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Do céu ao inferno: A historia do médico-monstro, Roger Abdelmassih

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:36
Quarta-feira, 20 de outubro




"Era um final de tarde. Eu e meu marido fechamos um pacote com três tentativas de fertilização por cerca de R$ 32 mil, em 1999, com o próprio Roger Abdelmassih. No mesmo dia, colhi sangue e fiz um ultrassom intravaginal. O exame apontou um problema em uma das minhas trompas. Marcamos a cirurgia para uma semana depois. Dias após a operação, voltei na clínica para a retirada de um ponto no umbigo No procedimento, ele sangrou, tive muita dor e entrei chorando na sala do dr. Roger. Enquanto me consolava, ele dizia: 'Você é uma paciente, está em um momento delicado da vida.' Ele me abraçou e, enquanto eu chorava, tentou me beijar.
Como eu estava com batom vermelho, virei o rosto e manchei o jaleco dele. Saí da sala e fui embora sozinha. Meu marido estava viajando, na época. Parei em um posto de gasolina e fui ao banheiro. O cheiro do dr. não saía de mim, aquele cheiro de éter. Como já tinha pago o pacote de fertilizações, havia feito uma operação para a retirada da trompa, optei por iniciar o tratamento. Voltei à clínica quase dois meses depois. Lá, fui sedada e meus óvulos foram retirados para serem fecundados. Encaminhada para uma sala de recuperação, acordei com o dr. Roger apalpando os meus seios. Meio sonolenta, pensei: 'Acho que estou sonhando, não é real, é coisa da minha cabeça.' Meu marido estava me aguardando na clínica e fomos embora, numa boa. Mas fiquei com aquilo na cabeça, com medo de falar para qualquer um. Achava que eu tinha ficado com trauma por ele já ter tentado me beijar. Não engravidei nessa primeira tentativa de fertilização.
Como tinha mais duas, retornei à clínica 50 dias depois. E fui molestada no mesmo processo. Acordando da sedação, ainda grogue, vi que eu estava com o pênis dele na mão. Ele viu que eu havia despertado, tentei me levantar, cheguei a sentar na maca. Aí, o dr. Roger abaixou o jaleco, disse 'calma, calma, calma', e saiu da sala. Saí na sequência, e não o vi mais ali na clínica. Fui chorando ao encontro do meu marido, que estava na recepção. Ele me perguntou o que tinha acontecido e eu disse: 'Tá doendo'. Mais tarde, meu marido até ligou na clínica pedindo algum medicamento para a dor. Mas eu teria de voltar na clínica para fazer a transferência (quando o embrião fecundado é implantado no útero da mulher), para pegar meu filho, claro. Bom, fui e fiz a transferência. Voltei para casa e aguardei dez dias para ver se dava certo. Não deu. Aí, eu fiquei mal.
Estava irritada, muito gorda de tanto hormônio, com colesterol alto. Foi quando, em casa, disse ao meu marido que não queria mais ser mãe, que a experiência que tive com o Dr. Roger estava acabando com meu físico e emocional. E contei para ele o abuso. Ele ficou revoltado, pensou em denunciar, mas não fizemos isso. Fui para um spa para emagrecer, quis ficar sozinha. Tempos depois consegui ter três filhos com a ajuda de um outro especialista em fertilização."

***

O depoimento acima é da empresária de Mato Grosso do Sul, Ivanilde Vieira Serebrenic e foi publicada na revista Isto É Independente, em 16 de janeiro de 2009.  Quis colocá-lo na integra, para que vocês compreendam o que, de fato, acontecia dentro da clinica de Roger Abdelmassih com Ivanilde e com dezenas de outras mulheres que, ao acalentar o sonho de embalar um bebê que tivesse nascido de seu próprio ventre, tornavam-se vítimas de uma mente criminosa.

Todo esse pesadelo acontecia dentro da clinica de reprodução assistida mais moderna da América Latina. Localizada em um dos endereços mais valorizados do país, a Avenida Brasil, centro financeiro e comercial da cidade de São Paulo, o urologista Roger Abdelmassih, desenvolvia ali um primoroso trabalho, possibilitando a muitas milhares de mulheres, realizar o sonho da maternidade. O dr. Roger havia se tornado um dos pioneiros em fertilização in vitro mais famosos do país em sua área. Em vinte anos de atividade, pelas suas mãos, já haviam nascido mais de 7.500 bebês através do método de reprodução assistida.

O médico de alto gabarito cobrava caro pelos serviços que prestava, á época: Cobrava por três tentativas de inseminação artificial, a quantia de 30 mil reais. Chegava a investir, por ano, a quantia de 1 milhão de dólares em pesquisas científicas que garantissem o sucesso das gestações realizadas em sua clínica.

Por esse motivo sua clínica era frequentada por gente muito famosa. Quem adentrasse o luxuoso ambiente podia ver, espalhadas pelas paredes, fotos do médico sorridente, ao lado de personalidades como ex-presidente Fernando Collor de Melo, Pelé, a atriz Luiza Tomé, o humorista Tom Cavalcanti, o apresentador de TV Gugu Liberato, e muitos outros.

Entretanto, longe das câmeras, dos holofotes e dos flashes, e aproveitando-se da segurança que lhe ofereciam as quatro paredes de seu escritório, o dr. Roger tirava a fantasia de  médico e vestia a de monstro. Enquanto as pacientes estavam em estado de sedação e topor, Roger se aproveitava para ter beijá-las, tocá-las, acariciar suas partes intimas e, até mesmo, praticar relações sexuais com elas. Dentro das salas de exames, as mulheres passavam da condição de pacientes para as de vítimas, em poucos minutos.

A máscara de bom moço começou a cair, de fato, em maio de 2008, quando uma ex-funcionária da clinica procurou o Ministério Público e relatou aos promotores que o Dr. Roger havia tentado beijá-la a força. Baseados no relato da testemunha, os policiais do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), começaram a investigar, silenciosamente, o médico.

Em agosto daquele mesmo ano, o Ministério Público intimou Abdelmassih a depor, porém, ele não compareceu. Mesmo sem o depoimento do médico, os promotores resolveram oferecer denúncia contra o médico. A denúncia foi recusada, porque no entendimento da juíza  Kenarick Boujikian, a investigação era exclusividade da polícia.

De fato, a polícia abriu um inquérito, porém, a peça desapareceu dentro do Departamento de Inquéritos Policiais, em novembro, e só foi encontrado um mês depois, quando foram reiniciadas as investigações.

Enfim, em junho de 2009, baseado no depoimento de 40 ex-pacientes da clinica de reprodução assistida mais famosa do Brasil, o médico foi indiciado pelos crimes de estupro e atentado violento ao pudor.

No dia 17 de agosto de 2009, foi decretada da prisão de Roger Abdelmassih. Era 23 de Dezembro, vésperas de Natal. Fazia quatro meses que o monstro estava na prisão. O ex-ministro do Supremo Tribunal Federal resolveu, então, lhe dar um presente natalino, concedendo-lhe uma liminar permitindo que o monstro aguardasse a sentença em liberdade.

Como não havia provas materiais, o depoimento das vítimas foi essencial para o andamento do processo. Foram ouvidas mais de 200 testemunhas, sendo 130 de defesa e 35 mulheres que haviam feito tratamento na clínica e sofrido abusos sexuais por parte do urologista.

Em 23 de novembro saiu a sentença definitiva condenando o médico a 278 anos de prisão. A autora da sentença foi a juíza da 16a Vara Criminal de São Paulo Kenarik Boujikian Felippe. No início de 2011 a prisão de Roger foi pedida pela promotoria, tendo sido acatada pela justiça. À justiça, as vitimas relataram o abuso que haviam sofrido nas salas de consulta e de recuperação da clínica, localizada no bairro nobre paulista. Disseram que quando estava voltando da sedação, ainda semiconscientes, eram envoltas pelo médico, que as abraçava e as acariciava, beijando a boca delas e apalpando os seios. Acrescentaram ainda que não falavam nada aos maridos por medo e por vergonha, como é comum em caso de estupros. As mulheres também relataram que se sentiam intimidadas com a fama e a popularidade do médico. Afinal, seria a palavra delas, contra a palavra de um médico renomado.

Aproveitando-se do fato de estar respondendo o processo em liberdade, Roger Abdelmassih, fugiu do país sem deixar vestígios. Estava morando em San Cristóbal, bairro nobre de Assunção, capital do Paraguai. Levava uma vida bastante confortável, residindo em uma luxuosa casa, na qual vivia com a mulher, Larissa Maria Sacco, de 37 anos. Nesta terça-feira, em operação conjunta entre as polícias brasileira e paraguaia, o médico-monstro foi preso em Assunção, quando saia de um estabelecimento comercial no bairro de Villa Morrá, um dos bairros mais caros da capital paraguaia. O local fica bem próximo à escola onde estudam os filhos de Roger — um casal de gêmeos de três anos. No momento da prisão, o ex-médico estava acompanhado da mulher e, segundo a polícia, ficou muito abalado com a prisão.

Roger Abdelmassih, 70 anos, chegou à sede da Polícia Federal de Foz do Iguaçu, às 18 horas desta terça-feira. O preso deverá ser transferido para São Paulo ainda nesta quarta-feira (20).

Teresa Cordioli, de 63 anos, bacharel em Direito e presidente da Associação das Vítimas de Roger Abdelmassih, comemorou, juntamente, com as demais integrantes da associação, a prisão do ex-médico. Teresa é uma das vítimas de Roger, tendo sido violentada por ele, quando tinha 17 anos, era médica e fazia residência em um hospital na cidade de Campinas, São Paulo. Por falar em Campinas, a Câmara Municipal desta cidade, havia concedido em 2002 o título de cidadão campineiro a Roger Abdelmassih. Em sessão realizada em 06 de março de 2013, os vereadores revogaram, por unanimidade, essa honraria concedida ao ex-urologista.



2 Comments


Voces publicaram essa historia outra vez? Por favor gostaria de obter resposta. Ivanilde Vieira


Desculpe, não entendi. Como assim, publicar a história outra vez. Este blog ainda não havia publicado antes.

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