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Junho de 2002: O brasil ergue a taça de campeão mundial e o céu ganha uma estrela de intenso brilho - Parte 2

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 23:26
Terça-feira, 01 de Julho

“Cada dia que amanhece assemelha-se a uma página em branco,
na qual gravamos os nossos pensamentos, ações e atitudes.
Na essência, cada dia é a preparação de nosso próprio amanhã.”
Chico Xavier




Continente Asiático.
30 de junho de 2002.
International Stadium. Yokohama , Japão.
20h

Em campo estavam duas das melhores seleções do planeta. Não era à toa que haviam chegado à grande final. O Brasil começou a competição desacreditado, mas havia vencido todos os seis jogos anteriores sem sofrer nenhum gol. A Alemanha havia sofrido apenas um gol durante toda a competição.

O jogo começou nervoso e tenso, como convém a um jogo de uma grande final de Copa do Mundo. Ronaldo Fenômeno e Ronaldinho Gaúcho entrosavam-se muito bem, e aliados aos demais craques do time, o Brasil dominou o primeiro tempo do jogo. A Alemanha sentia a força da equipe brasileira e jogava na defesa. No segundo tempo, para nosso desespero e apreensão, a Alemanha voltou melhor, com jogadas mais elaboradas e partindo para o ataque.

Aos 22 minutos do segundo tempo, respiramos aliviados: Ronaldo marcou o gol que nos deixava em posição de vantagem. A Alemanha sentiu peso do gol e os brasileiros souberam aproveitar-se disso. Aos 34 minutos outro gol de Ronaldo. A torcida foi à loucura. Mas ainda não era hora de gritar: é campeão. Ainda tinha algum tempo de jogo. No final do segundo tempo, antes dos três minutos de acréscimos dados pelo juiz, o técnico Luiz Felipe Scolari tirou Ronaldo de campo. Ele mereceu a ovação da torcida, afinal passara por duas cirurgias no joelho e também chegara desacreditado ao torneio. Muitos diziam que ele não era mais capaz de jogar futebol.

Finalmente o juiz apitou o fim do jogo. A torcida explodiu em um só grito: PENTACAMPEÃO! Os jogadores brasileiros se abraçavam no gramado e agitavam a bandeira do Brasil. Os brasileiros choravam de alegria, os alemães de tristeza. Ronaldinho Gaúcho, nos ombros de um integrante da equipe técnica, agitava no ar uma bandeira do Brasil. Centenas de flashes espocavam em cima da seleção. Kaká enrolado na bandeira brasileira, Edmilson e Lúcio, ajoelhados no gramado faziam suas orações de agradecimento. Os torcedores brasileiros presentes ao estádio faziam festa. Alguns jogadores brasileiros mostravam uma grande faixa com os dizeres: “POVO BRASILEIRO, OBRIGADO PELO CARINHO”!

Cafu, capitão do time, esperava aos pés do pódio para receber a taça, de repente, quebrando todos os protocolos, subiu no alto do pódio, para surpresa de todos e, daquele lugar, recebeu a taça, beijou-a e ergueu-a para o alto. Os canhões de gelo seco, estrategicamente colocados em torno do palco improvisado, começaram a soltar fumaça branca, papéis picados em cor dourado começaram a cair como se fosse uma chuva de felicidade... E lágrimas brotaram dos olhos de milhões de brasileiros espalhados pelo mundo inteiro.


Escrito na camisa de Cafu, havia a frase que foi destaque em todos os veículos de comunicação na época: 100%  Jardim Irene, uma justa homenagem que o jogador fazia ao lugar onde estavam fincadas suas raízes. Aquele era um momento para entrar na história e nunca mais sair da memória de quem viu aquela belíssima cena. O goleiro Marcos, Kaká, Ronaldinho, Ronaldo Fenômeno, Denilson, enfim, todos os jogadores queriam beijar a taça. Os jogadores deram a volta olímpica no gramado ao som do Tema da Vitória, música que sempre embalou as vitórias do grande piloto Ayrton Senna. Era mais emocionante ainda saber que estávamos em uma manha de domingo e era sempre nas manhãs de domingo que Ayrton levantava e agitava com orgulho a bandeira do Brasil, após suas vitórias na Fórmula 1. 


***




Manhã de 30 de junho de 2002.
Em todos as cidades, povoados e vilarejos do Brasil.
10h (horário de Brasília).

Depois que ao árbitro encerrou a partida o povo brasileiro, que havia acordado bem cedo para ver o jogo, saiu às ruas para comemorar. As ruas e avenidas do país foram invadidas por um mar de camisas verde e amarela e bandeiras brasileiras estavam estendidas por todos os lugares. Em Copacabana, no Pelourinho, em Ponta Negra, enfim, em todos os recantos do país, o povo explodia de alegria.

***




30 de Junho de 2002.
Uberaba. Minas Gerais, Brasil.

Eu, Chico Xavier, acordei cedo naquela manhã. Os raios de sol invadiam a janela de meu quarto trazendo-me do alto as vibrações positivas enviadas pelo mundo astral. Elevei meus pensamentos ao criador de todas essas maravilhas com que a natureza nos presenteia a cada dia. Fiquei imaginando a grandiosidade do universo e o quanto tudo nele é perfeição. Que maravilha é o pequeno botão que desabrocha em flor e torna-se a mais bela e perfumada das rosas... Que milagre da natureza que é a feia lagarta que entra no casulo e, dentro dele, se transforma em uma linda borboleta... E depois de transformada em borboleta sai por aí espalhando pólen e, dessa forma, multiplicando a vida.

Deus, em sua infinita sabedoria, fez com que a morte parecesse um casulo. Todos temos medo e receio de entrar nele. Ah, mas se soubéssemos que após breve tempo nesse casulo, ressurgimos ainda mais belos que as borboletas que enfeitam nossos jardins... Que após a passagem que tanto tememos renascemos com um novo corpo tão mais leve que os pássaros que sobrevoam nossos campos e mais iluminado que o sol que nos brinda com sua luz a cada manhã... Que no mundo espiritual ganhamos a capacidade de voar de flor em flor, espalhando o pólen da alegria e aliviando os sofrimento e a dor de tantos irmãos sem rumo e sem esperança.

Essa roupa e esse corpo luminoso do qual vos falo é para os indivíduos que, em vida, souberam viver o dom de amar. Aquele que foi tal qual a árvore que dá bons frutos. Os que na vida se limitaram a espalhar as sementes do mal também passarão pelo casulo da mesma forma. O caminho da passagem é o mesmo para todos. Ao sair do casulo, esses últimos, porém, carregam pesadas vestes e lhe falta a luminosidade do corpo. Falta-lhes também asas para voar de flor em flor. Esses últimos levam muito tempo de sofrimento até que se aproximem da luz.

O homem, enquanto partícula ínfima dentro desse grandioso e infinito universo da criação, é composto por duas matérias: carne e espírito. A primeira é o que se pode ver. A segunda matéria é invisível aos olhos dos homens. Talvez por isso, seja vítima de tanto ceticismo. Enquanto carne o homem é filho da mãe terra, é pó, e, ao pó, retornará. Enquanto espírito, o homem é filho da luz e, para ela, um dia retornará.

Voltando a minhas atividades daquele dia...

Em casa, os familiares haviam acordado cedo, prepararam um café da manhã especial. Era dia de final de Copa do Mundo e o Brasil estava disputando o título. Após o café, eles foram para a sala de TV e eu fui para o meu quarto fazer minhas orações. Perguntaram-me seu eu não queria ir ver o jogo junto com eles. Respondi que não. Disse que preferia ficar em silêncio, fazendo minhas orações.

Depois de certo tempo, meu querido filho adotivo, Eurípedes dos Reis, bateu na porta do quarto. Pedi que ele entrasse. Ele estava eufórico. Contou-me que o Brasil havia vencido o jogo. Chamou-me para festejar junto com eles. Fui, mas não fiquei muito tempo e, logo, retornei ao meu quarto.

Da quietude do quarto, conseguia ouvir o barulho das buzinas dos carros nas ruas, o estourar dos fogos e os gritos de alegria. O Brasil estava feliz e o povo em festa. Lembrei-me das palavras de Emanuel: “Você vai desencarnar num dia no qual o povo brasileiro vai estar muito feliz”. No íntimo, sabia que esse era o dia. A chama da vela da vida chegava ao seu final. Logo mais se apagaria. Estranhamente, isso não causava tristeza, angústia ou dor. Ao contrário, sentia uma grande sensação de paz e dever cumprido.

Lembrei-me do dia 30 de junho do ano anterior, quando estava entre a vida e a morte no leito do hospital. Estava dormindo naquela ocasião, mas meu espírito estava desperto. Ele viu quando minha mãe e Emanuel entraram pela janela do quarto em forma de raio de luz. Emanuel não demorou muito. Veio apenas para me dizer que eu tivesse paciência e que o amor divino estava comigo em todos os instantes. Minha mãe ficou mais tempo, me confortando e cuidando de minhas feridas.

Comecei a pensar em minha infância e em como ela havia sido dura. Quando eu tinha cinco anos, minha mãe morreu. Ela e meu haviam tido nove filhos. Meu pai se viu então sozinho e sem condições financeiras de criar todos eles. Resolveu distribuir a mim e meus irmãos aos parentes e amigos mais próximos.

Fui parar nas mãos de uma mulher muito má, chamada Rita de Cassia. Sofri e apanhei muito nas mãos dessa mulher. Ela tinha outro filho adotivo, chamado Moacir. Ele tinha uma horrível ferida incurável na perna. Alguém ensinou uma simpatia maluca para Rita. Disseram a ela que, se uma criança lambesse a ferida, em jejum, durante três sextas-feiras seguidas, Moacir seria curado da ferida. Rita me obrigou a lamber aquela ferida conforme a simpatia que lhe haviam ensinado.Como vêem, desde cedo, aprendi o valor da caridade. Se Alan Kardec tivesse escrito que “fora do espiritismo não há salvação”, eu teria ido por outro caminho. Graças a Deus ele escreveu “ fora da Caridade, ou seja, fora do Amor, não salvação”.

Queria revoltar-me contra as atitudes daquela mulher cruel, mas, um dia, minha mãe apareceu para mim e conversou muito comigo. Disse-me que lambesse aquela ferida com paciência. Que era menos perigoso lamber aquela ferida do que enfrentar a fúria de Rita. Disse também que os espíritos iriam curar o ferimento para que a ira dela diminuísse e eu não tivesse mais que passar por aquilo. De fato, Moacir ficou curado daquela horrível ferida.

Passei por muitas outras ingratidões e incompreensões, mas o amor que recebi superou a todas elas. Procurei também transformar minha vida em um expressão do amor divino e mais vidas eu tenha, mais expressarei esse amor.

Costumava dormir cedo e, naquele 30 de junho de 2002, não foi diferente. Fui para a cama às 19h20. Como de costume, fiz minhas orações ao pai celeste. Dez minutos depois, o quarto encheu-se de uma luz envolvente. Vi, junto a mim, minha mãe e Emanuel. Emanuel estava sorrindo. Minha mãe também sorria docemente. Estendendo os braços em minha direção ela disse: “Vem filho querido. Vem comigo para os braços da eternidade”. Segui junto com eles... E deixei para trás um Brasil em festa.

***





Em algum lugar do Brasil.
8 horas da noite.


Um jornalista ainda comemorava a vitória do Brasil, quando recebeu a notícia da morte de Chico Xavier. Correu para a redação do jornal e lá começou a preparar o texto: 


“Sem dor, sem sofrimento, sem aviso prévio. Assim  foi a passagem do líder espírita Francisco Cândido Xavier, para o mundo espiritual. O coração do médium parou de bater por volta das 19h30 da noite deste domingo, dez minutos depois que ele havia ido para a cama. Ele tinha 92 anos e havia passado bem o dia, fez suas refeições normalmente e os familiares não perceberam nada de anormal em sua saúde. No dia anterior, ele foi à Casa da Prece, instituição onde atendia o público.  Ele atendeu algumas pessoas e parecia muito bem de saúde, apesar das limitações impostas pela idade. Uma multidão já começa a se aglomerar em frente à casa do médium, no bairro Parque das Américas, em Uberaba.

Chico Xavier psicografou 412 livros, que foram traduzidos para 33 idiomas e venderam mais de 40 milhões de exemplares. Psicografou também mais de 10 mil cartas. O médium nunca se considerou autor dos livros. Fez questão de abdicar, em cartório, dos direitos autorais das obras. O dinheiro arrecadado com a venda delas foi revertido para instituições de caridade. Chico Xavier também nunca cobrou nenhum centavo dos destinatários das cartas que psicografou”.

O corpo de Chico Xavier será velado na Casa da Prece, instituição religiosa onde atendia ao público, que ali acorria em grande número e onde sempre foi atendido com muito amor. O sepultamento ocorrerá nesta terça-feira, dia 02 de julho, no cemitério São João Batista, também em Uberaba.


Assim foi este dia histórico no qual o Brasil viveu a alegria da conquista e a tristeza do luto de um de seus filhos mais queridos.” 

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