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Livros: regiões de fronteira entre o real e o imaginário

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:03
Segunda-feira, 04 de agosto

Se você agir sempre com dignidade, 
pode não melhorar o mundo, mas uma coisa é certa: 
haverá na Terra um canalha a menos”.


Millôr Fernandes




Começou no dia 30 de julho e terminou neste domingo, 03 de agosto, a 12ª edição da Feira Literária Internacional de Paraty (Flip).  Todos os anos, durante a realização do evento, a colonial cidade de Paraty, localizada do estado do Rio de Janeiro, come, bebe, respira e vive literatura. Pelas ruas irregulares de pedra passeiam turistas do mundo inteiro. A Flip acontece desde 2003 e reúne escritores nacionais e internacionais que movimentam uma série de palestras e debates que são realizados em prédios históricos da cidade, ou em tendas armadas nas ruas. Há uma gostosa interação entre autores e fãs que torna o evento literário ainda mais charmoso.

A cada ano é homenageado um escritor que já não se encontra mais no plano físico. No primeiro ano da Feira (2003), o homenageado foi Vinícius de Moraes. Os demais homenageados foram: Guimarães Rosa (2004), Clarice Lispector (2005), Jorge Amado (2006), Nelson Rodrigues (2007), Machado de Assis (2008), Manuel Bandeira (2009), Gilberto Freyre (2010), Oswald de Andrade (2011) e Carlos Drummond de Andrade (2012), Graciliano Ramos (2013). Nesse ano de 2014, o homenageado da Flip foi o jornalista e escritor, Millôr Fernandes. Ao longo de sua carreira, Millôr, fez uso da palavra escrita com muito bom humor.

Inspirado na Flip (Feira Literária Internacional de Paraty) escrevi o texto abaixo.


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Livros: regiões de fronteira entre o real e o imaginário





Um dia frio, um bom lugar pra ler um livro
E o pensamento lá em você
Eu sem você não vivo
Um dia triste, toda fragilidade incide
E o pensamento lá em você
E tudo me divide

(Nem um dia – Djavan)

Novos ou velhos, grandes ou pequenos, finos ou grossos, cheios de gravuras ou apenas recheados de letras, não importa, eles são sempre mágicos. A única coisa que se exige deles é que não estejam em branco. Devem ter sempre um conteúdo e, de preferência, dos bons. O mundo dos livros é como se fosse um grande mercado de ideias no qual encontramos alimentos de todos os tipos, estilos e gostos. Mas comparar o universo literário com um mercado de alimentos? Pergunta você. Ora é simples, respondo eu. Todos os dias seu corpo precisa alimentar-se de alguma coisa, não precisa? Então, você acorda de manhã cedinho e prepara aquele café bem gostoso, com pão, queijo, manteiga, torradas, bolos deliciosos, iogurte, granola, enfim, o que você tem a disposição à mesa. No almoço, que tal um prato bem saudável e balanceado que contenha carboidratos, vegetais, proteínas e frutas? O mesmo critério também serve para a hora do jantar, não se esqueça disso.

Porque tomar todos esses cuidados? Estudos científicos comprovam que a alimentação influencia de forma direta em nossa saúde e, consequentemente, em nossa qualidade de vida.

Ninguém diz ao corpo que ele precisa se alimentar, é algo natural. Claro que sempre há pessoas que não tratam bem do corpo, nem tratam bem dos alimentos que ele deve ingerir diariamente. O resultado desse descaso para com a alimentação não demora muito a chegar. Essa conta indesejada cobrada pelo corpo chega sempre na forma de alguma doença ou indisposição.

Se o corpo pede alimento todos os dias, também nosso cérebro precisa muito de outro alimento que não seja apenas os que mastigamos e deglutimos todos os dias. A sala de controle de nossas emoções, ações e sentimentos precisa da fantasia, do irreal, do imaginário. Precisamos desse mundo fantástico que o mundo da literatura nos oferece. Estimular o cérebro é como respirar ar puro. Assim como devemos exercitar outras partes do corpo, devemos exercitar também esse importante órgão de nosso complexo Sistema Nervoso Central.

É uma pena que nem sempre ouçamos a voz de nosso cérebro pedindo um pouco de mais de cultura, de lazer, de leitura. Coitado desse órgão de nosso corpo do qual brotam um mundo de emoções e sensações. Esquecemos-nos de alimentá-lo. Assim, sem essa atenção especial que deveríamos dar a ele e não damos, o cérebro vai ficando preguiçoso, demora em raciocinar, sente dificuldade em realizar as operações mais simples.  Não é que o indivíduo que o mantém seja ignorante ou lento para entender — não, nada disso, até porque dentro de cada um de nós há uma fome de saber, dentro de cada um nós existe uma grande fonte de riquezas prontas a rojar água da melhor qualidade — o portador do cérebro em questão está apenas esquecendo-se de dar-lhe alimento de boa qualidade. Alimento de boa qualidade: essa questão é bastante importante para ser observada. Eu lhe pergunto: Quando você vai à feira, ou ao mercado, você pega qualquer vegetal, fruta ou verdura? Duvido que pegue os piores. Ao contrário, você pega analisa, observa e apenas coloca na cesta aqueles que estão em bom estado, não é mesmo?

Então, porque agir de modo diferente quando se trata de dar algum alimento para sua mente? Se você não dá alimento estragado para seu corpo, pois sabe exatamente qual será a consequência disto, por qual motivo agiria diferente em relação ao seu intelecto.

O pior é que a gente faz isso. Todos os dias, enchemos nosso corpo intelectual com alimentos com pouco ou nenhum nutriente. Desse modo, o obrigamos a comer comida estragada e nem nos damos conta de que, agindo assim, estreitamos nossos horizontes, empobrecemos nosso universo intelectivo.

Quem também adora quando você abre um livro é sua alma. Ela fica tão contente, pois, vê nessa atitude uma oportunidade de mergulhar no fabuloso mundo das palavras e na maravilhosa viagem que os livros proporcionam. O momento no qual você mergulha na leitura é uma oportunidade que ela encontra de expandir os horizontes.

Saindo da mesmice, as possibilidades de diversão são imensas. Para que lugares você pode ir? Uma infinidade deles. Também não há tempo cronológico específico: você pode avançar ou retroceder no tempo e no espaço, ir ao passado, ou viajar para o futuro, pode ir a lugares comuns e pode visitar lugares fantásticos e encontrar seres surpreendentes, maravilhosos..



O problema da grande maioria das criações literárias, senão de todas, é que como são os próprios homens que criam esses mundos admiráveis que vão além de qualquer fronteira imaginária, os criadores também levam para as terras criadas e imaginadas, os sentimentos bons e maus. Tanto faz se as obras são para adultos ou para crianças. Vou citar uma bem conhecida de todos vocês. Por que a bruxa má persegue Branca de Neve a fim de acabar com a vida dela? Por que o tal do espelho linguarudo, ao ser indagado, responde que a moça mais bonita do reino era, justamente, Branca de Neve. Poderia ter ficado calado o espelho fofoqueiro, mas não, deu com a língua nos dentes. E lá se vai a terrível bruxa, floresta adentro, com uma bela maçã envenenada, para oferecer a formosa donzela. Não fosse o belo príncipe e o famoso beijo, a moça ainda estaria em algum caixão de vidro no meio da floresta. Quais os motivos que levaram a  bruxa a cometer tal crime, senão a inveja, esse incomodo sentimento que acompanha a humanidade desde séculos imemoriais?



Vem comigo, atravessemos o tempo e o espaço e vamos nos embrenhar em uma floresta, na Terceira Era da Terra Média, de Tolkien. Foi nessa época que viveram uns seres graciosos e alegres, chamados hobbits. Na Terra Média, os humanos habitavam o mundo, juntamente, com anões, orcs, elfos e outras criaturas. Quem não se lembra do Condado onde viviam os hobbits. Lembra-se de quando o jovem hobbit, Frodo Bolseiro, recebeu de seu tio Bilbo, um anel magnífico e de rara beleza? 

Para sorte ou azar de Frodo, aquele não era um anel qualquer. O anel muito mais que beleza representava poder e dominação. O Um Anel, fora perdido pelo temido Sauron, o Senhor do Escuro, em uma batalha que havia ocorrido muito tempo atrás e há muito ele buscava esse “mimo”. O poderoso objeto dava longevidade a seu possuidor, porém, tinha vontade própria e caminhava sempre na direção de seu senhor e criador, Sauron.

Gandalf convence Frodo a destruir o anel para evitar que Sauron se apoderasse dele, tornando-se, desse modo, senhor e rei de toda a Terra Média. O jovem Frodo aceita a missão e leva junto consigo nesta árdua tarefa, os amigos, Sam, Merry e Pippin, que nos proporcionarão um pouco de humor na tensa aventura que teriam pela frente.

Apesar do Um Anel ser carregado de poder, Frodo não pode usufruir desse poder, pois quem usava o anel tornava-se corrompido pelo mal. Para levar a cabo a difícil missão de destruir o anel, o grupo de amigos conta ainda com a ajuda dos humanos Boromir a Aragon.


Enfim, depois de enfrentar toda uma sorte de perigos, atravessando terras perigosas e enfrentando monstros terríveis, os amigos chegam a Montanha da Perdição. Nesse cenário, Frodo ainda tem que lutar interiormente contra a força maligna do anel, além de ter que lutar fisicamente com Gollum. Vence o bem e o anel é destruído e junto com ele, o terrível Sauron.



Quando um mestre na arte das palavras consegue misturar no mesmo caldeirão, sentimentos fortes e escondidos no coração da humanidade como a traição, a dúvida, a sensualidade, o ciúme, aí nós temos a porção mágica perfeita e encantadora. Pois foi justamente isso que fez o mestre Machado de Assis, na obra Dom Casmurro. A obra foi escrita em 1899, fazendo as contas, dá 125 anos, me corrijam se estiver errado, mas os temperos contidos no romance foram tão bem misturados, que até hoje, não se sabe se a bela Capitu, traiu seu esposo, Bentinho, com o melhor amigo dele, Escobar. Apesar de todos os estudos que já foram feitos a fim de verificar se houve ou não traição, o fato é que o mistério continua em aberto.


Se houve ou não traição, Machado soube escondê-las muito bem nas entrelinhas, que ao mesmo tempo em que dizem tudo, podem não dizer absolutamente nada. Essa incógnita é expressa de forma magistral nesse trecho do romance, que é o predileto dos acusadores de Capitu: "Momento houve em que os olhos de Capitu fitaram o defunto, quais os da viúva, sem o pranto nem palavras desta, mas grandes e abertos; como a vaga do mar lá fora, como se quisesse tragar também o nadador da manhã."




Tudo é possível no mundo da literatura. Você pode viver Mil e uma noites e mesmo assim, ainda assim ter Cem anos de solidão. Pode também observar atentamente As aventuras de Alice no país das maravilhas e, logo após, fugir para a ilha de Robson Crusoé, não sem antes se deparar com uma enorme baleia chamada Moby Dick.

Se ficar triste com o drama de Romeu e Julieta, lembre-se de que todo drama faz parte da Condição Humana. Para esquecer esse triste drama você pode distrair a mente olhando O Retrato de Dorian Grey ou, se quiser, pode distrair-se lendo as Memórias Póstumas de Brás Cubas.

Ah, não se esqueça de, em suas viagens, passar uns dias no Sítio do Pica-pau amarelo. A boneca Emília vai encher sua cabeça de estórias mirabolantes, e você pode saborear um delicioso bolo feito pela tia Nastácia, enquanto ouve os relatos fantásticos da boneca de pano que fala. Dizem que lá no sítio tem uma estrada que leva ao Grande Sertão: Veredas, mas, disso eu não tenho certeza.

Porém, fique atento: Essa maravilhosa máquina do tempo chamada leitura, tem o poder, de uma hora para a outra, transformar-se num radar e captar o que acontece no mundo ao seu redor, trazendo à tona segredos escondidos, espionagens ultrassecretas sendo reveladas e muito mais.


Para qualquer lado que corramos acabamos sempre caindo no clichê da luta entre bem e mal. Por que será? Será porque é dentro de nós que o bem e mal travam incessante combate? Quem será o vencedor dessa lendária batalha interior, senão aquele que sabe resistir aos encantos ilusórios do anel perdido na Terra Média?

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