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Nova República: 30 anos sem o peso da cortina de ferro da ditadura

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 02:24
Sábado, 17 de janeiro

Posse de Tancredo Neves

Dia 15 de janeiro do ano de 1985. Era terça-feira, chuvosa, mesmo assim, milhares de pessoas se concentraram em frente ao Congresso Nacional. As galerias e o plenário do Congresso estavam lotados. Do lado de fora, aqueles que não haviam conseguido lugar para ver a cerimônia mais de perto, abrigavam-se embaixo de uma bandeira nacional, ou da fachada de algum prédio, outros mais empolgados, escalavam as cúpulas de concreto, a maioria não estava nem aí para chuva. O momento era de festa: A festa da democracia.

Naquele dia, o Brasil elegia Tancredo Neves: o primeiro presidente civil, após 21 anos sob o regime militar. Naquele dia nublado e chuvoso, resplandecia no céu do Brasil o sol da democracia com seus raios de liberdade iluminando o povo brasileiro. Povo que não tinha a oportunidade de ver essa luz brilhar fazia duas décadas. Nascia a Nova Republica.

Tancredo fez um discurso emocionado e cheio de esperança, dizia ele ao povo brasileiro: “Esta foi a última eleição indireta do país. Venho para realizar urgentes e corajosas mudanças políticas, sociais e econômicas indispensáveis ao bem-estar do povo. Não foi fácil chegar até aqui. Nem mesmo a antecipação da certeza da vitória, nos últimos meses, apaga as cicatrizes e os sacrifícios que marcaram a história da luta que agora se encerra”, disse Tancredo em seu discurso.

Ainda não era o sonho das eleições diretas, com um presidente, verdadeiramente, escolhido pelo povo, uma vez que a eleição de Tancredo havia se dado por um colégio eleitoral, mas já era um sinal forte de que a cortina de ferro estava ruindo. Ela já havia começado a ruir um ano antes, quando começou, em todo o país, a campanha pelas eleições diretas. O nome daquela campanha recebeu o nome de Diretas Já.  A liberdade de escolher o seu próprio presidente era um sonho de toda a sociedade brasileira, à exceção dos militares e alguns de seus partidários. Em abril de 1984, mais um milhão e meio de pessoas se reuniram no Vale do Anhangabaú, em São Paulo, solidificando ainda mais o apelo por eleições diretas. Tancredo Neves estava lá afirmando que era hora de os militares deixarem o comando da nação e o entregarem nas mãos do povo, não necessariamente com essas palavras, mas era isso que o seu discurso inspirava.

Durante sua campanha a presidência da nação, devido a uma agenda cheia de compromissos no Brasil e no exterior, Tancredo começou a sentir fortes dores abdominais, poucos dias antes da posse, porém, não tornou isso público, pois temia que, caso lhe acontecesse algo, os militares não quisessem entregar o poder nas mãos do vice-presidente, José Sarney. Na noite que antecedia a posse, Tancredo estava em uma cerimônia religiosa, em um Santuário, em Brasília, quando as dores abdominais se intensificaram. Na época os médicos fizeram o máximo para evitar que fosse utilizada a palavra câncer. O vice-presidente, José Sarney, foi empossado no seu lugar, enquanto Tancredo permanecia em agonia no hospital. E assim ficou até o dia 21 de abril, quando o país recebeu a notícia de seu falecimento. Muitas lágrimas rolaram pelo Brasil naquele triste dia.  

No ano de 1891, o saudoso cantor e compositor, Gonzaguinha, junto com o pai, o também saudoso Luiz Gonzaga, gravou o disco, A Vida do Viajante. Os dois saíram em turnê pelo país com esse belíssimo show. Nesse disco, Gonzaguinha canta uma música de sua própria autoria, chamada Pequena Memória Para um Tempo sem Memória, que não é muito conhecida pelo público, mas que é uma fotografia daqueles dias nos quais se vivia sob a mordaça da ditadura. Liberdade de expressão era que uma palavra que havia sido riscada do nosso dicionário no dia 01 de abril de 1964, dia em que os militares assumiram o poder. Nas duas décadas seguintes muitos brasileiros foram presos, torturados e mortos por lutar contra um sistema que era a personificação da morte. No tempo em que estiveram no poder, os militares tentaram mataram nossa cultura, nossa alegria, nossa liberdade. Não fizeram isso de vez, porque surgiram, bravos heróis, que com seu engajamento, suas canções, seus escritos, jornalísticos ou literários, souberam manter vivo o sonho da liberdade.

Memória para um tempo sem memória é uma homenagem a todos aqueles que lutaram para que a democracia voltasse a reinar no Brasil. São lembranças de um tempo em que lutar pelos direitos era um grave defeito, punido com a cadeia, com o exílio ou com a morte. A música de Gonzaguinha é uma homenagem às vidas que, como tochas acesas, alimentaram o fogo da esperança de que dias melhores seriam uma realidade depois do pesadelo. O que, de fato, aconteceu.

Naquela época, o inimigo a ser combatido no Brasil era o governo militar. Hoje, o inimigo a ser combatido é a corrupção e os seus agentes. Assim como a sociedade brasileira que viveu aqueles tempos difíceis, sem cruzar os braços e sem perder a esperança, que assim também saibamos nós, que vemos os braços da corrupção estrangularem o nosso sempre tão querido Brasil, acreditar que ainda veremos um Brasil mais justo e mais humano.

Abaixo, compartilho com vocês, Pequena Memória Para um Tempo sem Memória, essa bela e profunda letra de Gonzaguinha.

***

Gonzaguinha


Pequena Memória Para Um Tempo Sem Memória

Memória de um tempo onde lutar
Por seu direito
É um defeito que mata
São tantas lutas inglórias
São histórias que a história
Qualquer dia contará
De obscuros personagens
As passagens, as coragens
São sementes espalhadas nesse chão
De Juvenais e de Raimundos
Tantos Júlios de Santana
Uma crença num enorme coração
Dos humilhados e ofendidos
Explorados e oprimidos

Que tentaram encontrar a solução
São cruzes sem nomes, sem corpos, sem datas
Memória de um tempo onde lutar por seu direito
É um defeito que mata
E tantos são os homens por debaixo das manchetes
São braços esquecidos que fizeram os herois
São forças, são suores que levantam as vedetes
Do teatro de revistas, que é o país de todos nós
São vozes que negaram liberdade concedida
Pois ela é bem mais sangue
Ela é bem mais vida
São vidas que alimentam nosso fogo da esperança
O grito da batalha

Quem espera nunca alcança
Ê ê, quando o Sol nascer
É que eu quero ver quem se lembrará
Ê ê, quando amanhecer
É que eu quero ver quem recordará
Ê ê, não quero esquecer
Essa legião que se entregou por um novo dia
Ê eu quero é cantar essa mão tão calejada
Que nos deu tanta alegria
E vamos à luta.

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