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Rock: Uma música que nasceu sob o signo da rebeldia

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:34
Sábado, 06 de dezembro

Há muito tempo atrás, na velha Bahia
Eu imitava Little Richard e me contorcia
As pessoas se afastavam pensando
Que eu tava tendo um ataque de
Epilepsia (de epilepsia)

(Rock ‘n’ Roll – Raul Seixas)

Escrevi o presente texto, em julho de 2010, e ele foi publicado no blog Rec2010, no qual eu escrevia como colaborador. Resolvi apresentá-lo a vocês. Nas linhas que seguem traço uma breve história do rock, desde as circunstâncias de seu nascimento nos 50, até os anos 60. De Elvis Presley aos Beatles, esperam que curtam o texto.

Boa leitura e bom fim de semana a todos.

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Rock: Uma música que nasceu sob o signo da rebeldia




Anos 50

Apagam-se as luzes do cinema. A sessão começa. Na telona vai sendo apresentada ao público a primeira mensagem do filme “... Hoje nos preocupam a delinquência juvenil, suas causas e seus efeitos. Preocupa-nos especialmente quando esta delinquência chega às escolas. As cenas e incidentes aqui mostrados são fictícios. Entretanto acreditamos que a conscientização pública é o primeiro passo para remediar qualquer problema. Foi com esse espírito e essa fé que realizamos Sementes da Violência”.

Desenrola-se o drama. Uma história marcante, polêmica, forte. A maioria das cenas se desenvolve na North Manual High School, em Nova York. Richard Daddier, ex-veterano de guerra consegue uma vaga para lecionar a disciplina de Inglês nessa escola. Fica muito feliz. Nem sabe ele que vai travar uma verdadeira batalha com uma turma da pesada: a maioria dos alunos são delinquentes juvenis que não estão nem aí para as instituições de forma geral, nem muito menos com educação.

Enfim, o professor, depois de muita luta, consegue dominar as feras. Vencem o bom senso, a perseverança e a paciência. De qual filme falo? Sementes da Violência (BlackBoard Jungle). O ano? 1955, apesar de parecer um roteiro dos dias atuais. Os atores? Glen Ford e grande elenco. Nessa mesma linha seguem os clássicos, O selvagem, (1953), com Marlon Brando e Juventude Transviada (1955), com James Dean. O tema do filme é a educação e o enredo pode ser considerado uma metáfora mostrando o embate entre a rebeldia juvenil e as Instituições: igreja, família e escola.

Mas e daí? O que todos esses filmes tem a ver com rock? Tudo. Não de uma forma direta, é verdade, mas por uma questão de contexto social. Esse gênero musical chamado rock in roll teve seu berço e seu desenvolvimento no início da década de 50. O mundo se recuperava do choque e dos danos provocados pela Segunda Guerra Mundial e da destruidora bomba atômica. Entretanto o pós-guerra trouxe para a América uma era de prosperidade econômica. Era um tal de comprar esse ou aquele produto eletrônico... Uma verdadeira febre! Infelizmente nem todos podiam ter acesso a todas essas benesses.

Os afro-americanos do sul, por exemplo, estavam afastados desta era de prosperidade e de liberdade. Além disso, sofriam forte segregação racial. Some-se a isso, o início da Guerra Fria e o início do  Movimento dos Direitos Civis. Foi em meio a esses fatores que cresceu a juventude do início da década de 50. Os jovens daquela epoca, provavelmente, faziam toda uma leitura dessa realidade, e o inconformismo lhes vinha à mente. Musicalmente já não se interessavam pelas músicas que seus  pais ouviam. Sentiam necessidade de algo novo. E esse tal do rock’n roll estava chegando e com força total para preencher o vazio sentido por eles. Um dos sinais claros de que uma forte onda estava em andamento foi o sucesso alcançado pela música Rock Around the Clock, de Bill Halley and His Comets, depois de entrar na trilha sonora do filme Sementes da Violência.

De onde veio esse rebelde, eletrizante, envolvente, chamado rock’ roll? Uma olhada ao passado diz que ele é filho do Rhythm and Blues ou R&B (estilo musical que se desenvolveu a partir do Blues), do Country, e da música Gospel negra. Estilos que vinham evoluindo na música americana desde o período da colonização. O blues traduzia os sentimentos da alma negra com letras que falavam de angústia e tristeza, solidão e desilusões amorosas. Em sua fase inicial, era acompanhada por violão, banjos e gaita de boca. O country-western era a música dos brancos pobres do sul. Nos cultos evangélicos desenvolvia-se a música gospel. Esta última, assemelhava-se ao blues nas escalas e no caráter de improviso. Diferia deste no sentido de que suas músicas falavam de salvação e esperança. Caracterizava-se como música elétrica e dançante. Daí é perfeitamente compreensível o comentário de Elvis Presley, no início de sua carreira, ante as críticas de certos setores sociais em relação a sua música e sua dança: “Qual o problema? Eu também danço assim na igreja.”

Aos pioneiros, estejam eles em na área em que estiverem, se deve sempre tirar o chapéu. Pois a eles cabem carregar as pedras mais pesadas, abrir as trilhas mais difíceis, subir as ladeiras mais íngremes. Quando um jovem dos dias de hoje mergulha no universo do rock, seja esmerando-se em dedilhados ou improvisos na guitarra, seja cantando a plenos pulmões, ou pelo simples modo de dançar, talvez nem imagine quantas pressões tiveram que enfrentar os pioneiros deste estilo. E esse crédito se deve a gente como Elvis Presley.

Elvis, um caipira branco, pobre, nascido no Mississipi, foi arremessado bruscamente da pobreza ao estrelato. Imagine a confusão que isso é passível de causar na cabeça de um recém-saído da adolescência. Elvis cresceu ouvindo country, até por ser esta a música característica de seu grupo social. Além disso, era apaixonado pela música negra, incluindo o gospel sulino, do qual era fã ardoroso. Foi descoberto por Sam Philips, dono de uma pequena gravadora em Memphis. Em pouco tempo fez um sucesso estrondoso com uma música quente e um ritmo sensual. Fez a alegria de muitos jovens e foi acusado por setores da sociedade de ser um agitador, incentivador da violência e rebeldia. E tudo isso, imaginem, só por causa da música que fazia!

Elvis Presley, Buddy Holly, Jerry Lee Lewis, Bill Halley, Litlle Richard, Carl Perkins, Chuck Berry, Fats Domino, Bo Didley, The Everly Brothers, foram alguns dos pioneiros que desfilaram pelos céus do novo ritmo e tiveram nele papel fundamental.

O rock dos primeiros anos, apesar de não possuir caráter de contestação política, levanta-se contra os hábitos e costumes sociais vigentes à época. Em outras palavras: era igual a cavalo selvagem solto no pasto. Era preciso laçar e colocar freio no animal enquanto ainda era tempo... E a pressão veio forte em cima desses músicos. Tanto que, quem não teve a carreira marcada pela tragicidade, acabou sendo domesticado, como é o caso do próprio Elvis, que ao voltar do exército já não possuía em sua música aquela agressividade e rebeldia iniciais, optando por baladas românticas. Em resumo, pode-se dizer que em fins da década de cinquenta o rock era como brasa ardente repousando sobre cinzas.




Anos 60

Enquanto Elvis estava no exército, o rock and roll básico parecia se tornar algo pertencente ao passado. Budy Holly estava morto. Jerry Lee Lewis, depois do casamento com a sobrinha, tivera a carreira destruída. E no começo dos anos 1960, Chuck Berry foi preso por escândalos sexuais com menores de idade”. Afirma Kid Vinil no livro, Almanaque do Rock. Acresça-se a isso que Litlle Richard havia trocado os palcos pela religião.

Diante desse quadro uma nova música começava a despertar atenção dos jovens americanos. Uma nova tendência musical. “Esta tendência apelava para os sentimentos e principalmente para a consciência de um público menos alienado. E mesmo quando falava de problemas não deixava de relacioná-los com questões sociais em jogo”, declara o autor Roberto Muggiatti no livro, Rock: de Elvis a Beatlemania (1954 a 1966). Surgia a folk song que posteriormente veio a ser conhecida como “canção de protesto”. Esse estilo de música não chegava a ser nenhuma novidade. Existia já desde os anos 30. O que aconteceu foi uma adaptação ao período em questão.

Se os “rebeldes” dos anos 50 não tinha uma causa, agora a nova geração encontrava uma: a luta pelos Direitos Civis. Os maiores expoentes desse tipo de música foram Joan Baez e Bob Dylan. Apesar do folk-rock ter sido um movimento de grande importância cultural, ainda faltava ao rock um algo mais. Algo parecido com a explosão provocada pelo rock inicial. Curiosamente, esse renascimento não se deu em solo americano, mas do outro lado do mundo, na Inglaterra.

E renasceu entre jovens que bebiam das fontes de artistas norte-americanos como Chuck Berry, Litlle Richard, Carl Perkins e Elvis Presley. Surgia assim o reinado dos Beatles, um dos maiores fenômenos do mundo da música. Surgiam também os Rolling Stones outro “monstro sagrado” do rock.

Os Beatles foram tão importantes para a música que em 2009, A Liverpool Hope University, no Reino Unido, lançou um curso de mestrado intitulado: Os Beatles, a música pop e a sociedade. Tudo isso, para discutir mais a fundo o trabalho dos meninos de Liverpool, que até hoje se faz presente no mundo através de sua música. Falando em tese de mestrado, cito um pequeno trecho de uma excelente tese de mestrado, cujo título é, O rock e formação do mercado de consumo cultural juvenil, apresentado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em 1996, por Luís Antonio Groppo, diz ele “... Os Beatles já haviam quebrado a barreira de classes no seu país, indo muito além do que qualquer outra banda de jovens operários de seu tempo. Porém quebrariam muitas outras barreiras internacionais: primeiro o próprio Estados Unidos, num incrível esquema de marketing e promoção, que fez dos shows, apresentações de TV e discos dos Beatles objeto de uma histeria juvenil sem precedentes na História. Os Beatles foram realmente os primeiros ídolos juvenis de massa e mundiais...”.

Em fins dos anos 60, o rock se reinventa. Através da música aconteceria uma revolução que não aconteceu. Meio louco isso, não? Chegavam os hippies e com eles o sonho de que a utopia assumiria o poder e traçaria as diretrizes de um mundo onde injustiça social e opressão, estariam banidas. Sexo liberado, e também a liberação das drogas, juntamente com correntes esotéricas diversas faziam parte do sonho da geração paz e amor. Vale a pena destacar ainda naquele final de década a realização do primeiro grande festival de rock: O Monterrey Pop Festival, em 1967. Nesse festival foram reveladas duas feras: Janes Joplin e Jimi Hendrix. Perdoem-me se falo alguma bobagem, mas Monterrey Pop foi meio que um ensaio para o maior de todos eles, Woodstock: Três dias de muita paz e música que ratificaram a era hippie e a contracultura.


Conforme a roda da vida vai rodando sem parar o rock vai se inventando e reinventado. Explodiu nos anos 50. Reinventou-se nos anos 60, novamente nos anos 70. E se reinventara sempre. Lançando moda, experimentando estilos, afinal o rock é mutante... E os mutantes não conseguem fugir ao seu destino.

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