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Imagine se houvesse paz entre as nações

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 01:19
Domingo, 18 de outubro

A paz invadiu o meu coração
De repente me encheu de paz
Como se o vento de um tufão
Arrancasse meus pés do chão
Onde eu já não me enterro mais
(A Paz – Gilberto Gil)



Em uma semana de tantos conflitos violentos por causa de divergências religiosas, apresento a vocês o discurso do Papa Francisco, proferido no dia 28 de novembro de 2014, durante uma visita pastoral à Turquia. O Papa proferiu o discurso durante um encontro inter-religioso no Diyanet — o Departamento de Assuntos Religiosos na Turquia. A integra do discurso foi extraída do site RádioVaticana. Depois de uma semana de violência e protestos, é bom começar a semana com uma mensagem de paz.

Que bom seria se fossemos todos transportados para o mundo hipotético de John Lennon, no qual não há paraíso, nem inferno ou céu, havendo apenas o maravilhoso céu azul acima de nós. Nesse mundo não há países e, consequentemente, fronteiras, assim não haveria motivos para matar ou morrer. Nesse mundo imaginário também não há religiões, apenas pessoas se amando e vivendo em paz. As religiões são boas em sua essência, os homens é que as distorcem. Se não houvesse a questão da propriedade também não haveria a necessidade de ganância, de querer amealhar sempre mais tesouros no cofre do egoísmo. Seguindo essa linha de raciocínio não haveria fome, nem desnutrição, nem miséria. Podemos achar John Lennon um sonhador, mas porque não sonhar junto com ele? Pelo menos, se não pudermos trazer todo esse mundo imaginário para a realidade, pelo menos um pouco dele podemos tornar possível em nosso dia-a-dia.

Entretanto, sabemos que há sistema estabelecido no mundo que o faz girar sempre no mesmo sentido, ano após ano, século após século, milênio após milênio. Contra isso é difícil lutar. Mas podemos mudar o nosso sistema interior e fazer do mundo um mundo mais humano e fraterno. Desse modo, até podemos sonhar junto com John Lennon, atendendo ao apelo que faz a todos nós em Imagine: “Você pode dizer que eu sou um sonhador, mas eu não sou o único. Espero que um dia você junte-se a nós. E o mundo viverá como um só”.

***



Discurso do Papa Francisco no encontro inter-religioso, na Diyanet – 28 novembro 2014

Senhor Presidente,
Autoridades religiosas e civis,
Senhoras e senhores!

É para mim motivo de alegria encontrar-vos hoje, durante a minha visita ao vosso país. Agradeço ao Senhor Presidente deste importante Departamento o cordial convite, que me dá ocasião de falar com líderes políticos e religiosos, muçulmanos e cristãos.

É tradição que os Papas, quando visitam os diversos países no desempenho da própria missão, encontrem também as autoridades e as comunidades de outras religiões. Sem esta abertura ao encontro e ao diálogo, uma visita papal não corresponderia plenamente às suas finalidades, tal como as entendo eu na esteira dos meus venerados Antecessores. Nesta perspectiva, recordo com prazer de modo especial o encontro que o Papa Bento XVI teve, neste mesmo local, em Novembro de 2006.

Na verdade, as boas relações e o diálogo entre líderes religiosos revestem-se de grande importância. Constituem uma mensagem clara dirigida às respectivas comunidades, manifestando que, apesar das diferenças, são possíveis o respeito mútuo e a amizade. Esta, além de ser um valor em si mesma, adquire significado especial e importância acrescida num tempo de crises como o nosso; crises que se tornam, em algumas áreas do mundo, verdadeiros dramas para populações inteiras.

Com efeito, há guerras que semeiam vítimas e destruições, tensões e conflitos interétnicos e inter-religiosos, fome e pobreza que afligem centenas de milhões de pessoas, danos ao meio ambiente, ao ar, à água, à terra.

Verdadeiramente trágica é a situação no Médio Oriente, especialmente no Iraque e na Síria. Todos sofrem com as consequências dos conflitos, e a situação humanitária é angustiante. Penso em tantas crianças, nos sofrimentos de tantas mães, nos idosos, nos deslocados e refugiados, nas violências de todo o gênero. Particularmente preocupante é o facto de que, sobretudo por causa de um grupo extremista e fundamentalista, comunidades inteiras – especialmente de cristãos e yazidis, mas não só – sofreram, e ainda sofrem, violências desumanas por causa da sua identidade étnica e religiosa. Foram expulsos à força das suas casas, tiveram de abandonar tudo para salvar a sua vida e não renegar a fé. A violência abateu-se também sobre edifícios sagrados, monumentos, símbolos religiosos e o patrimônio cultural, como se quisessem apagar todo o vestígio, qualquer memória do outro.

Como chefes religiosos, temos a obrigação de denunciar todas as violações da dignidade e dos direitos humanos. A vida humana, dom de Deus Criador, possui um caráter sagrado. Por isso, a violência que busca uma justificação religiosa merece a mais forte condenação, porque o Omnipotente é Deus da vida e da paz. O mundo espera, de todos aqueles que afirmam adorá-Lo, que sejam homens e mulheres de paz, capazes de viver como irmãos e irmãs, apesar das diferenças étnicas, religiosas, culturais ou ideológicas.

A denúncia deve ser acompanhada pelo trabalho comum para se encontrarem soluções adequadas. Isto requer a colaboração de todas as partes: governos, líderes políticos e religiosos, representantes da sociedade civil e todos os homens e mulheres de boa vontade. Em particular, os responsáveis das comunidades religiosas podem oferecer a valiosa contribuição dos valores presentes nas respectivas tradições. Nós, muçulmanos e cristãos, somos depositários de tesouros espirituais inestimáveis, entre os quais reconhecemos elementos de convergência, embora vividos segundo as tradições próprias: a adoração de Deus misericordioso, a referência ao patriarca Abraão, a oração, a esmola, o jejum... elementos que, vividos sinceramente, podem transformar a vida e dar uma base segura para a dignidade e a fraternidade dos homens. Reconhecer e desenvolver esta convergência espiritual – através do diálogo inter-religioso – ajuda-nos também a promover e defender, na sociedade, os valores morais, a paz e a liberdade (cf. João Paulo II, Discurso à comunidade católica de Ancara, 29 de Novembro de 1979). O reconhecimento conjunto da sacralidade da pessoa humana sustenta a compaixão comum, a solidariedade e a ajuda efetiva aos mais atribulados. A este respeito, queria exprimir o meu apreço por quanto está a fazer o povo turco inteiro, muçulmanos e cristãos, pelas centenas de milhares de pessoas que fogem dos seus países por causa dos conflitos. São dois milhões. Isto é um exemplo concreto de como trabalhar em conjunto para servir os outros, um exemplo que deve ser incentivado e apoiado.

Com satisfação, soube das boas relações e da cooperação entre o Diyanet e o Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso. Espero que aquelas continuem e se consolidem para bem de todos, porque toda a iniciativa de diálogo autêntico é sinal de esperança para um mundo tão necessitado de paz, segurança e prosperidade. Na sequência do diálogo com o Senhor Presidente, faço votos de que este diálogo inter-religioso se torne criativo de novas formas.

Senhor Presidente, de novo exprimo a minha gratidão a Vossa Excelência e seus colaboradores por este encontro, que enche o meu coração de alegria. Além disso, agradeço a todos vós pela vossa presença e pelas orações que tereis a bondade de oferecer pelo meu serviço. Pela minha parte, igualmente vos garanto que rezarei por vós. Que o Senhor nos abençoe a todos!



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