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Alvoroço em Marte

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 15:57
Sábado, 10 de outubro

O texto a seguir não é uma crítica à ciência e ao progresso, mas ao comportamento do homem, que põe em risco a própria existência, e da casa em que vive.

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Alô, alô, marciano
Aqui quem fala é da Terra
Pra variar estamos em guerra
Você não imagina a loucura
O ser humano ta na maior fissura porque
Tá cada vez mais down o high society

(Alô, alô, marciano – Rita Lee e Roberto de Carvalho)



Um robô motorizado foi visto na tarde de ontem vagando pelo solo vermelho de Marte. O robô, trazido até o solo marciano pela Sonda Curiosity, recolhia amostras de filetes de água salgada do planeta. De acordo com interceptações nas comunicações, os dados colhidos pelo robô estão sendo enviados ao planeta Terra. Há rumores de que, muito em breve, esteja desembarcando no planeta vermelho, missões tripuladas por seres humanos.
A matéria acima foi ao ar, em horário nobre, em uma dos principais telejornais de Marte, e apesar de sucinta, logo causou grande alvoroço entre os marcianos. Durante todo o restante da semana, este foi um dos assuntos mais comentados nas redes sociais, TVs e jornais do planeta. Os habitantes do inóspito planeta não viam com bons olhos essa aproximação dos terráqueos. Afinal de contas, há milhões de anos eles acompanham, através de seus sofisticados sistemas de comunicação, os passos dados pelos habitantes do planeta Terra.

Os mais renomados pesquisadores foram chamados aos Centros de Conhecimento Aplicado — o que na Terra equivale às universidades e circuitos universitários — para discutir o assunto. “Ninguém, em sã consciência, poderia ver com bons olhos essa aproximação”, afirmava um dos cientistas marcianos em debate em um famoso Centro de Conhecimento.

Segundo análise desse pesquisador, o homem já previa que a Terra estava agonizando, e estava simplesmente buscando um novo lar para quando o seu lar habitual, finalmente, chegasse ao fim. No ultramoderno auditório, lotado de estudantes ávidos por conhecerem as razões dessa invasão terráquea, o professor mostrava uma profusão de gráficos e imagens do enorme desequilíbrio do clima no planeta água, que, segundo ele, estaria fadado a perder esse título em mais algumas dezenas de anos.  

Os modernos aparelhos eletrônicos levavam os espectadores para uma viagem, quase que, em tempo real, sobre a superfície terrestre. As cenas mostravam fatos bastante desagradáveis, como por exemplo, florestas sendo queimadas, ou derrubadas para darem lugar à pastagem para gado de corte, lixos sendo jogado dentro dois rios e córregos, tornando absolutamente impróprios, tanto para humanos, como para animais. Os passageiros virtuais também passeavam pelas guerras e conflitos que assolam o planeta.

Os gráficos do estudioso mostravam situações em que a falta d’água já se faz sentir, como por exemplo, em São Paulo, Brasil, e na Califórnia, Estados Unidos. “Se continuar assim, em breve, a água será um bem tão cobiçado quanto o petróleo”, afirmava ele.  

Ele também apresentou outros estudos sobre o aumento de temperatura na Terra, que estaria destruindo, em ritmo bastante acelerado, as camadas de gelos do Ártico e da Antártida. Segundo ele, em consequência, disso, haverá, dentro de pouco tempo, uma elevação no nível dos mares, inclusive com o desaparecimento de muitas cidades litorâneas, e uma elevação ainda maior do clima no planeta. O professor apresentou dados mostrando que, mesmo que o homem, freasse, bruscamente, a emissão de poluentes na atmosfera, as geleiras continuariam a derreter ainda por muito tempo. “Porém, como não há intenção de reduzir os poluentes, veremos, como num trágico filme de terror, em um futuro não muito distante, a última geleira ruir, e o nível dos oceanos subir cada vez mais.”, acrescentou ele em tom irônico.

Nas rodas de conhecimento ligadas ao pensamento, a preocupação era outra. Os filósofos de Marte preocupavam-se com a possibilidade de perca total da paz, se os humanos viessem a habitar o planeta. Afinal, nesses séculos de existência os homens haviam inventado armas para destruírem a si próprios e aos seus pares. As repetidas guerras em todo o planeta ceifaram, muitas vezes, a vida de inocentes que nem ao menos compreendiam o motivo pelo qual estavam morrendo. Sendo iguais e habitantes do mesmo planeta, os homens se olhavam como selvagens, e não como irmãos, como de fato são. Isso foi no passado e continua a ser no presente. Com medo da guerra, os homens fogem de sua terra natal, com suas mulheres e crianças, e atravessam fronteiras, sujeitos a ser engolidos pelo mar, e a ser humilhado por outros povos, além de ser agredidos pelas forças policiais.

O jornal de maior circulação de Marte, no dia seguinte à chegada do robô, trazia a seguinte manchete: “Os humanos ainda nem destruíram a própria casa, e já estão procurando novas vítimas. O planeta vermelho é o próximo alvo”. Colocando ainda pólvora na discussão.

Existia entre os marcianos aqueles que viam as boas ações que eram praticadas na Terra em favor do clima no planeta. Esses conseguiam ver os homens e mulheres de boa vontade que se envolviam em negociações em prol da paz e da democracia, e até, ganhavam prêmio Nobel da Paz por se dedicar a essa nobre causa. Mas esses eram minoria entre os marcianos. Esses bons extraterrestres acreditavam que podiam doutrinar os homens se, por acaso, eles por lá aportassem com suas ultrapassadas naves e rudes hábitos.

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