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Mestre Moa do Katendê: Uma luz que se irradia da Bahia para o mundo – Parte I

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:05
Segunda-feira, 01 de dezembro

Capoeira é muito mais do que uma luta,
capoeira é ritmo, é música, é malandragem,
é poesia, é um jogo, é religião.
(...) A capoeira é tudo que a boca come”.
(Mestre Pastinha)


No dia 29 de outubro, recebi em minha caixa de e-mails, o seguinte convite:



Era o 5o Encontro Cultural para marcar a Semana da Consciência Negra, e seria realizado nos dias 21, 22 e 23 de novembro. O convite havia sido pelo Mestre Topete, da Escola de Capoeira Angola Resistência. Eu conheci esse mestre capoeirista campineiro, no final de novembro do ano passado, quando pedalava no Taquaral e encontrei uma roda de samba.

Parei e fiquei admirando aquele grupo animado, que tocava divinamente um berimbau e jogava capoeira com entusiasmo. Desse encontro, nasceu uma entrevista com Mestre Topete, registrada na postagem: Na Roda de Capoeira Angola. Desde então, tenho acompanhado alguns eventos de capoeira e sempre me sinto muito bem todas as vezes que estou presente a eles. Mestre Topete é um cara que aprendi a admirar pela simplicidade de suas ações e pelo valoroso trabalho que desenvolve em prol da capoeira e das manifestações de origem afro-brasileiras.



Não pude comparecer a todos os eventos do 5o Encontro Cultural, mas no sábado à noite, 22 de novembro, por volta das oito horas, fui prestigiar uma Roda de Capoeira que estava acontecendo na escola de Mestre Topete, localizada no Terminal Central de Campinas. Quando cheguei lá, encontrei bastante gente e um jogo de capoeira bem animado, como sempre. Mestre Topete estava bastante atarefado: recebia os convidados, fazia entrega de graduação, cuidava do bom andamento da Roda, tocava berimbau e ainda jogava capoeira. 



Durante a Roda, chamou-me a atenção, um capoeirista, já por volta dos seus sessenta anos. Ele tocava o berimbau e puxava uma canção muito bonita. Em seguida, ele levantou-se e fez um discurso breve e conciso, cujos destinatários eram os capoeiristas presentes. Pensei em falar com ele, mas naquele momento não havia como. A Roda de Capoeira é um ritual, e não se interrompe um sacerdote quando ele está no meio de suas funções, o mesmo vale para um mestre de capoeira, em pleno exercício de sua atividade.

Terminado o discurso, o capoeirista afastou-se da roda e foi mais para perto da porta de saída. Pensei em falar. Hesitei. Por fim, me decidi e fui ao encontro dele. Apresentamos-nos. Ele me disse que era o Mestre Moa do Katende, de Salvador, Bahia. Perguntei-lhe se ele podia me conceder uma entrevista. Ele disse que sim. Saímos para o lado de fora.

Naquele momento, as canções, o som dos berimbaus, pandeiros e atabaques tinham cessado e ficou assim até o início da entrevista. Depois o som da capoeira recomeçou, servindo de fundo para a nossa conversa. Nela, Mestre Moa fala do ontem e do hoje na capoeira, de sua vivência nesse esporte, de como a capoeira o ajudou a se posicionar na vida e a desenvolver outros dons, como o dom de compor letras de músicas e confeccionar instrumentos musicais. O mestre baiano já havia dado uma Oficina de Percussão, Canto e Dança, naquele sábado, às dez horas da manhã, na Escola Capoeira Angola Resistência. Não pude participar dessa oficina devido a outros compromissos por mim assumidos.

Mestre Moa do Katendê nasceu em Salvador, em 29 de outubro de 1954, no Bairro Dick do Tororó, Vasco da Gama, próximo ao Estádio Fonte Nova. Teve o privilégio de vir ao mundo, justamente, na terra que também é berço de grandes mestres da capoeira, tais como; Mestre Pastinha, Mestre Bimba, Mestre Gato, Mestre Canjiquinha, Mestre Valdemar e tantos outros. Mestre Moa é aluno diplomado pelo mestre Bobó. Iniciou-se na arte da capoeira aos 8 oito anos de idade na Academia Capoeira Angola 5 estrelas.

Entretanto, às vezes, é necessário a um mestre, sair de sua terra, deixar as sementes de suas origens, para plantá-las em outras terras. Misteriosos: assim são os caminhos da vida. No momento não compreendemos porque uma coisa tem que ser de um jeito e não de outro, mas depois, com o decorrer do tempo, tudo se torna claro como as cristalinas águas que se abrem em véus ao cair das cachoeiras, no meio das matas.

Isso também aconteceu com o capoeirista baiano, como conta o site Centro de CapoeiraAngola Angoleiro Sim Sinhô: “Aos 16 anos Môa do Katendê se afastou da capoeira angola e desenvolveu diversos trabalhos em grupos folclóricos, como o “Viva Bahia” e o “Katendê”. O desejo de disseminar seu trabalho com a cultura afro brasileira o levou a viajar para o Sul do país. Em 1984 foi para o Rio de Janeiro onde começou a ensinar a capoeira angola para não parar de treinar. De lá viajou para Porto Alegre e ajudou a implantar a dança afro no Rio Grande do Sul, até então desconhecida”. Cumprida essa missão, Moa retornou à Bahia para dar continuidade aos trabalhos em sua terra natal.

Desde que foi chamado pelas forças astrais superiores para defender para defender os valores e a cultura de seu povo, Mestre Moa tem se esforçado por ser um facho que brilha sobre o mundo das culturas, cujo berço tem origem na Mãe África. Imbuído dessa missão, Mestre Moa segue pelo Brasil e pelo mundo desenvolvendo palestras, workshops e cursos no Brasil e no exterior, nos quais mostra as riquezas da cultura afro-brasileira.

Fui escrevendo essa introdução e, ao final, o texto ficou um pouco extenso. Dessa forma, resolvi dividi-lo em duas partes.

Na próxima postagem, apresento a entrevista propriamente dita.


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