenhum psicanalista. Mas pelo seu divã já passaram nomes famosos e não famosos, engraçados e sérios, homens e mulheres, jovens e velhos, políticos, escritores, cantores, pintores, esportistas, enfim uma grande quantidade de tipos humanos já foi objeto de entrevista no Programa do Jô.

O apresentador é um destes homens que, mesmo sendo apenas um só, conseguem ser múltiplos. Ator, músico, jornalista, escritor, diretor de teatro, humorista, pintor, apresentador de TV. Tudo isso é José Eugênio Soares, Jô Soares, ou simplesmente, Jô. Ele nasceu na terra do Cristo Redentor, em 16 de janeiro de 1938. Naquele mesmo mês, mais precisamente no segundo dia do ano, dias antes do nascimento de Jô, o programa radiofônico, A Voz do Brasil, havia iniciava suas transmissões para todo o país. A vida política no país estava agitadíssima, no dia 03 de janeiro, havia ocorrido o golpe de estado de Getúlio Vargas, também naquele ano, os integralistas se revoltaram contra o governo autoritário de Vargas. Foi também em 1938 que o Brasil ouviu, pela primeira vez, uma transmissão de partida de Copa do Mundo, diretamente da França.

É possível que todo esse movimento tenha influenciado a personalidade prá lá de dinâmica de Jô. Filho de Orlando Soares, um empresário paraibano, e Mercedes Leal, dona de casa, o pequeno Jô sonhava em ser diplomata, mas sua criatividade e humor inatos o levaram aos palcos.

Após passagens e participação em vários humorísticos, estreou, em 1988, no SBT, a sua marca registrada, o programa, Jô Soares Onze e Meia, canal de TV no qual ficou até o ano de 1999. No ano 2000 saiu do SBT e levou o talk show para a Globo, praticamente com o mesmo formato. Ao todo, contando o tempo no SBT e na Globo já se somam 28 anos de um bem sucedido talk show que vai ao ar nos fins de noite.

Divertindo, entrevistando, informando, o talk show, sob a estrela brilhante de seu apresentador tem feito história na TV brasileira. A temporada 2016 do Programa do Jô tem estreia prevista para março, entretanto, a Globo anunciou nesta segunda-feira, 22, através de um comunicado de sua assessoria de imprensa, que o talk show ficará no ar até dezembro deste ano. Segundo a emissora, este acerto já constava da última renovação do apresentador com a emissora. Nesses 28 anos foram feitas pelo Jô, cerca de 15 mil entrevistas.

Após tanto trabalho, o Jô merece um descanso, porém, descanso para alguém tão agitado e criativo como o Jô, não significa inércia. Ele já anunciou que pretende dirigir duas peças de teatro, sendo uma delas, uma criação de Shakespeare.  Ele também anunciou que está terminando um livro para a Companhia das Letras, e também não descarta novos projetos televisivos.

Em seus 78 anos de idade, e 56 anos de atividades, Jô ainda tem muita energia para gastar, e muito talento pra esbanjar. Sorte nossa.

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Um Eco de sabedoria que silencia, mas continua falando nas obras que deixou

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 22:53
Sábado, 20 de fevereiro

“A beleza do cosmos é dada não só pela unidade na variedade,
mas também pela variedade na unidade.”
(do livro O Nome da Rosa – Umberto Eco)




Hoje é um dia atípico. Uma noite atípica no Brasil. Por quê?

Hoje nos é dado um poder que, a princípio, é atribuído ao Deus das maravilhas: o poder de manipular o relógio, brincar com o tempo. Hoje, quando os ponteiros do relógio se encontrarem na calada da meia noite, podemos voltar ele novamente para as onze horas, e com isso, ganhamos mais uma hora. É o fim do horário de verão, nas regiões sul, sudeste e centro-oeste. Enfim, o horário de verão, amado por uns e odiado por outros, se despede para voltar no final do ano. Digamos que o horário de verão também tem direito a umas prolongadas férias.

Feito essa breve introdução informal e informativa, passo a tratar do assunto que é objeto desta postagem.

Você conhece Umberto Eco? Não! E o romance, ou o filme baseado nele, chamado O Nome da Rosa? Você conhece? Então você conhece Umberto Eco.

Enfim, após dar uma contribuição fenomenal no campo de pensamento, nessa humanidade tão carente de bons pensadores, Umberto Eco, exalou seu último suspiro, colocando um ponto final em sua existência terrena. O romance que ele havia começado a viver — digo viver, pois o autor do livro da vida não somos nós, apesar de nele sermos protagonistas — no dia do seu nascimento, no dia 05 de janeiro de 1932, em Alexandria, Itália e chegou ao fim em Milão, no último dia 19 de fevereiro, aos 84 anos. Terminado o primeiro volume de um romance chamado vida, começa o segundo volume, chamado vida eterna. E, desconfio que, também nele, o personagem em questão fará uma trajetória brilhante e iluminada.

Escritor, filósofo, semiólogo, linguista e bibliófilo italiano. Como pode uma pode ser tantas coisas ao mesmo tempo, e, melhor, ser cada uma delas com propriedade e sabedoria? Isso é um dom, coisa de quem sabe sorver cada gota de mel da colmeia da vida.

Autor de obras de grande importância, não apenas para os italianos, mas para toda a humanidade, Umberto Eco tem em O Nome da Rosa o seu livro mais conhecido.

Umberto Eco, que os anjos de luz te recebam com alegria e te levem às santas moradas, onde possas prosseguir a jornada da vida, pois a morte não existe, é apenas passagem: um rito de passagem como tantos que temos vida afora.

Abaixo, compartilho com vocês uma excelente entrevista que Umberto Eco concedeu à jornalista Ilze Scamparine, jornalista corresponde da Globo na Itália, em julho de 2015. A entrevista foi exibida no programa de entrevistas, Milênio, da Globo News. O programa inédito é exibido às segundas-feiras, às 23h30, e reexibido nos seguintes horários alternativos: (terça-feira) 03h30 e 17h30; (quarta-feira) 05h30; (quinta-feira) 06h30; 19h30 (domingo) 07h05.

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Entrevista Umberto Eco

Ideias do Milênio

“Todo fundamentalismo quase sempre se baseia em afirmações falsas”

17 de julho de 2015

Umberto Eco é um italiano que olha a realidade com óculos especiais. Defini-lo como escritor e crítico literário seria muito pouco. Também seria insuficiente nominá-lo como linguista, esse piemontês de Alexandria, de fama internacional é também filósofo e um ensaísta vivaz. Semiólogo, usa a ciência dos símbolos como um esquema mental. Grande apaixonado pela Idade Média, produziu obras como O Nome da Rosa, de 1980, um suspense filosófico ambientado no ano de 1327, que virou best seller e inspirou um filme com Sean Connery. Estudioso do fenômeno da comunicação, foi um dos primeiros por aqui a falar de linguagem televisiva. Acompanhou o nascimento da televisão italiana e do pensamento americano sobre a TV. Um princípio fundamental da sua narrativa é a suspeita, a desconfiança no que se diz. Umberto Eco põe em discussão qualquer interpretação sobre os fatos. Na sua casa em Milão ele nos mostrou a edição brasileira de Número Zero, o seu último livro que cita histórias da época contemporânea para falar de chantagem, intrigas e de reputações enlameadas dentro da redação de um jornal.

Ilze Scamparini O senhor acabou de lançar uma espécie de manual do mau jornalismo. Criou uma redação de pretensiosos. Essa ideia vem de onde?

Umberto EcoHá pelo menos, 30 anos que escrevo artigos e ensaios sobre os vícios do jornalismo. Uma visão de dentro, porque também escrevo em um jornal. Então, é um tema familiar para mim.

Ilze ScampariniImagino que o senhor não tenha feito essas observações só na Itália?

Umberto Eco — A minha é uma redação de jornalistas fracassados. E, nesse caso, um exemplo de péssimo jornalismo. Mas, alguns diretores de jornal aqui na Itália debateram o meu livro e disseram: “Sim, mas alguns desses vícios são também do grande jornalismo”. E são no mundo inteiro por uma série de razões. De todo o modo, o jornalismo vive uma crise desde o fim de 1953. Pelo menos, na Itália. Nos Estados Unidos, um pouco antes, por causa do advento da televisão. Antigamente, os jornais diziam de manhã o que havia acontecido na noite anterior. Ou seja, diziam de manhã aquilo que todo mundo já sabia pela televisão. Isso poderia ter sinalizado o desaparecimento dos jornais como objeto, como instituição. Mas, os jornais precisaram aumentar o número de páginas para acolher publicidade, etc. Quando eu era pequeno, os jornais tinham quatro páginas. Agora, têm sessenta. Então, o que faz um jornal? Ou pode fazer um aprofundamento, o que exige uma redação forte, uma preparação de investigações. Ou fofocas. Como os vespertinos ingleses que não fazem outra coisa a não ser falar da família real. Em alguns casos, como acontece no meu jornal, o sensacionalismo e a chantagem. Quando eu trabalhava em redação, existia um personagem na Itália se chamava Pecorelli. Ele tinha uma agência de notícia. Ele não fazia um jornal, fazia um boletim de notícias. Não era vendido em banca. Mas acabava nas escrivaninhas de todas as pessoas importantes. Então, era um sistema de chantagem porque apresentava algumas notícias que ele poderia vir a divulgar em seguida.

Ilze ScampariniE por isso ele foi assassinado?

Umberto Eco — Foi assassinado. Então, podemos dizer que devia incomodar. Os jornais de chantagem, do tipo que na Itália se chama “máquina de lama”, existem. Até mesmo aqueles jornais que se consideram nacionais e bastante sérios. Nesse caso, coloquei em evidência este problema que é comum a vários tipos de jornalismo. Por exemplo, a tentativa do jornalista de não manifestar opinião, o que é muito praticado. A grosso modo, tem-se um fato, descreve-se o fato. Depois dá-se, entre aspas, a opinião de alguém que passou por ali. Ou seja, dá-se a impressão de que opinião é separada do fato. Mas quem escolheu a pessoa que dá a opinião?

Ilze ScampariniEssa “máquina de lama”... Se eu não me engano, até o senhor foi vítima dessa “máquina de lama” quando foi a Jerusalém e fez a famosa declaração, não?

Umberto Eco — Sim, mas aquela era só uma máquina de estupidez. Porque teve efeito apenas sobre uma pequena discussão. Melhor, o que é típico da “máquina de lama” é que para desacreditar alguém, não é necessário acusá-lo de ladrão, assassino. Basta dizer as coisas que são realmente verdade e que são normais, mas que jogam uma sombra de suspeição. Então, um jornal que não gostava de mim publicou um texto assim: “Ontem, Umberto Eco foi visto em um restaurante chinês com um desconhecido, enquanto comiam com palitinhos.” Não tem nada de mal estar num restaurante chinês. O personagem era desconhecido para eles e não para mim. Era um amigo meu. Mas imagine que, a não ser em Milão, Roma ou Bolonha, em suma, todas as grandes cidades onde existem restaurantes chineses, no resto do país não têm. Então, para as pessoas, a ideia de alguém com um desconhecido usando palitinhos em vez de comer massa com garfo, como fazem as pessoas normais, já transforma tudo em Chinatown, um filme de Polanski. É uma forma de lançar uma sombra de suspeição. Essas são técnicas refinadas da “máquina de lama”.

Ilze ScampariniPara o senhor quais são os danos mais comuns e mais nefastos do mau jornalismo?

Umberto Eco — São infinitos. A senhora definiu o meu romance como um manual. E, na verdade, chegaram a propor usá-lo como manual nas escolas Jornalismo, para explicar o que não deve ser feito. E os espanhóis querem mesmo trabalhar nesse sentido. Pense, por exemplo, nas práticas que, aparentemente, são corretas, a edição. Assim, um jovem mata a namorada em Belo Horizonte. Um outro mata a mulher em São Paulo. Um outro mata a amante em Salvador. São três fatos estatisticamente, num país grande como o Brasil, estatisticamente bem normais. Se todos são postos na mesma página, cria-se um alarme. Se, além disso, todas essas pessoas são, digamos, da mesma cor, são negros. Então, cria-se, de fato, uma perseguição racial. Simplesmente colocando as notícias na mesma página. Então, são técnicas que, algumas vezes, estão arraigadas. Porque vêm naturalmente para os jornalistas. Três notícias bem parecidas são postas uma ao lado da outra. Mas se cinco acidentes de carro são postos numa mesma página, quer dizer que tem alguma coisa que não funciona no motor dos carros. Este é um elemento mínimo. Mas onde a gente vê como o jornalismo pode ser perigoso mesmo quando se trabalha corretamente.

Ilze ScampariniMas a política dentro da redação. Isso também pode ser uma coisa nefasta? A política, o jornalismo contaminado da política partidária.

Umberto Eco — Só existe um tipo de jornal que não é contaminado. É o jornal de partido. Porque se sabe que é um jornal de partido, então se sabe como ler e fazer a filtragem das informações. É claro que cada jornal tem pressão política de todos os tipos. Vai depender de como eles declaram isso. Os grandes jornais americanos, quando tem eleição para presidente, dizem: “Nós apoiamos este.” Ok, estamos entendidos”. Na Itália, o problema trágico é que não existem jornais independentes. Todos são, de algum modo, ligados a bancos, indústria etc. Isso é muito grave. Não é tanto a política. Um jornal deve fazer política. Se é um jornal honesto, deixa claro qual é a posição política dele.

Ilze ScampariniOs mecanismos revelados pelo livro poderiam ser aplicados em outros países?

Umberto Eco — Cabe aos outros países decidirem.

Ilze Scamparini O empresário que patrocina o jornal que não será nunca publicado representa alguém especificamente? Sei que é uma pergunta que fazem bastante.

Umberto Eco — É uma pergunta que todos me fazem. É Berlusconi? Este comendador Vimercati. Existem tantos senhores Vimercati em Itália e em toda parte. Quem é Murdoch? Quem são os donos de jornais, etc. Então, até Vimercati tende a ser um personagem universal.

Ilze ScampariniJá que os fatos se ligam também, o que significa Silvio Berlusconi na história italiana?

Umberto Eco — Atualmente, não acho que Berlusconi tenha ainda um grande futuro político, por causa da idade, por que a situação é diferente. Ele foi ignorado. Encontrou gente mais esperta que ele. O presidente Renzi é mais esperto que Berlusconi. E ele achava que era mais esperto. Berlusconi representou por vinte anos mais um personagem dotado, realmente, de fascínio para muita gente. É um homem de grande simpatia. De grande poder econômico. E como tinha o controle dos meios de comunicação de massa pode convencer um país inteiro, por quase vinte anos, de um programa inexistente: que ele deveria livrar a Itália do comunismo. Quando o comunismo já havia se liberado sozinho. E já havia acabado. Então, Berlusconi foi um produto típico da sociedade de massa. Representa uma nova forma de populismo, de uma política que tem apelo direto com o povo, ignorando o Parlamento. E sobre populismo, a América Latina tem muito a nos ensinar.

Ilze ScampariniUma cultura que, no fim das contas, ele produziu, ainda está em vigor.

Umberto Eco — Mas, certamente, o eleitorado de Berlusconi é ainda de senhores entre cinquenta e noventa anos, principalmente, os que veem televisão.

Ilze Scamparini O senhor escreveu O Nome da Rosa há 35 anos. Até hoje, o livro é um mito absoluto na literatura e muito fundamental na sua vida de escritor. De que maneira aquele romance influenciou sua narrativa desde então?

Umberto Eco — Pelo simples fato de que, até aquele momento, por exemplo, tem o fato de que eu nunca havia escrito um romance. Costumo brincar que todos os meus livros anteriores tinham uma sinfonia de Mahler, uma obra de Charlie Parker. Então, a cada vez, a gente procura encontrar novas soluções estilísticas, etc. Simplesmente, me aconteceu a desgraça de ter um grande sucesso com o meu primeiro livro. Sorte seria se o grande sucesso tivesse acontecido no último livro. Tendo sucesso no primeiro livro, e cito Gárcia Marquez, ele pode ter escrito tudo o que quis depois, mas as pessoas só lembravam de Cem Anos de Solidão.

Ilze Scamparini O senhor o enxerga como uma coisa negativa?

Umberto Eco — Sim, porque se eu precisasse escolher entre todos os meus romances qual deveria salvar e jogar fora os outros, escolheria o Pêndulo de Foucault. Essa é uma opinião pessoal. De leitor.

Ilze ScampariniO Nome da Rosa tem mais de 15 milhões de cópias vendidas. O senhor sabe [o número] ao certo?

Umberto Eco — Não se sabe. Alguns dizem quinze. Por quê? Porque a metade do mundo não tinha, naquela época, um acordo para direitos autorais. Na China, podem ter impresso uma centena ou um milhão. Não se sabe. Todo o mundo oriental. Mais da metade são edições piratas. Não pagavam os direitos. Toda a Rússia, o mundo soviético. Não existia um acordo. Então, não se sabia quanto eles tinham vendido. Não pagaram os direitos. Então, não se sabe.

Ilze ScampariniUm personagem do seu livro Número Zero diz que todos mentem, os jornais, a TV...

Umberto Eco — Sempre o Bragaddocio paranoico.

Ilze Scamparini Bragaddocio, exatamente. Os intelectuais também mentem?

Umberto Eco — Essa é a opinião de Bragaddocio.

Ilze ScampariniOs fenômenos atuais como imigração, terrorismo, racismo, são, volta e meia, vítimas de informações erradas?

Umberto Eco — Naturalmente. Todo tipo de racismo, fundamentalismo, quase sempre, se baseia em afirmações falsas. Pense, na realidade, Hitler matou 6 milhões de judeus levando a sério o antigo Protocolo dos Sábios de Sião. É natural que toda forma de crime na história nasce da desinformação orientada.

Ilze ScampariniOs meios de comunicação ao mesmo tempo que podem combater a censura e defender a democracia podem também produzir coisas danosas a sociedade. O que o senhor acha?

Umberto Eco — É como todas as coisas. Os automóveis permitem fazer um monte de coisas boas, mas também explodem nas estradas. Pense na internet, cheia de defeitos. Mas, alguém disse que, se no tempo de Hitler existisse internet, a tragédia não seria possível porque todo o mundo teria tomado conhecimento em cinco minutos. É preciso, como sempre, ver os aspectos positivos e negativos. Eu li uma vez que os mecânicos franceses fizeram uma manifestação contra as leis para diminuir os acidentes na estrada... Com menos acidentes, eles trabalham menos.

Ilze ScampariniO senhor desencadeou uma forte reação quando foi duro contra uma parte da internet.

Umberto Eco — É dar muita importância a uma coisa óbvia. É ou não verdade que no mundo existem muitos imbecis? Me parece que sim. Agora, podemos discutir se são a maioria ou a minoria. Mas existem muitos. No momento em que a internet permite que todos falem, permite que um grande número de imbecis fale. Então, é preciso também saber criticar aquilo que está na rede e pronto. Acho que quem protestou foram eles, os imbecis.

Ilze ScampariniA paixão pela Idade Média passou ou ainda vai dar frutos?

Umberto Eco — Tanto que foram publicados há dois anos todos os meus escritos sobre a idade média que chegaram a 1.500 páginas. Foi sempre o período que mais me interessou. Se ainda dará frutos, eu não sei. Como o que vou trabalhar nos próximos anos ou se ainda estarei vivo nos próximos anos. Mas, de qualquer forma, já separei uma ótima série de estudo.

Ilze ScampariniO senhor escreveu uma bela homenagem para Haroldo de Campos quando ele morreu. Que relação o senhor teve com os poetas concretistas?

Umberto Eco — Quando a gente nem se conhecia ainda, eles se ocupavam das mesmas coisas que eu e outros colegas, a semiótica de Peirce e outras coisas. Por isso, quando cheguei pela primeira vez ao Brasil... Além disso, através de um colóquio, quem me convidou foi o Décio Pignatari, eu imediatamente me encontrei com Haroldo e Augusto de Campos, em todo aquele ambiente. Havia um lugar que se chamava João Sebastião Bar. Então, me tornei muito amigo de Haroldo. Não é só isso. Eu tinha publicado... Eu fui ao Brasil acho que em 1963. Eu havia publicado, em 1962, Obra Aberta. E Haroldo me mostrou um artigo que ele havia escrito antes de 1962, onde ele falava da Obra Aberta. Nos tornamos, vamos dizer assim, irmãos. Com muitas ideias em comum. Logo, nos mantivemos sempre em contato. E então, através deles, todo o grupo se manteve, conheci um pouco. E assim, a chamada vanguarda brasileira e o mestre deles Oswald de Andrade, etc. E considero, sobretudo, Haroldo de Campos um ótimo tradutor. Ele traduziu “Dante” de uma forma, em português do brasileiro que é, realmente sublime. E ele era uma grande figura.

Ilze ScampariniO senhor participou ativamente do Grupo 63, neovanguardista que negava, violentamente, a trama na literatura. Mas o que aconteceu com a sua narrativa, que recupera a centralidade da trama?

Umberto Eco — Aconteceu que já em 1965 — ou seja, o grupo se chamava 63 porque fez a primeira reunião em 1963. Mas já em 1965, teve um encontro onde dissemos que tudo bem, que era preciso retornar à narrativa. Uma outra narrativa, diferente daquela do tempo de Robbe-Grillet, o novo romance e toda essa forma nova de narrativa. A verdade é que aquilo que mais tarde foi chamado de Modernismo chegou à página branca, ao quadro monocromático, à cena vazia, ao silêncio musical. Ou seja, alcançou um ponto de destruição da linguagem anterior...

Ilze ScampariniQue era necessário voltar atrás.

Umberto Eco — Ou então, não se poderia. Depois do quadro branco, não se podia fazer nada a mais ou a menos. Então, houve um retorno, no sentido de revisitar as formas tradicionais e modo irônico, meta-linguagem, e tantas coisas sobre as quais podemos falar. Eu acredito que não poderia ter escrito os meus romances se não tivesse passado pela experiência do Grupo 63.

Ilze ScampariniO senhor afirmou que Tomás de Aquino, milagrosamente, o ajudou a curar-se da fé. O que resta, professor, apenas a fé no homem?

Umberto Eco — Não disse isso...

Ilze ScampariniNão? É um outro caso de mau jornalismo?

Umberto Eco — Eu disse que, gradativamente, comecei os estudos de São Tomás enquanto era um crente e terminei porque já estava abandonando a fé. Não porque havia sido inspirado por São Tomás. Mas também porque, mesmo quando se faz um trabalho histórico, objetivo, sobre este personagem, projetei o mundo dele à distância para observar com o olhar crítico da história. Não era mais o meu mundo. Era o mundo dele. Mas não é culpa dele. Estive há pouco tempo no quarto onde ele morreu, em Fossanova. Participei de um congresso sobre a vida de São Tomás e continuo fascinado pelo gorducho.

Ilze ScampariniE como o senhor, um autor de um estudo sobre Tomás de Aquino, estudioso dos meios de comunicação, vê um Papa comunicador como Francisco?

Umberto Eco — Bem, eu o vejo como extrema simpatia. Não por acaso é um jesuíta sul-americano. E não é argentino, é paraguaio. Eram os jesuítas das missões, dos seiscentos, que armaram os índios contra os espanhóis. Para mim, é assim. Ele veio deste mundo ali. Não dos jesuítas reacionários franceses dos oitocentos. Mas dos jesuítas um pouco revolucionários, paraguaios, dos seiscentos. E, então, assim nasce esse personagem bastante singular.

Ilze ScampariniUm papa um pouco laico, não?

Umberto Eco — Em suma...

Ilze Scamparini — Mais que os outros...

Umberto Eco — Ele não tem uma visão de talibã.


Ilze ScampariniMuito bem. Muito obrigada, professor.

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