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Rede Globo e Roberto Marinho: Duas faces de um mesmo império — Parte I

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:33
Quinta-feira, 30 de abril



Neste domingo, 26 de abril de 2015, a TV Globo, uma das maiores redes de TV do mundo, completou 50 anos. Esse império chamado Rede Globo de Televisão, não nasceu pelas mãos de nenhum jovem — pelo menos não no vigor que ostentam os corpos juvenis — mas nasceu da vitalidade, da coragem e da ousadia, de um senhor já na terceira idade: o Dr. Roberto Marinho. O conceito de terceira idade naquela época é diferente do que vivemos hoje. Na atualidade, uma pessoa de 60 anos, tem a disposição vários recursos que lhe permitem levar uma vida ativa, mesmo estando na terceira idade. Enquanto muitos de sua idade pensavam em aposentadoria, em uma vida calma, pescarias e coisas desse tipo, o velho jovem Roberto Marinho, estava se permitindo sonhar, saltar de asa delta dos penhascos da vida. Ouso

Criada apenas para ser uma rede de TV local, esse império de comunicações chega ao seu cinquentenário como a segunda maior rede de televisão comercial do mundo. A primeira é a rede norte-americana American Broadcasting Company (ABC). Milhões de pessoas no Brasil assistem a programação da emissora, seja no Brasil, ou no exterior, através da Globo Internacional. Junto com outras empresas midiáticas, a TV Globo, forma o Grupo Globo de comunicação — um dos grupos de comunicação mais poderosos do planeta. Porém, até atingir o topo foi preciso muito trabalho, suor e coragem.

O sonho de iniciar um canal de televisão havia se iniciado ainda em 1951. No dia 05 de janeiro, a Rádio Globo entrou com um pedido de concessão de um canal de televisão, endereçada ao presidente, Eurico Gaspar Dutra. No dia 31 de janeiro daquele mesmo mês, o presidente deixava o governo do país.

Com a saída de Eurico Gaspar Dutra, Getúlio Vargas voltava para seu segundo mandato à frente dos destinos da nação. Já no governo de Getúlio, no dia 13 de março, dois meses após o pedido de concessão para o canal de TV apresentado pela Rádio Globo, o pedido foi analisado pela Comissão Técnica de Rádio, tendo sido aprovado por aquela comissão. Porém, dois anos depois, Getúlio revogou a concessão, contrariando o parecer da Comissão Técnica de Rádio, emitido em 1951. Não tendo mais o que fazer, restou ao jornalista e empresário aguardar com paciência um novo momento de colocar em cena o sonho de um canal de inaugurar um canal de televisão.

Roberto Pisani Marinho, fundador de um dos mais poderosos grupos de comunicação do mundo, o Grupo Globo, nasceu no dia 03 de dezembro de 1904, no tradicional Bairro do Estácio, Zona Norte do Rio de Janeiro. Era um dos cinco filhos de Francisca Pizani Barros, a Dona Chica, e do jornalista Irineu Marinho Coelho de Barros.

Em 1911, Irineu Marinho fundou o jornal, A Noite. O jovem Roberto tinha 20 anos quando viajou para Europa, juntamente, com a mãe e os irmãos, para acompanhar o pai, Irineu Marinho, que estava doente e foi tratar-se do problema de saúde, na Europa. Irineu era um bom jornalista, mas não era um bom homem de negócios. Tinha o talento do primeiro, mas faltava-lhe a astúcia do segundo. Antes de viajar, ele vendeu suas ações no jornal. Acertou com o sócio que, na volta, recompraria as ações. O problema é que o jornalista não assinou nenhum contrato de recompra das ações. Tudo se deu apenas pela palavra.

Nove meses depois, Irineu voltou ao Brasil, recuperado do problema de saúde. O jornal que havia fundado fazia ainda mais sucesso que antes de sua partida. Foi procurar o sócio a fim de efetuar a recompra de suas ações no jornal. O sócio não cumpriu o prometido, e ele perdeu o controle acionário do jornal.

Esse golpe sofrido pelo pai marcou a vida de Roberto Marinho. Ele aprendeu que, no mundo dos negócios, era preciso ser muito esperto, atento a todos os detalhes.

Apesar de bastante chateado com tudo o que acontecera, e tendo que enfrentar momentos de grandes adversidades, Irineu não cruzou os braços, ao contrário, partiu para um novo recomeço, fundando um novo jornal: o jornal O Globo. No dia 29 de julho de 1925, com poucos recursos financeiros e sendo rodado em maquinário de segunda mão, o Globo começa a circular pelas ruas do rio, tendo como principais pilares, a experiência de Irineu Marinho e de alguns poucos companheiros que haviam trabalhado com ele no jornal, A Noite. As instalações do novo veículo de comunicação fundado por Irineu eram muito modestas. Funcionava em um antigo prédio, no Largo da Carioca. As salas eram emprestadas pelo Liceu de Artes e Ofícios.

Apesar do difícil recomeço tudo parecia caminhar bem. Porém, o destino reservaria desagradáveis surpresas àquela família que já atravessava um mar de adversidades.  Apenas três semanas depois de ter fundado o novo jornal, Irineu Marinho morre, vitimado por um infarto, nas primeiras horas do dia 21 de agosto de 1925, dentro do banheiro da própria casa.

Roberto Marinho tinha 21 anos quando o pai morreu, mas já era um jovem maduro e com ideias muito firmes. Poderia ter assumido a direção do jornal O Globo, naquela época, mas em conversa com a mãe, os dois chegaram à conclusão de que a melhor pessoa a assumir a direção do jornal, seria Euclydes de Matos. Roberto Marinho assumiu o cargo de secretário do jornal, mas procurava aprender como funcionava cada setor do jornal. Além de secretário, procurou também aprender as funções de repórter, redator-chefe e copidesque. Era como se estivesse absorvendo grandes goles de um fazer jornalístico, do qual iria precisar muito, em um futuro bem próximo.

Em 05 de maio de 1931, morre Euclydes de Matos, que havia assumido o comando do jornal, por ocasião da morte de Irineu Marinho. Não tendo outra saída, aos 26 anos de idade, Roberto Marinho, assume a direção do jornal. Aos poucos, O Globo foi ganhando a simpatia dos leitores cariocas, ao apresentá-los inovações gráficas e editoriais. Porém, apenas em 1954, o jornal passaria a ter sede própria.

Roberto Marinho já mostrava, desde que assumiu a direção de O Globo, um estilo empresarial arrojado e dinâmico, aliado a uma excelente visão de jornalismo e de publico, características que o ajudaram a erguer um império chamado, Grupo Globo.

No fim da década de 40, O Globo já era um jornal vespertino que já havia conquistado a credibilidade do público carioca. Sempre com uma visão à frente de seu tempo, Roberto percebeu que o advento da televisão traria mudanças no modo como as pessoas se informavam. Nesse novo cenário, os vespertinos perderiam a razão de existir, pensava ele. Decidiu então ir antecipando o fechamento do jornal para cada vez mais cedo. Em 1972, O Globo, que havia nascido um jornal vespertino, passou a ser, definitivamente, um jornal matutino. No ano anterior, o jornal já havia passado por uma completa reformulação, em sua redação, em suas editorias e no quadro de pessoal. Foi criada a edição de domingo e mudanças nas cores do jornal.

Um homem tão dinâmico e ousado não poderia ficar apenas no comando de um jornal. Assim são as mentes inquietas: querem voos sempre mais altos. Em 1944, Roberto Marinho, compra a Rádio Transmissora da RCA Victor e a transforma na Rádio Globo do Rio de Janeiro. O Globo ganhava voz e passou a lutar contra a ditadura de Getúlio Vargas, e Roberto Marinho enfrenta seu primeiro adversário político. Roberto já era então um experiente empresário de comunicação, mas ainda não conhecia o potencial de mobilização política e social do rádio. Getúlio renunciou em 1945 e, aos seus amigos e subordinados, Roberto Marinho, sempre pensando um passo à frente, recomendava cautela no trato com ele. Dizia a eles que deveriam estar precavidos para a volta de Getúlio ao cenário político brasileiro, como se vislumbrasse, na década segunite, a volta de Getúlio ao poder.

Roberto trabalhava duro na redação do jornal e na rádio. A vida não era fácil, e nem era só praia. Mas quando saia pela noite do Rio dava muito trabalho para as mulheres cariocas. Ele era hábil nos negócios, no jornalismo... E também com as mulheres. Namorou muitas delas. A Urca, com seus cassinos, shows e belas garotas, eram um cenário perfeito para essas aventuras. Também era um esportista e se dedicava a essas práticas com afinco. Gostava especialmente do hipismo e conquistou prêmios nesse esporte. Em tudo que fizesse, procurava dar o melhor de si. Somente veio a casar-se aos 43 anos, com Stella Goulart Marinho, após aproveitar muito bem a vida de solteiro. Desse casamento, nasceram os filhos: Paulo Roberto Marinho, João Roberto Marinho e José Roberto Marinho. Em 1970, morre Paulo Roberto, em um acidente automobilístico. Nesse mesmo ano, ele também se separa de Stella.

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