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A Grande Família: Um programa que vai deixar saudades

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 23:25
Quarta-feira, 10 de setembro



O ano era 1970 e, em plena ditadura militar, a Globo levava ao ar a série humorística, A Grande Família, criada por Marcos Freire e roteirizada por Oduvaldo Vianna Filho, Max Nunes, Armando Costa e Paulo Pontes. A série conquistou os telespectadores ao apresentar, de forma engraçada, os costumes de uma família de classe média brasileira. O tom de crítica social era feito sempre de forma criativa e divertida.

Viver sob regime ditatorial não agrada a ninguém, mas a mordaças e o medo da repressão impede que manifestações contrárias sejam feitas às claras. Se há alguma crítica a tal regime ele deve se dar de forma velada. Não contentes com a situação de repressão, Marcos Freire, criou o personagem Júnior, que encarnava os jovens estudantes idealistas que lutavam para derrubar o regime. Muitos desses jovens militantes foram exilados, outros não tiveram a mesma sorte e foram torturados e mortos nos porões da ditadura, sob a conivência de militares impiedosos. Mesmo fazendo críticas veladas, o programa foi alvo da censura: foram cortadas cenas e, até mesmo, episódios inteiros. 

Além de Junior, havia outros personagens fazia o público rir. Eram eles; Lineu (Jorge Dória), Nenê (Eloísa Mafalda), Seu Flor (Brandão Filho), Júnior (Osmar Prado), Tuco (Luiz Armando Queiróz), Bebel (Djenane Machado/Maria Cristina Nunes) e Agostinho (Paulo Araújo).


O Programa humorístico, que de início inspirou-se no sucesso da TV norte-americana, All in the Family, foi ao ar entre 26 de outubro de 1972 e 27 de março de 1975. O programa caminhava bem e tinha uma audiência excelente, porém a morte de Oduvaldo Viana Filho, mais conhecido como Vianinha, que aos 38 anos de idade, foi vítima de câncer no pulmão, abalou a toda a equipe. O clima de tristeza e pesar impediu a continuação do trabalho e, no dia 27 de março de 1975, a Rede Globo exibia o último capítulo do humorístico que tantas alegrias trouxera a um Brasil que vivia sob as nuvens cinzentas do regime ditatorial. 





Em 29 de março de 2001, vinte e seis anos após o último capítulo da primeira temporada, a globo apostava na ideia e estreava o remake da Grande Família. Algumas modificações foram feitas, como por exemplo, a exclusão do jovem militante, Junior, o contexto agora era democrático e o personagem, se ressuscitado, viveria como peixe fora d’água. A profissão de Lineu, que na primeira versão era veterinário, passou a ser funcionário público. As críticas políticas também deixaram de existir. Particularmente, acho que deveria ter sido mantido esse viés, pois se não vivemos uma ditadura ferrenha, ainda não vivemos plenamente em democracia, uma vez que muitos dos direitos fundamentais ainda são negados à maioria de população. Vivemos também uma realidade em que o sentido do “ser político” foi tão banalizado que perdemos a confiança na classe política. 

Acho que isso deveria ter sido explorado pelos criadores do programa. A intenção era fazer uma homenagem a primeira versão do programa, e seriam gravados apenas doze episódios, que aumentaram para 17. O sucesso foi tão grande que a série foi sendo deixada no ar por anos seguidos.

Nas noites de quinta-feira, era gostoso ligar a TV a ver a abertura do programa e ouvir a música “Essa família é muito unida e também muito ouriçada…” e, em seguida, ver a dedicação de Dona Nenê (Marieta Severo) à família e ao marido Lineu (Marco Nanini); o malandro Agostinho Carrara (Pedro Cardoso); Tuco (Lúcio Mauro Filho) o filho rebelde do casal; Bebel (Guta Stresser), filha de Lineu e Nenê e mulher de Agostinho, dentre outros personagens agradáveis e divertidos.

De 2001 a 2003, o programa deslizava nas asas da audiência. Porém, em 24 de julho de 2003, a morte visitou A Grande Família mais vez, levando dessa vez, o excelente ator, Rogério Cardoso, que interpretava o personagem, Seu Flor, pai de Nenê, usando como desculpa um infarto fulminante. A morte do ator causou muita tristeza no público em geral, e mais especificamente, no público de A Grande Família e no público de Zorra Total, onde o ator também tinha um divetido quadro ao lado de Santinha (Nair Belo).

Uma dúvida pairou sobre os telespectadores: Iria A Grande Família, ter forças para suportar essa perda. Na série, o personagem de Rogerio Cardoso também faleceu e o programa continuou, sempre em audiência.

Com o passar dos anos, vários personagens passaram pela vida da família mais querida do Brasil; Beiçola (Marcos Oliveira), dono da pastelaria do bairro e eterno apaixonado por Nenê. Marilda (Andréa Beltrão), cabeleireira e amiga de Nenê. Natália Lage (Gina, namorada de Tuco), Tonico Pereira (Mendonça, chefe de Lineu na repartição pública) e Evandro Mesquita (Paulão, dono da oficina mecânica).

Desde sua estreia a série tornou-se um grande sucesso de público e crítica, tendo sido considerado o programa humorístico mais assistido da TV brasileira. O gostoso foi ver como a família foi se moldando às transformações pelas quais a sociedade do mundo real também passou. Por exemplo, no início, Dona Nenê apenas cuidava dos afazeres domésticos, depois também passou a trabalhar fora de casa. Uma família também ganha novos membros e, na família de Nenê e Lineu, nasceu o neto, Florianinho, Filho de Bebel e Agostinho.

Não se pode dizer também que, durante quatorze anos no ar, houvesse alguma temporada em que as histórias estivessem ruins, ou que o enredo estivesse fraco, ou coisas desse tipo. A Grande Família foi  realmente grande do início ao fim. Sempre com programas de alto nível. Também em relação ao elenco podemos dividi-los em dois grupos: excelentes atores e bons atores, nunca atores medíocres.

É uma pena, mas essa delícia de programa, com esses personagens que o Brasil aprendeu a gostar, e com eles dar boas risadas, chega ao final na noite desta quinta-feira (11).

A metalinguagem dará a tônica ao enredo do último capítulo do humorístico. Metalinguagem, nada mais é que uma linguagem que fala de si mesma, já que estamos falando de um humorístico, eu diria que a metalinguagem é rir de si mesmo, fazer da piada da própria piada, ou ainda, botar uma roupa de palhaço e dar risadas das próprias caras e bocas.

A família Silva estará em casa e de repente toca o telefone. Tuco, filho de Lineu e Nenê, vai atender e, para surpresa de todos, do outro lado da linha está o conceituado diretor de programas da Rede Globo, Daniel Filho. A proposta de Daniel é criar um programa humorístico inspirado na família de Lineu e Nenê. Lineu “fica com pé atrás”. Argumenta que eles não engraçados o suficiente para inspirar um programa de humor. Quando ele fica sabendo que o ator que vai interpretar o papel dele é o excelente Tony Ramos, muda de ideia e apoia o projeto.

A partir daí, os telespectadores começam a ver um seriado dentro de outro seriado, sem, contudo, deixar cair a qualidade do elenco. Estão escalados para esse gran finale, grandes atores do nível de Tony Ramos, Glória Pires, Lázaro Ramos, Alexandre Borges, Marcelo Adinet, Debora Secco, dentre outros. Com essa metalinguagem, o último episódio, de certa forma, apresenta uma ideia de continuísmo.

Para a equipe que nos brindou com um programa de alta qualidade, certamente será bem difícil, esse acabar o programa. Penso que talvez seja um pouco como sentimento de uma separação amigável. Afinal, para os membros da equipe, o grupo se tornou uma segunda família. Esse sentimento é tão forte e presente que, por várias vezes, Marieta Severa, a Dona Nenê, chorou durante as gravações do último episódio, contagiando todo o set de gravações.


Na televisão mundial, é muito raro um programa ficar 14 temporadas no ar, mantendo sempre a boa qualidade dos programas. Dizem que o programa só vai acabar porque o elenco sente vontade de se dedicar a outros projetos, novas criações. É um direito que lhes compete. Nós os agradecemos por terem nos brindados com suas trapalhadas e confusões por tanto tempo. 

Vamos sentir saudades. 


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