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Em Paris, UNESCO declara a capoeira Patrimônio Imaterial da Humanidade

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:17
Quinta-feira, 27 de novembro

Maior é Deus
Maior é Deus, pequeno sou eu
O que eu tenho foi Deus que me deu
O que eu tenho foi Deus que me deu
Na roda da capoeira
(Hahá!) Grande e pequeno sou eu
Camará…
(Mestre Pastinha)




Já se vão longe os tempos que em que a capoeira era considerada uma arte marginal e o capoeirista “persona non grata” na sociedade.

Hoje pela manhã, em Paris, o toque lamentoso do berimbau não era de tristeza, mas sim, de alegria. Do plano espiritual onde se encontram muitos dos mestres capoeiristas, os pioneiros nessa arte genuinamente brasileira, viram sua luta ser coroada de êxito e atravessando as fronteiras nacionais. Certamente, devem ter se regozijado de alegria.

Patrimônio Imaterial da Humanidade. Foi esse o título que a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) conferiu a Roda de Capoeira. A inscrição para o recebimento de título de tão alto gabarito e de grande importância, para o Brasil e para a capoeira, foi aprovada na manhã desta quarta-feira (26), durante a 9ª Sessão do Comitê Intergovernamental para a Salvaguarda, realizada em Paris.

Estiveram presentes ao evento na capital francesa, capoeiristas brasileiros, dentre eles os mestres; Sabiá, Peter, Cobra Mansa, Pirta, Paulão Kikongo. As mulheres capoeiristas estavam representadas na pessoa da mestra Janja. Além dos capoeiristas, estavam presentes também, membros do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional); Jurema Machado (Presidente) e Célia Corsino (Diretora).

O título de Patrimônio Imaterial vai muito além de um título importante para a Capoeira. Ele serve também para chamar a atenção do governo para este bem cultural, fazendo com que eles coloquem na sua lista de prioridades, a preservação de seus bens culturais, destinando verbas  e desenvolvendo políticas públicas que garantam a preservação dessas atividades. “O reconhecimento representa um tributo à capoeira como manifestação cultural importante, que durante séculos foi criminalizada, além de dar visibilidade internacional. Além disso, reconhece que o Brasil tem políticas públicas para cuidar do seu patrimônio cultural”, afirmou a presidente do Iphan, Jurema Machado, em entrevista à Agência Brasil.

No dossiê de candidatura, o Iphan enumerou uma série de ações para difundir a modalidade e propôs medidas de salvaguarda orçadas em mais de R$ 2 milhões, como a produção de catálogos e encontros. O documento destaca que o registro vai favorecer a consciência sobre o legado da cultura africana no Brasil e o papel da capoeira no combate ao racismo e à discriminação. Lembra, além disso, que a prática chegou a ser considerada crime e foi proibida durante um período da história. Hoje, a capoeira é praticada em muitos países”, diz reportagem da Agência Brasil.

Em 2008, a capoeira já havia sido declarada pelo Iphan, Patrimônio Imaterial Brasileiro. A honraria brasileira concedida à capoeira aconteceu no dia 15 de julho daquele ano, no Palácio Rio Branco, em Salvador. Na ocasião, foram organizados na capital baiana, berço da capoeira, eventos culturais e a realização de rodas de capoeira por toda a cidade.
Nascida sob o signo da opressão, nas senzalas do Brasil colônia, a capoeira tornou-se símbolo de luta, resistência, liberdade e solidariedade. Uma roda de capoeira é algo como um ritual. Não se forma de qualquer jeito. Há todo um respeito pelo passado, pela tradição, pelos ancestrais que, com muita inteligência, malícia, mandinga, fortaleza e coragem construíram as bases de um misto de luta, dança e esporte tão arraigado à cultura nacional.

"Quando eu tinha 18 anos eu não pude entrar na capoeira porque minha mãe não queria capoeirista em casa. E hoje eu queria que ela estivesse viva para ter, para ver esse prazer que a gente está tendo hoje", afirmou Edilson de Jesus, mestre de capoeira, em entrevista ao Jornal Nacional.

Esse modo negativo de ver a capoeira, com certeza, não ocorria apenas na casa de Edilson. Em muitos lares brasileiros, por muitos anos, falar de capoeira era um tabu, praticar a arte da capoeira, nem pensar. Isso era coisa de vagabundos. Esse foi o pensamento que vigorou na sociedade brasileira por muitos anos. O mundo do esporte, em especial o mundo dessa arte tão bela e tão mística, fica duplamente feliz: por um erro reparado e por um preconceito superado. Triunfante, a capoeira está presente hoje em mais de 160 países.

Com esse título simbólico, mas de grande importância para a preservação de um bem cultural, gerado na África e criado no Brasil, a capoeira se junta à lista de outros quatro bens Imateriais da Humanidade, no Brasil:

Samba de Roda do Recôncavo Baiano (BA) – Uma rica e alegre expressão musical, coreográfica e poética que resgata tradições culturais que, por sua vez, foram transmitidas pelos africanos trazidos da África na condição de escravos. O samba de roda, nascido na Bahia, misturou elementos da cultura africana com elementos da cultura portuguesa deixando o ritmo ainda mais brasileiro.

Arte Kusiwa- Pintura Corporal e Arte Gráfica Wajãpi (AP) – Sistema de representação gráfica criada pelos índios Wajãpi, do estado do Amapá. Através dessa arte os indígenas sintetizam sua concepção e conhecimento do universo.

Frevo (PE) – Autêntica expressão do carnaval do Recife. Surgida no final do século XIX, em Pernambuco, tornou-se uma das mais ricas manifestações culturais brasileiras.


Círio de Nossa Senhora de Nazaré (PA) – Celebração religiosa realizada no estado do Pará e que reúne milhares de fieis todos os anos. A festa religiosa reúne devotos e turistas do Brasil e do exterior. O clímax da festa é a procissão do Círio, que ocorre no segundo domingo de outubro. Sem dúvida, um momento de rara beleza e de grande fé.

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