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Festival de gols na terra do rei Pelé

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 21:55
Segunda-feira, 16 de junho

Imagem: http://www.dn.pt/desporto/seleccao/interior.aspx?content_id=2599808

A bola está rolando solta nos gramados dos estádios das cidades sedes do Mundial de 2014. A revanche entre as equipes do grupo B, Espanha e Holanda, sexta-feira (13), na Arena Fonte Nova, em Salvador, terminou com a vitória de 5 x 1 para os holandeses. Nem eles mesmos esperavam por uma vitória tão expressiva. Outro resultado absolutamente inesperado foi a da seleção da Costa Rica, que venceu o Uruguai pelo placar de 3 x 1, pelo grupo D, em jogo realizado no Castelão, em Fortaleza, no sábado (14). O Uruguai era tido por todos como favorito por ser a atual campeã da Copa América. Inglaterra e Itália fizeram uma excelente partida, com vitória da Itália. Os ingleses sofreram muito com o calor que fazia em Manaus, com certeza, isso influenciou no desempenho deles dentro de campo. Alias, o grupo D é considerado o grupo mais difícil e, por isso, recebeu o nome de “grupo da morte”. É só analisar o grupo D, para entender porque ele esse grupo é tão temido: dele fazem parte: Costa Rica, Itália, Inglaterra e Uruguai. Dentre esses gigantes do mundo do futebol, quem iria apostar numa vitória da Costa Rica. Os costa-riquenhos, porém, mostraram que não vieram para brincar.A Argentina também estreou neste domingo, no Maracanã, com vitória de 3 x 1 sobre a seleção de Bósnia-Herzegóvina.

Algumas curiosidades acontecidas em uma preparação para uma partida ou mesmo no próprio jogo podem servir de norte para nossa vida diária. Por exemplo, no sábado (14), na partida entre Japão e Costa do Marfim, a seleção japonesa começou ganhando o jogo. A seleção marfinense tentava e tentava fazer o gol de empate, mas ele não acontecia. O técnico, Sabri Lamouchi, que havia, surpreendentemente, deixado Didier Drogba, astro da equipe, no banco de reservas, durante o primeiro tempo da partida, resolveu colocá-lo em campo, aos quinze minutos do segundo tempo. Seis minutos depois, os marfinenses já haviam, não apenas empatado o jogo, mas virado o resultado da partida com 1 gol de Wilfried Bony e outro de Gervinho. Um líder faz toda a diferença em uma equipe. A simples presença dele faz com que os resultados apareçam de forma efetiva.

Outro resultado surpreendente foi a goleada de 4 x 0, aplicada em Portugal pela Alemanha. Os craques alemães adotaram a tática, “se não pode com o inimigo, junte-se a ele”. Bahia é terra de muito calor, um clima diverso do que os alemães estão acostumados. Então, como não podiam eliminar o calor da Bahia, os germânicos  resolveram se acostumar a ele. Fizeram corrida na beira da praia sob sol quente. Fizeram, propositalmente, exercícios físicos em academias sem ar condicionado. Treinaram com bola, à uma hora da tarde, mesmo horário em que jogariam com Portugal. Aliado a todos esses cuidados, tiveram sempre um grande respeito pela seleção portuguesa, afinal de contas, nela estava Cristiano Ronaldo. Resultado: técnica e boa forma física levaram os alemães a uma importante vitória. Podemos apreender desse episódio que não devemos nos acomodar diante das dificuldades sejam elas relativas ao clima, a cultura ou a qualquer outro aspecto que se nos apresente adverso. O negócio é “arregaçar as mangas” e remar, mesmo que a maré nos pareça contrária. 

Outro motivo pelo qual os alemães estavam felizes e, não apenas eles, foi o fato de que nesta manhã, o campeão Michael Schumacher, saiu do coma quase seis meses após ter sofrido um acidente em uma estação de esqui. Schumacher deixou nesta segunda-feira, o hospital onde estava internado em Grenoble, França. O campeão iniciará uma longa fase de recuperação no Hospital Universitário de Lausanne, na Suíça. Faço votos de que um dos grandes campeões da Fórmula 1, vença mais essa batalha.

Fora de campo, após quatro dias do início da Copa do Mundo de 2014, foi feita uma justa homenagem a um rei. Foi inaugurado neste domingo (15), na cidade de Santos, no litoral paulista, um museu que abrigará 2.500 itens que fazem parte da carreira de Edson Arantes do Nascimento, conhecido mundialmente como Pelé.

Para tornar real esse sonho, foram necessários quatro anos para restaurar dois casarões que estavam em completa ruína. Por enquanto, só estão expostos no museu apenas 165 objetos. Entre essas relíquias está a medalha de Cavaleiro do Império Britânico entregue pela rainha Elizabeth II em 1997 e o troféu de "Atleta do século XX", concedido pelo prestigioso jornal francês L'Equipe.

Pelé, atualmente com 73 anos de idade, marcou mais de 1.200 gols ao longo da carreira. Representantes do governo prestigiaram o evento. A presidente Dilma Roussef não pode comparecer, mas enviou uma mensagem em vídeo. O Museu Pelé, fica na antiga sede da prefeitura de Santos, próxima a um dos portos mais importantes da América Latina e em uma área que pretendem revitalizar.

Vale a pena lembrar o momento em que o rei do futebol, fez o seu milésimo gol, há 44 anos, em 19 de novembro de 1969. Aquele foi um dia histórico para o futebol e o clima era o de um jogo importante, do nível desses de Copa do Mundo, por exemplo. Naquela noite, 65. 157 pagantes, assistiram a partida entre Vasco e Santos. O jogo era válido pelo Torneio Roberto Gomes Pedrosa — uma espécie de Brasileirão da época. A partida estava empatada em 1 x 1 até os 33 minutos do segundo tempo. O zagueiro Renê, do vasco, comete um pênalti e os companheiros de clube, bem como o público presente ao estádio, pedem que o santista Pelé cobre o pênalti. Na disputa entre Pelé e o goleiro do Vasco, Andrada, venceu o santista que, caprichosamente, mandou a bola para o fundo do gol.

No dia 21 de novembro de 1969, um dos grandes talentos de nossa literatura, Nelson Rodrigues (23/08/1912 - 21/12/1980), narrou o fato em uma crônica escrita para o jornal O Globo. A crônica foi publicada, posteriormente, em 1993, no livro À sombra das chuteiras imortais: crônicas de futebol, lançado pela Editora Companhia das Letras. O livro reúne diversas crônicas sobre futebol, escritas por Nelson Rodrigues. Na crônica, uma curiosidade, possivelmente, tenha tentando tirar do estádio fluminense — cujo nome oficial é Jornalista Mário Filho — o nome pelo qual ele é conhecido, mundialmente, até hoje: estádio do Maracanã.

Compartilho abaixo esse texto. Lembrando que, amanhã, às 16hs, o Brasil entrará em campo novamente, dessa vez contra o México, no Estádio Castelão, em Fortaleza, pelo grupo A. Esperamos que tudo transcorra em paz e tranquilidade.

***



O GOL MIL

Amigos, a cidade tem 5 milhões de habitantes, talvez mais. Pois esses 5 milhões deviam estar presentes, anteontem, no Estádio Mário Filho para ver o milésimo gol de Pelé. Dirão os idiotas da objetividade que o ex-Maracanã comporta, no máximo, 250 mil pessoas. Mas os que não pudessem entrar ficariam do lado de fora, atracados ao radinho de pilha e chupando laranjas.

O que acho incrível e, sobretudo, indesculpável é que alguém, vivo ou morto, pudesse ficar indiferente à mais linda festa do futebol brasileiro em todos os tempos. Sim, os vivos deviam sair de suas casas e os mortos de suas tumbas. Viva a mulher bonita, que não faltou. Só as feias não apareceram.

Não sei se sabem que o sublime crioulo fascina a mulher bonita. As mais lindas garotas estavam lá. Mas falei em festa do futebol e, realmente, foi muito mais do que isso. Era uma festa nacional, a festa do povo, a festa do homem.

Na fila dos elevadores, o meu primeiro olhar descobriu a grãfina das narinas de cadáver. Vocês entendem? Ela continua não sabendo quem é a bola. Mas o que a magnetizava era Pelé como homem, mito e herói. Bem sabemos que futebol é um esforço coletivo. São os times que ganham, perdem ou empatam. Mas no caso de Pelé, foi um só. Só ele marcou os mil gols. Nunca se viu nada parecido no mundo. É uma glória maravilhosamente individual, maravilhosamente solitária. Some-se a isto os gols que ele deu na bandeja, gols dos quais ele foi o co-autor, ou melhor, foi mais autor do que o autor. Um passe genial vale como um gol.

 Muitos lamentam que tenha sido de pênalti. Meu Deus do céu, e daí? Na sua penetração fulminante, tinha batido toda a defesa adversária. Ia entrar com bola e tudo. E sofreu o pênalti. Não foi um companheiro, mas ele próprio quem foi derrubado. Não queria cobrar. Mas seus companheiros fizeram uma greve linda contra o pênalti. Ninguém tocaria na bola. E, então, 100 mil pessoas, na gigantesca cadência coral, começaram a exigir: — “Pelé, Pelé, Pelé!”. Uma das que mais se esganiçavam era a grã-fina das narinas de cadáver. Uma louríssima suspirou, arrebatada: — “Com esse eu me casava!”.

Mas vejam como o grande acontecimento tem a paisagem própria. Como já escrevi, Austerlitz não podia ser disputada num galinheiro. Foi isso que eu disse, quando o Santos jogou no campo do Esporte Clube Bahia. É óbvio que, depois do Estádio Mário Filho, todos os campos pequenos se tornaram galinheiros irremediáveis. O Pacaembu, por exemplo, é um galinheiro. O campo do Botafogo, do Fluminense, do Parque Antártica, e centenas, milhares de outros campos obsoletos, são outros tantos galinheiros. É aqui e, repito, é no Estado Mário Filho que Pelé teve os seus grandes dias e as suas grandes noites. O próprio crioulo sabe que é muito mais amado aqui do que em São Paulo.

Quando a bola foi colocada na marca do pênalti, criou-se um suspense colossal no estádio. O meu colega e amigo Villas-Bôas Corrêa, que não tem nada de passional, estava comovido da cabeça aos sapatos. A louríssima, por mim citada, sentia-se cada vez mais noiva de Pelé. O marido, ao lado, parecia concordar com o noivado e dar-lhe sua aprovação entusiástica. Eu não sei como dizer. Mas estávamos todos crispados de uma emoção, um certo tipo de emoção, como não conhecíamos.

Ao que íamos assistir já era História e já era Lenda. Imaginem alguém que fosse testemunha de Waterloo, ou da morte de César, ou sei lá. No ex-Maracanã, fez-se um silêncio ensurdecedor que toda a cidade ouviu. No instante do chute, a coxa de Pelé tornou-se plástica, elástica, vital, como a anca de cavalo. Mas havia alguém contracenando com ele no quinto ato da batalha. Era o formidável goleiro argentino Andrada. Em qualquer hipótese, ele ia se tornar uma figura histórica: — defendendo ou não. E quando Pelé estourou as redes, o Estádio Mário Filho voou pelos ares. Desde Pero Vaz de Caminha, nenhum brasileiro recebera apoteose tamanha. De repente, como patrícios do guerreiro, cada um de nós sentiu-se um pouco co-autor do feito. Pelé voou, arremessou-se dentro do gol. Agarrou e beijou a bola. E chorava, o divino crioulo. Cem mil pessoas, de pé, aplaudiam como na ópera. Depois, assistimos à volta olímpica. Pelé com a camisa do Vasco, Naquele momento éramos todos brasileiros como nunca, apaixonadamente brasileiros.


[O Globo, 21/11/1969]

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