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De volta ao paraíso

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:36
Segunda-feira, 30 de março

Ah! e estas fontes murmurantes
Aonde eu mato a minha sede
E onde a lua vem brincar
Ah! esse Brasil lindo e trigueiro
É o meu Brasil brasileiro
(Aquarela do Brasil – Ary Barroso)


Já falei para vocês uma vez que minha imaginação é um pouco rebelde, e continuo pensando a mesma coisa. Por exemplo, na postagem de ontem, falei que postaria uma dica de saúde e bem estar. Ao sentar-me para escrever o texto — que, na verdade é mais uma tradução de um texto do site VOA News — essa tal de inspiração foi me levando a mares nunca d’antes navegado, a gêneses, a origem de tudo. As palavras foram me navegando... Me navegando... E quando dei por mim estava no paraíso, em meio à gente nua, cujas armas eram o arco, a flecha e o tacape. Não tive como recuar, nem voltar atrás, restando postar este texto apenas como introdução ao assunto o qual havia prometido.

Convido-os a me acompanhar nessa viagem ao passado, em direção a um paraíso ainda não chamado, Brasil...

***



De volta ao paraíso

Para os índios que ali estavam, nus na praia, o mundo era um luxo de se viver, tão rico de aves, de peixes, de raízes, de frutos, de flores, de sementes, que podia dar alegria de caçar, de pescar, de plantar e colher a quanta gente aqui viesse ter. Na sua concepção sabia e singela, a vida era dádiva de deuses bons, que lhes doaram esplendidos corpos, bons de andar, de correr, de nadar, de dançar, de lutar. Olhos bons de ver todas as cores, suas luzes e suas sombras. Ouvidos capazes da alegria de ouvir vozes estridentes ou melódicas, cantos graves e agudos e toda a sorte de sons que há. Narizes competentíssimos para cheirar e fungar catingas e odores. Bocas magníficas de degustar comidas doces e amargas, salgadas e azedas, tirando de cada qual o gozo que podia dar. E, sobretudo, sexos opostos e complementares, feitos para as alegrias do amor.
O pequeno trecho que descreve esse imenso paraíso que era o Brasil pré-descoberta, são do mestre Darcy Ribeiro, descritas em sua clássica obra, O Povo Brasileiro.

E assim era. Os índios esbanjavam saúde. Não conheciam doenças. Os poucos males que os acometiam eram curados com as rezas dos pajés e com recursos da colossal farmácia natural que cobria todo o território nacional.

Vieram os europeus, o elemento branco, um dos participes da formação de nossa cultura, com seu séquito de doenças e demais problemas existenciais, e tudo mudou... O paraíso acabou e, junto com ele, seus habitantes primeiros.

Isso decorreu de vários fatores, mas basicamente, do conflito entre sistemas de valores diferentes. No texto, Native American Culture (Cultura Indígena Americana), publicado no livro, Leia e Pense em Inglês, organizado pelos editores da revista Think English!, há uma boa analise desses conflitos. Falando entre os primeiros nativos americanos e os colonizadores europeus, o texto diz:

O sistema de valores era diferente para cada grupo. Os nativos estavam em sintonia com o ritmo e o espírito da natureza. Natureza para os europeus era negócio: uma colônia de castores era um número de peles, uma floresta, madeira para construção. Os europeus esperavam a posse da terra e a reivindicavam. Por outro lado, os  europeus consideravam os índios nômades e sem interesse na posse da terra. Era essa visão materialista dos europeus em relação a terra que os índios achavam repulsiva...”


Tal como nos Estados Unidos, tal como no Brasil, tal como em todo o continente americano. O padrão de colonização era o mesmo, uma vez que a mentalidade dos colonizadores era a mesma. Aliás, penso que os homens de todos os tempos, estejam eles na América, África, Ásia, Europa ou Oceania, tenham vivido eles nos dias atuais, ou em épocas remotas, parecem ter sempre um jeito próprio de agir próprios de sua época, que os universaliza a todos. Jeito próprio de agir hoje intensificado e massificado pela velocidade de informação e pelo desenvolvimento dos meios de comunicação com que foi tomada de assalto a própria sociedade da informação.

Uma vez extinguido o paraíso e sua gente de corpos belos e saudáveis, vieram os hospitais, manicômios, remédios, cirurgias, problemas existenciais...

Voltando os olhos àquele passado distante, vemos que os índios não conheciam farmácia e viviam saudáveis... Não conheciam fast-foods e se alimentavam muitíssimo bem... Não conheciam academias e personal treiners e ostentavam corpos esculturais... Não faziam cirurgias plásticas e envelheciam com beleza e sabedoria... Não usavam roupas e, “nem mesmo Salomão, em toda a sua grandeza, jamais se vestiu como um deles”...

E hoje? Podemos comprar de tudo e nos alimentamos mal... Fazemos cirurgias plásticas e nunca estamos contentes com nossos corpos... Estamos sempre tomando remédios que, por sua vez, nos fazem depender de outros remédios, formando uma verdadeira teia que nos torna dependentes de fármacos...

E ainda quando se fala em curas espirituais, alimentação natural, e remédios naturais, muita gente ainda “torce a cara”, “dá de ombros”... Nem sabem que estão rejeitando as próprias origens.

Será que, em meio a nosso mundo ultramoderno, não encontraríamos, de vez em quando,um tempinho para entrarmos na máquina do tempo, e viajar de volta ao paraíso, para ver se lá aprendemos a ser novamente “natural”?

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