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Isaura: A escrava que conquistou o mundo

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:58
Sexta-feira, 20 de novembro

Leôncio (Rubens de Falco) e Isaura (Lucélia Santos)


Era nos primeiros anos do reinado do Sr. D. Pedro II.
No fértil e opulento município de Campos de Goitacases, à margem do Paraíba, a pouca distância da vila de Campos, havia uma linda e magnífica fazenda.
...
A casa apresentava a frente às colinas. Entrava-se nela por um lindo alpendre todo enredado de flores trepadeiras, ao qual subia-se por uma escada de cantaria de seis a sete degraus. Os fundos eram ocupados por outros edifícios acessórios, senzalas, pátios, currais e celeiros, por trás dos quais se estendiam o jardim, a horta, e um imenso pomar, que ia perder-se na barranca do rio.
Assim começa um dos mais famosos romances da literatura brasileira: Escrava Isaura, lançado em 1875. Nessa época, as campanhas abolicionistas estavam em efervescência.  A partir de 1870, por influência da Europa, crescia em diversos setores da sociedade brasileira, o repúdio a escravidão, considerando-a um retrocesso nos campos sociais, políticos e econômicos da nação. Formaram-se dois campos de batalha: escravistas x abolicionistas. Os primeiros nadavam contra a maré, ao querer que o Império continuasse a utilizar a mão de obra escrava, indo de encontro à onda de liberdade que soprava na Europa, continente que já havia afastado para longe de si os grilhões da escravidão. Os abolicionistas queriam a modernidade que vinha do continente Europeu, símbolo de humanidade e desenvolvimento, novos modos de estar no mundo nos quais o trabalho servil não encontrava lugar. Foi em meio à essa sociedade imperial dividida que o romance de Bernardo Guimarães teve lugar, romance que, inclusive, projetou seu autor para a fama e o sucesso, tornando Escrava Isaura, um dos romances mais populares em nossa literatura.

O romance fez um sucesso estrondoso assim que foi lançado, principalmente, por se tratar de uma história de amor temperada fortemente com os dois temas que incendiavam a sociedade da época: escravismo e abolicionismo. Apesar de todo o sucesso do romance, de já ser um autor consagrado, as luzes do reconhecimento ainda não estavam de todo sobre Bernardo Guimarães. Foi preciso que um leitor especial dissesse que tinha lido o romance, que tinha gostado, e que admirava seu autor. Esse leitor especial foi D. Pedro II. Em 1881, Bernardo voltara a morar em Belo Horizonte. Naquele ano, o monarca, estando em visita à província de Minas, fez questão de visitar o autor de Escrava Isaura. Fez-lhe muitos elogios e revelou-se leitor do romance. Com tão grande aval, a sociedade política mineira passou a ver com outros olhos aquele a quem consideravam malsucedido.

O romance usa a figura de uma escrava bela, sensível e branca, em cujas veias corre sangue africano, para tratar do constrangedor e desumano tema da escravidão e do abismo criado pela diferença de classes sociais. Temas esses que servem como pano de fundo para uma história de amor, na qual uma escrava sonha com a liberdade e com o amor verdadeiro, mas vê esse sonho ser várias vezes adiado por um senhor cruel e obsessivo.

Apesar de ser uma história envolvente e emocionante, seus personagens, psicologicamente falando, não variam muito em suas atitudes e ações, que seguem uma linearidade durante toda a obra.

Cem anos depois, entre 11 de outubro de 1976 e 5 de fevereiro de 1977, a Rede Globo, exibiu uma adaptação livre do romance Escrava Isaura. A adaptação para a TV foi feita por Gilberto Braga, com direção de Herval Rossano e Milton Gonçalves. Tal quando da ocasião de seu lançamento, a novela, exibida em 100 capítulos, tornou-se um dos clássicos da TV brasileira, alcançando também um enorme sucesso mundial, já tendo sido vendida para mais de 80 países. E uma das novelas mais reprisadas da Globo.

Continuo o texto falando dessa adaptação feita por Gilberto Braga. Nela encontramos, a escrava Isaura. Esta é uma escrava órfã que foi criada pela sua senhora, Ester, a quem chamava de madrinha. Ester sempre tratou Isaura com muito carinho e a educou como a uma filha, ensinando-lhe a arte da música, da leitura, o domínio das línguas estrangeiras. Isaura era mais uma dama de companhia de sua senhora do que propriamente uma escrava, embora também não pudesse ser considerada livre. Já o senhor de Isaura, Comendador Almeida, apenas a tolerava para fazer os gostos da esposa Ester. Mas tudo isso tem explicação no passado.

Houve na fazenda do Comendador Almeida uma escrava, mestiça, muito bonita, de pele muito clara, cheia de alegria, chamada Juliana. Ela era a mucama favorita de Dona Ester — esposa do comendador —, e as duas viviam em harmonia.  O comendador não respeitava muito o casamento com Ester, e frequentemente deitava-se com as escravas, principalmente, se elas eram bonitas. A beleza de Juliana chamou a atenção do comendador e ele passou a olhar para ela com os olhos libidinosos do desejo. Passou então a assediá-la constantemente.   Ester descobriu o assédio do marido para com a escrava. Porém, o comendador continuou a insistir nisso.  Juliana, porém, era mulher muito digna e não cedeu aos caprichos do comendador. Irado, ele manda açoitá-la no tronco. A escrava, que só fazia trabalhos domésticos leves, foi obrigada a trabalhar na lavoura. Almeida recomenda ao feitor que seja rigoroso com a escrava, mas o feitor acaba se apaixonando por ela. Ao descobrir o romance, Almeida expulsa o feitor da fazenda. Grávida do feitor e, enfraquecida, pelo duro trabalho na lavoura, Juliana não resistiu e morreu ao dar à luz a pequena Isaura. Dona Ester, então, mesmo contrariando a vontade do marido, resolve proteger a menina, cuidar da educação dela, e encaminhá-la na vida.

De certa forma, essa história de amor não correspondido é revivida mais tarde entre Leôncio, filho do comendador, e Isaura, filha da escrava falecida. Ao abordar esse assunto sem assim o colocar dessa forma, Bernardo Guimarães denuncia a devassidão e destruição dos valores morais e familiares nas fazendas escravocatas. Muitos senhores abusavam sexualmente de suas escravas e, estas não podiam dizer nem fazer nada. As que não cediam aos caprichos de seus senhores sofriam toda espécie de castigos e humilhações.

Mas, voltemos a Isaura. Esta, educada como moça da corte, vive tranquila em companhia do comendador e de sua senhora. Almeida, às vezes, a alfineta com palavras, mas nada que perturbe a paz da escrava. Isaura ajuda Januária, a cozinheira da casa grande, a preparar pratos finos, retirados de receitas de livros em Frances, é convidada a tocar piano na sala para os convidados, faz a leitura de livros para sua senhora, passeia pelo jardim. Esse paraíso na vida de Isaura dura apenas até que, Leôncio, filho do comendador, se junta ao grupo. O jovem havia estado na Europa estudando. À princípio seria esse o motivo de sua viagem. Depois o coronel descobre que o filho levava, na Europa, uma vida boemia, bem longe dos bancos da faculdade.

A ver Isaura, linda, meiga e bela, o jovem é tomado de desejo por ela, mas Isaura não cede aos caprichos, foge de seus beijos. Leôncio desenvolve uma verdadeira obsessão pela escrava, que, tal como sua mãe, só faz na casa, trabalhos leves. Leôncio casa-se com a linda jovem Malvina, não porque a ame, mas para colocar as mãos na fortuna do pai. Mesmo após o casamento, continua a assediar a escrava. Isaura sempre fugindo de suas investidas.

A escrava apaixona-se por um jovem de uma fazenda vizinha, chamado Tobias, e o jovem também se apaixona por Isaura. Leôncio coloca todos os obstáculos para que esse amor não seja concretizado. Vendo que havia perdido o jogo, arma uma cilada para assassinar Tobias incendiando uma cabana próxima a um moinho nos arredores da fazenda. Às escondidas, a mulher de Leôncio, entra à noite, na cabana para libertar Tobias. Sem saber que a esposa também está dentro da cabana, Leôncio manda os feitores incendiar a cabana, matando os dois.

Após a morte dos pais, e do assassinato da esposa, aumentam as investidas contra Isaura. Como a escrava não cede a esses apelos sexuais, os castigos aumentam. Isaura foge com pai, que descobrira morar numa fazenda vizinha. Nessa fuga, ela descobre Álvaro, um rico fazendeiro, abolicionista. Os dois se apaixonam. Após algum tempo, Leôncio descobre o paradeiro de Isaura, e a traz de volta para a fazenda. Manda chicoteá-la no tronco, envia também para os trabalhos pesados no canavial. Entretanto, na corte, Álvaro, luta pelo amor de Isaura. Descobre a falência de Leôncio e compra-lhe todos os bens, inclusive os escravos. Álvaro casa-se com Isaura e alforria a todos os escravos.

Assisti, recentemente, o box contendo 05 DVD’s, com todos os capítulos da novela Escrava Isaura, lançado pela Globo Marcas. Ao assistir aquela versão romanceada da escravidão fiquei pensando em quão dura era a vida dos escravos, principalmente das mulheres escravas, que eram obrigadas a ser objeto sexual de seus senhores. Falando da mocidade escrava, assim questiona Joaquim Nabuco: “A escrava, essa de quinze a dezesseis anos, às vezes vinte antes, nos limites da impuberdade, é entregue, já violada às senzalas. Aquela nasceu virtualmente sem honra. Ao alcance da primeira violência, sem proteção, sem tribunal, sem família, sem lei para que apelar, que pode ela contra a cilada?” Havia, claro, os escravos que tinham sorte de ter bons senhores, que mesmo em meio aquela sociedade escravocrata, tratavam seus escravos com alguma dignidade. 

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