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Paixão Nacional

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 22:13
Quinta-feira, 10 de julho 



Para o brasileiro, quando se trata de futebol, não há meio-termo: ou nos alegramos intensamente nas vitórias ou nos entristecemos profundamente nas derrotas. A mesma afirmação serve para o time para o qual torcemos. Isso ficou evidente nos acontecimentos dos últimos dias. Já pensou se nutríssemos pela educação a mesma paixão que nos domina e nos envolve quando se trata de futebol? Quantos gols no desenvolvimento teríamos, se contássemos em nosso país com, pelo menos uma centena, de craques nas áreas de ciência e tecnologia? Ah, se essas conjecturas, deixassem de ser apenas conjecturas, saíssem do plano das hipóteses, abandonassem os céus dos sonhos e invadissem nossa realidade opaca de lanterna do desenvolvimento e nos fizesse renascer para um mundo no qual a educação fosse vivida em sua forma mais intensa?

 Por que temos que nos defrontar com essa dura realidade de falta de investimentos na educação, de analfabetismo e má distribuição de renda? Que peça da engrenagem não funciona, uma vez que, entram governos e saem governos, dos mais variados partidos, e o horizonte que se descortina sobre nós é sempre o mesmo? Precisamos do brilho das estrelas do céu do futebol para aliviar nossas tensões através de atividades lúdicas saudáveis? Sem dúvida que precisamos do lúdico que ajude a descarregar nossas emoções de forma organizada e controlada. Faz parte do ser humano desejar essa cartase. Em nossa correria rotineira, necessitamos de atividades nas quais possamos nos livrar das emoções contidas, incontidas, escondidas. Precisamos liberar energias negativas e nos encher novamente de boas energias. O esporte é uma boa mola propulsora para alcançarmos esses objetivos.

 Mas é certo também que precisamos de bons professores, pesquisadores, cientistas, de mestres nas artes e na literatura. Precisamos dessas luzes que ajudam a humanidade a sair da ignorância e caminhar em direção ao conhecimento e ao saber.

 No dia em que a nação brasileira, enveredar pelo caminho no qual ciência, literatura, tecnologia e outros ramos do conhecimento, passem a ser prioridade governamental e necessidade coletiva, então, nesse dia, veremos raiar sobre nós a liberdade e o horizonte do Brasil será mais risonho e feliz. Nesse dia, sobre nossa nação brilharão a luz das artes, da literatura, da ciência, da tecnologia, da igualdade de oportunidades… E do esporte, de um modo geral. Assim, estaremos prontos para exibir também, não apenas o orgulho de levantar um troféu no esporte, exibiremos também o orgulho de levantar o Nobel triunfo das ciências e das artes.

 O artigo do Senador, Cristovam Buarque, publicado no jornal O Globo, no dia 10 de julho de 2006, é uma boa reflexão a esse respeito. Abaixo, compartilho o artigo com vocês.

***

Paixão Nacional

Cristovam Buarque*


Em cada dez dos melhores jogadores de futebol do mundo, pelo menos cinco são brasileiros. Entre todos os prêmios Nobel do mundo, nenhum é brasileiro.

Entre os grandes jogadores brasileiros, quase todos têm origem pobre, enquanto quase todos os profissionais de nível superior vêm das camadas ricas e médias. Nestes tempos de Copa do Mundo, a TV e o rádio mostram, todos os dias, pequenas biografias dos nossos grandes jogadores. Em comum, todos têm o fato de terem começado a jogar futebol aos quatro anos de idade, em algum campo de pelada perto de casa, às vezes no quintal de um amigo. Todos continuaram, com persistência, o desenvolvimento de seus talentos. Transformaram-se em grandes craques, graças à oportunidade, ao talento e à persistência.

No Brasil de hoje, 20 milhões de meninos jogam futebol. Se apenas um, em cada dez mil, tiver talento e persistência, nas próximas Copas teremos dois mil ótimos jogadores; se for um em cada um milhão, ainda assim teremos dois times completos, formados por grandes craques.

O mesmo não vai acontecer com a ciência, a tecnologia e a literatura no Brasil. Não teremos 20 prêmios Nobel, nem mesmo juntando, a esses meninos, os outros 20 milhões de meninas. Porque poucos entrarão na escola aos quatro anos. Não terão acesso a verdadeiras escolas, não poderão persistir no desenvolvimento de talento, não terão livros ou computadores, como têm bolas.

O Brasil tem grandes craques graças ao gosto pelo futebol, ao tamanho da nossa população e ao fato de que todos têm acesso à bola e ao campo de pelada. Nosso país não tem, até hoje, nenhum Prêmio Nobel de Literatura ou Física, porque poucos têm acesso a ensino de qualidade desde a primeira infância, com professores bem remunerados, preparados e dedicados, dispondo de livros e computadores na quantidade e qualidade necessárias.

Os campos e as bolas surgem espontaneamente, ou pelo esforço da comunidade e dos próprios meninos.A escola e os computadores só estarão à disposição se houver um esforço deliberado do país inteiro.

Ninguém vira craque por sorte, e sim por talento e persistência. Mas, no Brasil, o desenvolvimento intelectual depende, antes de tudo, da sorte de nascer em uma família rica, em uma cidade próspera, com um prefeito que dê prioridade à educação. O talento e a persistência vêm depois porque, antes, precisam de oportunidade: uma escola de qualidade. O desenvolvimento intelectual depende de condições criadas pelo Estado nacional: escolas, livros, computadores, professores.

Se tivéssemos feito isso há cinqüenta anos, o Brasil seria o campeão do saber, e não o lanterninha, posição que ocupamos atualmente. Se o fizermos agora, daqui a 20 anos teremos recuperado terreno, e aí teremos a chance de vencer não só a Copa do Mundo, mas também a Copa do Saber, do conhecimento, da ciência, da tecnologia, da literatura. Ganharemos as medalhas do Nobel, além das taças da Copa.

Além do mais, teremos o capital e as bases para construirmos o Brasil do século XXI. O futebol deslumbra, mas só o saber constrói. Tudo isso, porém, enfrenta um grave impedimento: os brasileiros têm paixão pelo futebol. As vitórias emocionam, as derrotas deixam todos abatidos. Mas não existe a mesma paixão pela educação.

Há semanas, os meios de comunicação informaram que estamos perdendo para o Haiti em termos de repetência escolar. Nada aconteceu, ninguém se incomodou. Se tivéssemos perdido para o Haiti no futebol, nossos jogadores teriam sido muito mal recebidos na sua volta ao Brasil.

Para que as medalhas intelectuais cheguem, é preciso ter pela escola a mesma paixão que o Brasil tem pelo futebol.


* Crisovan Buarque é Senador (PDT – DF)

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