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Vida e morte: Dois lados de uma mesma moeda

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:35
Domingo, 20 de julho

Dedico esse texto em memória dos escritores; João Ubaldo Ribeiro e Rubem Alves; aos mortos no voo MH17 da Malaysian Airlines; e aos mais de 300 mortos ontem, nos conflitos na Faixa de Gaza.

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Morte e vida: duas faces de uma mesma moeda preciosa chamada ser humano. Moeda concedida, especialmente, aos seres do reino animal e vegetal. Plantas morrem. Animais morrem e sua morte é muito sentida por aqueles que a eles se dedicam em enorme amor. Voltemos nosso olhar ao reino vegetal, é mais fácil percebermos isso. Quando as folhas caem no outono e parece que as árvores estão meio tristes, na verdade, a tristeza é uma estratégia que as plantas usam para se proteger do frio. Perdendo as folhas, elas conseguem reduzir ao máximo o consumo de energia, para retornarem, em momento posterior, mais fortes e vigorosas. 

Por sua vez, as folhas que caem, transformam-se em adubo e de, certa forma, alimentam a árvores que as havia abrigado, ajudando-as a crescer mais belas e esplendorosas. Nesse maravilhoso ciclo da natureza as folhas mortas experimentam um renascimento. Quando uma árvore cai, seja por ter envelhecido ou pela ação do vento e das tempestades, ela não está morrendo, está alimentando um processo cíclico sabiamente elaborado pela mãe natureza. A “morte” dela irá fazer com que a terra ganhe mais nutriente e com isso se fortaleça para dar vida a novos brotos e arbustos que um dia também se tornarão árvores frondosas.

Se o sábio criador cuida tão bem dos seres do reino vegetal, quanto mais de nós, a quem ele criou à sua imagem e semelhança. Também nós fazemos parte de um processo cíclico: nascemos, crescemos, morremos e ressurgiremos gloriosos se tivermos tido sabedoria suficiente para compreender e viver a lei divina. Somos corpo e alma. Enquanto nosso corpo experimenta as propriedades da matéria e, como tal, é sujeita a decomposição, nossa alma experimenta as propriedades infinitas do mundo espiritual e dos espaços etéreos, coisas que ainda não nos foram reveladas, nem estão ao alcance de nossa vã filosofia. Um dia, seremos apresentados a essas realidades, mas tudo tem um momento certo, uma hora certa.

Penso na vida terrena como a chama de uma vela. O momento em que nascemos, melhor dizendo, o momento em que fomos concebidos, é semelhante ao momento em que alguém acende uma vela. O que é uma vela senão uma fonte de luz? Essa fonte de luz é usada desde os tempos mais remotos e, apesar de toda modernidade e tecnologia, ainda resiste bravamente nos tempos modernos, demonstrando, dessa forma, a força e o poder que têm os símbolos. Quatro elementos compõem esse símbolo milenar: a cera, o pavio, o fogo e o ar.

Nossa vida terrena é o pavio aceso no momento de nossa concepção. Qual a função do pavio nesse contexto? Queimar. Ao iniciar o processo de combustão o pavio produz fogo que, por sua vez, ilumina o ambiente. A luz que emitimos são nossos bons pensamentos e nossas boas ações. Se, ao terminar todo esse processo de combustão e, ao apagar da vela, tivermos sido uma eficiente fonte de luz, quão grande será nossa recompensa no mundo espiritual...

Os dois lados da moeda deveriam ser tratados com a mesma naturalidade. Afinal, morrer é uma condição possível apenas para quem vive. E se você está vivo, é porque atravessa uma estrada de alegrias, dissabores, surpresas. Em alguns trechos do percurso você pode ter uma estrada ladeada por belas flores, outras vezes, você pode machucar o dedo em espinho. Alguns dias podem ser de esplendoroso sol, em outros, o sol pode sumir e nuvens tenebrosas aparecerem. Assim é o curso da vida, cheio de surpresas e percalços.

A cultura ocidental nos ensinou que a morte é tabu e, desse modo, ajudam a fortalecer a ideia ilusória e irreal de que a moeda possui apenas uma face. Será talvez por causa da tétrica e medieval imagem da morte sendo representada por um esqueleto, vestido de preto, e com uma faca na mão? Será que essa imagem ficou de tal forma impregnada em nosso subconsciente, que tememos que falando dela, ela possa surgir com capa e facão à nossa frente para acabar com nosso alegre brincar de viver.

Talvez não fosse melhor pensar na morte como o fim de uma festa, da qual saímos cansados, e após um breve descanso, já estamos de vivo ânimo para outra festa? Até por que, ninguém fica eternamente numa festa. Temos a certeza de, por melhor que sejam os festejos, um dia eles vão chegar ao fim. Vale dizer que a festa começa e termina para todos, de todas as classes sociais.

Há um pequeno conto chinês, publicado na revista Super Interessante, em fevereiro de 2002, no artigo, Morte, que diz o seguinte: “Há muito tempo, no Tibete, uma mulher viu seu filho, ainda bebê, adoecer e morrer em seus braços, sem que ela nada pudesse fazer. Desesperada, saiu pelas ruas implorando que alguém a ajudasse a encontrar um remédio que pudesse curar a morte do filho. Como ninguém podia ajudá-la, a mulher procurou um mestre budista, colocou o corpo da criança a seus pés e falou sobre a profunda tristeza que a estava abatendo. O mestre, então, respondeu que havia, sim, uma solução para a sua dor. Ela deveria voltar à cidade e trazer para ele uma semente de mostarda nascida em uma casa onde nunca tivesse ocorrido uma perda. A mulher partiu, exultante, em busca da semente. Foi de casa em casa. Sempre ouvindo as mesmas respostas. “Muita gente já morreu nessa casa”; “Desculpe, já houve morte em nossa família”; “Aqui nós já perdemos um bebê também.” Depois de vencer a cidade inteira sem conseguir a semente de mostarda pedida pelo mestre, a mulher compreendeu a lição.

Voltou a ele e disse: “O sofrimento me cegou a ponto de eu imaginar que era a única pessoa que sofria nas mãos da morte”.


Então, se sabemos que a festa começou e que um dia ela vai acabar, nada de desespero, pelo contrário, aproveitemos a festa do melhor modo que pudermos, com alegria e serenidade. Afinal, não estamos apenas em uma festa. Estamos dentro de um complexo processo existencial, dentro do qual, muitos véus ainda há por descerrar. Sendo assim, “carpe diem” a todos. 

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