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O Direito Desportivo nacional e internacional, no centro do debate, em Campinas

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 12:56
Sábado, 27 de setembro

À esquerda, André Heller e, à direita, Kid
Fazia uma noite agradável em Campinas, quinta-feira, dia 18 deste mês. Um clima propício para a discussão de ideias e temas motivadores, relacionados ao Direito Desportivo. Enquanto os dois palestrantes se dirigiam ao palco, o telão montado no palco começou a mostrar imagens da carreira dos dois grandes atletas: os ex-jogadores da seleção brasileira de Vôlei, André Heller, campeão Olímpico de Vôlei e Gilmar Nascimento Teixeira, mais conhecido como Kid, campeão da Liga Mundial de Vôlei. A música ajudava a embalar o clima de vitórias vividas pelos dois jogadores. Eles chegaram à mesa fizeram as apresentações de praxe, saudaram a plateia e a palestra começou:

Quando nós estávamos nos dirigindo ao palco, Daniel falou nossos currículos, nossos títulos, nossas medalhas... Obviamente nós ficamos muito orgulhosos disso, mas eu costumo dizer que as medalhas, os títulos, são bonitas. Eu deixo na parede de casa e mostro para as pessoas, mas o verdadeiro legado é o processo pelo qual nós passamos através do esporte.”

Enquanto André Heller, ex-jogador da Seleção Brasileira de Vôlei falava, olhei em redor. O teatro estava cheio de pessoas atentas ao que estava sendo dito e na expectativa do que viria a ser dito. O público, em sua grande maioria, era formado por advogados brasileiros e estrangeiros.



Neste ponto do texto, abro um parêntese a fim de situar o leitor acerca do local e do evento. Estávamos na I Conferência Internacional de Direito Desportivo Comparado e II Simpósio de Direito do Trabalho Desportivo, realizado entre os dias 18 a 20 deste mês. O evento foi organizado pelo Dr. Leonardo Andreotti Paulo de Oliveira, Presidente da Comissão de Direito Desportivo da OAB/Campinas e Diretor do IBDD, e também pela Dra. Ana Paula Pellegrina Lockman, Desembargadora Federal. O local escolhido para o evento foi o Teatro do Centro Universitário Salesiano de São Paulo (UNISAL) – Campus Liceu de Campinas.

Durante os dias do evento, Especialistas em Direito Desportivo de diversos países, brindaram o público com muito conhecimento técnico, compartilhando experiências e estudos realizados em seus países de origem sobre o Direito Desportivo. Além desses, foram convidados a falar ao público, grandes personalidades do meio jurídico brasileiro, como por exemplo, o Ministro do Tribunal Superior do Trabalho (TST), Guilherme Caputo Bastos e Alexandre de Souza Agra Belmont e também juízes, desembargadores, e presidentes de associações representativas do desporto nacional e internacional.

Compondo a mesa no centro do palco, inaugurando o início dos trabalhos, estava o professor Daniel Rebello, Mestre em Educação e professor do UNISAL, mediador do debate naquela noite, ladeado por André Heller e Gilmar Nascimento Teixeira (Kid).



Fecho o parênteses que havia aberto antes e volto ao discurso de André Heller.

André falou de sua experiência no esporte, relembrando os tempos iniciais de sua carreira. Gaúcho de Novo Hamburgo, sempre foi apaixonado pelo Vôlei. O seu sonho era entrar para o time da escola na qual estudava. Certo dia, contou ele, dirigiu-se ao professor e pediu: “Professor, quero muito fazer do time da escola”. O professor olhou para ele, com muita “delicadeza”, falou: “Não dá, tu é muito ruim”. As palavras do treinador caíram sobre o pré-adolescente como um balde de gelo. Por dois motivos em especial. Primeiro, a paixão pelo Vôlei e, segundo, porque ele asmático, e via no esporte uma maneira de melhorar sua condição física. Assustado, ele se questionou: “Vou deixar o treinador decidir meu futuro?” “Não. Não vou deixar que ele decida meu futuro, muito menos dizer o que eu posso e o que eu não posso fazer. Vou entrar para o Vôlei de um jeito ou de outro”.  

Não dizem que quando Deus fecha uma porta abre outra. Pois, bem. Logo em seguida, surgiu na vida do jovem, uma oportunidade de fazer uma peneira na Sociedade Ginástica Novo Hamburgo. Entre André e o Vôlei nasceu uma paixão. Passou a se dedicar por inteiro ao esporte. Treinava com regularidade e começou a compreender mais a fundo, a filosofia do esporte e dos valores que ele representa. Disciplina, dedicação e garra passaram a fazer parte de sua vida. “Vi no esporte uma oportunidade de me desenvolver, não só como atleta, mas como ser humano”. O esportista ressaltou ainda que o que mais lhe chamou atenção nos primeiros anos foi justamente, a garra, a paixão pelo praticar esportes e a ele se dedicar de corpo e alma. Entretanto, em qualquer atividade, ninguém nasce sabendo, ao contrário, o campeão vai se fazendo aos poucos, dia a dia. Foi assim com André. Quando a bola caia perto dele, o técnico da equipe chegava para ele e falava: “André, vai na bola. Tem que ter tesão para ir na bola”.  “Eu com 14 anos, não entendia nada de bola e muito menos de tesão. Era difícil ele verbalizando desta maneira, eu entender”, disse André.

Porém, acredito que quando a gente quer muito uma coisa, o destino vai colocando luzes à nossa frente para iluminar nosso caminho e ajudar na realização do sonho. Uma dessas luzes colocadas no caminho de André foi Antônio Carlos Aguiar Gouveia, mais conhecido como Carlão Gouveia. Carlão era capitão da equipe que conquistou a primeira medalha de ouro do Vôlei brasileiro, nos Jogos Olímpicos de 1992, na cidade de Barcelona.

Em 1993, André conquistou uma vaga em seu primeiro time profissional, o FrangoSul Ginástica. Foi lá que ele conheceu Carlão. Imagina a alegria do fã que, de repente, passa a jogar ao lado do ídolo. Não apenas jogar, mas ter a oportunidade de fazer o aquecimento, fazer o bate bola dois a dois, com ele. Ávido por aprender, o jovem passou a observar cada movimento do ídolo. “Eu tive o prazer de jogar com ele no primeiro time profissional, e eu aquecia com ele, eu fazia o bate bola dois a dois eu fazia com ele. Eu percebia que ele já campeão olímpico, melhor jogador do campeonato italiano, um dos melhores jogadores do mundo, fazia a atividade, ia na bola, como se jogar fosse o ar que ele respirava. Eu falei ‘caramba’, eu quero isso para mim”, ressaltou André.

Em 1994, o FrangoSul, disputou Super Liga. No jogo que decidiria o título, Carlão torceu o pé. Ficou fora da quadra, muitos achavam que ele não tinha mais condições de jogo. Entretanto, contrariando a todos, Carlão enfaixou o pé, voltou à quadra, jogou mais dois sets e ajudou a equipe e conquistar o título. Comemoraram ainda na cidade de São Paulo, depois pegaram um voo para o Rio Grande do Sul. Ao chegar a Novo Hamburgo, uma multidão os aguardava e eles tiveram que desfilar pelas ruas da cidade, em cima do carro de bombeiros, por cerca de três horas. Depois de tudo isso foi que alguém lembrou de que era preciso levar Carlão para o hospital. Levaram o atleta a uma unidade hospitalar. 

O resultado dos exames acusou que o atleta havia fraturado os ossos do pé em três partes.

Aquele fato chamou muito a atenção de André. “Aquilo representou muito para mim. Eu via aquele cara fazendo tudo aquilo, ele não fazia por dinheiro, porque o dinheiro não é capaz de trazer isso para a gente. Ele fazia com uma paixão tremenda e isso me marcou profundamente, e norteou a minha carreira. Eu passei a me basear, não só em paixão, mas principalmente, em dedicação e disciplina. Permaneci no Vôlei por 24 anos.”, afirma André.

No dia 05 de abril de 2014, encerrou a longa e vitoriosa carreira em partida disputada pela Superliga Masculina de Vôlei, 2013/2014, jogando pela equipe Brasil Kirin (SP). Foi um jogo difícil, mas principalmente, emocionante. Companheiros de equipe e adversários reverenciaram o atleta de tantas vitórias no lotado Ginásio Taquaral, em Campinas. A última partida de André não seu deu com vitória do time na qual ele atuava, mas basta olhar para sua brilhante carreira, para fazer jus aos intensos aplausos do público presente ao Ginásio Taquaral, naquela noite.



Hoje, André Heller, pode se considerar um vitorioso. Um atleta que veio de uma família humilde do Rio Grande do Sul, cujos pais quase não tiveram estudo nenhum. Ele viu no esporte uma oportunidade de se qualificar como atleta e como ser humano, e não desperdiçou. Como dizemos popularmente, agarrou a oportunidade com “unhas e dentes”. Ao longo do percurso, André foi observando e viu, à beira da estrada da vida, muitos atletas que encerravam a carreira, apagavam-se as luzes da fama e eles não tinham para onde ir e o que fazer, passando a atravessar situações adversas e bem diferentes da experimentadas nos dias de fama.

“Quando comecei no esporte, e vi no esporte uma oportunidade de me qualificar como atleta e como ser humano, eu já comecei a pensar no meu pós-carreira, porque eu não sabia o que ia acontecer. Eu comecei a jogar em 1990. Em 1996 eu tive a possibilidade de jogar numa Universidade, um time profissional que ficava dentro de uma Universidade, a Universidade Luterana do Brasil (ULBRA).

Ali eu comecei a fazer faculdade. Em 1996, eu comecei a fazer minha faculdade... Eu estou no quinto semestre. (O público presente riu, talvez achando que ele estivesse brincando, ou falando alguma piada, mas André estava falando sério, e explicou porque) “É uma realidade, porque o que acontece? Quando o possível atleta, ou atleta com potencial, percebe que tem chance de realmente traçar um caminho, percorrer um caminho através do esporte, ele faz essa opção, em detrimento do estudo. Então eu cansei de jogar conta com vários colegas de time que sequer tem o primeiro ou segundo grau, pelo menos, na época, eles não tinham. Então é muito triste isso”.

Nenhuma instituição se preocupa com isso, ou se preocupou com isso, e muito menos os atletas. Porque eles saem, muitas vezes, de meios humildes, de ambientes desfavoráveis e não tem essa capacidade de enxergar no esporte uma maneira de se capacitar como ser humano.

 “A pessoa enxerga no esporte apenas uma capacidade de se desenvolver como atleta, porém, a carreira do atleta é curtíssima. Nós aqui — e eu falo sem problema nenhum — somos a cereja do bolo. Somos privilegiados, e nossa obrigação inclusive, é batalhar para que isso mude, ou pelo menos conscientizar os atletas. Porque os atletas também acabam ficando só no “achismo”, conversas de vestiário, e dizendo ‘gente’, vamos fazer uma previdência privada então as conversas são assim, e em momento algum, se preocupam, até porque é quase inviável, buscar conhecimento, que seja num curso, que seja num livro, porque, a maioria dos atletas, em vez de optar por um livro, optam por um videogame. Infelizmente, é a realidade de nosso esporte brasileiro”.

É interessante observar que o mesmo olhar atento com que André olhou para Carlão no início da carreira, fazendo com ele despertasse para um melhor desempenho como atleta e como pessoa, ele também teve ao perceber que sua carreira dentro das quadras estava chegando ao fim. Nesse momento ele pensou: Não quero seguir por uma estrada que não leva a lugar algum e tratou de se precaver.



Hoje André cursa Educação Física e é Coordenador Técnico Operacional do Projeto Brasil Kirin, em Campinas.  “O projeto tem um formato diferente de Vôlei de alta performance. Há uma agência de marketing esportivo — A ESM, empresa que atua no mercado esportivo desde 1999 —  que gerência o projeto e o grande patrocinador é a Brasil Kirin. Não somos reféns do resultado. Nós temos três pilares: Obviamente, um esporte de alto rendimento, no qual os responsáveis por isso são os atletas. Nós temos 12 atletas profissionais. Mas nós temos outros dois pilares, tão importantes quanto o time de alta performance: Temos nossas categorias de base, e nós sabemos, claramente, que estamos lidando com atletas. São categorias de base que disputam campeonatos estaduais e brasileiros, nessas categorias. Nós também temos nossa responsabilidade social. Temos a missão, além de resgatar o Vôlei e o contato com a comunidade de Campinas, nós temos a parceria com o Instituto Compartilhar, do Bernardinho (Técnico da Seleção Brasileira de Vôlei), através dos núcleos aqui em Campinas. Temos cerca de 11 núcleos. Por isso que eu digo, que o Brasil Kirin, tem um formato diferente, porque a maioria dos clubes, quando oferece o projeto para o possível patrocinador, geralmente, prometem resultados na quadra, porém, o Kid sabe bem, nós temos um campeonato nacional bastante disputado e, às vezes, o fator orçamento não interfere muito, às vezes, o time que tem o terceiro ou quarto orçamento é o campeão. Nosso time pensando dessa maneira não fica refém do resultado, nós entregamos resultado também através de nossas categorias de base e, principalmente, é a prioridade no nosso projeto, a responsabilidade social e as categorias de base”, completou André.

O projeto atende cerca de 500 crianças, entre 7 e 14 anos, da Cidade de Campinas. O Brasil Kirin incentiva a prática do Vôlei em escolas da rede municipal de ensino. André faz parte do Brasil Kirin, desde o início, em 2010.

Outra ação que produz muitos frutos é a troca de ingressos, nos jogos da equipe, por um quilo de alimento não perecível. Os alimentos são doados ao Banco Municipal da Cidade, sendo posteriormente, distribuídos entre famílias carentes da cidade.


E o Kid, não falou nada, perguntam vocês? Claro, falou e muito, porém, o pensamento dele, apresento a vocês em minha próxima postagem. 

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