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Nas asas da imaginação

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 01:37
Terça-feira, 22 de julho




Neste fim de semana, estreou em Campinas, no Largo do Rosário, o grandioso espetáculo, Perch:Uma celebração de voos  quedas. O mega espetáculo foi apresentado sábado (19) e domingo (20), às 17h15. Perch é um projeto artístico internacional e é resultado de uma pesquisa dos coletivos de teatro LUME Teatro (Unicamp, Campinas), o Conflux (da Escócia) e o Legs on the Wall (da Austrália). Simultaneamente houve apresentação em Glasglow, na Escócia.

Uma superestrutura foi montada no centro de Campinas, e do espetáculo, participaram 250 pessoas. A música, ao vivo, ficou a cargo da Orquestra Sinfônica de Campinas e da Orquestra Sinfônica da Unicamp, que executaram trilha composta pelo músico irlandês Stephen Deazley, sob a regência do maestro Victor Hugo Toro. A trilha sonora foi um ponto em comum entre os dois países, sendo que na Escócia, a música ficou a cargo da National Youth Orchestras of Scotland’s Senior Orchestra.

Realmente, o espetáculo mexe com nosso imaginário povoado de sensações de voos, de quedas e de como os pássaros veem o mundo.

Formado por números circenses, teatro, números aéreos (prédios vizinhos à praça foram usados pelos artistas), dança, canto e projeção de imagens, “Perch nos conduz a ver um mundo repleto de imagens e sonoridades, uma espécie de carrossel que integra o público num ângulo de 360 graus”, afirmou Ricardo Puccetti, diretor artístico do espetáculo.

Curiosamente, no domingo, completavam-se 45 anos da primeira viagem do homem à lua.

Inspirado em Perch e na primeira viagem do homem à lua, escrevi o texto abaixo.


***




Nas asas da imaginação


Ah, como eles são fortes, belos, graciosos, majestosos!

Feche os olhos e veja-os com a alma. Não se deixe limitar pelo sentido da visão. Alce voos mais altos, lance-se sobre o abismo das emoções. Você tem asas para isso: para ir aonde quiser. Aonde o espírito lhe mandar. Abra os olhos da alma para apreciar a beleza da vida. Deixe que seus olhos sejam uma porta que dá para o infinito.

Com esse olhar infinito, veja os beija-flores bailando, graciosamente, em torno das flores. Estaria eles fazendo-as algum cortejo, algum galanteio? Em seu alegre bailado, se parecem com cavalheiros cortejando uma dama na festa da vida. Vejam como são pequenos! Mas percebam também como são ágeis... E como voam rápido! Num instante estão aqui e no outro já estão lá. Ali, ali, olhem, lá vem um deles voando de marcha-ré! Mas aves não voam de marcha-ré. Deve haver algo errado. Não. Não, há nada de errado. Os beija-flores conseguem mesmo voar de marcha-ré, apenas eles conseguem fazer isso dentre os dessa espécie. Olha, um deles parado no ar, em pleno voo! Que mágico momento!... Parado em pleno ar, parecem um bravo e pequeno guerreiro a desafiar o vento. Essa proeza também só eles conseguem. Até parece que tiveram aulas de balé com algum dos mestres nessa arte.

Se as aves também alma, a dos beija-flores deve de linhagem nobre, a julgar pelos seus hábitos. De que se alimentam? Do néctar das flores. Ah, não são nada bobos esses pequenos pássaros. Devem precisar de muita energia, afinal de contas, batem as asas muito rápido, e seu voar é constante. Claro, quem faz muito exercício precisa de alimento extremamente energético e saudável. Em matéria de alimentação saudável, os beija-flores bem que poderiam escrever um livro, que, logo se tornaria best-seller. Desse modo, pousando de flor, eles cumprem mais uma nobre missão: transportam pólen de uma flor à outra e, assim, ajudam a espalhar a vida nos jardins. Que nobre missão para uma ave tão pequena, porém, tão especial.

Saíamos da enorme beleza, do colorido e do encantamento dos jardins. Vamos voar até a solidão das montanhas mais altas. Voemos até o topo delas. Ali a sensibilidade dá lugar à força, ao poder e à realeza das águias. Sua presença é tão forte e inspiradora que não foram poucos os exércitos a colocá-la em seus brasões. Na civilização persa essa espécie de aves era tratada como símbolo nobre e real. Ali vem marchando um exército persa. Psiu! Façamos silêncio e sobrevoemos discretamente esse agrupamento de guerreiros.

A águia é o animal mais representando nos símbolos militares desses bravos militares. Que responsabilidade e respeito do qual você disputa por aqui, hein, amiga águia! Isso não é para qualquer um. Olhem mais adiante... Que beleza o estandarte do rei Ciro, da Pérsia! Quanto esplendor! Que símbolo estará gravado nele? Vamos nos aproximar e olhar do modo mais detalhado... Vejamos... Esplendido! Até mesmo um dos maiores conquistadores da antiguidade te escolheu como símbolo de seu estandarte. É tua imagem, oh! Águia, gravada nele com um sol na cabeça, sob um fundo azul.

Que voo pleno, sob vales e montanhas, rasgando a amplidão do céu azul-anil. Ao voar, tens a capacidade de ir mais alto que qualquer outra ave. E lá do alto, soberana, olhas para baixo, e, com teu olhar penetrante e profundo, consegues enxergar o menor dos animais que se movimenta no vale, lá embaixo. Despencas, então num voo certeiro e rasante em busca da cobiçada presa. És tão perspicaz que nada escapa a tua visão. Enxergas de frente, dos lados, e com um rápido movimento, consegues ver o que está atrás de ti.

O primeiro voo da águia é traumático, mas é ali, naquele medo primeiro, que ela descobre que é uma águia e que foi feita para voar. Á beira do abismo, o ninho. Lá embaixo, apenas, silêncio e solidão. É chegada a hora de ensinar os filhotes a voar. A mãe águia enche-se de coragem e joga os filhotes no abismo profundo. Eles resistem, mas elas sabem que se eles não experimentarem o medo do voar, jamais descobrirão sua verdadeira essência. Como toda mãe, ela fica de olho, porém. Se algum deles ainda não está preparado para as fortes emoções do primeiro voo, a mãe águia, com sua enorme capacidade de voos velozes, se joga no abismo e consegue pegá-lo a poucos metros do chão.

Porque as aves voam tão majestosamente, sejam elas pequenas como o beija-flor ou grandes como a águia? Porque é da natureza das aves voar, bailando sobre as flores ou desafiando a amplitude dos céus.

Os evolucionistas dizem que o homem é descendente dos macacos. Não quero entrar no mérito dos criacionistas e evolucionistas. Deixa essa discussão para outro momento. O que quero dizer é que qualquer que tenha sido a origem do homem, em alguma encarnação longínqua, o homem já foi ave.

Já repararam que não temos asas, mas demos um jeito de arranjar umas asas artificiais que nos levam para cá e para lá. O homem é tão teimoso e tão inventivo que, mesmo, não sendo de sua natureza voar, ele quer voar.

Para realizar esse desejo, foi inventando o balão, o foguete, o avião, a asa delta. Se pudesse o homem criaria asas, como não pode, inventou-as, provando, dessa forma, que o sonho de voar, sempre e em todos os tempos povoou o imaginário humano.

Lembram-se do filho de Dédalo? Ícaro?! Isso mesmo. Quando o rei Minos aprisionou Dédalo e seu filho, o único desejo do primeiro era livrar-se daquela horrenda prisão. Sem ter como fugir por terra, nem por mar, o pai começou a reunir penas de aves que sobrevoavam o local. Ah, como Dédalo desejava ser uma delas e fugir para bem longe com seu filho... Porém, se os deuses não deram asas aos homens, lhes deu imaginação, e nas asas da imaginação, o homem pode bailar em volta das flores, pairar no ar como um exímio bailarino ou voar até o pico da mais alta montanha.

Dédalo usou a força da imaginação e construiu asas unindo as penas com ceras de abelha. Construiu um par de asas para ele próprio e outra para seu filho. Antes de voar, deu as instruções necessárias como a qualquer voo. No caso deles, a instrução era de que não se podia voar nem muito alto, pois o calor poderia derreter a cera, nem tão baixo, pois a umidade do oceano poderia fazer as penas pesarem demais.

Assim, voaram os dois pai e filho. Porém, os pais podem construir asas para os filhos, podem ensiná-los a voar, mas não podem voar por eles. Dédalo, em sua imensa sabedoria soube encontrar o ponto de equilíbrio e voou para bem longe. Quanto a Ícaro, bem... Esse ficou tão fascinado com a possibilidade de ser homem pássaro e com o fascínio e sensações que o ato de voar causava que, esquecendo das recomendações paternas, subiu até bem perto do sol. Coitado! Suas asas derreteram com tanto calor e ele caiu no mar.

Ainda hoje, há tanta gente por aí que não aprendeu a encontrar o ponto de equilíbrio na arte de voar. Alguns ficam tão deslumbrados com essa possibilidade, não sabem que voar alto requer toda uma técnica, todo um trabalho e preparação anteriores, e voam bem perto do sol... E também tem suas asas derretidas, caem então, por terra, ou no mar e veem naufragar seus sonhos. Outros têm medo de voar e o fazem tão baixinho que a umidade do mar tornam suas asas tão pesadas, que o corpo não resiste ao peso das asas e sucumbe aos vagalhões em pleno oceano.


E você, já encontrou seu ponto de equilíbrio? Não tenha medo. Use as asas da imaginação e voe. Você pode ir a limites nunca d’antes atingidos. Use a força da imaginação e transponha os muros que lhe aprisionam. Não tenha medo de voar, mas também não se aproxime muito do sol. Adquira seu ponto de equilíbrio e navegue tranquilamente nas asas do vento. Afinal, se Deus não te deu asas, ele te presenteou com a maior delas: a imaginação criadora. 

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