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A volta do profeta às páginas do Charlie Hebdo divide opiniões

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 19:12
Quarta-feira, 14 de janeiro


A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão,
o lema da República e o nosso hino nacional
não são só palavras, são ideias.
Ideias que são a base do que é a França,
ideias pelas quais vale a pena lutar

(François Hollande)





O voo da fênix

No alto da cruz, pronto para ser crucificado entre dois ladrões, após ter sofrido toda sorte de calúnias, tormentos e torturas, na presença de seus algozes, Jesus olha para o alto e diz: “Pai, perdoai-lhes porque eles não sabem o que fazem”. Uma atitude magnânima. Somente corações elevados e almas nobres são capazes de perdoar aqueles dos quais só receberam incompreensões e maldades. O grande profeta, Jesus Cristo, pertencia a essa categoria de pessoas. Suas atitudes, pensamentos, palavras e ações estavam muito acima de nossa humilde compreensão da vida, de nossos preconceitos, egoísmos, vaidades, e de tudo que nos cerca.



A capa do Charlie Hebdo, publicada nesta quarta-feira, apenas sete dias após a tragédia que se abateu sobre a redação do jornal, tendo provocado comoção na França e em todo o mundo, nos remete àquele momento crucial na vida do messias. A referida capa, cujo título é, “Tudo está perdoado”, traz uma charge do profeta Maomé segurando uma placa com os dizeres Je suis Charlie, Eu sou Charlie, em português, enquanto uma lágrima cai dos olhos deleO jornal circulou, inicialmente, com uma edição de três milhões de exemplares, — antes do atentado circulava com uma tiragem de 60 mil — foi traduzido para 16 idiomas, incluindo o português, e foi distribuído para vinte e cinco países.


Como de costume, o semanário aborda temas controversos, como política e religião, sempre com uma apurada visão crítica acerca desses temas. Jornais e jornalistas franceses se uniram em torno da causa para que a publicação estivesse nas bancas já nesta quarta-feira. O Libération emprestou as instalações e o Le monde emprestou os computadores, em mais um exemplo de que a união faz a força.




Não deve ter sido fácil para os sobreviventes ao atentado arranjarem forças para, em menos de uma semana, prepararem a nova edição do jornal, sob clima de forte tensão, medo e comoção. Entretanto fazer rodar as máquinas de impressão era uma questão de honra. Acima de tudo, era preciso acionar, mais uma vez, essa terrível arma, chamada caneta. Se o Charlie Hebdo não circulasse após a tragédia, seria um indicativo de que o terror havia vencido a guerra. Porém, os jornalistas franceses fizeram questão de mostrar que eles eram mais fortes que o medo, mais audazes que o terror. O resultado de tudo isto é que o Charlie Hebdo multiplicou por cinco vezes a sua tiragem, e um quíntuplo de pessoas lerão as suas ácidas e conscienciosas charges.




Devido a coragem de bravos jornalistas e de um povo que preza a liberdade como bem supremo, um jornal que, há apenas sete dias foi lavado com sangue inocente, circula entre os quatro cantos do mundo como a mitológica fênix.

Com a força e o porte majestoso de uma águia, deslumbrantes penas coloridas em tons vermelho-arroxeados, o pássaro mitológico possuía uma força descomunal, conseguindo transportar sob suas garras, fardos enormes. Quando a fênix chorava suas lágrimas, essas mesmas lágrimas tornavam-se fonte benéfica e curavam feridas e doenças, deixando o corpo sadio e a alma mais leve. Entretanto, uma de suas características mais fantásticas era a capacidade de renascer. Conta a mitologia grega, da qual a fênix é personagem, que quando o pássaro morria ele sofria um processo de autocombustão e, após algum tempo, renascia das próprias cinzas. Segundo os relatos mitológicos, a fênix chegava a viver mais de quinhentos anos. Por esse renascimento e por essa vida longa, a lendária fênix tornou-se símbolo de renascimento espiritual e imortalidade. Ora, o que ocorre hoje na França, senão um renascimento e o desejo de ser imortal, tal qual o fantástico pássaro?


A edição histórica do jornal esgotou-se em poucas horas na França. Nas primeiras horas do dia, os franceses já faziam filas para garantir uma página importante de mais um capítulo da história francesa, que apenas acaba de ser escrito. Em algumas bancas de jornais, os exemplares se esgotaram em menos de dez minutos, segundo o jornal Le Figaro. “Nunca vi algo assim. Vendi 450 exemplares em 15 minutos”, declarou, emocionada, a proprietária de uma banca de jornal da capital francesa. Diante da grande demanda, o editor decidiu aumentar a tiragem para cinco milhões de exemplares, dois milhões a mais do que o previsto.


Ao mesmo tempo em que a primeira edição pós tragédia do jornal foi recebido com avidez pelos franceses, essa mesma edição foi recebida com indignação por mulçamanos na França e no mundo inteiro. Mesmo assim, Dalil Boubakeur, presidente do Conselho Francês do Culto Mulçumano pediu moderação aos seguidores do profeta Maomé. Ele pediu para a comunidade mulçumana manter a calma e evitar reações emotivas ou, até mesmo, despropositadas, incompatíveis com a dignidade e reserva a qual estão submetidos os fiéis daquela religião. Nesse mesmo comunicado ele pediu aos mulçumanos que respeitassem a liberdade de expressão.


Outras alas da comunidade mulçumana não agiram de forma assim tão pacífica. O Dar al-Iftaa, instituto egípcio, afirmou que a publicação era uma provocação injustificada aos sentimentos dos mulçumanos espalhados pelo mundo, que amam e respeitam o profeta Maomé. Marzieh Afkham, porta voz do Ministério das relações exteriores do Irã, também criticou o semanário francês, dizendo que a publicação era um insulto e que feria o sentimento dos mulçumanos. Pelo facebook, Izzat al-Risheq, integrante do Hamas, grupo que controla a Faixa de Gaza, disse que uma ofensa ao profeta “é considerado uma violação a todos os cânones celestiais e um ato racista, que tem como alvo espalhar o ódio, e não tem nada a ver com a liberdade de opinião”.  Reações como essas também aconteceram em muitas partes do globo.


Eu, particularmente, penso que a lágrima que o profeta Maomé derramou na página do Charlie Hebdo não seja, verdadeiramente, pelo fato de os jornalistas franceses terem estampado charges dele nas páginas do jornal, mas sim pela atitude intransigente de muitos de seus seguidores. Também, do alto de minha ignorância, olhei para a charge do profeta Maomé, estampada na primeira página do semanário francês, e não consegui ver qualquer traço ou palavra que ridicularizasse, fosse provocativo ou ofensivo, ao próprio profeta, ou aos seguidores do Islã. Apenas sei que há hoje no mundo uma fogueira queimando e nela foi colocada mais lenha. Só espero que haja um pouco de racionalidade nas civilizações a ponto de perceberem que o radicalismo e o fundamentalismo não estão nos simples traços de uma charge, seja ela de Maomé, de Jesus Cristo, de Buda ou de qualquer outro líder da esfera religiosa, mas sim, na incapacidade de muitos povos de se perceberem parte de um mundo que precisa evoluir, humana e divinamente evoluir, à exemplo de seus sábios profetas.

 


Uma marcha histórica

Certamente, a histórica marcha de milhões de pessoas pelas ruas da França, no último domingo (11), e a presença de líderes políticos de várias partes do mundo, deu ânimo novo à imprensa francesa.

Parece redundância, mas é pura realidade: Um grito de liberdade ecoou na Praça da Liberdade. Acho que não me expressei muito bem. Não, não foi apenas um grito de liberdade que ecoou na praça, foram milhões de gritos. Gritos de liberdade que ecoaram por toda a França. Apenas na capital, eram cerca de um milhão e meio de pessoas. Quase quatro milhões de vozes em todo o país, como profetas no alto de um monte, gritavam a plenos pulmões, que não tinham medo. Medo? Apenas os covardes tem medo. Aquele mar de gente reunida, composta por diferentes raças, religiões, nacionalidades e condição social diferentes queriam mostrar ao mundo que a união faz a força. Sem o querer beberam nas fontes das fábulas de Esopo, sorvendo uma delas em especial, chamada o Homem e seus filhos. Diz a fábula:


Era uma vez um homem que tinha cinco filhos. Ao invés de viverem em paz e harmonia, esses filhos viviam brigando uns com os outros. Seu pai se cansou de constantes conflitos e decidiu mostrar-lhes o quanto eram tolos.
Pegando de uma pilha de lenha cinco pedaços de madeira do mesmo cumprimento, ele os amarrou em um feixe. Feito isso chamou os cinco filhos a sua presença. A princípio eles não o ouviram, pois estavam ocupados demais em discutir, mas terminaram por aparecer.
— Escutem-me! — Gritou o pai. Peguem este feixe e o quebrem no joelho.
— Eu posso fazê-lo com facilidade — gabou-se o filho mais velho.
Ele pegou o feixe e o bateu no joelho com toda a força. Por mais que se esforçasse não conseguiu pegar os cinco pedaços do feixe.
— É impossível, disse por fim o primogênito.
— Claro que não é — disseram os irmãos. E todos começaram a discutir para saber qual deles iria tentar quebrar primeiro quebrar o feixe. No final, fizeram uma fila e cada um teve a sua oportunidade. Embora todos tivesse ferido os joelhos o feixe permaneceu intacto.
— Deixem-me mostrar-lhes agora como é possível fazê-lo — disse-lhes o pai com severidade.
Ele tomou o feixe das mãos dos filhos, desamarrou a corda que prendia os pedaços de pau e deu um deles a cada filho.
Agora, cada um de vocês quebre o pedaço que tem nas mãos — ordenou ele.
Os filhos cumpriram a sua ordem. Cada pedaço quebrou com a maior facilidade como se fosse palha seca.
Quando os insanos terroristas fizeram a França viver uma semana de medo, apreensão e violência, ceifando a vida de inocentes, eles deram um tiro no próprio pé. Ao entrar no Charlie Hebdo, matar os jornalistas — cujas armas que carregavam consigo era apenas uma caneta na mão e boa ideias na cabeça — e, em seguida, vitimar outras pessoas, eles fizeram ver ao mundo o quão ridículos e estúpidos foram.
Em um mundo que a era da comunicação tornou uma aldeia global, as ideias devem circular livremente, sendo assegurado a todos os cidadãos a liberdade de manifestar suas visões de mundo, suas opiniões acerca do mais variados temas e assuntos. Contra ideias contrárias às nossas, sejam usadas as armas dos argumentos bem fundamentados e do bom senso. Isso são princípios democráticos básicos de qualquer nação.


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