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Negros no futebol brasileiro: De coadjuvantes a papeis principais

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:28
Terça-feira, 24 de novembro

Equipe do Vasco da Gama no Campeonato Carioca de 1923

O Brasil e o mundo já tiveram a oportunidade de ver o talento negro de jogadores  de futebol nascidos em solo brasileiro. Leonidas da Silva, Domingos da Guia, Nilton Santos, Garrincha, Pelé, Romário, Robinho, Ronaldinho Gaúcho, Roberto Carlos, William, Neymar, dentre tantos outros. O que esses talentos conseguiam e conseguem fazer com a bola nos pés, é algo inacreditável, e nos deixa, em um bom sentido, perplexos. Pelos estádios de futebol de nossa nação e pelo mundo afora, eles foram e são aplaudidos, amados, idolatrados.

Porém, nem sempre foi assim. Logo depois que Charles Miller chegou ao Brasil, trazendo na bagagem a primeira bola e as regras para se jogar esse novo esporte, os primeiros clubes começaram a ser fundados. Mas quem disse que os negros eram aceitos nos primeiros clubes que se formavam? Que nada. Apenas os brancos, de descendência europeia podiam fazer a bola rolar. Acho que os negros deviam ficar morrendo de vontade de entrar no jogo. Mas o papel reservado a eles era apenas de espectador. Eles não podiam se misturar aos brancos nem para assistir as partidas. Não. Nada disso. Havia  nos estádios um lugar reservado para os brancos e outro para os negros.

Olhando de longe, para aquele tempo, dá até para dizer que a sociedade era muito limitada em seus conhecimentos e em sua visão de mundo. Pois, quem sendo brasileiro nato, não tem um pé na senzala? Quanto sangue negro não corre nas veias do branco brasileiro? Quem pode bater no peito e se autoafirmar totalmente branco? Mesmo que alguém aja assim, basta percorrer de volta os caminhos do tempo que, certamente, encontrará ascendentes na senzala.

Apenas em 1905, O Bangu, time carioca, ousaria colocar um negro na equipe. O nome desse negro que, mesmo sem o saber, entrava para a história era Francisco Carregal. A presença dos negros nos campos incomodava a elite. Outro merito do Bangu foi a união das torcidas. O clube foi o primeiro a misturar brancos e negros para assistir as partidas.

Outro time que deu contribuição para democratizar o futebol nacional, foi o Vasco da Gama. Foi no Campeonato Carioca de 1923. Naquele ano, o time fazia sua estreia na Primeira Divisão do Campeonato Carioca. Esse campeonato representou uma mudança de rumos no futebol brasileiro. Não necessariamente, por causa do futebol, mas uma conquista que representou um marco na questão dos direitos civis dos negros em relação ao esporte. O Vasco foi o primeiro a reunir em sua equipe grande número de negros e proletários, duas classes, até hoje, bastante discriminadas. Enfim, o time criou uma equipe, realmente, com cara de Brasil, pois nele havia negros, brancos e mulatos, e por isso a equipe carioca era, ela própria, discriminada pela maioria elitista das equipes da época.

Hoje, volta e meia, o preconceito, como desagradável monstro, insiste em querer se manifestar em algumas mentes retrogradas, e alguns jogadores negros são ofendidos por causa da cor de sua pele.

Abaixo, compartilho a matéria, Como o Bangu ajudou nainclusão de negros no futebol brasileiro, escrita por Felipe Barbosa, e publicada no portal IG.com, por ocasião do Dia da Consciência Negra, em 20 de novembro último.

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 Como o Bangu ajudou na inclusão de negros no futebol brasileiro

Francisco Carregal segura a bola, ao centro
  
Operário de uma fábrica de tecidos, Francisco Carregal, em 1905, foi um dos primeiros afrodescendentes a entrar em campo no Brasil, em jogo contra o Fluminense, time aristocrata que relembra a morte de Zumbi dos Palmares, símbolo da resistência à escravidão, o Dia Nacional da Consciência Negra será comemorado nesta sexta-feira, dia 20 de novembro. Com tantos craques de todas as raças e credos revelados, fica a pergunta: quais são as origens do negro no futebol brasileiro?

A história conta que o futebol, esporte mais popular do mundo, foi trazido para o Brasil em 1895 por Charles Miller, após uma viagem de estudos à Inglaterra. No mesmo ano, houve o que é considerado o primeiro jogo no país, entre funcionários da São Paulo Gás Company e da estrada de ferro São Paulo Railway, que venceu o amistoso por 4 a 2.

Ainda em 1895, os clubes começaram a ser fundados, mas a pratica era restrita às pessoas da etnia branca, com descendência europeia, apesar de o país ser predominantemente mulato. Os mais pobres e negros eram impedidos de praticar e podiam apenas assistir às partidas, isso, se estivessem em lugares separados dos brancos. Em 1905, no Rio de Janeiro, no elenco do Bangu Athletic Club (posteriormente se chamaria Bangu Atlético Clube), um dos 11 jogadores era negro: o operário Francisco Carregal.

Em partida contra o Fluminense, time influenciador da cultura aristocrata da época, o Bangu escalou o tecelão da fábrica, que mal sabia, mas estava entrando para a história. Ao lado de estrangeiros brancos, Carregal utilizava um uniforme impecável para diminuir o preconceito por ser negro em um esporte da elite branca.

Várias fontes de referência sobre o assunto apontam Carregal como o primeiro jogador negro do futebol brasileiro. A Ponte Preta também reivindica este posto, alegando que cinco anos antes, em 1900, escalou Miguel do Carmo. De qualquer forma, ambos são pioneiros em colocar os afrodescendentes em destaque.

Em 1907, entretanto, a Liga Metropolitana de Football - o equivalente à FERJ - publicou uma nota proibindo “pessoas de cor” de participarem dos campeonatos de futebol. Por isso, o time do subúrbio do Rio optou por abandonar a Liga e não disputar o Campeonato Carioca daquele ano.

Francisco foi o primeiro de muitos atletas negros no Bangu. Meses depois o time já contava com operários e afrodescendentes juntamente com os ingleses. Manuel Maia, goleiro, era um deles. O time foi campeão carioca da segunda divisão em 1911 com quatro negros e seis operários no elenco.

Outra conquista do time da Zona Oeste da capital do Rio de Janeiro foi a quebra do preconceito entre os torcedores, já que na maioria dos campos os pobres assistiam às partidas em locais separados, que se chamaria geral, e não nas arquibancadas. O Bangu permitiu que todos acompanhassem juntos uma partida, sem distinção de classe ou cor de pele. Pode-se dizer que a equipe foi muito importante na inclusão de negros no esporte mais popular do Brasil e do mundo.

Os grandes

Enquanto Botafogo, Fluminense e Flamengo não abriram suas portas para jogadores negros tão cedo, o Vasco foi o primeiro dos quatro grandes do Rio de Janeiro a aceitá-los, por isso é considerado um dos clubes que contribuiu decisivamente para tornar o futebol um esporte realmente de todos os brasileiros.

O Vasco foi o primeiro a conquistar um título com um elenco em sua maioria formado por negros, grande parte deles vieram justamente do Bangu. O título foi o do Campeonato Carioca de 1923, seu ano de estreia na Primeira Divisão. Com o acontecimento, no ano seguinte, os três rivais e outros times abandonaram a Liga e fundaram a Associação Metropolitana de Esportes Atléticos (AMEA), sem o Vasco. Para o time da Colina se filiar deveria dispensar seus 12 atletas negros, o que não fez.

Mais tarde, no Fluminense, a história foi diferente. Antes de ser aceito oficialmente, Carlos Alberto, mulato, jogava com maquiagem de pó-de-arroz no rosto para disfarçar sua cor. Porém, com o suor, o pó ia escorrendo. Daí então surgiu o apelido da torcida do Tricolor das Laranjeiras. Friendenreich, considerado o maior jogador da história do futebol amador e autor do gol do primeiro título do Brasil no Sul-Americano, em 1919, filho de pai alemão e mãe brasileira negra, era mulato e tinha os olhos verdes, porém alisava seus cabelos crespos para ir ao campo.

Por conta do aumento de negros no elenco, o Fluminense começou a receber críticas dos sócios. E isso fez com que o clube brigasse pela profissionalização do futebol no início da década de 1930. Assim, os jogadores, oficialmente empregados, entravam nas Laranjeiras pela porta de funcionários e não mantinham contato com os sócios predominantemente brancos. O profissionalismo fez com que a questão da pele ficasse em segundo plano na hora de contratar jogadores.

São Paulo

Assim como o Bangu, que escalou jogadores oriundos da fábrica de tecidos, em São Paulo foi o Corinthians, fundado em 1910 por trabalhadores do Bom Retiro de diferentes profissões, como pintores e cocheiros, que deu espaço para negros e brancos em campo. A partir daí, então, ficou conhecido como o “time do povo”. O Juventus, fundado por trabalhadores da fábrica de tecidos da família Crespi em 1924, também foi um influenciador na inserção de negros dentro dos campos de futebol.

Rio Grande do Sul

A história conta que os negros não eram segregados apenas no estado fluminense. No Rio Grande do Sul acontecia o mesmo. Por esse motivo, foi criada, no fim dos anos de 1910, a Liga Nacional de Football Porto Alegrense ou Liga da Canela Preta, formada por jogadores afrodescendentes, que queriam jogar futebol profissionalmente, mas não eram aceitos pela elite econômica do estado.

Foi o Internacional, com um time misto, o primeiro a dar chance aos negros. No rival Grêmio, o preconceito racial só terminou em março de 1952, com a contratação de Osmar Fortes, o Tesourinha. Ele já havia passado pelo rival colorado e pelo Vasco e era considerado um dos melhores jogadores da história do futebol brasileiro.

Ao longo do século, negros foram marcantes e importantes para as conquistas do futebol nacional: Leônidas da Silva, o Diamante Negro, Domingos da Guia, Barbosa, Nilton Santos, Garrincha, Didi, Zizinho, Jairzinho, Carlos Alberto Torres, Romário, Coutinho e Pelé, o maior de todos os tempos e o atleta do século 20, com certeza ajudaram no reconhecimento brasileiro no futebol mundial.


Ainda em atividade, podemos listar outros jogadores como: Grafite, Robinho, Ronaldinho Gaúcho, Douglas Costa e o mais importante da atualidade, camisa 10 da seleção brasileira, Neymar. Esses ainda escrevem seus nomes e mostram que a cor da pele não é nada mais do que simplesmente a cor da pele.

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