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Átimos de tempo

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:30
Terça-feira, 24 de fevereiro
A vida é agora,
No velho albergue
da Terra, e cada um num
quarto e numa história, de manhãs mais leves
E céus à margem de esperança e de silêncios de escutar,
E te surpreenderás a cantar,
Mas não sabes porque
(La vita é adesso – Renato Russo)



O que é a vida senão uma sucessão de instantes?

Os centésimos de tempo vão se juntando e formando os segundos. Os segundos vão se somando e formam as horas. As horas se avolumam e formam os dias. Os dias se multiplicam e formam os meses. Os meses se juntam, ganham força e formam os anos.  Como as águas de águas de uma cachoeira os anos vão rolando vida afora e tornam-se séculos, que por sua vez explodem em milênios. Os milênios se juntam, como se juntam as estrelas que formam as galáxias distantes, e em uma explosão multicor formam a eternidade.

E nós, homens, mulheres, humanos, estamos no meio de todo esse turbilhão de movimento como pequenas partículas cósmicas dotadas de vida. Corpos formados de 7 octilhões de pequenas vidas, batizadas pelos cientistas com o nome de átomos. Tem ideia do que sejam 7 octilhões? Não tem? Então escreva o numeral 7 e a ele acrescente vinte e sete zeros à direita. Se dá trabalho apenas imaginar, imagine ver-se as voltas com um número tão grande. Estas pequenas consciências de nós mesmos atuam como eficientes centrais de informações, guardando segredos de nossos códigos genéticos e formam o conjunto de organismos e sistemas que somos nós mesmos.

Talvez por isso se diga da felicidade que ela é o instante. Ninguém é sempre feliz, bem como, nem ninguém é infeliz para sempre. Nessa guerra de partículas de átomos navegando no tempo, temos liberdade de escolher em que mar queremos navegar de forma mais constante, se no mar da alegria ou no mar da tristeza.

Na vida, tudo passa e nada fica... Inerte. O universo é uma força vibrante. Nele tudo é movimento, tudo é movente. Já pensou se o sol resolvesse tirar férias em alguma praia do Caribe, e deixasse de dar sua volta rotineira e diária em volta da Terra? Quanto distúrbio planetário não nos custaria essas férias solares? Que seria de nós se os rios parassem de correr para o mar? Se as flores parassem de brotar? Se as estrelas parassem de brilhar. Mesmo quando a noite se vai e as leva consigo, elas não perdem o brilho, apenas são ofuscadas pelo brilho do astro-rei.

Olhe para o seu corpo. Muito mais que olhar, tome consciência dele, perceba-o. Seu corpo também é um constante movimento, quer você esteja dormindo ou acordado, ele está sempre trabalhando. Continuamente, diurna ou noturnamente, trabalhando. Já pensou se seu coração resolvesse tirar uns dias de folga? Que bom que ele é bastante trabalhador, não é verdade?

Fiquei a pensar estas coisas após grande susto que passei no sábado (21), à tarde. Permitam-me partilhar com vocês está experiência desagradável.

Sábado, havia saído de casa para o ensaio do Coral Pio XI. Sai um pouco mais cedo, por volta das três e quinze da tarde, pois havia recebido comunicado do presidente do coral, pedindo que chegássemos mais cedo, pois haveria uma reunião antes do ensaio. Tranquila e prudentemente, peguei o meu capacete, calcei as luvas — acho estranho dizer calcei as luvas, mas esse é o termo correto —, montei na bicicleta, disposto a percorrer, em menor tempo possível, os três quilômetros que separam minha casa da sede do coral.

Sábado à tarde, é um dia em que o transito começar a ficar menos pesado. Fazia uma tarde quente, porém, agradável. Desci, e depois subi a Rua Conceição, passei pelo Centro de Convivência. Algumas pessoas aproveitavam a sombra de um Café e, embaixo das árvores, tomavam um liquido refrescante e batiam um papo, proseavam um pouco, aproveitando a calma vespertina. Entrei na Rua Maria Monteiro, pedalando rápido, mas com certa tranquilidade, e sempre com prudência. No cruzamento da Maria Monteiro com a General Osório, o sinal estava verde para mim e eu segui com minhas pedaladas regulares.

Uma quadra à frente um carro vinha subindo a Antonio R. de Melo, uma rua transversal que termina na Maria Monteiro. Como a preferencial era minha, segui em frente, tranquilo. A motorista que vinha na transversal, ao invés de parar, avançou, atingindo em cheio a bike na qual eu estava. A bicicleta voou para um lado e eu para outro. Caí no meio da rua, me contorcendo de dor. Consegui ficar sentado, mas não conseguia me levantar. Por sorte, na hora da queda, o sinal de transito na quadra anterior, estava fechado e, naquele momento, só estávamos nós, eu e a motorista que me atropelou. Logo em seguida, chegou um jovem casal que ajudou a levantar-me e me fez sentar-se na frente de um luxuoso prédio, desses muito comuns no bairro do Cambuí. Disseram-me que eram médicos e chamaram uma ambulância. Em seguida, chegou a motorista que havia me atropelado — que também era médica — querendo saber se eu estava bem. A queda foi muito forte, porém, a proteção de divina foi bem maior. Apesar de doloridas, as duas pernas, uma vez que rolei no asfalto, sentia que não havia quebrado nenhum osso. Mesmo assim, era recomendável que fosse o hospital para uma verificação mais segura.

Como a ambulância estava demorando, o jovem casal de médicos teve que ir embora, pois ainda tinham que trabalhar em um plantão. Fiquei em companhia da médica que havia provocado o acidente. Passado mais alguns minutos, como a ambulância, ainda não havia chegado, ela me levou no carro dela, ao hospital mais próximo. O rapaz, chamado Lucas, antes de ir embora, havia guardado minha bike, no prédio na frente do qual estávamos, e eu pude ir mais tranquilo ao hospital.

No hospital, o médico fez alguns Raios-X, e para meu alívio, realmente, não havia quebrado nenhum osso. Tomei uma injeção anti-inflamatória e fiquei mais cerca de uma hora, até que a injeção fizesse efeito. Deitado na cama do hospital, só pensava na pedalada que havia combinado com amigos, no domingo pela manhã. Quando o médico me liberou, perguntei à ele:

— Já posso pedalar uns cinquenta quilômetros, amanhã de manhã?

Ele riu, e disse:

— Vá com calma. Um pouco de cada vez.

Saí do hospital ás sete horas da noite, andando ainda meio cambaleante, e voltei ao local do acidente, para pegar a bicicleta que havia guardado no prédio residencial. Após verificar que ela também não havia sofrido nenhum dano, montei nela e rumei para casa, pedalando devagar e com cuidado.

À noite, o machucado inchou e tornou-se mais dolorido. Tive que enviar mensagem pelo celular, avisando aos amigos de que não iria pedalar com eles, nas belas trilhas do Distrito de Joaquim Egídio. Fiquei em casa, em meio a medicamentos e compressas de gelo. Ainda estou em meio a esses cuidados, mas estou aqui contando a história.

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