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Morre em Campinas, o escritor Rubem Alves

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:33
Domingo, 20 de julho

Em curto espaço de tempo a literatura brasileira perde dois grandes nomes: João Ubaldo Ribeiro e Ruben Alves. João morreu na sexta-feira  e Rubem, na manhã de ontem. Abaixo, compartilho texto publicado no jornal O Globo.

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Morre o escritor Rubem Alves

O educador e escritor Rubem Alves morreu na manhã deste sábado de falência múltipla dos órgãos, informou o Hospital Centro Médico de Campinas. De acordo com o último boletim divulgado, assinado pelo intensivista e cardiologista Roberto Munimis, o paciente, que estava internado desde o dia 10 de julho na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) por apresentar insuficiência respiratória devido a uma pneumonia, faleceu às 11h50. Mais cedo, em outro boletim médico, relatava a piora da condição circulatória do escritor, que tinha 80 anos.
O velório será realizado no Plenário da Câmara Municipal de Campinas a partir das 20h deste sábado e deve seguir até 12h de domingo. O corpo será cremado no domingo em Guarulhos, num crematório particular, em cerimônia fechada. O horário ainda não foi definido pela família.
Estado de saúde crítico
No dia 17 de julho, Raquel Alves, sua filha, postou na página oficial de Rubem Alves no Facebook uma foto de infância e uma atual ao lado do pai, agradecendo o carinho dos amigos:
"Não vou comentar sobre a minha dor e nem da minha família. Isso seria chover no molhado... Mas posso afirmar que prefiro converter a dor, de ver meu pai tão mal - em amor e gratidão por esse homem e esse pai maravilhoso. Seria injusto pensar nele com dor. Uma pessoa que só tem beleza nos olhos e amor no coração - o tempo todo - alma, pura alma...
Quero sinceramente que acima de tudo as pessoas que o amam desejem o melhor para ele, independente do que isso represente. Acima de tudo o AMOR, a gratidão pelas palavras dele que serão eternas. Não há nada mais positivo e mais bonito que isso! E vamos com fé... Agradecemos muito o carinho e boas energias de todos vocês! Que as cores do crepúsculo mais belo preencham o coração de todos".
Em 2010, o escritor já havia enfrentado um câncer, além de problemas no coração e coluna, que o obrigaram a passar por cirurgias.
Renovação no pensamento teológico
Considerado um expoente na renovação do pensamento teológico da América Latina, através da linha de pensamento conhecida como Teologia da Libertação, Rubem Alves nasceu em 15 de setembro de 1933, em Dores da Boa Esperança, uma pequena cidade do Sul de Minas Gerais. Educado por uma família protestante, começou a estudar teologia no seminário Presbiteriano do Sul, e atuou como pastor presbiteriano na cidade mineira de Lavras até que, em 1963, deixou o Brasil e foi estudar nos Estados Unidos. Em Nova York, assumiu as cadeiras da Universidade de Princeton, de onde retornou, cinco anos mais tarde, como doutor em Filosofia e com seu primeiro livro em inglês, “A theology of human hope”, publicada nos Estados Unidos em 1969 e no Brasil em 1987, com o título “Da esperança”.
— Esta obra é um marco inicial da teologia da libertação. Alves foi o primeiro a escrever a fundo sobre o tema, antes do Gustavo Gutiérrez — diz o teológo Leonardo Boff, referindo-se ao peruano que é considerado um dos precursores da Teologia da Libertação.
Com mais de 160 obras publicadas nas mais variadas disciplinas do pensamento — teologia, filosofia, pedagogia, psicologia — e da literatura — da crônica à poesia —, Alves foi traduzido em mais de dez idiomas e chegou a alcançar boas vendagens e reconhecimento no mercado editorial brasileiro. Amigo pessoal e responsável pela publicação de boa parte da obra escrita por Alves entre os anos 1960 e 1980, pela editora Vozes, Boff ressalta a importância da contribuição intelectual de Alves nos campos da teologia, da pedagogia e da psicanálise.
— Um dos traços fundamentais da abordagem de Alves em relação à teologia da libertação foi o entendimento de que essa linha de pensamento deveria ser complementada por dois processos, o psicanalítico e o pedagógico. A partir daí ele escreveu uma profusão de obras fundamentais, dentre as quais eu destaco “A teologia da esperança” e “O enigma da religião”.
Para Alves, nenhuma libertação era possível se pensada apenas sob o âmbito político ou socioeconômico.
— A verdadeira libertação viria de um acesso à interioridade, via psicanálise, e por uma educação focada na criação de autonomia de pensamento e visão de mundo — diz Boff. — Ele reagia à educação convencional. Dizia que não educava as pessoas para a vida, mas para o mercado. Via a escola como uma chocadeira do sistema. Ele sonhava como uma educação criativa, em que as pessoas não usassem esquemas, mas criassem os seus próprios sistemas.
Amigo pessoal, o sociólogo Jether Pereira Ramalho diz que Alves defendia “a importância do humanismo na religião, na educação e na poesia”.
— A teologia de Alves é eminentemente ecumênica, não pertence a nenhum grupo religioso de forma isolada. Ela representa a esperança de melhores situações aos pobres e aos pequenos.
Filosofia e educação
No campo da filosofia da ciência e da educação, destacam-se obras como “Por uma educação romântica”, “A pedagogia dos caracóis”, “Escola com que sempre sonhei sem imaginar que pudesse existir”, entre outras. Pela Edições Loyola, Alves publicou dois importantes livros centrados na tensão entre os conceitos de ciência e a sabedoria, como “Entre a ciência e a sapiência: o dilema da educação” (1999) e “Filosofia da ciência” (2000). No primeiro, estrutura uma contundente crítica à educação baseada na aprendizagem científica. Defensor de uma pedagogia focada no estímulo à criação e à invenção de sonhos, escreveu: “As escolas se dedicam a ensinar os saberes científicos, visto que sua ideologia científica lhes proíbe lidar com os sonhos, coisa romântica! É assustadora a incapacidade das escolas de criar sonhos!”. Já em “Filosofia da ciência”, desmistifica a persona do cientista como detentor do conhecimento e verdades absolutas: “Antes de mais nada, é necessário acabar com o mito de que o cientista é uma pessoa que pensa melhor do que as outras”, escreveu.
Responsável pela publicação de um de seus bestsellers, “Variações sobre o prazer”, a editora Planeta emitiu uma nota oficial enaltecendo o compromisso do autor com o ensino: “Alves nasceu para transmitir sabedoria e conhecimento. Ele era muito mais que escritor, era um sábio, um filósofo que compartilhou textos, experiências e caminhos para sermos felizes e entendermos um pouco mais da vida”.
Em suas crônicas, poesias e livros infanto-juvenis, Alves compartilhava apreço semelhante ao do poeta Manoel de Barros pelos elementos “desimportantes” ou “banais” da vida, e defendia que a “experiência poética não é ver coisas grandiosas que ninguém mais vê. É ver o absolutamente banal, que está bem diante do nariz, sob uma luz diferente”.

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