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Taiguara: Um grande talento da música brasileira esquecido nas páginas do tempo – Parte I

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:18
Sexta-feira, 23 de janeiro


Quem não soube a sombra, não sabe a luz
(Taiguara)



Prefácio

Teu sonho não acabou

Hoje a minha pele já não tem cor
Vivo a minha vida seja onde for
Hoje entrei na dança e não vou sair
Vem que eu sou criança não sei fingir

Eu preciso, eu preciso de você
Ah! Eu preciso, eu preciso, eu preciso muito de você

Lá onde eu estive o sonho acabou
Cá onde eu te reencontro só começou
Lá colhi uma estrela pra te trazer
Bebe o brilho dela até entender

Que eu preciso...

Só feche o seu livro quem já aprendeu
Só peça outro amor quem já deu o seu
Quem não soube a sombra, não sabe a luz
Vem não perde o amor de quem te conduz.

***

Essa bela e inspirada letra é da autoria de Taiguara. Quis reproduzi-la na integra para que vocês possam, de alguma forma, perceber a sensibilidade e a poesia que habita no universo desse grande artista brasileiro.

Taiguara. Quem foi esse astro que brilhou nos céus da pátria Brasil em um tempo em que brilhar ofuscava e ameaçava um regime político que intimidava, prendia, torturava e matava? Um artista versátil e criativo, capaz de dominar estilos musicais diferentes com a mesma facilidade com que manejava os talheres em um banquete. Nascido no Uruguai, veio para o Brasil quando tinha quatro anos de idade. Coincidentemente, começava sua carreira no momento em que o Brasil entrava em um período político conturbado que duraria vinte e um anos.

Um cometa brilhante que se revelou nos céus da música brasileira em concorridos festivais de música popular, Taiguara sofreu duras críticas no início de sua carreira por seu estilo de música, considerado alienado segundo os artistas engajados politicamente. Naquela época, ter músicas censuradas era sinal de prestígio, de status. Aos poucos Taiguara foi entrado na fonte dos que tinham status, ao mesmo tempo em que suas músicas ganhavam o tom de uma poesia erótica e refinada, recheada de sentimento. Como uma abelha que, cuidadosa, prepara o mel, assim era o artistalivre, como a origem de seu próprio nome, que na língua tupi-guarani, quer dizer “livre”.  Literalmente, o nome significa “o morador da aldeia”. Eis aí o nome fazendo o homem. Assim era o artista Taiguara, livre para falar e pensar, não preso a convenções, como um morador de aldeia chamada música.

Ser livre em tempo de repressão faz sofrer, justamente, porque o ser livre não pode fazer aquilo que mais deseja, mais necessita: voar. Corta tu as asas de um pássaro e terás criado, ou um pássaro deprimido, ou um pássaro rebelde.  Não se sabe bem ao certo o porquê de os militares terem elegido Taiguara como inimigo número um do regime. Aquele que devia ser o mais vigiado, censurado. Cortaram as asas de um pássaro livre em sua fase mais produtiva e o pássaro se tornou rebelde.

Aborrecido com o cerceamento de sua liberdade de criação e expressão, o pássaro livre Taiguara voou para outras terras, voltou ao Brasil, para depois voar de novo para longe. Essas ausências, aliadas a tesoura afiada dos censores, fizeram com que seu nome fosse sendo, aos poucos, afastado das paradas de sucesso, logo ele, que sempre estivera em primeiro lugar nessas praias.

Enfim, muito mais desse artista — cuja voz foi abençoada por Deus, e cuja inspiração deve ter sido soprada pelos habitantes do monte olimpo — há no texto abaixo. Para traçar a trajetória desse homem controverso, baseei-me, principalmente, no livro biográfico, Outubros de Taiguara, de Janes Rocha, em A volta do pássaro ameríndio, dissertação de mestrado escrita por Maria Abília de Andrade Pacheco, da Universidade de Brasília, e em textos da Internet.

Dito tudo isto, apresento a vocês, um dos grandes artistas brasileiros, que merece ser sempre lembrado.


***



Introdução

A política, o teatro, o cinema, a literatura e a música estavam em crescente florescimento quando o regime ditatorial se instalou no Brasil. A arte e a cultura eram como jardins em flor regados pela água da criatividade e da consciência crítica. Então vieram os militares e foram matando as rosas desse jardim. Não fosse pela valentia de alguns bravos guerreiros o Brasil se teria tornado terra árida: sem a florescência, a cor e o brilho da arte e da cultura.

Em meio a esse cenário viveu Taiguara. Difícil definir e compreender esse artista que compôs tão belas canções. O artista mais perseguido pela ditadura militar, aquele que teve mais músicas vetadas pelo regime, nunca foi aceito por completo no círculo daqueles que faziam canções consideradas de esquerda e provocativas ao regime. Talvez porque tenha despontado no cenário musical cantando belas músicas românticas, enquanto o chique era fazer músicas contestadoras. Talvez porque estivesse ainda em seu subconsciente as músicas românticas e dramáticas ouvidas por sua mãe.

Muitas de suas canções foram vetadas pelo conteúdo politizado e contestador, e outras porque abordavam temas de conteúdo erótico, o que também era considerado ofensivo ao regime, por atingir a “moral” e os “bons costumes”.

O fato é Taiguara sempre foi o cara errado na época errada. Enquanto todos faziam músicas de protesto, ele escrevia músicas românticas e quando todos faziam músicas românticas, ele fazia músicas de protesto.




Na beira do cais

Corria o ano de 1974. Navios chegavam e partiam do Porto de Vitória, no Estado do Espírito Santo. Vindos de mares que muito bem conheciam a solidão dos marinheiros que, por dias a fio, ficavam em alto mar, sedentos de amor, de paixão e do gosto doce da bebida. Naqueles dias solitários, à serviço nos navios, a companhia dos marítimos era o sol durante o dia, e a lua durante a noite. Claro e escuridão se misturavam com solidão e saudade. Eram palavras sinônimas escritas nos dicionários de quem tem apenas o mar como horizonte. A chegada e partida dos navios se confundiam com o vai e vem de pessoas que iam ou que ficavam. As lágrimas choradas de uma saudade antecipada por parte de quem deixava o país, misturavam-se com as alegres lágrimas de quem retornava à terra natal, depois de muito ou pouco tempo de ausência, e as duas vertentes de lágrimas, ao se encontrarem, corriam todas para o imenso e infinito oceano de sentimento.

No caís daquele porto, inaugurado em novembro de 1940, cuja necessidade surgiu ainda no ano de 1870, impulsionado pelo crescimento da economia cafeeira, estava Taiguara, um artista descontente com o tratamento que vinha recebendo pelos militares, por causa do caráter livre ou contestador das letras de suas músicas. Por esses motivos, e por estar insatisfeito com aquela situação, resolvera deixar o país, em uma espécie de autoexílio. Seu destino era Inglaterra. Do alto de seus vinte e nove anos era um sonhador e acreditava no sonho de um país no qual pudesse expressar suas ideias, escrever e cantar livremente suas canções, sem ter que submeter seu trabalho ao crivo dos censores do regime. Casara-se recentemente com Gheysa Gomes de Paiva, uma bela moça de apenas 17 anos. Além da mulher, levava também o seu companheiro inseparável desde os tempos de criança: o piano. Os amigos vieram se despedir do músico e o coração de todos prenunciava a saudade que sentiriam daquele jovem criativo, irreverente, e carinhoso para com todos. Aproveitando o momento em que Taiguara se encontrava em volta dos amigos na área de embarque do porto, falando de seus planos futuros, em Londres, um militar que estava de serviço no local, aproximou-se, discretamente do grupo, notava-se certo nervosismo nas suas atitudes. Talvez até certo receio de ser visto por outros militares.

— Taiguara, sou se fã! Gosto muito de suas músicas! Ainda bem que você está indo embora do país. Eles estavam planejando matar você.

O jovem militar se afastou a passos rápidos, como se não quisesse que sua presença fosse notada junto ao grupo. O dialogo foi breve, mas causou surpresa em todos, principalmente em Taiguara.

Após alguns minutos, Taiguara e Gheysa embarcavam no navio, com direção a Londres. Enquanto as ondas do mar de Vitória os afastavam do cais, os pensamentos do artista, faziam-no mergulhar em sua própria história.




Nascimento no Uruguai e mudança para o Brasil

Ele, Taiguara Chalar da Silva, já sentia as vibrações da música desde que, ao ganhar a corrida dos espermatozódes, formou-se vida no útero materno. Quis o destino que nascesse em uma família musical. Seu pai, o gaúcho Ubirajara Silva, tocava bandonéon — instrumento musical bastante usado no Uruguai e na Argentina, o principal instrumento de uma orquestra de tango. Olga Chalar, mãe de Taiguara, era uma cantora uruguaia muito famosa na época. Ambos, pai e mãe, eram originários de famílias de camponeses.

Ubijara era um excelente bandonéonista, jovem e solteiro. Resolveu então tentar a sorte como músico na Argentina, em Buenos Aires e no Uruguai, em Montevidéu. Na condição de jovem solteiro lançou-se em busca de novas experiências. Além das atividades musicais, também foi militante, no Uruguai, do Partido Comunista. Certamente deve ter conhecido muitas jovens que o fascinaram, mas a que conquistou o seu coração foi Olga, Olga Del Mar, uma celebridade da música uruguaia, na década de 40 e 50. Desse casamento, em 09 de outubro de 1945, nascia Taiguara, o primeiro filho do casal. Dois anos depois, em 1947, nascia Araguari, o segundo filho. Aos escolher o nome dos filhos, Ubijara manteve uma tradição familiar baesada na qual o nome escolhido para os filhos deveria ser de origem indígena. Moraram no Uruguai até 1949 quando a família resolveu mudar-se para o Brasil.

No final dos anos 40 e início dos anos 50, o Brasil vivia um período de grande crescimento populacional e já eram visíveis as enormes desigualdades regionais e sociais. Grandes movimentos migratórios levavam o homem do campo para os grandes centros. Ao chegar às grandes cidades, esses migrantes, na maioria das vezes não encontravam moradia e erguiam favelas nos limites das cidades. Embora vivessem em péssimas condições de infraestrutura no novo ambiente, os migrantes alimentavam esperanças de encontrar oportunidades econômicas e sociais melhores que as que haviam deixado para trás. Se as coisas não dessem certo como eles imaginavam, havia a opção de voltarem a viver no campo.




Naquela época, Brasília ainda não fora construída e, era no Rio de Janeiro, que se concentrava as decisões políticas da nação. Devido a este fato, também era para lá que convergiam os meios de comunicação e onde se centralizava os mais importantes debates nacionais. Além disso, o país estava em expectativa por ocasião da realização da Copa do Mundo — que deixaria uma grande tristeza com a derrota da seleção canarinho para o Uruguai. No dia 18 de setembro foi exibida a primeira transmissão de um programa de televisão e essa novidade revolucionaria os costumes. O personagem principal enquanto meio de comunicação era, na verdade, o rádio. Era em torno dele que as famílias se reuniam, seja na cozinha ou na sala, após o jantar para ouvirem os grandes cantores da época. Foi naquele 1950 que Dalva de Oliveira, a Rainha da Voz, conquistou as paradas de sucesso no país.

Foi nesse contexto que Ubirarajara, Olga e os filhos chegaram ao Rio de Janeiro, indo morar no bairro de Santa Tereza, em uma casa que, anteriormente, servira de abrigo ao casal Herivelto Martins e Dalva de Oliveira, dois grandes nomes da música brasileira, parceiros na arte, mas infelizes no amor. De certo modo, o fantasma da infelicidade que assombrou Dalva e Herivelto também terminaria por assombrar Ubirajara e Olga. Quando se conheceram, Olga estava no auge da carreira no Uruguai. Ao se casarem, Ubirajara exigiu que ela abandonasse a carreira para se dedicar a vida familiar. Ela assim o fez e foi feliz durante algum tempo. Porém logo a saudade dos palcos e da fama tornaria o seu coração triste e amargurado, sentimentos esses que refletiram na relação conjugal do casal. Após diversas crises, eles se separaram em 1960. Olga voltou a Montevidéu, enquanto Ubirajara permaneceu no Brasil com os dois filhos. Na capital uruguaia, a cantora esperava retomar a carreira, entretanto, vendo fracassados seus planos de sucesso, sozinha, sem a companhia do marido e dos filhos, entrou em profunda depressão. Após recuperar-se da doença, voltou ao Rio. Quis recuperar o tempo perdido, mas a roda do destino já havia girado em outra direção, além do mais, não dava mais para juntar os pedaços de um diamante que havia-se partido. Ela ainda apresentou-se em algumas casas de espetáculo no Rio. Após essa peregrinação artística pela noite carioca, encontrou seu caminho espiritual junto aos Orixás, tornando-se mãe de Santo.

Voltando ao ano de 1960. Ubirajara mudou-se junto com Odette, sua segunda esposa, e com os filhos, passando a residir em São Paulo. Em terras paulistas, os dois irmãos viveram sua adolescência. Passaram a estudar no Mackenzie, uma conceituada universidade paulista. Araguari matriculou-se no curso de Psicologia, enquanto Taiguara optou pelo curso de Direito. O primeiro conseguiu concluir o curso e exercer a profissão. O segundo não prosseguiu com os estudos, uma vez que o chamado para a música se fazia imperativo e não poderia ser diferente. Sua mãe gostava de ligar o rádio e cantar as músicas de Dolores Duran, Maysa e outras grandes cantoras da época, e os filhos cantavam junto com ela. Seu pai sempre trazia alguma novidade em seu bandonéon. Taiguara absorvia todo aquele ambiente musical.

Certo dia, quando Taiguara tinha por volta de oito anos, seu pai comprou um piano velho e o reformou. Tocar piano passou a ser então a brincadeira preferida do garoto. O menino navegava com prazer e habilidade naquele mar de música como se fosse um velho marinheiro. Aos dez anos passou a compor suas primeiras músicas e, entre onze e doze anos, começou a escrever a letra para as suas próprias composições.


O início da carreira e o Juão Sebastian Bar

O Rio no final dos anos 50 e início dos anos 60 fervilhava de movimentos musicais atraentes aos jovens. Eles passeavam pelo Tropicalismo, Bossa-Nova, Jovem Guarda e ainda sofriam grandes influências de grandes cantores românticos da geração anterior como Ângela Maria, Cauby Peixoto e Nelson Gonçalves. Em São Paulo também não era diferente. A juventude procurava boa música, andava em busca de ares e ambientes onde se pudesse respirar poesia, sugar da vida o que de melhor a vida tem.

No meio dessa efervescência, ainda na faculdade Mackenzie, Taiguara participou de seu primeiro grupo artístico, chamado Os Aedos. Naqueles áureos tempos os universitários se reuniam e organizavam festivais de jograis, nos quais declamavam poesias de grandes nomes como, Manoel Bandeira, Mário de Andrade, Carlos Drummond de Andrade e Vinicius de Moraes. No primeiro festival de jograis em que se apresento o Aedos apenas declamou poesias. A partir do segundo, já trouxeram instrumentos musicais para dentro dessa brincadeira. Continuava sendo poesia, mas poesia com arranjos musicais. Muitas atividades musicais e culturais aconteciam no Teatro Ruy Barbosa, que ficava dentro do Mackenzie. Bem próximo dali, ficava o Juão Sebastian Bar, local frequentado por diversos tipos de pessoas: jovens, não tão jovens, gente abastada e gente humilde. Fundando em 1962, no bar encontravam-se tribos diversas: intelectuais, comunistas, prostitutas, gays, e todos conviviam em paz. O importante era que no Juão Sebastian Bar, se podia beber música e respirar poesia, além de trocar muitos dedos de prosa com os amigos.
Naquelas redondezas, também morava e estudava um jovem músico, cantor e compositor, chamado Francisco Buarque de Holanda, mais conhecido como Chico Buarque. Chico também participava desses festivais que os universitários promoviam. Foi nesse ambiente universitário, pelo qual também circulava Toquinho, que Taiguara conheceu Chico Buarque. Foi Chico que apresentou o Juão Sebastian Bar a Taigurara. Foi como se Taiguara tivesse descoberto o paraíso, pois por ali circulava e apresentava-se gente que sabia fazer um bom caldo de música como Vinicius de Moraes, Toquinho, Alaíde Costa, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Cesar Camargo Mariano, dentre outros. O autor José Seixas Patriani — citado em Taiguara: A volta do pássaro ameríndio, uma dissertação de mestrado escrita em abril de 2013, por Maria Abília de Andrade Pacheco, da Universidade de Brasília — escreveu a poesia Um bar chamado Juão, que nos fornece uma imagem daquilo que seria o ambiente de um dos lugares que se tornariam importantes na vida do cantor e compositor Taiguara:

Bar repleto. Caras rindo angústia. Nas escadas. No chão. Em pé.
Uísque-com-água.
Bossa nova. A cantora sentada no piano. Miudinha. Graciosa. Voz quente e
sensual.
O samba sofisticado arranca aplausos frenéticos. Os corpos balançam. Na batida
diferente. Bossa nova.
Garota de Ipanema. Gritos. Urros histéricos. Porque eu gosto de você... Vinícius
e Tom. Balanço.
Bom. Bem bom mesmo. Batida bem. Gostosa.
Tom e Vinícius.
Uísque e água. samba que fala de amor. Bossa nova. Porque estou tão sozinha...
Samba internacional. Samba que não é quadrado.
Samba-jazz.
A cantora-sorriso desce do piano. Passa miúda entre as mesas lotadas.
Menina-cantando-tristeza. Cantando sonhos. Menina-frágil-mulher.
E o amor que passa. E o barquinho boiando indiferente. O mar azul
transbordando angústia.
Balcão repleto.
Olhos procurando olhos. Velhos comprando juventude. Caras-bonitas. Calças
justas. Camisas-de-malha. Barbas.
Artistas. Prostitutas-em-flor. No bar não há problemas.
Bossa nova.
Pipoca.


O show “Primeiro Tempo... 5 x 0”

A cantora sentada no piano. Miudinha. Graciosa. Voz quente e sensual, à qual o poeta se refere é Claudete Soares, madrinha musical de Taiguara, e uma importante peça no tabuleiro da carreira do jovem artista. Conheceram-se, ali mesmo, no Juão, e logo ficaram amigos. Não demorou muito para que estivessem se apresentando juntos no show, Primeiro Tempo... 5 x 0 — posteriormente o show virou um disco. O título do show tinha tudo a ver com o momento. Era o ano de 1966 e, na Inglaterra, estava sendo disputada a Copa do Mundo de Futebol. Havia grande expectativa de que a seleção brasileira voltasse para casa com o título. Houve grande decepção, pois a seleção não passou da primeira fase, após ser goleado por 3 x 1 pela seleção de Portugal. Aquela Copa do Mundo foi considerada uma das piores campanhas da seleção canarinho em mundiais — e aqui não cabe discorrer sobre passado recente. Certas coisas é melhor nem lembrar.

E agora? O show havia sido montado em cima de uma expectativa de vitória brasileira no mundial. Houve certa apreensão entre os músicos de que o fracasso sobreviesse. Entretanto a genialidade dos produtores, Luiz Carlos Miele e Ronaldo Bôscoli, reescreveu o espetáculo em cima da derrota brasileira e transformou a tragédia em piada, revertendo fracasso em sucesso, e possibilitando que o show permanecesse por um ano em cartaz no Juão Sebastina Bar.

Inicialmente, Bôscoli não foi a favor de ter Taiguara no elenco do show. Foi por insistência da veterana Claudete Soares, que ele mudou de ideia e aceitou o jovem artista como integrante do show.

Outro trabalho importante de Taiguara naquele ano de 1966 foi a participação na trilha sonora do filme Crônica da Cidade Amada, ao lado de grandes personalidades como Blecaute, Tito Madi e Billy Blanco. O filme, dirigido por Carlos Hugo Christensen, mostrava uma série de onze textos de cronistas renomados, do quilate de Carlos Drummond de Andrade, Millôr Fernandes, dentre outros. As situações abordadas no filme eram todas ambientadas no Rio de Janeiro.

Com o show e, posteriormente, o lançamento do disco Primeiro Tempo... 5 x 0, além de outros discos que gravou, a fama e o sucesso bateram à porta de Taiguara. Mas toda fama exige sua cota de sacrifício. As gravadoras oferecem seu preço e acenam com fama e sucesso, mas querem que os artistas se submetam as suas regras. Não era diferente com as equipes de produção dos festivais. Idem as equipes de TV’s. Quiseram mudar seu nome, seu cabelo, roupas, sapatos. Mas o artista era relutante a mudanças. Participou também do programa Silvio Santos, um programa de variedades que ainda hoje é exibido pelo SBT. Essa participação no programa rendeu-lhe enormes dores de cabeça. Os demais artistas engajados na luta contra a ditadura começaram a critica-lo por ter participado de uma atração que não tinha nenhum engajamento político.

No meio de todas essas confusões nasceu um dos maiores sucessos românticos de Taiguara: Universo do Teu Corpo. Cansado de toda essa confusão e muitas cobranças, o artista passou a dedicar-se a meditação, absorvendo os ensinamentos do indiano Mararishi Mahesh Yogi, guri dos Beatles. Todas essas ondas de paz advindas da meditação fizeram bem a Taiguara. Desse mergulho nasceu o seu sexto LP, Viagem, gravado em 1970.

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