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Uma nova chance de viver

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:57
Quinta-feira, 26 de março



Enquanto acompanhava as noticias de mais um acidente aéreo, fiquei pensando: “E depois? Depois da vida? O que há?” O que fica nós sabemos. Muito trabalho para juntar destroços, reconhecer corpos e a dor dos familiares. Escrevi o texto abaixo, inspirado no documentário, Vida depois da Vida, documentário que, por sua vez, é baseado no best-seller, Vida depois da Vida, de autoria de Raymond A. Moody Jr. A obra apresenta depoimentos reais de pessoas que viveram experiência de quase morte. No acidente, ocorrido no sul da França, não houve sobrevivente. Mas a mensagem que quero deixar é de esperança: A de que a vida não acabou ali, para os passageiros que estavam naquele voo. Em algum lugar, ela continuará em plenitude.


Foi pensando em mais essa tragédia, que escrevi o texto abaixo.

***



Uma nova chance de viver

A moto corria velozmente pelas ruas da Cidade Maravilhosa, conhecida em todo o mundo pelas suas belezas naturais, como o Corcovado e o Redentor. Foi nas belas praias do Rio que nasceu a Bossa Nova, que não demorou muito para conquistar o coração dos brasileiros e do mundo.

Fazendo roncar o motor de sua Falcon, estava Inácio. Aos vinte e três anos, era um belo rapaz. Sua tez morena visitava constantemente as praias do Leme e do Leblon. Sua preocupação era o corpo. Queira ter, e tinha, um corpo atlético, capaz de despertar o olhar das mulheres, por onde quer que passasse... E a inveja dos homens. Sua segunda fixação era ganhar cada vez mais e mais dinheiro. Tanto quanto pudesse ganhar, para logo em seguida, gastar em noitadas, bordeis, e baladas noturnas. Era do tipo “fazemos qualquer negócio”, desde que desse um bom dinheiro.

Tinha um amigo que vivia alertando-o de um algum dia poderia se pego pela polícia, por causa dos desvios de dinheiro e do superfaturamento das compras na empresa onde trabalhava. “Você já ganha muito bem sem precisar da prática de negócios ilícitos”.  Inácio dava de ombros. Achava o amigo um tolo. Se podia faturar muito dinheiro “por fora” e, com isso, manter os luxos e as mordomias, então porque desperdiçar a oportunidade? André, o amigo tolo e chato, sempre vivia lhe dizendo que ele precisava cuidar também do espírito, que a vida é muito mais do que o cuidado com o físico, e todas essas tolices que as pessoas espiritualizadas dizem. Ele, Inácio, não dava a menor bola para isso. Tinha um belo apartamento de cobertura no Leblon, carro importado na garagem, motos potentes e rápidas para circular com mais facilidade pela noite carioca... E belas e lindas mulheres. Então, do mundo que o rodeava, ele se achava o próprio ser superior.

Nessa madrugada, Inácio vinha de mais uma balada. Havia tomado alguns copos de bebida alcoólica, mas isso não o incomodava, sempre bebera depois de dirigir e nunca lhe havia acontecido nada, nenhum acidente. Portanto, achava essa coisa de “não beba antes de dirigir”, coisa para fracotes, para que não aguenta bebida.

Ia por uma rua transversal. Já havia cruzado vários sinais vermelhos, mas, para ele, também não havia perigo. Havia poucos carros na rua àquela hora. Foi em meio a esses pensamentos que, pela décima vez, cruzou o sinal vermelho. Um automóvel que trafegava pela avenida seguia, corretamente, o seu percurso... Não deu para frear a moto, nem desviá-la. Inácio bateu em cheio no automóvel. A moto foi de encontro ao veículo, enquanto seu corpo voava, indo bater com a cabeça num muro de concreto, há poucos metros de distância dali. De repente, tudo se fez silêncio. Por uns breves instantes ele sentiu uma dor insuportável, depois perdeu completamente a consciência.

As equipes de resgate rasgaram as ruas do Rio, em busca de mais uma vítima, ao que parecia, fatal. Quando Inácio recobrou a consciência, viu que a equipe de socorro colocava para dentro da ambulância, um jovem que acabara de se envolver em um acidente. “Nossa, que acidente horrível”, pensou ele. “O cara tem uma moto igual a minha. A moto dele, porém, ficou muito destruída, só serve agora para levar para o ferro velho”. Aproximou-se de outro jovem que estava entre os curiosos que acompanhavam o resgate, perguntou: “Como foi o acidente? Você viu como tudo aconteceu? Já informaram a família sobre o ocorrido?” Era estranho, o jovem parecia não ouvi-lo, nem vê-lo. Talvez não tenha falado alto o suficiente. Também com o barulho que fazem estas sirenes... Não dá mesmo para ouvir qualquer coisa. Tentou bater no ombro do jovem. Nada aconteceu. Era como se ele nem estivesse ali.

A ambulância recolheu o ferido gravemente, fechou as portas e partiu em direção ao hospital. Mesmo com as portas fechadas Inácio conseguiu entrar nela. Queria acompanhar o caso de perto. Ficou ali, parado, ao lado dos médicos socorristas. Olhou fixamente para o pulso do jovem. Uma pulseira com um nome gravado lhe chamou a atenção. Aproximou mais um pouco para ver qual nome estaria gravado ali. Seu coração agora batia mais acelerado.  O nome gravado na pulseira de prata do jovem era Inácio Silva. Um suor frio lhe percorreu todo o corpo, enquanto seus pensamentos se ordenavam e reordenavam com uma rapidez incrível, mais rápidos que a CPU de um computador de última geração.

Então aquele jovem era ele mesmo? Ele, Inácio, havia sofrido aquele grave acidente? Desesperado sacudia o próprio corpo, numa tentativa de se autorreanimar. Seu corpo, porém, permanecia inerte, e já começava a ficar frio. A ambulância, finalmente, chegou ao hospital. Tinha a sensação de que saíra do próprio corpo e pairava agora acima dele. Da posição em que se encontrava, conseguia ver tudo com absoluta nitidez. Via também o que acontecia em outras alas do hospital. Era como se as paredes tivessem perdido a razão de existir.

“Levem-no para a sala de cirurgia preparada número quatro”. Gritou um enfermeiro. “Já está tudo pronto à espera desse paciente” complementou. Enquanto isso ele parecia flutuar pelo ambiente, vendo tudo de cima. Sentia-se leve e capaz de movimentos que nunca antes realizara. Era uma sensação contraditória: Enquanto via seu corpo inerte, em uma mesa de cirurgia, sabia que seus sentidos estavam mais aguçados que antes. O tempo passava e os médicos faziam o possível para reanimá-lo em uma demorada cirurgia. “Hemorragia cerebral”, dizia um médico. “Só viverá novamente por um milagre”, complementou outro. Manipularam os instrumentos cirúrgicos por mais cerca de meia hora. De repente, as pulsações do monitor foram ficando cada vez mais fracas. “Não o deixem morrer” “Não o deixem morrer”, gritava Inácio. Não era ouvido por nenhum dos médicos e enfermeiros presentes à sala cirúrgica. Passado alguns poucos minutos, o médico que comandava a cirurgia, falou aos demais. “Desliguem os aparelhos. Não há mais nada a fazer”.

“Coloquem o corpo na maca e preparem para levá-lo ao necrotério”, disse um dos enfermeiros. Subitamente, Inácio se sentiu sendo sugado por um túnel em espiral que parecia estar sempre em movimento. O estranho é que ele não tocava nas paredes do túnel. Enquanto descia, ouvia vozes a sussurrar: Chegou mais um suicida. Estão errados, pensou. “Não devem estar falando de mim. Sofri um acidente. Jamais cometeria suicídio”.

Após essa breve passagem pelo túnel escuro. Viu-se diante de uma luz branca de um brilho indescritível, cujos tons e matizes jamais vira. A luz era tão intensa quanto o brilho do sol, mas não queimava. Ao contrário dela emanava paz, harmonia e boas vibrações. Inácio já não sentia mais dor. De sua mente jorravam rios de paz. Aos poucos, ele foi se acostumando com o novo ambiente. Já refeito do susto, sua visão estudou cuidadosamente o ambiente. Estava em um jardim magnífico com uma diversidade de flores, de espécies que ele jamais visto. E o perfume, então... Uma coisa realmente esplendida. Uma música suave e melodiosa invadia o ambiente. As notas eram tão harmoniosas que o faziam transcender qualquer limite de tempo e espaço.

Havia um lago de águas cristalinas no meio do jardim. Ele caminhou até lá. E o que viu lhe causou uma profunda emoção. Era como se o lago fosse o próprio arco-íris, tamanha era a intensidade de cores que se misturavam a água. De repente, as águas do lago se tornaram como que uma tela de cinema e começaram a projetar cenas de sua vida. Mas as projeções se davam em grande profusão e eram exibidas rapidamente, como se alguém estivesse colocando o projetor em sua velocidade máxima. Ainda assim ele via as cenas, ao mesmo tempo, como expectador e como participe. As cenas exibidas começaram com o seu nascimento. Ela via a si mesmo saindo do útero materno, sendo embalado pelas mãos carinhosas da mãe. O pai chegou junto e estava tão alegre e orgulhoso do filho que acabava de gerar, que uma suave luz irradiava de suas faces.

Eram pessoas humildes e a luz que brilhava em suas faces era consequência do grande amor que nutriam um pelo outro, e do coração generoso que carregavam no peito.
Viu-se crescendo e se envolvendo com más companhias. A luz que vira inicialmente já mais brilhava sobre ele. A luz começava a tornar-se opaca e seu brilho se extinguia. Deixara a companhia dos pais por envergonhar-se deles e fora em busca das ilusões da vida. Sua luz se extinguiu por completo. As cenas foram se sucedendo até que chegaram ao momento do acidente.

“Eu morri?”. A boca já não mais se fazia necessária. Falava simplesmente com o pensamento.

Um ser iluminado aproximou-se dele e, numa espécie de telepatia respondeu sua pergunta.

“Como podes ter morrido, se estás em plena posse de teus sentidos, tendo-os agora mais aguçados que antes”?

“Então o que acontece?” indagou.

“Tua vida vai começar de verdade agora. Antes, estavas apenas vivendo uma ilusão”.

Do coração do homem que lhe falava, brotava tão grande paz, que o fazia esquecer por completo de tudo que havia deixado para trás. Acima deles, descortinava-se uma aurora boreal espiritual de tamanho esplendor que o fez ficar admirando aquele espetáculo celeste por alguns minutos, deixando uma lacuna no diálogo com o interlocutor.

“É assim todos os dias por aqui. Há dias que o céu torna-se ainda mais belo”. Um dia você poderá percorrê-lo, como os pés dos peregrinos percorrem com alegria os campos terrestres.

Inácio sentia-se leve. Sabia que podia voar tão alto quanto as águias, e ao mesmo tempo, tendo a suavidade das pombas. Olhou as arvores vicejantes. Nunca antes as vira tão verdes e tão esplendidas.

“Uma coisa me intriga e penso nela até agora”.

“Expresse as suas dúvidas e angustias. Afinal você deve se livrar delas, se quiser ser livre”.

“Enquanto caia pelo túnel, chamaram-me de suicida. Mas eu não sou um suicida. Sofri e acidente... Fui ao hospital... Os médicos me atenderam...”

“Quem te chamou de suicida foram espíritos perturbados. Que ainda não aceitaram sua nova condição. Ainda não assumiram sua nova roupagem. Apesar disso, eles têm razão. Você é um suicida”.

“Mas...”

Pense em como estava enquanto dirigia a moto, na madrugada passada. Estava dirigindo bêbado. Pondo em risco sua vida e a de outras pessoas inocentes. Além disso, lembra-se de quantas noitadas passou bebendo e usando substâncias proibidas. O alimento que colocavas na tua boca também não era boa coisa. No dizer dos terrenos: Só comias porcaria”. E assim, foste te matando aos poucos. Então, és ou não és um suicida?”.
Pela primeira em sua vida, lágrimas amargas desceram-lhe pelos olhos cortando-lhe as faces, e uma grande tristeza invadiu seu peito.

O homem aproximou as mãos de seu peito e o tocou. Das mãos dele emanou uma incandescente luz que, pouco a pouco, foi acalmando sua alma, serenando seus sentimentos.

“Estou aqui para te ajudar. Não para te julgar, nem para te condenar. Meu desejo é que sejas uma pessoa melhor”.

“Sinto-me tão bem aqui. Quero ficar para sempre”. Inácio falava a verdade. Nunca na vida sentira-se tão bem. Estava mais leve. Sentia-se flutuar de tão pleno de paz que se sentia. Uma grande calma o envolvia. Ele só havia experimentado uma sensação de paz, na infância, junto dos pais. Depois achava que tinha paz e tudo o mais que necessitava. Mas, agora via claramente, que só tivera tormentos em sua vida pregressa. Agora, era diferente. Muito diferente.

“Inácio — disse o homem como se tivesse pedido emprestado a suavidade das águas que correm num rio de águas límpidas — Nem tudo na vida é como a gente quer. Nem aqui. Tudo depende da ordem do Supremo Criador. E ele me confidenciou que ainda não é hora de você permanecer aqui”.

“Diga a Ele que não quero voltar. Quero ficar aqui. Sei que aqui tem muito trabalho. Muito que ajudar. Eu também tenho muito que aprender aqui”.

“Sim, mas sua missão na terra ainda não terminou. Você ainda tem muitos irmãos a ajudar na terra. Os males que você causou a muita gente, terá que desfazer. Também terá que agir de forma muito diferente do que vinha agindo. E lembre-se: É o amor que move o mundo, e não o ódio”.

Nesse momento, duas iluminadas e alegres crianças passaram fazendo algazarra pelo jardim.

“Quem é”? Perguntou Inácio, encantado com a luz que envolvia as crianças.

“São seus filhos”, respondeu sorridente o homem.

Nesse momento, Inácio sentiu-se como que empurrado de volta ao corpo terreno.

Em uma sala do hospital, o enfermeiro já se preparava para levar o corpo ao necrotério quando sentiu a mão do paciente fazer uma leve pressão sobre a sua. Uma pressão mínima, mas o suficiente para o enfermeiro saber que ainda havia um sopro de vida naquele corpo. Ele, imediatamente, pediu para a equipe médica voltar, com urgência, à sala de cirurgia.

Os pensamentos de Inácio começavam voltar ao mundo terreno. Uma nova e preciosa chance lhe fora dada. Ele não a desperdiçaria.

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