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A derrubada de um muro e milhões de sorriso de liberdade

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:10
 Domingo, 09 de novembro

O texto a seguir é uma homenagem aos 25 anos da queda do Muro de Berlim.

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“Liberdade, liberdade!
Abra as asas sobre nós
E que a voz da igualdade
Seja sempre a nossa voz”

Esses versos não foi eu que escrevi, mas gostaria de tê-los escrito. O profundo significado escondido nos versos acima,  fazem parte de um conhecido samba-enredo da escola de samba Imperatriz Leopoldinense, do Rio de Janeiro, chamado, Liberdade, Liberdade, Abre as Asas sobre Nós, e são de autoria de Preto Jóia , Niltinho Tristeza , Vicentinho , Jurandir.

A dança de um beija-flor em volta das flores; uma flor nascendo no jardim; poder apreciar um belo por de sol na praia, no campo ou na cidade, sem sentir as amarras da opressão, tudo isso, e muito mais, é liberdade.

É impossível descrever a emoção que tomou conta do Brasil na tarde do dia 13 de maio de 1888, há 126 anos, quando Joaquim Nabuco — diante da presença da Princesa Isabel, que havia assinado a Lei Áurea, poucos minutos antes  — da sacada do Paço Imperial, anunciou à multidão esperançosa que ali se reunia para ouvir o tão sonhado comunicado, que a partir daquele dia, no Brasil não haveria mais escravidão. Quanta euforia, quanto sorriso nos lábios... Quanto brilho nos olhos... E esperança no coração?! Da luta pela abolição, pelo sonho da liberdade, participaram pobres, ricos, negros, brancos, letrados e analfabetos. Todos deram sua parcela de contribuição para essa nobre causa. Aquela altura, e já com certo atraso em relação a outras nações, a sociedade brasileira compreendia que, com amarras nos pés e nas mãos, o homem não se desenvolve, o país não caminha para frente. Naquele dia, foi dado um basta a sistema cruel que vigorou no Brasil por mais de 300 anos. É uma pena que, depois de tantos anos dessa festa maravilhosa, não se tenha matado o danoso vírus do preconceito que ainda vigora em todos os recantos do país.


Visitando as páginas mais recentes da historiografia brasileira, vemos quantas lágrimas foram derramadas, quantas vidas foram ceifadas e quantos ideais foram calados desde que os militares assumiram o poder, no ano de 1964.  Em fins da década de 60 e início da década de 70, o Brasil era tal qual um jardim florido, formado por flores de variadas matizes no campo da cultura, da política, da economia, da música, das artes, da educação, dentre outras. Em meio a esse belo cenário surgiu à mão opressora do regime militar e as flores foram murchando por si próprias. As que insistiam em crescer em terreno pedregoso e cheio de espinhos tinham suas vidas imediatamente ceifadas. Os lábios que ainda insistiam em cantar canções de protestos eram silenciados nas masmorras da ditadura... Ou eram enviados, em exílio, para longe da terra natal... Mas como diz Gonçalves Dias, em Canção do Exílio, as aves que gorjeavam por lá, não gorjeavam como as daqui. No exílio, o carrasco era a saudade. No Brasil, as mãos que escreviam manifestos pela liberdade e pela democracia eram decepadas. Tristes dias aqueles, dos quais não temos a menor saudade.

Ah, Deus, com quanta alegria e esperança o povo saiu às ruas do país, exigindo, gritando, implorando por um bem tão caro a qualquer sociedade: Democracia. Era a campanha pelas eleições diretas, a qual se chamou Diretas Já. Quanto alívio depois que tudo isso passou, em 1985...

Saindo um pouco dos céus do Brasil. Vamos à Alemanha...


Quem ainda não ouviu falar do sombrio e nefasto Partido Nazista, comando pelo tirano Hitler e idealizado por ele na década de 20? Com belos discursos ideológicos, dizia-se por lá que o objetivo da criação do partido era resgatar a dignidade política da Alemanha e reviver o passado glorioso do povo alemão.  Todas essas palavras foram bem construídas por quem sabia muito bem como manipulá-las, levou a construção do “Terceiro Império” (Terceiro Reich). O mal, enfim, triunfa em 1933, quando Hitler assume de fato o poder. Hitler odiava os judeus e atribuía a eles os maus momentos pelos quais a Alemanha havia atravessado. Aproveitando-se de uma bem sucedida campanha de marketing e propaganda nos seus avessos, o “fürer” disseminou o sentimento antissemita por todo o país, além de espalhar o sentimento racista ao sustentar a superioridade do homem branco sobre as demais raças. — Hoje, quando vejo alguém se declarar racista, logo penso: “Eis um verdadeiro discípulo de Hitler.” —Quanta agonia o povo Judeu suportou no cativeiro, nos campos de concentração? Seis milhões de pessoas, uma quantidade assombrosa de gente morta naqueles campos infernais. Que Deus tenha piedade de suas almas! Que alívio para os alemães e, principalmente para os judeus, quando, no dia 08 de maio de 1945, a Alemanha rendeu-se, incondicionalmente, acabando dessa forma com a 2a Guerra Mundial e, por consequência, possibilitando a derrocada do nazismo. Era o “Dia da Libertação”.

Quando o mundo achava que, após a guerra, o mundo caminharia para a paz e a tranquilidade, enganou-se completamente. Apreensivo, o mundo viu os alemães também viverem seus dias de opressão...



Em uma de suas pregações, Jesus Cristo disse que um reino dividido não pode permanecer de pé, igualmente uma casa dividida não pode permanecer de pé. O mesmo vale também para uma nação e para o mundo compreendido de uma forma total. Foi o que aconteceu na Alemanha com a construção do Muro de Berlim. Naquela época, o mundo estava divido em dois blocos: Bloco Ocidental, liderado pelos Estados Unidos e Bloco Oriental, liderado pela União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). De um lado o capitalismo e, do outro, o comunismo. Era uma guerra fria que deixava o mundo gelado... E assustado! Nessa paisagem nebulosa foi construído, em 1961, um extenso muro, separando as Alemanhas Ocidental e Oriental. A obra, com 156 km de extensão, ficou conhecida em todo o mundo como Muro de Berlim. Lançando um olhar mais criterioso por sobre o muro, não é difícil imaginar que ele não dividiu apenas um país: Dividiu também famílias, amigos, ideias, vida feliz. A polícia estava sempre de prontidão para impedir que pessoas tentassem atravessar os lados da “fronteira”. As cercas eletrificadas também eram um forte empecilho. Entretanto, muitas pessoas burlaram essa proibição e pularam o muro. Muitas delas morreram nessa “travessia”.

De nada adiantaram os protestos contra a construção da incomoda obra, feitos pelas cerca de 300.000 pessoas, em frente ao em frente do Schöneberger Rathaus, em Berlim Ocidental. De nada adiantou, pois os alemães tiveram que conviver com a realidade do fantasma de pedra até 1989. O Muro de Berlim começou a ser derrubado em 09 de novembro de 1989. Muitas pessoas fizeram questão de dar sua parcela de contribuição, pegando martelos e marretas e destruindo, simbolicamente, com as próprias mãos, partes do maldito muro.

Os alemães fizeram questão de preservar essas dolorosas cicatrizes deixando marcada no asfalto a trilha por onde o muro passava. Também, partes dele continuam expostas em alguns trechos, como a lembrar à Alemanha e ao mundo de que divisões: Nunca mais.

Por estes dias, especialmente neste domingo, o povo alemão comemora a cura dessa cicatriz que tanto sofrimento trouxe ao povo de um mesmo país, separados por um muro de concreto. Hoje, em comemoração, ao invés de muros de concreto, foram alinhados oito mil balões pela trilha onde passava o muro. À noite, iluminados, esses oito mil balões lembram aos alemães e ao mundo de que a liberdade é uma força poderosa e que a divisão, seja ela de qual natureza for, lança o mundo e os homens na mais tenebrosa das trevas.

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