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Paiol de Pólvora

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 23:19
Sexta-feira, 25 de julho




Estamos trancados no paiol de pólvora
Paralisados no paiol de pólvora
Olhos vedados no paiol de pólvora
Dentes cerrados no paiol de pólvora

Só tem entrada no paiol de pólvora
Ninguém diz nada no paiol de pólvora
Ninguém se encara no paiol de pólvora
Só se enche a cara no paiol de pólvora

(Paiol de Pólvora  - Vinicius de Moraes , Toquinho)







Em algum lugar do planeta, no momento em que este texto escrito é escrito; Alguém chora a falta de um ente querido; Um olhar de angustia se debruça sobre um sonho abruptamente interrompido por uma tragédia; Uma criança inocente e que ainda não tem consciência de que a morte é uma viagem sem volta, chora, perguntando à mãe a que horas o pai voltará; Centenas de pessoas, não podem dormir, pois já não tem mais o conforto de um lar para recuperarem as energias e tensões do dia a dia; Bombas e foguetes explodem exterminando a vida de gente inocente, trabalhadora, que sonha com um amanha no qual seja intenso o brilho do sol e com a beleza de um céu cheio de estrelas luzentes; Um homem ou mulher abre a janela de um horizonte sem cor e pensa: “Por que há guerra quando se poderia vislumbrar as riquezas da paz”?

Também, no momento em que escrevo estas linhas, em algum do planeta; Uma vela se acende numa prece aqueles que estão sem luz no caminho; Lábios se abrem e joelhos se dobram em prece; Vibrações positivas e bons pensamentos são emitidos em direção àqueles que atravessam momentos difíceis; Incensos são acesos e sua fumaça ascende aos céus em forma de oração por todos aqueles que caminham por um vale de lágrimas.

A esses que enviam preces, orações e vibrações positivas, eu me junto, e dedico este texto, especialmente, ao povo do outro lado do mundo que tem sentido o efeito de grandes tragédias, guerras e conflitos. Penso na dor dos parentes das vítimas dos acidentes com os dois voos da Malaysia Airlines e da Air Algerian, dos franceses, holandês, chineses, malaios e outros povos que tinham parentes e amigos nesses voos. Penso na agonia e na falta de paz nas pessoas que vivem nas regiões de conflito entre Rússia e Ucrânia. Penso também no absurdo massacre de civis mortos nos conflitos na Faixa de Gaza. A estes povos e a todas as pessoas que se encontram em momentos difíceis, dedico as presentes linhas, e envio junto com elas, as minhas orações e minhas boas vibrações.

Asiáticos, americanos, latinos, russos, chineses, malaios, palestinos, ucranianos, israelenses, holandeses, e demais povos do planeta, apenas estamos em aldeias diferentes, porém, todos fazem parte da mesma tribo: a tribo humana, e nessa tribo humana, não existe um sonho americano, ou um sonho asiático, ou um sonho africano: Sonhamos iguais, uma vez que todos almejamos sempre ao bom e ao belo. Por trás de cada sonho existe um homem com a esperança de um amanhecer em paz. Como dizia o roqueiro brasileiro, maluco beleza, Raul Seixas, “Sonho que se sonha só, é só um sonho que se sonha só, mas sonho que se sonha junto é realidade”.

Todos querem paz, basta vermos as manifestações contra a matança de civis na Faixa de Gaza, e essas manifestações aconteceram em São Paulo, Bruxelas, Teerã, Berlim e em diversos outros lugares.

Falando de Gaza. Uma estreita faixa de terra, fronteira com Egito e Israel, 41 quilômetros de cumprimento, cerca de 6 a 12 quilômetros de largura. Uma região tão pequena e tão tensa. Vive na fronteira entre a guerra e a paz. Ao longo dos anos viu se dividida entre cessar fogo e recomeçar fogo. Experimentou grandes e violentos conflitos em 2008, 2012 e vive outro momento violento agora em 2014.

Dessa vez, o estopim que acendeu a ira de ambos os lados, palestinos e israelenses, foi a morte de três adolescentes israelenses, na Cisjordânia, no final de junho último. Para se vingar, os israelenses queimaram um jovem palestino enquanto ainda ele estava vivo. Quando os israelenses descobriram que os seus três jovens haviam sido assassinados, iniciaram um bombardeio à Faixa de Gaza. Nesse conflito, já foram mortos mais de 700 palestinos. A grande maioria deles, civis, sendo que entre os mortos estão muitas mulheres e crianças. Do lado israelense foram mortos cerca de trinta soldados e alguns poucos civis.

Nesses conflitos, o povo de Gaza sempre leva a pior. São eles a contar o maior de mortos, em sua grande maioria, civis. Em 03 de janeiro de 2009, o governo israelense invadiu o território israelense, em uma ofensiva por terra, que envolveu tropas e tanques de guerra. Durante 22 dias de conflitos, foram mortos 1.314 palestinos e outros 5.320 ficaram feridos. Enquanto que as forças israelenses contavam apenas quatro mortos e 55 feridos. É bom lembrar que, nesse conflito, ou em qualquer outro conflito, as pessoas não perdem apenas seus entes queridos, perdem suas vidas, seus sonhos. Perdem a casa que os serve de abrigo, as escolas que os educa, os hospitais que tratam de seus doentes, além de verem prejudicados os serviços de água potável, energia elétrica e os produtos da terra, da qual tiram seu sustento.

Enfim, por qualquer ângulo que se analise, não vejo o menor sentido na guerra.

Abaixo, compartilho com vocês, um texto que li no blog, Analise Internacional, o blog é escrito por Gilberto Rodrigues. Gilberto tem grande experiência na área internacional e concedeu uma entrevista à jornalista Giselda Braz, para o jornal A Tribuna, entrevista essa que também publicou no blog.


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Entrevista de Gilberto Rodrigues para a jornalista Giselda Braz, Caderno Especial “Entenda o conflito mais sangrento do Oriente Médio e a opinião de especialistas”, Jornal A Tribuna, 20/07/2014.

Qual a interferência do atual conflito entre Israel e Palestina na situação de instabilidade do Oriente Médio?

A estabilidade do Oriente Médio está ameaçada por uma série de conflitos concomitantes: Síria, Iraque e agora o acirramento entre Israel e o Hammas em Gaza. A soma de todos eles coloca a região num estado de fragilidade sem precedentes.

Como o sr. vê a reconciliação do Hamas com o Fatah?

O Hamas tenta sobreviver. Perdeu o apoio da Síria e do Egito, pois apoiou grupos insurgentes que foram derrotados pelos governos sírio e egípcio. O Irã não apoia mais incondicionalmente o Hamas. Em razão dessa situação de isolamento, o Hamas decidiu se reconciliar com o Fatah, que governa a Autoridade Nacional Palestina. Esse novo acordo entre os dois partidos é uma das principais razões dos ataques israelenses, que não querem que o Hamas tenha presença fora de Gaza.

Faltava um mediador. Agora o Egito entra no contexto com este papel. É possível uma paz duradoura entre Israel e Palestina?

O Egito deixou de ser um mediador confiável, nem os EUA confiam no atual governo egípcio. O país sempre terá algum papel, pela situação de fronteira e pelo poder militar, mas deixou de ser preponderante. O cenário está aberto a novos mediadores, inclusive de fora da região.

O presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, já pediu à ONU que coloque a Palestina sob proteção internacional. Isso é possível? Como funcionaria?

Proteção internacional sob o mandato da ONU poderia ser tanto criar uma zona desmilitarizada quanto a aprovação de uma missão de paz, armada, para a região, ou ambas. Mas isso é praticamente impossível, pois depende da aprovação do Conselho de Segurança da ONU, e os EUA exerceriam seu poder de veto, Além disso, Israel não aceitaria, o que é uma condição do direito internacional para esses casos.

A ofensiva atual de Israel contra a Faixa de Gaza foi motivada pelo sequestro e morte de três jovens judeus, ato seguido pelo assassinato de um adolescente palestino. Mas a animosidade entre ambas as partes é histórica. Qual a real razão? É puramente territorial, ou há mais alguma coisa em jogo?

O episódio do sequestro e morte dos garotos é um pretexto, apenas. O que está em jogo é o aumento de apoio internacional em favor da Palestina, por um lado, e o isolamento de Israel, por outro. Além disso, o governo de Barack Obama deu mostras de que não apoia incondicionalmente as ações israelenses. Então o governo de Israel tenta criar um cenário de ameaças à sua segurança, com o argumento de autodefesa, para manter sua estratégia, com ou sem apoio dos EUA. O que, a médio e longo prazo, pode ser insustentável.

Qual sua avaliação sobre o poderio de fogo dos envolvidos no conflito?

O conflito é absolutamente desproporcional. Israel tem uma das forças armadas mais poderosas do planeta, enquanto o Hamas tem um arsenal clandestino de mísseis, cuja capacidade de alcance é mínima. A maioria dos ataques é interceptada pelo sistema antimísseis israelense.
Na sua opinião, por que o Hamas recusou a proposta de trégua?

A relação entre o Hamas e o Egito mudou muito. O aliado egípcio do Hamas era a Imandade Muçulmana, que foi derrubada do poder e foi declarada ilegal pelo novo governo militar eleito do Egito. O presidente egípcio, general Sissi, passou a ser simpático ao governo israelense, então a proposta de cessar-fogo não atende ao interesse do Hamas.

Há risco de Israel fazer uma invasão terrestre?

Uma invasão terrestre traria um custo muito alto para ambos os lados. Os EUA são contra e há divisões dentro do governo israelense sobre essa estratégia. A retórica da ameaça da invasão pode ser uma estratégia para melhorar a posição negociadora de Israel. Mas se ela ocorrer as consequências serão catastróficas em Gaza.

A população israelense apoia integralmente as ações do seu governo contra o Hamas?

O Hamas não é um ator confiável para a população israelense, mas há grandes divisões na opinião pública israelense em relação aos métodos violentos usados pelo governo para massacrar os palestinos em Gaza. Há inclusive um movimento de resistência militar entre soldados israelenses que se recusa a atacar alvos civis. A sociedade civil e as ONGs de direitos humanos tentam protestar, mas são sufocadas e classificadas como antipatrióticas pelo governo. Há muita dificuldade de liberdade de expressão e de ação cívica em Israel quando o assunto é o conflito com os palestinos.




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