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Canção do Africano

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:36
Quarta-feira, 12 de novembro



Estamos no mês da Consciência Negra. Mês que, em todo o país, se torna momento de reflexão e debate sobre o papel do povo negro na sociedade, de discussão e de propostas de ações afirmativas em relação a essa parcela da população, bem como celebrações de sua música, arte e cultura que é a base de toda a música, arte e cultura brasileira. O ápice dessa festa ocorre no dia 20 de novembro, quando diversas cidades brasileiras decretam feriado.

Não quero usar a expressão “raça” negra neste texto, pois o termo raça no sentido de classificar as pessoas pela cor da pele, do cabelo, das características cranianas, é uma classificação das elites econômicas, a fim de justificar uma dominação de um povo sobre outro. Todos os homens são iguais. Mas se todos os homens são iguais, como vamos justificar a escravidão? Basta criar a ideia de raça para justificar que todos os homens são iguais, porém, uns se sobressaem aos outros. Dessa forma, estão formados os argumentos para que se justifique a dominação de um povo sobre outro. Foi assim que se aconteceu durante o sistema econômico mercantil, cuja base, estava assentada sobre o sistema escravista. Assim, também, de alguma forma, esse conceito é justificável e aplicável no mundo atual, tornando uns inferiores aos outros. 

Na verdade, não existem “raças” humanas. Existe, sim, uma grande família humana que chora, que ri, que se alegra, que se entristece, que sonha, que perde a ilusão aqui, para logo recuperá-la ali. Existe, sim, uma grande comunidade humana formada pelos mesmos tecidos, órgãos, células e ossos.  Se o sangue que corre nas veias de um negro fosse diferente do sangue que corre nas veias de um branco, então poderíamos dizer que os homens são diferentes. Mas, dizes-me tu: O sangue que corre nas veias dos dois homens é diferente? Se a composição do sangue que corre na veia dos dois são diferentes, diz-me em que consiste essa diferença?  Então como pode-se dizer que um é melhor ou pior que o outro? Olha para dentro de ti mesmo. Analisa tu mesmo, tuas atitudes, teus pensamentos e julga-te a ti mesmo em teu universo. Verás que és tu, na imensa maioria das vezes, teu próprio juiz e teu próprio carrasco.

Abaixo, compartilho como vocês o belo poema “A Canção do Africano”, de autoria de Castro Alves, poeta da escola romântica, que por sua poesia social feita a partir de uma abordagem romântica, passou a ser conhecido como Poeta dos Escravos. Castro Alves nasceu na Bahia, porém, cursou Direito em São Paulo.

No poema, o poeta nos convida a entrar na fria e úmida senzala e presenciar o sentimento dos cativos, sempre saudosos da África, sua terra natal, da qual foram brutalmente arrancados e trazidos para uma terra distante, que apesar de bela, não os fazia esquecer por completo a terra onde nasceram. São tais quais árvores arrancadas de suas raízes e transplantadas em solo estrangeiro.

Eles cantam, mas seu canto é triste. Traduzem uma África onde eram livres e na qual, eles podiam, à tarde, ver a Papa-Ceia, o equivalente em solo africano a nossa Estrela-D’alva, ou planeta Vênus. Sob a tênue luz da úmida senzala, sem direito a sonhar, ainda pairava sobre eles o medo de que o patrão lhes tirasse aquilo que de mais precioso tinham: O próprio filho recém-nascido.

***




A canção do africano
Castro Alves


Lá na úmida senzala,
Sentado na estreita sala,
Junto ao braseiro, no chão,
Entoa o escravo o seu canto,
E ao cantar correm-lhe em pranto
Saudades do seu torrão ...
De um lado, uma negra escrava
Os olhos no filho crava,
Que tem no colo a embalar...
E à meia voz lá responde
Ao canto, e o filhinho esconde,
Talvez pra não o escutar!

"Minha terra é lá bem longe,
Das bandas de onde o sol vem;
Esta terra é mais bonita,
Mas à outra eu quero bem!

"O sol faz lá tudo em fogo,
Faz em brasa toda a areia;
Ninguém sabe como é belo
Ver de tarde a papa-ceia!
"Aquelas terras tão grandes,
Tão compridas como o mar,
Com suas poucas palmeiras
Dão vontade de pensar ...
"Lá todos vivem felizes,
Todos dançam no terreiro;
A gente lá não se vende
Como aqui, só por dinheiro".
O escravo calou a fala,
Porque na úmida sala
O fogo estava a apagar;
E a escrava acabou seu canto,
Pra não acordar com o pranto
O seu filhinho a sonhar!

O escravo então foi deitar-se,
Pois tinha de levantar-se
Bem antes do sol nascer,
E se tardasse, coitado,
Teria de ser surrado,
Pois bastava escravo ser.
E a cativa desgraçada
Deita seu filho, calada,
E põe-se triste a beijá-lo,
Talvez temendo que o dono
Não viesse, em meio do sono,
De seus braços arrancá-lo!


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