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Projeto Ruas de Histórias Negras resgata o valor de lideranças negras da cidade de Campinas e do Estado de São Paulo

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:19
Sexta-feira, 13 de novembro
Existe uma história do povo negro sem o Brasil.
Mas não existe uma história do Brasil sem o povo negro”.
(Januário Garcia)



O céu da manhã de domingo (7) estava nublado e cinzento. Todos os indícios prenunciavam um dia chuvoso. Porém, como chuvas por esses lados tem sido coisa rara, duvidei um pouco de que fossemos ser abençoados com este fenômeno natural tão benéfico: aos reservatórios, para torná-los cheios e garantir o abastecimento da população; e as cidades, para umedecer o ar, afastar a poeira das ruas, enfim, tornar o clima mais leve. Por falar em fenômenos naturais, sinto que eles estão um tanto quanto diferentes do que eram antes, a começar pela chuva. Antes, as chuvas duravam o dia inteiro, às vezes, dias seguidos de chuva, entremeados de um tímido sol. Se a chuva não durava o dia inteiro, pelo menos passávamos algumas horas vendo aqueles pequenos pingos d’água a cair do céu. Hoje não, elas vêm e vão embora com a velocidade da luz. Dez ou vinte minutos de chuvarada e acabou a brincadeira. Na maioria das vezes, nem chega a molhar direito o solo. Acho que chegou a hora de sermos realistas: O planeta pode ficar sem água. Não quero aqui pregar o apocalipse, mas há questões que, de tão óbvias acabam escapando a nossa reflexão, como por exemplo, a de que o planeta é água, nós somos, em grande parte, formados por água, e água é fonte da vida, consequentemente, sem água não há vida.

Entretanto, apesar de essa ser uma questão de suma importância, deixemo-la de lado por enquanto. Voltemos à manhã de domingo cinzenta, e um pouco fria, em Campinas, e continuemos a narrativa deste ponto.

Preparava-me para ir a dois eventos na Vila Industrial, bairro da região sul da cidade. A Vila tem história, e muita história para contar, afinal foi um dos primeiros bairros surgidos na cidade. Apesar da proximidade com o centro da cidade, ele ainda conserva um pouco do passado, mesclando construções antigas com construções modernas, em uma agradável harmonia. Por exemplo, ali está localizada a Vila Manoel Dias, que foi um reduto de operários na década de 30, que foi tombada e se tornou patrimônio histórico de Campinas. Na Vila também está situado o Teatro Castro Mendes.

Enquanto caminhava pelas ruas da cidade em direção ao bairro em questão, pensava nas ruas como espaço público por excelência. Lugar de encontros e desencontros. Lugar de procissões religiosas, e de manifestações artísticas e culturais. Em oposição a casa, lugar de diálogo, de intimidade, a rua é verbo impessoal. As ruas também expressam a competitividade do mundo atual, no vai e vem de automóveis e pessoas, correndo de um lado para outro, apressadas. Entretanto, acima de tudo a rua ainda é um espaço democrático: Nela andam negros e brancos, ricos e pobres.

A grande maioria das administrações municipais costuma atribuir nome de pessoas às ruas de suas cidades. Então, nos deparamos com outro aspecto interessante desses espaços públicos. Quando caminhamos por alguma rua, estamos passeando por sua história. São pés que pisam na pedra, ou no asfalto. São pés que pisam em recortes da história. Muitas vezes, passamos de modo tão mecânico que esses detalhes escapam a nossa compreensão. Não exercemos a nossa curiosidade e deixamos passar a chance de saber um pouco mais, de costuramos a grande colcha de retalho que forma a realidade que nos cerca.

Aproximava-me da Vila Industrial. Ali aconteceriam dois momentos muito belos e especiais. O primeiro deles era o lançamento do Projeto Ruas de Histórias Negras, na Rua Mestre Tito. O projeto, de autoria do vereador Carlão, do PT, consiste na instalação de placas com informações sobre personalidades negras que foram homenageadas com nomes de ruas, praças e locais históricos da cidade de Campinas. As placas foram solicitadas pela administração municipal aos Serviços Técnicos Gerais (Setec), que confecciona e instala as placas. De início serão 42 a ser instaladas em diversas regiões da cidade. A apresentação do projeto havia acontecido na quinta-feira (6), no Plenarinho da Câmara Municipal de Campinas.
Saí da Avenida João Jorge, e entrei à direita, na rua Dr. Sales de Oliveira. Atravessei duas quadras, passei em frente ao Teatro Castro Mendes e, alguns metros após, já estava em frente à Rua Mestre Tito, primeiro homenageado do projeto. No local já estavam alguns adeptos de religiões de matrizes afro-brasileiras, com suas costumeiras vestes brancas. O vereador, Carlão também já estava por lá e conversava com os religiosos e demais convidando, e também atendia a imprensa. Pouco depois chegou o Dr. Ademir José da Silva, presidente da Comissão de Igualdade Racial e da Comissão da Verdade sobre a Escravidão Negra da OAB-Campinas.
Nós procuramos construir esse projeto com o objetivo de contribuir com a Lei 10.639 para a implementação dessa lei nas escolas, e pra que a gente possa trazer um conhecimento para a população de Campinas, dos negros, dos heróis que nós conhecemos na história, dos negros e negras importantes daqui da cidade e do Estado de São Paulo”, disse Carlão à TV Câmara, citando em sua fala a lei federal que institui o ensino da história e cultura africana nas escolas.
Nós só estamos aqui hoje porque esse pessoal trabalhou, esse pessoal lutou, e esse pessoal tombou, muitos morreram por causa dessa luta, dessa questão da escravização, e do racismo”, afirmou a presidente do Grupo Força da Raça, Edna Almeida Lourenço, que também coordenou os seis meses de pesquisa, nos quais contou com a ajuda de alunos da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas).
E o homenageado, quem foi? Mestre Tito (Tito de Camargo Andrade) chegou ainda adolescente ao Brasil, após ser capturado na África, e de sofrer os horrores do porão dos navios negreiros durante a travessia do atlântico. Em Campinas, foi comprado pelo capitão-mor Floriano de Camargo Andrade. Tito conquistou a confiança do capitão-mor, e este lhe concedeu a liberdade. Floriano tinha uma estima tão grande por Tito que, ao alforriá-lo, emprestou-lhe também o sobrenome. Mestre Tito era grande curandeiro, exímio conhecedor de plantas e raízes medicinais, tão abundantes em nossas matas naquela época. Os seus conhecimentos e domínio das ervas que curam eram tão vastos que ele chegava a ser procurado por médicos que praticavam a medicina tradicional.
Além de ter ajudado a curar muita gente através das ervas medicinais, Mestre Tito teve outra atuação importante na história da cidade. Nos idos de 1800, o preconceito era tão forte quanto as marcas do chicote que estalavam nas costas do povo negro. Até a participação deles em grupos religiosos era proibida. Mestre Tito e outros negros participavam de um grupo religioso chamado, Irmandade do Rosário, quando foram expulsos dela. Apesar de contrariados, eles conseguiram outro local para se reunir e fundaram uma nova irmandade: a Irmandade de São Benedito. Em 1835, surgiu a ideia de construírem uma nova igreja em homenagem a São Benedito, o santo negro. A tarefa não era nada fácil, muito menos vencer a resistência das autoridades, porém, a fé e obstinação de Mestre Tito fizeram com que o sonho fosse realizado. Conseguiu autorização para que a igreja fosse construída, e para arranjar dinheiro para erguer a construção, ele e seus companheiros saiam pelas ruas da cidade, pedindo doações para a obra. Mestre Tito morreu em 29 de janeiro de 1822, antes de ver a obra completada. Após sua morte, Dona Ana de Campos Gonzaga, encarregou-se de dar prosseguimento à realização da obra.
O Projeto Ruas Negras de Campinas possui, além do caráter de resgate da história do povo negro, tem por objetivo, fortalecer a estima nos descendentes desse povo que atravessou séculos de opressão. “Em nosso ponto de vista, os referenciais deles são um pouco distorcidos em relação aos negros. São lembrados os açoites, o navio negreiro e a discriminação no mercado de trabalho, mas são esquecidas as pessoas que se destacaram nas áreas de engenharia, humanas. O objetivo é mostrar que elas [crianças] podem fazer a diferença apesar de tudo isso”, afirmou o parlamentar, em entrevista ao portal Globo. com, em 07 de novembro.

Após o lançamento do projeto, e da homenagem a Mestre Tito, todos se dirigiram ao Teatro Castro Mendes. O burburinho de vozes preenchia o ambiente. Às onze horas da manhã, os músicos da Orquestra Sinfônica de Campinas, adentraram o palco ocupando cada qual seu lugar defronte aos seus respectivos instrumentos. Estando todos os músicos a postos, o maestro Victor Hugo Toro, subiu ao palco. Apagaram-se as luzes da plateia, acenderam-se as luzes do palco. Iluminados pela luz que vem do alto, os músicos da orquestra levaram o público a uma viagem pelo reino dos Orixás, através das três peças apresentadas.
A primeira peça apresentada pela orquestra foi a Sinfonia dos Orixás, escrita por Almeida Prado (1946-2010), em 1984-85. A obra foi concluída em 05 de janeiro de 1985, e apresentada em março daquele mesmo ano, no Centro de Convivência Cultural de Campinas, sob a regência do maestro Benedito Juarez. “Esta peça foi encomendada, executada em sua estreia e gravada pela Sinfônica de Campinas em 1985. Em minha avaliação, trata-se da maior sinfonia brasileira da segunda metade do século 20”, afirmou o atual maestro, Victor Hugo, em reportagem do jornal Correio Popular, em 06 do corrente mês.
Sob o aspecto extramusical, a Sinfonia dos Orixás é a maior e mais ambiciosa realização de Almeida Prado que utiliza a temática afro-brasileira. Além de encontrarmos um retrato sonoro de 15 orixás, a própria composição da orquestra sofreu influência direta, com a inclusão de 8 percussionistas para executar 21 diferentes instrumentos”, afirma Carlos Fernando Fiorini, em “SINFONIA DOS ORIXÁS” DE ALMEIDA PRADO: UM ESTUDO SOBRE SUA EXECUÇÃO ATRAVÉS DE UMA NOVA EDIÇÃO, CRÍTICA E REVISADA”, tese de Doutorado em música apresentada ao Instituto de Artes da Unicamp, em 2004.
Sinfonia dos Orixás começa com uma Saudação a Exu, erroneamente, confundido com uma figura do mal, e apresenta em seguida uma manifestação aos demais Orixás. Em movimentos, às vezes calmos, às vezes agressivos, às vezes lento, às vezes rápido, Almeida Prado, nos legou uma obra de rara beleza.
Apesar de ser considerada a maior sinfonia brasileira da segunda metade do século XX, a peça poucas vezes foi apresentada pela Sinfônica de Campinas. Soube por fontes organizadoras do evento que a cada vez que a Sinfonia aos Orixás é apresentada, há conflitos entre os músicos da orquestra, pois, alguns deles são evangélicos e se sentem incomodados em tocar uma sinfonia aos orixás, principalmente uma que começa com a saudação a Exu. Desta vez não foi diferente, era quinta-feira, faziam-se os últimos ensaios e a discussão continuava entre o grupo. Alguns músicos não queriam apresentar a peça. O Secretário de Cultura teve que intervir de maneira enérgica, e pelo visto deu resultado, pois no dia apresentação todos se portaram digna e respeitosamente em prol da arte e da cultura. As pessoas podem até ser preconceituosas, a arte não. A arte deve voar livre e altaneira como voa o condor.
Ao final da Sinfonia dos Orixás, houve um breve intervalo, e os músicos retornaram ao palco para executar a peça, Candomblé, de Chiquinha Gonzaga. Finalizando a apresentação, a orquestra executou, Maria Jesus dos Anjos - Cantata Umbandista.

Muitas outras atividades artísticas, culturais e religiosas marcarão as comemorações do mês da Consciência Negra. Quanto tempo já não se passou desde que a Lei Áurea foi assinada e os escravos libertos? 124 anos já se passaram e ainda continuamos discutindo a igualdade dos negros perante toda a sociedade. 124 anos e o povo negro ainda continua lutando por um lugar ao sol. Enquanto isso, a sociedade escravista ainda parece viver no coração de muitos corações retrógrados, e são essas mentes retrogradas que ainda continuam contaminando a sociedade moderna como o vírus do preconceito e da discriminação. Apesar de todas essas questões, é bonita a luta dos afrodescendentes para conquistar, na sociedade, o papel de destaque que merecem, de ser enfim, sujeitos de sua própria história.

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