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Luiz Seabra: Um filósofo no mundo dos negócios - Parte I

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:03
Sexta-feira, 19 de dezembro

Se avançar confiante na direção dos seus sonhos,
o homem terá um sucesso que não espera no dia-a-dia.
Se você construir castelos no ar,
não perderá o seu trabalho.
É aí que eles devem estar.
Apenas coloque alicerces sobre eles.

(Henry David – Ensaísta americano (1817 – 1862))




Era manhã do dia 18 de outubro deste ano. Eu estava em casa, tranquilamente, tomando meu café da manhã. O rádio estava sintonizado na CBN e eu ouvia o programa, Caminhos Alternativos. Este programa vai ao ar pela emissora citada, todos os sábados, em rede nacional, das nove às dez da manhã. É comandado pelas apresentadoras Fabíola Cidral e Petria Chaves, e discute diversos temas que favorecem o bem viver, o viver com qualidade.

Naquele dia, era apresentado uma edição especial, em comemoração aos 6 anos de existência do programa. Fiquei surpreso quando as apresentadoras anunciaram, na chamada das matérias, uma entrevista com Luiz Seabra, o fundador e membro do Conselho de Administração de uma das maiores empresas do país, do ramo de cosméticos: a Natura. Achei que um homem de negócios, bilionário, como Seabra, não tinha muito tempo para abrir as janelas dos horizontes da vida e sobre ela se debruçar com um olhar de sabedoria. A ideia que fazia era a de que ele apenas dormia e comia números, cálculos, planilhas e lucros.

Quando a entrevista começou, ouvi com atenção. O entrevistado falava umas coisas bonitas. Naquele momento, eu me senti transportado para os campos, sentado aos pés de uma árvore, ouvindo as sábias palavras de um mestre, que transmitia através de sua voz e de suas palavras, calma, serenidade, paz e dicas para se atravessar o turbilhão dos mares da vida de forma equilibrada.

Num momento em que vivemos uma economia em crise, nada melhor que buscar inspiração em pessoas que souberam galgar com amor e dignidade os degraus da vida.

Dividi o texto em duas partes. Sendo essa primeira parte, uma introdução, na qual relato alguns fatos acontecidos no ano de 1969 no Brasil e no mundo, para situar o nascimento da Natura, através da habilidade e sabedoria de seu fundador. Na segunda parte, compartilho com vocês, a entrevista concedida por Luís Seabra, ao Caminhos Alternativos, da rádio CBN.

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Luiz Seabra: 
Um filósofo no mundo dos negócios – Parte I




1969. O mundo cósmico e astral estava em polvorosa naquele ano. Forças do bem e mal deviam estar travando uma grande batalha, pois enquanto a terra fazia sua evolução em torno do sol até que se completasse o período de 12 meses, muitos fatos bons e ruins aconteceram nesse nosso humilde planeta, que por tanto tempo maltratamos e que agora começa a cobrar seu preço.

A Guerra Fria ainda se fazia presente tornando igualmente frio o coração dos líderes mundiais em um mundo dividido em blocos. A Guerra do Vietnã era uma realidade presente. Os norte-americanos estavam envoltos em intensos conflitos raciais.

Em fevereiro, ainda sob o peso e o horror da ditadura, os brasileiros viam baixar sob suas cabeças mais um dos terríveis e incômodos, Atos Inconstitucionais: O AI 7, que suspendia eleições para governadores e prefeitos.

Mas nem tudo eram más notícias em 1969. Muito pelo contrário, por todos os cantos do planeta, aconteciam fatos que se tornariam celebres e seriam escritos com letras de ouro nos livros de história da humanidade. Sem dúvida, o mais celebre deles foi à viagem do homem á lua. Um fato que, sem dúvida, impulsionou avanços científicos e tecnológicos, dos quais desfrutamos até hoje. Nos Estados Unidos acontecia, em agosto, o lendário sonho utópico de Woodstock. Mais tarde, em novembro, no Brasil, o rei Pelé enchia de orgulho os brasileiros ao marcar o seu milésimo gol. Surgiam grandes empresas e grandes empreendimentos. O mundo da informação recebia de braços abertos um dos maiores telejornais do país: O Jornal Nacional. Também naquele ano, a nação brasileira ganhava uma ponte essencial que uniria seus quatro cantos: A Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos.

Foi naquele agitado ano que um homem de seus vinte e cinco anos, cheio de amor e esperança no coração, às vésperas, e no dia da inauguração de sua pequena e modesta loja de cosméticos, na Rua Oscar Freire, em São Paulo, colocou-se em frente ao seu pequeno e modesto estabelecimento comercial. Tinha nas mãos uma rosa branca, que era oferecida com toda a simpatia a quem passasse pelo local, junto com uma breve mensagem, cujos dizeres eram os seguintes:

Pense em nós, nós pensamos em você.
Gostamos do mundo, dos dons da vida,  
da música, da amizade,
Do elo que nos une, 
da mística engrenagem dos momentos, 
aprendemos a força do amor.
Com amor, muito amor, nós fabricamos beleza.
Venha nos conhecer.

Esse homem cativante se chamava Luis Seabra e, ao “buraco na parede”, ele e seu sócio deram o nome de Industria e Comércio de Cosméticos G. Berjeaut, cujo objetivo era fabricar produtos de beleza, feitos com insumos naturais e vendidos a preços acessíveis.

Antonio Luiz da Cunha Seabra, não teve uma adolescência fácil, assim como não deve ter sido também sua infância. Começou a trabalhar aos quinze anos como calculista indireto, em uma gráfica chamada, Gráfica Siqueira, na qual também trabalhava seu pai. Recebeu melhor proposta de serviço e foi trabalhar na Remington, como “treinee” no departamento de pessoal. O seu desempenho e eficiência logo chamaram a atenção dos superiores e ele logo alcançou o posto de superintendente. Por essa época estava com 21 anos.

Aos vinte e cinco anos saiu da Remington e foi trabalhar em um pequeno laboratório de cosméticos e foi aí que essa atividade conquistou para sempre seu coração. Passados três anos nessa pequena empresa, resolveu alçar voo. Um voo de pássaro pequeno que logo se tornaria o voo de uma águia. Associou-se com um dos herdeiros do laboratório para fundar a pequena loja, à frente da qual estava distribuindo flores e uma acolhedora mensagem, como forma de tentativa de captação de cliente. Em 1970, a Industria e Comércio de Cosméticos G. Berjeaut, mudou de nome e passou a se chamar Indústria de Cosméticos Natura Ltda. Luiz Seabra cuidava da parte de relacionamento com os clientes e seu sócio cuidava dos demais detalhes da loja.

O novo empresário era diferente. Possuía uma luz que irradiava de si mesmo para os todos os que dele se aproximavam. O dom de negociar atravessava o bolso dos clientes e lhes tocava o coração. Sabia que todo resultado positivo dependia do bom relacionamento interpessoal. Percebeu que o ato de cuidar da pele ia muito além do simples cuidado e entrava na esfera da autoestima. Com sua sagacidade, logo percebeu que os produtos cosméticos tinham um grande potencial transformador que, se bem explorado, ainda lhe renderia muitas alegrias e dividendos.

Tomou a decisão certa ao adotar o sistema de vendas de porta em porta, através de consultoras — As vendedoras recebiam o nome de consultoras como forma de valorizar o aspecto profissional, delas mesmas e da empresa. Através de uma administração sólida e eficiente a empresa galgou os degraus do crescimento, tendo visto, na década de 80 o seu faturamento aumentar em 30 vezes. De lá para cá, a Natura tornou-se cada vez mais uma empresa forte, sendo reconhecida, inclusive, no mercado internacional.

Hoje, aquele moço que entregava flores, acompanhada de uma mensagem, com a finalidade de captar clientes para sua modesta loja na Oscar freire, figura na lista da Forbes, divulgada este ano, como o 828º homem mais rico do mundo.


Seabra é esse bilionário que torna a vida estressante do mundo dos negócios mais suave ao recitar poesia em reuniões, procurando sempre pautar suas atitudes e valores no pensamento de grandes filósofos. No início, ele era encarado como um sonhador, visionário e louco, mas quando sua filosofia de vida começou a se encaixar na escala de valores da empresa, passou-se do ceticismo ao respeito. "Incluir poesia, ou filosofia no mundo empresarial não é fácil, porque a gente pode parecer muito louco, e durante muitos anos foi assim que eu fui visto. A partir do momento em que você começa a ter êxito e aquilo se expressa na empresa, em valores de mercado, a poesia começa a ficar um pouco mais respeitada. Mas, de toda forma, isso não nasceu após o êxito, não. Isso me acompanhou, porque cada um de nós tem que buscar sentido nesse entardecer, e a filosofia sempre foi meu meio de buscar a divindade na nossa existência", diz ele em um matéria publicada no site, O Brasil que Vai Além.

Claro que esse jeito de viver não começou após o sucesso. Ele vinha sendo construído desde sempre. Pois, uma filosofia de vida não surge do dia para a noite, como se aparecesse num passe de mágica. Ela é edificada com bases em pensamentos bem fundamentados, bem formulados, e tão intrínsecos ao homem, que se tornam uma pele por debaixo da pele, são como o alimento que se come todos os dias. Alimentamos o corpo com alimentos e a mente com pensamentos. Se os alimentos que ingerimos são saudáveis, nosso corpo se desenvolve cheio de saúde, vitalidade, vigor, bem estar. O mesmo ocorre com os pensamentos com os quais abastecemos nossa mente: Se eles forem saudáveis nosso espírito se desenvolve cheio de harmonia interior, paz, sensibilidade e todas essas benesses que um espírito saudável experimenta.

Certa vez, quando tinha apenas 16 anos, o jovem Luiz Seabra se deparou com uma frase do filosofo grego Plotino. Dizia a frase: “É em virtude do Uno [unidade] que todas as coisas são coisas”. Ele não conseguiu compreender a profundidade dessas palavras naquele momento. Em parte, devido a sua pouca idade. Quando temos apenas 16 anos, geralmente, não costumamos pensar em coisas que são coisas, nem na unidade do Uno.

Curiosamente, aquela frase não o abandonou. Vez em quando, ela surgia nos seus pensamentos, como se estivesse a dizer, implorar: “Beba a minha essência”. Talvez, inconscientemente, tenha sido isso que aconteceu, pois, anos mais tarde, aquela frase de Plotino viria a se encaixar perfeitamente no jeito de ser da Natura. Na verdade, aquela frase, gravada no coração do empreendedor, assumiria ares de missão que, como pétalas de rosas perfumadas, se espalharia por todo o Brasil e pelo exterior.


Lançando um olhar sobre a história de Luiz Seabra, chego a conclusão de quem um homem forte é um homem de coração tranquilo sereno, que soube dominar a si mesmo, antes de comandar um império.

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