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Uma polêmica cerimônia de casamento em Santana do Livramento, no Rio Grande do Sul

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:48
Terça-feira, 16 de setembro



Em épocas medievais que já se fazem longinquas, pessoas eram perseguidas, julgadas, condenadas e punidas simplesmente por pensarem diferente do que se considerava o pensar o mundo de forma tradicional. O castigo era tremendamentte severo para quem ousasse desafiar as normas de conduta e o modo de enxergar o mundo, vigentes à época. O Santo Ofício — Instituição formada pelos tribunais da Igreja — era implacável. A pena mais branda era a ex-comunhão. Felizes daqueles que eram apenas e tão-somente ex-comungados.

Milhões de inocentes tiveram seus bens confiscados, outros foram presos, torturados. Quantas vidas inocentes foram ceifadas nas fogueiras da Inquisição! Por essas e outras, esse período da história da humanidade é chamada de Idade das Trevas.

O trágico é que esse demonio da intolerância vive como um vulcão adormecido e, em alguns períodos da história humana, renasce e tornar a lançar larvas ardentes queimando e destruindo tudo em volta. Renasceu na Alemanha de Hitler, renasce agora no chamado, Estado Islâmico, renasce em pequenas e grandes cidades, sempre em corações pequenos. O solo fértil para esse tipo comportamente nocivo nasce e renasce, principalmente, naqueles que ainda vivem na Idade das Trevas.

Quando o Centro de Tradições Gaúchas (CTG), foi incendiado na madrugada de quinta-feira (11) e as línguas de fogo devoraram o prédio, na cidade de Santana do Livramento, segundo maior município do Rio Grande do Sul, veio-me à mente às lembranças — lembranças estas, adquiridas nos livros que li e nos filmes à que assisti — das fogueiras da Inquisição. Os bombeiros conseguiram controlar as chamas por volta das 3h da madrugada. O fogo, apesar de ter destruído o CTG, não lhe danificou a estrutura, sendo possível, em pouco tempo, reconstruí-lo.

Santana do Livramento possui um clima abençoado, propício ao cultivo de frutas, principalmente, uvas, das quais são extraídas, vinhos deliciosos. Vinho este que, por sua vez, é consumido avidamente pelo mercado nacional, mas, antes de entrar no motivo do incêndio, gostaria de falar um pouco a respeito dos CTGs. Os gaúchos são um povo muito tradicionalista e fervorosos defensores dos costumes e da cultura da região. Nisso está implícito a ideia de manter vivo o legado de gerações passadas. Por tal tradicionalismo, os gaúchos se diferenciam um pouco dos brasileiros dos demais Estados da federação.

Para manter viva a chama da tradição, os gaúchos organizaram Centros de Tradição que se espalharam por vários Estados do país. O Rio Grande do Sul é o celeiro desses templos erigidos em honra da tradição. Nesses espaços os nativos do Rio Grande cultivam a música, a dança e as vestimentas que lembram os primeiros imigrantes, principalmente alemães e italianos, que chegaram e habitaram o Sul do Brasil, dentre outros costumes.  

Disto isto, vamos à causa do incêndio, e nela temos ainda mais fogo. A corajosa juíza, Carine Labres, realizou em março deste ano, um casamento comunitário, no Fórum da cidade de Santana do Livramento, em março deste ano. Dentre os casais, duas mulheres, Mariana da Silva Maciel, 28, e Daniela dos Santos Rodrigues, 24, que assumiu o sobrenome Maciel, celebraram a união. Houve que fizesse cara feia e criticasse o evento, mas sem maiores debates e problemas, as duas mulheres seguiram vida normal após a realização da cerimônia.

Surgiu na mente de Carine, uma ideia. Haveria outra cerimônia de casamento comunitário, novamente com a presença de casais gays. Por que então, não realizá-lo em um Centro de Tradições Gaúchas? A juíza abriu as inscrições para casais que quisessem participar do evento, inclusive, casais homossexuais, se houvessem e estivesse disposto a assumir o compromisso. À época, 22 casais se inscreveram, inclusive, dois pares de mulheres. A data do casamento? Durante a Semana Farroupilha, celebrada entre 14 e 20 de setembro. A data faz referência a mais longa das revoluções brasileiras, cujo lema era: liberdade, igualdade e humanidade. Não havia data mais propícia que esta para celebrar a união de pessoas do mesmo sexo, pensou a juíza. O local do casamento? O CTG Sentinelas do Planalto.

Foi aí que começou a queda de braço. Onde já se viu celebrar união de pessoas do mesmo sexo em um lugar que representava o gaúcho viril e destemido? Os mais tradicionalistas fincaram pé. Em um CTG não se realizaria casamento gay. Se quisessem casar, que casassem em outro lugar.

A juíza, por sua vez, não abria mão. O casamento teria de se realizar no CTG. Para ela, tradicionalismo não tinha nada a ver com preconceito. As duas questões eram barcos que navegavam em águas diferentes.

Diante de tanta polêmica, um casal de lésbicas desistiu do casamento, com medo de represálias.

A juíza, Carine Labres foi ameaçada de morte. O patrão do CTG, Gilbert Gisler — uma espécie de administrador — também foi ameaçado de morte. Porém diante de toda essa polêmica e confusão, a juíza não cedeu: o casamento seria realizado no sábado (13) no Centro de Tradições, e com direito a muita música, churrasco e festejos, como em todas as outras festas tradicionais.

Na quinta-feira (11), o prédio foi criminosamente incendiado, e como não havia mais tempo hábil para a reconstrução, o casamento aconteceu mesmo, no Fórum da cidade, na tarde do último sábado (13).  Vinte e oito casais participaram da cerimônia, inclusive as duas lésbicas. O clima de tradição gaúcha foi preservado, com homens e mulheres trajando vestes tradicionais usadas nos festejos e comemorações sulinas. Completando os adornos da festa, havia bandeiras coloridas do movimento LGBT.

Por volta da 16h15min, ao som da bela música, Céu, Sol, Sul — cujo refrão diz: “É o meu Rio Grande do Sul céu, sol, sul terra e cor / Onde tudo que se planta cresce o que mais floresce é o amor / É o meu Rio Grande do Sul céu, sol, sul terra e cor / Onde tudo que se planta cresce o que mais floresce é o amor” — a juíza, Carine Labres e o patrão do CTG, Gilbert Gisler, entraram no salão do Fórum. Terminada a execução desse hino ao Rio Grande do Sul, foi entoada a marcha nupcial e os sorridentes casais entraram. Por fim, radiantes, Solange Ramires, 24 anos, vestida de noiva e Sabriny Benites, 26 anos, trajando smoking, entraram no salão, sendo intensamente aplaudidas.

Várias autoridades estiveram presentes ao Fórum, inclusive a ministra dos Direitos Humanos, Ideli Salavati e o desembargador José Aquino.

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