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Um novo espaço para a Escola de Capoeira Angola Resistência

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:43
Domingo, 07 de setembro




— Olá! Como vai?
— Eu vou indo. E você, tudo bem?
— Tudo bem! Eu vou indo, correndo pegar meu lugar no futuro… E você?
— Tudo bem! Eu vou indo, em busca de um sono tranquilo… Quem sabe?
— Quanto tempo!
— Pois é, quanto tempo!
— Me perdoe a pressa, é a alma dos nossos negócios!
— Qual, não tem de quê! Eu também só ando a cem!


***
Acho perfeita essa música, Sinal Fechado, do Chico Buarque. Ela ilustra muito bem a alma do homem moderno toda feita de pressa e correria. Mas é bom quando a gente encontra, mesmo em meio à correria da vida, pessoas que a gente gosta e admira.

Chico é um gênio. Na letra dessa música ele relata o encontro de duas pessoas que se encontra em uma rua ou avenida de uma cidade qualquer. Enquanto esperam o sinal abrir, dando passagem aos pedestres, os dois personagens travam um breve diálogo. Depois o sinal fecha para os carros, abre para eles e cada um segue seu caminho.

Foi mais ou menos o que aconteceu comigo e o mestre Topete. Estava eu na terça-feira (02), por volta do meio dia e meia, no cruzamento entre as movimentadas avenidas Francisco Glicério e Moraes Salles, quando se o mestre Topete se aproximou de mim.

— Sábado (06), vamos inaugurar um novo espaço, aparece por lá, disse ele.

— Ok. Vou aparecer, sim, respondi.

O sinal abriu e fomos cada qual para o seu lado. Enquanto íamos a direções opostas ainda tivemos tempo de altear a voz para finalizar o dialogo:

— À que horas começa? Perguntei.

— Começa as dez e termina ao meio dia, respondeu ele, já quase chegando ao outro lado da rua.

Mestre Topete é um mestre capoeirista aqui na cidade de Campinas e região. O novo espaço a ser inaugurado fica no Terminal Central de Campinas.

***



.
Sábado pela manhã as artificiais luzes dos postes de iluminação das vias públicas começavam a se apagar... Os raios do sol chegavam, timidamente por sobre a cidade... As ruas da cidade começavam novamente a encher-se de gente... Os ônibus que fazem o transporte público foram chegando ao Terminal Central de Campinas... Os automóveis começaram a transitar pelo viaduto Miguel Vicente Cury... E tudo enfim, voltou à velha e nova rotina de todos os dias.

Fazia frio, mas aos poucos ele foi sendo expulso pelo calor do sol, que foi chegando devagarzinho. Os ponteiros do relógio avançaram e o dia se fez pleno de luz e alegria.

As pessoas acorreram às bancas da feira livre de frutas e verduras que funciona no embaixo do viaduto. Os capoeiristas também foram chegando aos poucos. Afinal, era ali a roda de Capoeira. Aquele era o lugar onde o Mestre Topete receberia seus amigos e convidados para a inauguração do novo espaço da Escola de Capoeira Angola Resistência. A expectativa era grande. Aos poucos foram chegando mestres de capoeira de outras escolas, juntamente com seus discípulos. Eram aguardados também para o evento, Mário Dino Gadioli, diretor presidente do CEASA, Gabriel Rapazzi, diretor cultural de Campinas, Maria Cecília Campos e o Coletivo Salvaguarda da Capoeira de Campinas.


Era a realização de um sonho. Após dez anos de trabalho no Terminal Central de Campinas a Escola de Capoeira Angola Resistência, de mestre Topete, ganhava um espaço maior e melhor, ao lado de sua antiga escola, que foi transformada em uma loja onde se vendem produtos relacionados à arte da capoeira.

Tive que atender a outros compromissos e cheguei um pouco tarde ao local: por voltas das onze e meia da manhã. Encontrei a roda já formada e fiquei observando e absorvendo todo o Axé que dela emanava. Achei o lugar perfeito para uma roda de capoeira, em meio ao coração da agitação da cidade, a roda possuía a paz de um templo em oração. 

Um olhar atento à fisionomia dos presentes me trouxe a sensação de que a capoeira é uma arte que traz felicidade, luta que traz segurança e uma dança que deixa livre o espírito.

Ajoelhados aos pés do berimbau mestre, os capoeiristas parecem filhos a pedir a benção do pai para mais uma luta, e se entregam a ela com concentração e devoção, misturando, à alma do guerreiro, à malícia e a ginga do malandro. É um jogo fascinante. O capoeira é um guerreiro diferente. Ele luta, não para agredir, mas para defender-se. Essa é a sua arma principal: a defesa. O escudo usado por eles: o autocontrole. Um capoeirista descontrolado é qualquer outro lutador, menos um capoeirista. Para compreender a alma da capoeira é preciso mergulhar na tradição, debruçar-se nas águas do rio do passado, e nele saciar-se como um viajante sedento no deserto à procura de um gole d’água.





Um capoeira que se preze tem sempre os olhos no futuro, sem deixar de olhar para o passado. Passado esse que se faz presente nas ladainhas, corridos e chulas, músicas que dão harmonia e ritmo ao jogo. Nesses cânticos, sempre há reverências aos mestres, e à tradição. Enquanto isso, o berimbau, soberano, faz a ponte entre passado e presente, traduzindo de forma perfeita a alma da capoeira: um toque forte, porém, sereno e harmonioso.

Terminada a apresentação da roda de capoeira, por volta de 1h30min da tarde, isso não representou, necessariamente, o fim da festa, mas, talvez, o início dela. O público presente caminhou mais alguns metros e chegou às novas instalações da Escola de Capoeira Angola Resistência. O clima era de confraternização, de irmandade, de camaradagem. Fiquei pensando: “Quem dera que a sociedade fosse uma roda de capoeira. com certeza o mundo seria bem mais alegre e mais humano”.





Não pude ficar muito mais tempo, participando da festa, pois ainda tinha que ir para o ensaio do Coral PIO XI. Despedi-me de um mestre Topete feliz, não apenas pelo o novo espaço, mas pela felicidade de um homem que encontrou seu caminho na vida e consegue dividir essa alegria com os amigos.

Fui embora, mas deixei para trás os capoeiristas em festa. No decorrer da tarde ainda seria servido um coquetel comemorativo, apresentação do Afoxé Ibaô e mais Roda de Capoeira Angola.

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